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Há uma versão difundida na historiografia que procura afirmar o ideal de integração de Simon Bolívar e José de San Martín como reativo ao Reino Unido de Portugal, Brasil, Algarves e Cisplatina (depois Império do Brasil). Conquanto se trate de interpretação racional, a tese carece de base empírica e histórica.

Quando em 1820 o Brasil moveu sua campanha contra Artigas, San Martín ficou impressionado com o poderio militar luso-brasileiro. Todavia, admitiu que, a despeito de perigosa, a vizinhança com o Brasil era preferível à de um Uruguai controlado por Artigas (Macarthy Moreira, 1977:50). Posteriormente à inclusão da Cisplatina no Reino Unido (1821), a Inglaterra disseminou a notícia de que Bolívar e San Martín preparavam-se para atacar o Brasil (Macarthy Moreira, 1977:54), o que levaria à generalização da guerra a todo âmbito sul-americano. Contudo, o próprio representante britânico, C.M. Ricketts, foi quem se encarregou de informar o Ministro britânico do contrário: a correspondência interna à chancelaria mostra um Bolívar amistoso em relação ao Brasil, que considera o episódio de Chiquitos superado31.

Bolívar explicitamente reconhecia o direito brasileiro de disputar a soberania da Cisplatina. Pelo relato dos diplomatas britânicos, Bolívar considerava a guerra da Argentina contra o Brasil

Injustificada, porque aparentemente o Imperador não fez nada para prejudicá-lo; em qualquer caso, o Brasil tinha o direito de reter a Província até que se tivesse satisfeito suas reclamações pecuniárias a respeito; havia sido solicitada a mediação da Grã-Bretanha, cuja decisão se desconhecia; e no entanto Buenos Aires havia provocado ao Imperador para que formulasse uma declaração de guerra (grifos meus) (Ricketts apud Macarthy Moreira, 1977:55).

31 Em 1825, o governador da província boliviana de Chiquitos, D. Sebastião Ramos, solicitou a incorporação do

território ao Império do Brasil. O governador de Chiquitos, simpático às forças realistas, pediu ajuda ao Comandante das Armas em Mato Grosso, Manuel Velozo, com o intuito de se proteger das tropas independentistas de Sucre. Pretendia ficar sob a proteção brasileira até que Fernando VII retomasse a América espanhola. Segundo Soares (2003:106), “Enquanto isso, a Província de Chiquitos ficaria sob a guarda do Império brasileiro, porém, conservando seus estatutos, suas leis, isenções e permanecendo nos cargos, com os respectivos soldos e privilégios, todos os funcionários civis, militares e eclesiásticos e inclusive ele, Sebastião Ramos. Em contrapartida, o Império brasileiro seria usufrutuário dos rendimentos auferidos pela Província que, em 1825, era considerada uma economia secundária”. Após obter o aceite do governo provisório do Mato Grosso, D.Sebastião Ramos decretou a anexação ao Império Brasileiro em 24 de abril de 1825, renomeando Chiquitos como Província Unida de Mato Grosso. Tal acontecimento gerou diferentes graus de indignação entre as forças independentistas. Sucre ordenou que se invadisse o Mato Grosso e “semeasse no Brasil anarquia e desordem” (Soares, 2003:116). Bolívar, por sua vez, embora considerasse a anexação ilegítima, queria apenas “recuperar o usurpado e não invadir o que não é nosso” (Soares, 2003:117). De fato, quando terminou o Governo Provisório, assumiu o Pe. Manuel Alves de Lima que – após a franca e severa desaprovação de D. Pedro I – anulou a anexação. A incorporação de Chiquitos não teve nenhuma fundamentação legal, afinal, como demonstra Soares (2003:137), o Governo Provisório do Mato Grosso não estava autorizado a anexar, em nome do Império do Brasil, uma província boliviana.

A posição do Libertador também resultava do fato de que a incorporação da Cisplatina ao Brasil dera-se mediante um arranjo legal e constitucional, firmado em termos voluntários pela então província de Cisplatina e o Brasil. Trata-se de episódio único que constitui o marco jurídico remoto dos atuais processos de integração. Abaixo, reproduz-se parte da ata na qual o Parlamento cisplatino declara sua adesão ao Reino Unido.

[o Parlamento declarou] “que havendo pesado as críticas circunstâncias em que se encontra o país e consultando os verdadeiros interesses dos povos e das famílias temos acordado e pelo presente convencionamos em que a Província Oriental do Rio da Prata se una e incorpore ao Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, Constitucional, sob a imprescindível obrigação de que se respeitem, cumpram, observem e façam observar as bases seguintes: ‘constituir, em suma, um Estado diverso dos demais do Reino Unido, sob o nome de Cisplatino e que gozaria da mesma categoria que os demais da monarquia portuguesa’”[grifos meus] (Von Leenhof, 1975:15).

Depois de 1822, as águas ficaram turvas, visto que o próprio Brasil tomou a iniciativa de dissolver o Reino Unido (Portugal, Brasil, Algarves e Cisplatina). Isto colocou em questão o Império como sucessor do Reino Unido na América do Sul, abrindo claro espaço jurídico para a separação da Cisplatina nos termos que o próprio Brasil havia feito em relação a Portugal. Mas, nem por isto a posição de Bolívar em relação ao Brasil se modificou. Na realidade, Bolívar tinha uma posição eqüidistante em relação ao Brasil e à Argentina; suas simpatias recairiam sobre o primeiro, como se pode inferir por outro relato dos diplomatas britânicos: “Ele [Bolívar], por sua parte, se inclinava a pensar que para os fins atuais o Governo monárquico do Brasil, sendo mais eficaz e dúctil, era melhor que o sistema Federal de Buenos Aires” (Ricketts apud Macarthy Moreira, 1977:56).

Portanto, o ideal de integração de Bolívar e San Martín é antes fruto da disseminação do ideário iluminista, do federalismo de Montesquieu, da influência da Revolução Americana e de sua Constituição, da experiência democrática do próprio Império Britânico (Lynch, 2008:43), do que de que qualquer espécie de antagonismo ou reação ao Brasil. Todavia, ainda que tivesse profunda admiração por Washington, divergia do federalismo norte-americano por acreditar que a Federação Argentina era nele inspirada. Neste sentido, se tivesse de optar por um dos dois, conforme se viu, preferiria o modelo brasileiro ao argentino (Macarthy Moreira, 1977:56).

Na realidade, o plano de Bolívar consistia em apenas unificar os sucessores do Vice- Reinado de Granada (acrescido da capitania de Venezuela) e do Vice-Reinado do Peru (Peru e Bolívia). Bolívar considerava oportuno pensar num projeto que incluísse Argentina (Vice

Reinado do Prata) e a capitania do Chile apenas em uma etapa posterior. Mas, neste estágio considerava também produtivo dar início as negociações com o Brasil.

Prova de que Bolívar colocou Brasil e Argentina em um mesmo patamar em relação ao projeto de integração é o Congresso do Panamá em 1826 (a Guerra da Cisplatina terminou somente em 1828), quando ambos (brasileiros e argentinos) foram convidados. Não obstante, apesar das diversas iniciativas de integração, há um país que permanece à margem dos vários processos: o Chile.