3 Estetikk er veien til etikk
3.1 Et sideblikk mot Platon
A proposta de Kato (2000) sobre pronomes fracos e fortes igualmente lança luz sobre a consideração de que os sujeitos nulos genérico e não referencial vêm sendo cada vez mais preenchidos pelos falantes do PB. Segundo esta teoria, uma das propriedades que identificam LSNN está no surgimento de um paradigma de pronomes fracos, o que pode ser visto como uma estratégia para compensar a perda da propriedade de licenciar sujeito nulo e para satisfação do EPP da sentença em contextos nos quais a língua licenciaria sujeito nulo.
Uma evidência de que vocêgenpode ser categorizado como pronome fraco está em que os pronomes fortes são mais estáveis fonologicamente se comparados com os pronomes livres e os clíticos, o que pode ser notado, por exemplo, pelas formas pronominais fortes e fracas do paradigma pronominal do português (cf. Duarte, 2008):
EU > eu > ô (Duarte, 2008, p. 34, exemplo 9) VOCÊ > ocê > cê
Para o presente estudo, a relevância da consideração de vocêgencomo pertencente ao paradigma de pronomes fracos está em que sua forma foneticamente reduzida cê - é empregada similarmente ao pronome você na marcação genérica em posição de sujeito
gramatical no PB97, cujo comportamento sintático está sendo comparado com o clítico se, os
quais podem ser usados em contextos semelhantes com similar função indeterminadora, dando ensejo à postulação do percurso de indeterminação de se a cê.
Por esta proposta de Kato (2000), é possível estabelecer ainda a distinção entre você 2ª pessoa definida e você pronome genérico, como pertencentes a paradigmas distintos, respectivamente de pronomes fortes e fracos.
Esta proposta correlaciona-se, ainda, com a hipótese de que o emprego de vocêgenestá suplantando o emprego de a gente, em função da perda da propriedade de marcação genérica deste pronome, por estar sendo empregado mais recorrentemente como pronome de 1ª. pessoa plural, portanto menos inclusivo (OMENA, 2003) e, como forma de compensação dessa perda, o sistema lança mão de outra estratégia, vocêgen, que surge na língua no paradigma de pronomes fracos.
Pela relação dos fenômenos do surgimento do paradigma de pronomes fracos e da substituição dos pronomes a gente por você, pode-se evidenciar o encaixamento linguístico, considerando-se com Labov (2008) que toda mudança produz reflexos que propiciam o surgimento de outras estruturas a ela associadas.
Na esteira do princípio do uniformitarismo, a distribuição das variantes nas construções pessoais nas duas décadas, conforme Gráfico 4, evidencia que as forças que operaram no passado são as mesmas que operam no presente, uma vez que, de forma semelhante ao processo de substituição de nós por a gente para referência indeterminada no passado, o emprego do pronome você com valor genérico está suplantando o de a gente (55% x 27%), o qual, de alguma forma, perdeu esse valor, seja porque ele tem sido mais usado com referência específica para se referir a 1ª pessoa plural, ou porque assim como o on do Francês, ele se sobrecarregou, uma vez que a alternância a gente x nós pode ser observada em outras funções além da de sujeito, tanto no nível do sintagma verbal como no interior de sintagmas nominais.
A variação entre nós e a gente no PB é muito estudada quando a alternância das formas ocorre em posição de sujeito, posição sintática mais produtiva à entrada de formas inovadoras, mas esta alternância pode ser observada em outras funções no nível do sintagma verbal, como no exemplo (160). Isso pode ter sobrecarregado o pronome, dificultando a referência genérica na posição de sujeito.
97Deve-se esclarecer que o emprego da forma reduzida cê foi observado nos dados do estado de Minas Gerais,
(160) Então, a cultura da gente no geral era... tornava-se muito mais difícil, nós tínhamos que fazer a cultura por nós mesmos.
O emprego de a gente em outras funções como complemento do verbo e do nome foi pesquisado por Vianna (2011) na perspectiva da sociolinguística laboviana. O estudo concluiu nós no nível oracional de maneira geral e não apenas na função de sujeito, como é constatado em inúmeras pesquisas do PB. O estudo identificou, ainda, que nessas funções o pronome a gente assume o caráter identificador de 1ª pessoa plural, explicitando o referente. Segundo Vianna (2011
saiu com a gente
Assim, a entrada da forma a gente em funções gramaticais diferentes da de sujeito pode tê-la descaracterizado como pronome de referência genérica, uma vez que, nas funções de complemento, a gente se comporta como pronome de 1ª pessoa do plural indeterminado, mas não genérico ou indefinido.
Se você e a gente genérico são formas variantes intercambiáveis em contextos (+) inclusivos, fica evidenciado pelos Gráficos 4 e 5, a seguir, que está havendo um espaço para referência genérica na forma a gente, que está permitindo a entrada da forma pronominal você em seu domínio, visto que a forma a gente como estratégia de indeterminação do sujeito tem sido pouco produtiva relativamente a você, 27% contra 55%, em construções pessoais, e 5% versus 30% em existenciais, considerando-se ainda que esses percentuais incluem os contextos de referência mais específica, para os quais o pronome a gente tem se expandido.
Constato, assim, que, simultaneamente a esse processo de difusão de a gente para referência mais específica, a implementação do pronome você com referência genérica tem se expandido largamente na língua falada no PB. Portanto, é possível inferir que a sobreposição das formas vocêgene a gente para marcação genérica está quase completa no PB.
O Gráfico 5 a seguir ilustra a comparação da distribuição das variantes nos dois tipos de construção existenciais e pessoais, em cada um dos períodos analisados.
Semelhantemente ao que ocorreu em Francês e Espanhol, conforme mostrado em 3.3.1, o emprego da 2ª pessoa você para referência genérica no PB é recente e, pela observação dos resultados dos dados investigados, Gráfico 5, é possível afirmar que ele vem sendo incrementado a partir das últimas décadas.
Na década de 70, é perceptível pelos dados que o pronome preferido para referência genérica em construções pessoais ainda era a gente. Já na década de 90, tem-se o estudo de Duarte (1995) que atesta que você é mais empregado do que a gente para referência indeterminada, e na década de 2000, o estudo de Silva e Almeida (2010) com falantes semicultos feirenses confirma que a forma preferida para indeterminação é você com 61% de ocorrências, seguida de a gente, com 24%;
Evidencia-se assim a recente difusão do emprego de vocêgenno PB.
A competição entre os pronomes você e a gente para referência genérica no PB atual pode ser constatada por meio dos seguintes trechos de entrevistas televisivas98:
(161) Vocêgentem um grande momento de incertezas, vocêgenvai fechar o ano com essa incerteza e vai chegar em 2016 com essa incerteza. Por outro lado, vocêgentem o seguinte, se a presidente é afastada pelo senado, e aí a gente pensa que o presidente da câmara está efetivamente sendo investigado, a gente tem um grande imbróglio que parece que ninguém se salva.
(162) Com a presidente Dilma, é diferente, e vocêgen tem um processo que não, é, vai ser como o do Collor, então o que vocêgenpode ver, o que é certo é que vocêgen vai ter muita oscilação no mercado financeiro. A gente vai viver momentos de euforias e de pessimismos.
98Exemplos (161) e (162) foram extraídos do Programa Em Pauta da Globo News, em 02/12/16.
72% 58% 11% 5% 8% 30% 19% 55% 1% 5% 30% 27% 18% 6% 21% 10% 1% 1% 19% 3% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80%
EXISTENCIAIS DEC.70 EXISTENCIAIS DEC. ATUAL
PESSOAIS DEC.70 PESSOAIS DEC. ATUAL
Gráfico 5: Distribuição das variantes no PB por tipo de construção
Extraídos do corpus da década de 70 do PB, os exemplos a seguir mostram o emprego genérico do pronome a gente em construções nas quais, na atualidade, possivelmente, a referência genérica do sujeito seria realizada pelo pronome vocêgen, dada a sua indefinição referencial.
(163) Eu acho que o Fellini sempre ele aborda temas bastante atuais, não sofistica não, então aquilo que a gente vê no filme. (RJ-F3-259)
(164) Então isso já é um grande melhoramento, a gente poder assistir o filme tomando um café ou tomando um drinque já melhora ainda mais, né, principalmente quando a gente vai pra curtir, curtir mesmo. (RJ-F3-259)
(165) Então no, no dicionário dele vai ter muita gíria, então como é que a gente vai evitar de falar gíria quando está conversando normalmente? (RJ-F3-259)
Desta análise resta ressaltar que, embora seja possível inferir que o PB está percorrendo o mesmo percurso que o Francês quanto à substituição de pronomes de referência genérica pela 2ª pessoa, é possível constatar que esse processo se dá em estágios distintos em relação à remarcação do parâmetro pro-drop: enquanto em Francês, o emprego do pronome de 2ª pessoa com referência genérica surge após a efetivação da mudança do status de língua pro- drop para não pro-drop, no PB esse processo acontece concomitantemente a outras alterações de propriedades associadas ao parâmetro pro-drop, mais especificamente, a perda do clítico se e do nulo genérico e expletivo, caracterizando-se o pronome de 2ª. pessoa genérico como uma estratégia de indeterminação que está preenchendo a posição vazia do sujeito.
Por essa razão, este fenômeno linguístico parece evidenciar uma característica de LSNNs, a qual, no caso do PB, surge em estágio de alteração paramétrica, na perspectiva da sociolinguística paramétrica, ou como uma propriedade de LSNPs, visto sob o prisma gerativista.
Sob a perspectiva sociolinguística, a correlação deste fenômeno no PB com a substituição em Francês do on pelo tú esbarra com outra divergência quanto ao grau de formalidade, uma vez que on é padrão, formal e aceito em todos os registros (COVENEY, 2003), diferentemente de a gente, que, da mesma forma que você em sua acepção genérica, é um pronome informal e não aceito no registro escrito padrão.
Além disso, estudos sobre o emprego de tú genérico em Francês apontam que se trata de uma mudança de baixo para cima, em que a variante inovadora tú é mais empregada pela classe trabalhadora, mas não só, geralmente na linguagem coloquial do dia-a-dia (COVENEY,
2003). Portanto, a informalidade do pronome tú em Francês aparece como um segundo fator motivador da variação.
Já no PB, a substituição é de um pronome informal por outro igualmente informal, e os contextos de emprego do pronome de 2ª pessoa sugerem que ele é produtivo em discursos argumentativos, mais propensos a se proferirem argumentações, explanações, generalizações, suposições. Além disso, tendo em vista que para a seleção dos informantes que comporiam os corpora desta pesquisa, o grau de escolaridade superior foi preestabelecido, os dados foram extraídos de entrevistas com falantes considerados cultos99.
A despeito das diferenças apontadas, a proposta postulada neste estudo de que o PB está passando por processo semelhante ao Francês de substituição de pronomes referenda-se no fato de que vocêgen pode estar suprindo a carência de um pronome para referência genérica, causada pelo avanço de a gente em direção à referência mais específica. Para atestar essa hipótese, foi grau de indeterminação das variantes , cujos resultados serão mostrados a seguir.