5. PLAN DE ACCIÓN
5.1. ESTRUCTURA ORGANIZATIVA
Além do enfoque ideológico na prática educativa e a relação entre educador e educando, analisados anteriormente, é importante abordar a mensagem comunicada e a ideologia que esta mensagem traduz.
A prática educativa decorre do contexto que envolve a instituição de ensino não se restringindo à relação professo/aluno. Ela reflete continuamente o relacionamento humano, é anterior à reflexão e independe dela. Não decorre apenas do ensino formal, mas começa antes dele e vai além dele. As diversas formas de comunicação humana constituem-se em processos educativos e nem sempre o emissor ou receptor tem plena consciência deste fato.
Toda mensagem representa um determinado pensamento, um tipo de ser-no-mundo. Ela é formada partindo de fatores que estruturam uma intenção. O significado da mensagem não depende somente do teor expresso pelo emissor mas da conotação impregnada na mensagem.
Qualquer mudança por menor que seja pode mudar a conotação da mensagem e ocorrer a comunicação de uma série
de valores não previstos e não intencionados pelo emissor. Esta situação aplicada ao espaço exclusivamente reservado para o professor e aluno, assume proporções que por vezes escapam ao controle da razão. De maneira explícita ou implícita, toda mensagem transmitida reflete uma cosmovisão, uma ideologia.
A ideologia constitui-se numa forma de linguagem, cujas características peculiares freqüentemente fogem do domínio da consciência do educador. A inconstância no domínio da mensagem transmitida pelo educador pode fazer com que sua ação se torne dominadora. A ideologia reflete um significado próprio aos conhecimentos, aos comportamentos, ao mundo em que vivemos. Este caráter permite muitas vezes associar a ideologia à noção de dominação no sentido de que as formas ideológicas, escapando ao controle da razão, manifestam-se de modo categórico, imperativo, mais intensamente no campo da educação, na relação entre educador e educando.
Habermas (1975), considera que “a linguagem, veiculando a ideologia e assim expressando interesses, deturparia o conteúdo intencional do emissor, constituindo-se numa forma de imposição”. A educação pode, por meio da linguagem que utiliza para a comunicação, transformar-se num processo de dominação.
Daí a importância da análise da linguagem utilizada no processo educativo e o tratamento que é dado na interface educador e educando. O que facilita ou dificulta o relacionamento e a comunicação entre professor e aluno no processo educativo, depende muitas vezes, em menor grau do conteúdo abordado e mais da forma adotada para desenvolvê-lo. Acresce ainda que a mensagem pode ser interpretada diferentemente conforme a experiência individual e os conhecimentos de cada um.
Quando na comunicação o emissor se sobrepõe ao significado da mensagem amplia-se a margem de interpretação, o que ratifica o princípio de que as pessoas só retiram da mensagem o que lhes interessa e não o que ela contém ou pretende transmitir. A forma de comunicação adotada pelo educador pode fortalecer um processo inibidor ou construtor da consciência crítica do educando.
Considerando a prática educativa sob a ótica mais abrangente, pode-se observar que o pólo emissor da mensagem não é limitado ao espaço ocupado pelo professor ou pela instituição, manifestando-se também através do texto, do rádio, da televisão, pela internet, incluindo os mais modernos recursos
tecnológicos que constituem processos de comunicação com o outro.
A mensagem do educador ultrapassa o conteúdo que transmite. Como poderá ele ter a certeza de que as mensagens que transmite estão correspondendo aos objetivos propostos ao serem recebidas? Como saber se as mensagens estão isentas ou carregadas de espírito autoritário, de dominação e poder em relação ao educando? Qual o critério para determinar o nível de revestimento ideológico embutido no discurso do educador? Véron (1970), nos auxilia quando defende que “o efeito ideológico só existe quando o discurso se apresenta como único recurso possível e desaparece quando a relação e a combinação se manifestam a si mesmas como operações fundamentais”.
É possível analisar e perceber uma distinção entre os fundamentos utilizados pelo emissor, que seriam os aspectos ideológicos, e o seu discurso. Segundo W erneck (op. cit.), “a possibilidade do controle da conotação do discurso, por onde aliás permeia a ideologia, dependeria de um contínuo esforço crítico e da busca da pluralidade de mensagens como meio de se conseguir a anulação dessa conotação”.
É difícil ter um domínio sobre as ausências, as entrelinhas, os suspenses, os silêncios que também dão sentido à mensagem, tornando-se parte dela. É fundamental que o educador tenha conhecimento sobre estes aspectos intermediários para que não haja distorção e evite alterar a intenção e o rumo de sua ação. Estes fatores subsidiam a conotação da mensagem, entendendo-se por conotação o sentido indireto, às vezes de teor subjetivo, que uma palavra ou uma expressão pode apresentar, já que a significação de uma mensagem ultrapassa a propriedade do termo.
Considerando que as mensagens emitidas pelo educador são construídas de forma que permitam diferentes conotações, devem elas ser o mais possível conhecidas pelo educador. É importante que o educador tenha consciência sobre o tipo de conteúdo que envolve sua prática pedagógica para estar de acordo com o que pretende ensinar.
Se manifestamos que é difícil controlar os processos que interferem na ação pedagógica dentro da escola, mais difícil ainda se torna controlar os que agem fora dela. No contexto atual que envolve a ação educativa, os conteúdos ideológicos que antes eram transmitidos através de textos, são também oferecidos por meio de sofisticados recursos tecnológicos.
O incremento no sistema de comunicação que atinge a humanidade como um todo, reforçado pela utilização de imagens, provoca incertezas sobre os efeitos e resultados para o processo educativo. O desconhecimento, por grande parte da população, sobre a força subjacente que acompanha as mensagens, pode transformar o conteúdo das mesmas numa forma de dominação. Esses conteúdos podem corresponder ou não à intenção do emissor. Podem ser veiculados conteúdos contrários ao pretendido, servindo propositadamente aos interesses dos que detém o poder. Os efeitos deste propósito repercutem com ênfase maior quando o receptor desconhece o conteúdo que motivou a comunicação.
O fator de equilíbrio no processo de ensino e aprendizagem decorre da capacitação do aluno para utilizar o recurso da análise crítica dos conteúdos recebidos, aprendendo suas significações, percebendo as mensagens implícitas, formulando convicções próprias através do hábito da reflexão. Desse modo, enriquece seus conhecimentos, cresce como pessoa, torna-se mais auto-determinado ao nível de permitir que realize opções cada vez mais profundas em sua vida. Esta projeção requer uma atuação que permita a participação do educando no processo de construção de conhecimento, restringindo a possibilidade de
manifestações unilaterais que denotam imposição e poder por parte do educador.
A comunicação tanto pode favorecer o crescimento do ser humano pela autodeterminação quanto promover a dominação pelo processo de alienação e massificação. Se todo meio de comunicação social é um meio de educação social ele deveria ser sempre um instrumento de conscientização e não de massificação. Como, na realidade, somente um pequeno grupo tem acesso aos canais de emissão (governo, setores privados) dificilmente ocorre essa conscientização. Assim como ocorre com o educador, as mensagens veiculadas pelas diversas formas de comunicação fazem parte do sistema social, distante de ser neutro, como também não direciona para a conscientização.
O desenvolvimento da consciência crítica protege o espaço do educando da invasão de mensagens ideologicamente tendenciosas e parciais, limitando atitudes oriundas unicamente do interesse do educador, restringindo o exercício do poder sobre o aluno na relação educativa.