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Iniciantes querem ser percebidos como corredores; iniciados querem ser percebidos como corredores “sérios”. Iniciantes curtem a animação de uma mega- corrida-evento; iniciados preferem a seletividade das corridas menores. Iniciantes querem se sentir parte do grupo; iniciados querem fazer parte do grupo que “entende do assunto”. Iniciantes correm com Nike; iniciados correm com Asics ou Mizuno.

Estes dois tipos de corredores apresentam diferenças “dos pés à cabeça”, mas quando o assunto é marca, parecem correr atrás de percepções semelhantes. Independentemente da marca de tênis escolhida, Asics, Mizuno ou Nike, as razões declaradas giram em torno de um mesmo repertório de argumentos: o melhor sistema de amortecimento, a tecnologia mais avançada, o modelo mais apropriado para este ou aquele tipo de pisada, o tênis mais leve etc. Ao escolherem determinada marca, iniciantes e iniciados estão em busca de um aval de segurança: ambos querem ter a tranqüilidade e a certeza de que fizeram a melhor escolha. Uma escolha que garanta que seus joelhos estarão protegidos dos impactos da corrida, que assegure que seus pés estarão envolvidos pela fôrma mais adequada ao seu formato ou uma escolha que lhes dê condições de correr sem carregar peso desnecessário.

Este aval de segurança que corredores iniciantes e iniciados buscam, no entanto, não se limita aos aspectos técnicos das marcas. Ele também contempla os aspectos mais subjetivos das marcas: corredores querem ter a confiança e a tranqüilidade de que escolheram a marca que todo mundo usa ou a marca de quem entende de corrida ou a marca que fornece mais status e prestígio ao seu usuário.

A decisão por esta ou aquela marca, portanto, pode ser entendida como uma forma não verbalizada de aliviar tensões e minimizar as dúvidas intrínsecas ao processo de escolha, sejam elas objetivas ou subjetivas. Os corredores não querem ter dúvidas de que seus R$ 500,00 foram bem gastos. Os iniciantes querem ter a segurança de que não estarão “por fora” do grupo e de que, efetivamente, fazem parte do grupo de corrida. Os iniciados, por outro lado, não querem ter nenhuma dúvida de que entendem de corrida e de que fazem parte de um grupo maior de pessoas que pensam e agem da mesma forma. Os dois tipos de corredores depositam nas marcas as suas inseguranças e frustrações, assim como as suas aspirações e expectativas.

Sendo assim, além de oferecerem um equipamento para a prática da corrida, as marcas esportivas também oferecem um “algo mais”, ou seja, uma promessa de tranquilidade. Em outras palavras, as marcas se propõem a desempenhar o papel de “acalmar” os seus consumidores, reafirmando as decisões que eles tomaram. Funcionam como uma garantia, como um apoio para consumidores nos seus momentos mais inseguros. Como reforça Zygmunt Bauman, os consumidores,

durante o processo de consumo, estão tentando escapar da agonia chamada insegurança:

“Querem estar, pelo menos uma vez, livres do medo do erro, da negligência ou da incompetência. Querem estar, pelo menos uma vez, seguros, confiantes; e a admirável virtude dos objetos que encontram quando vão às compras é que eles trazem consigo (ou parecem por algum tempo) a promessa de segurança” (BAUMAN, 2001: 96).

As marcas de tênis, no entanto, não são as únicas a desempenhar este papel no ambiente da corrida. As próprias assessorias esportivas também podem ser consideradas marcas, uma vez que estas representam, como assinalado no início desta dissertação, “um nome diferenciado (...) destinado a identificar os bens ou serviços de um vendedor ou de um grupo de vendedores e a diferenciar esses bens e serviços daqueles dos concorrentes” (AAKER, 1998: 7). Em outras palavras, além de possuírem nomes diferenciados, como Run & Fun, Find Yourself e Equipe Movimento, procuram oferecer serviços de treinamento em corrida distintos das demais assessorias esportivas e, por fim, geram uma série de sensações e percepções subjetivas em seus atletas.

Além de contemplarem estes aspectos mais técnicos e operacionais das marcas, as assessorias esportivas também são capazes de suscitar associações de marca, isto é, “algo ‘ligado’ a uma imagem na memória” (AAKER, 1998: 114) como

uma forma de diferenciação de seus concorrentes. Ao incorporarem estes aspectos mais subjetivos, reafirmam esta condição de serem consideradas como marcas em seu sentido mais amplo.

A marca Run & Fun diz muito sobre quem são os corredores que decidiram se juntar a ela e o que eles esperam da corrida. Percebe-se um traço comum entre os atletas pesquisados, ou seja, demonstram uma vontade de conciliar a prática do esporte com diversão. Apesar de terem total consciência de que são atletas amadores, sem qualquer pretensão de vencer corridas de rua, não querem só correr ou preparar-se para determinadas provas. Também querem desfrutar de um ambiente agradável, leve e divertido. Não é por acaso que, durante os treinos mais intensos e difíceis, os atletas costumam “cobrar” dos treinadores:

“Por enquanto só vi ‘run’ neste treino... ’fun’, que é bom, nada...”

Não são apenas os corredores do grupo que têm esta postura. O perfil dos treinadores da Run & Fun também está alinhado com estas associações da marca. De uma forma geral, são pessoas divertidas, engraçadas e que demonstram preocupação em preservar este ambiente de descontração. Esta atitude é incentivada pelo próprio fundador da assessoria esportiva, o professor de Educação Física Mário Sérgio Andrade Silva, que também possui estas características.

Apesar desta pesquisa ter sido concentrada no grupo de atletas da Run & Fun, a convivência com este ambiente da corrida permitiu-me notar as diferenças mais flagrantes entre o grupo estudado e outras assessorias esportivas. Uma delas foi a T.P.M. (Treinamento Para Mulheres). Ela é uma marca que oferece basicamente os mesmos serviços da Run & Fun, mas possui uma visível diferença: neste grupo “menino não entra”. Seu uniforme é cor-de-rosa, os treinamentos no Parque Villa- Lobos começam um pouco mais tarde do que os da Run & Fun (às 8:00h) e, além da corrida, dedicam uma parte do treino para realizar exercícios de musculação, principalmente para as regiões “mais solicitadas” pelas mulheres (glúteos, abdômen e pernas). Estas diferenças não indicam que as integrantes do T.P.M. não têm a preocupação de se divertir e fazer um esporte ao mesmo tempo. Estas atletas, que são tão amadoras quanto os corredores da Run & Fun, apenas priorizam outras associações de marca. Para elas, a opção de fazer atividades físicas exclusivamente na companhia de mulheres é o fator mais importante desta escolha. Em outras palavras, optaram por uma marca que oferece tranqüilidade para suas atletas ficarem em posições mais constrangedoras na hora de fazer exercícios para os glúteos, por exemplo, sem a presença masculina, ou a segurança de não serem “assediadas” por homens durante os treinos (eventualmente, esta pode ser uma necessidade dos maridos das atletas, mais do que delas próprias...).

A marca M.P.R. (Marcos Paulo Reis) é um outro exemplo. Esta assessoria esportiva também oferece serviços semelhantes aos da Run & Fun, com treinamentos no Parque do Ibirapuera durante a semana e na USP aos sábados.

Apesar de serem operacionalmente parecidas, o traço subjetivo que as diferenciam é a presença de um caráter competitivo mais acentuado na M.P.R.. Em outras palavras, é como se ela estivesse mais concentrada no “run” do que no “fun”. Seus atletas optaram por um tipo de treinamento mais voltado para a performance esportiva, para a participação em provas com uma preocupação maior na velocidade e no tempo gasto para completá-las. Escolher a M.P.R., portanto, revela uma busca pela segurança de que o atleta será bem treinado, de que fará bons tempos nas provas, de que alcançará seus objetivos mais audaciosos.

Assim como ocorre com muitas marcas presentes no mercado, as marcas de grupo de corrida também podem conferir status aos seus corredores. No caso específico da Run & Fun, ela é descrita por seus atletas como uma assessoria esportiva bastante conhecida e valorizada no meio:

“É como o nome de escola, de faculdade...por exemplo, estudei na FAAP, corro na Run & Fun... Quando eu corria com a Find (Yourself), as pessoas viviam me perguntando: com quem???? Desde que eu mudei para a Run & Fun, ninguém me pergunta quem são, todo mundo conhece e sabe que eles são bons” (Flora M.)

As marcas do grupo de corrida são, portanto, marcas de distinção. Além de oferecerem os serviços de orientação técnica para a corrida, conferem aos seus atletas a percepção de que eles são pessoas diferenciadas e especiais. A escolha pela marca Run & Fun, no caso, é uma forma de dizer aos outros corredores que

estilo de corredor o atleta tem, ou como ele gostaria de ser percebido pelos outros. A marca funciona como uma credencial, que por si só, “promove” o corredor. Correndo muito ou pouco, participando de todos os treinos ou de apenas alguns, atingindo ou não os seus objetivos pessoais, o fato de fazer parte deste grupo de corrida já é uma forma de se diferenciar dos demais corredores amadores. A marca do grupo potencializa, portanto, este sentimento de fazer parte. Mesmo sem precisar fazer muito esforço físico, o grupo oferece a promessa de que aquelas pessoas “pertencerão” a um novo ambiente. Basta cadastrar-se, pagar a mensalidade, ir aos treinos, usar o uniforme, dar uma corridinha... Pode até caminhar, se quiser!

As assessorias esportivas, enquanto marcas, desempenham um papel no âmbito da corrida que realça três aspectos bastante intrigantes. O primeiro deles é a necessidade dos atletas se sentirem parte de um grupo: seja um pequeno grupo de corrida, seja um grande grupo de gente que entende de corrida, esta é uma busca recorrente.

O segundo aspecto está relacionado à atuação das marcas neste sentido: sejam elas marcas de tênis ou de assessorias esportivas, elas ajudam os atletas a preencher esta carência de se sentir parte de um grupo. Por mais incrível que pareça, este “nome diferenciado e/ou símbolo (...) destinado a identificar os bens ou serviços” (AAKER, 1998: 7) conseguiu assumir um papel desta magnitude na vida das pessoas.

Por fim, a constatação da existência de fortes traços de contemporaneidade em um ambiente aparentemente trivial e ordinário como o dos grupos de corrida e das marcas esportivas. Como estes grupos e marcas conseguiram desenvolver esta capacidade de unir pessoas através de vínculos tão efêmeros e voláteis?

As pessoas usam as mesmas marcas de tênis, mas se não o fizessem, talvez teriam o mesmo tipo de aproximação com o grupo...

As pessoas que fazem parte do grupo de corrida se reconhecem, mas, efetivamente, pouco se conhecem...

As pessoas se encontram, mas mal interagem entre si nos treinos, e quase nada fora deles, como se os treinos encorajassem mais a “ação” do que a “interação”...

As relações interpessoais são passageiras e transitórias, e, no limite, duram o tempo em que os corredores freqüentarem os treinos. No dia em que os atletas resolverem correr sozinhos, ou quando quiserem “dar um tempo” sem correr, por exemplo, estarão sujeitos a romper os frágeis vínculos existentes com os demais corredores do grupo...

Na visão de Bauman, este é um fenômeno urbano contemporâneo por excelência, típico das grandes metrópoles modernas, e que apresenta características semelhantes às dos fluidos. Para ele, a “fluidez” é a melhor metáfora para explicar o momento da era moderna em que vivemos, pois

“os líquidos, diferentemente dos sólidos, não mantêm a sua forma com facilidade. Os fluidos, por assim dizer, não fixam o espaço nem prendem o tempo. (...) Os fluidos não se atêm muito a qualquer forma e estão constantemente prontos (e propensos) a mudá-la; assim, para eles, o que conta é o tempo, mais do que o espaço que lhes toca ocupar; espaço que, afinal, preenchem apenas ‘por um momento’” (BAUMAN, 2001: 8).

Nesta “modernidade líquida”, não se pode ignorar o tempo, pois as “descrições de líquidos são fotos instantâneas, que precisam ser datadas” (BAUMAN, 2001: 8). As pessoas que hoje fazem parte do grupo de corrida da Run & Fun do Villa- Lobos podem não ser as mesmas que farão parte do grupo, amanhã. O grupo é fluido, “escorre”, não se atém a uma formação com estas ou aquelas pessoas. Os atletas entram e saem do grupo e o grupo permanece existindo.

Mesmo os corredores que fazem parte do grupo há mais tempo, freqüentando-o com assiduidade, também vivenciam encontros instantâneos. Estas pessoas reúnem-se três vezes por semana, em dias e horários específicos. O seu principal objetivo é correr. Findo o treino, dispersam-se. Voltam para suas casas, tiram seus uniformes e vestem outras fantasias, para desempenhar outros papéis. Só retomarão a fantasia de corredor dois dias depois, no próximo treino.

Reuniões momentâneas como estas são consideradas por Bauman como um fenômeno das sociedades atuais. Corredores comportam-se como os participantes de espetáculos culturais que se utilizam dos serviços da chapelaria (cloakroom) do ambiente:

“Os freqüentadores de um espetáculo se vestem para a ocasião, obedecendo a um código distinto do que seguem diariamente - o ato que simultaneamente separa a visita como uma ‘ocasião especial’ e faz com que os freqüentadores pareçam, enquanto durar o evento, mais uniformes do que na vida fora do teatro. É a apresentação noturna que leva todos ao lugar – por diferentes que sejam seus interesses e passatempos durante o dia. Antes de entrar no auditório, deixam os sobretudos ou capas que vestiram nas ruas no cloakroom da casa de espetáculos (...). Durante a apresentação, todos os olhos estão no palco; e também a atenção de todos. Alegria e tristeza, risos e silêncio, ondas de aplauso, gritos de aprovação e exclamações de surpresa são sincronizados – como se cuidadosamente planejados e dirigidos. Depois que as cortinas se fecham, porém, os espectadores recolhem seus pertences do cloakroom e, ao vestirem suas roupas de rua outra vez, retornam a seus papéis mundanos, ordinários e diferentes, dissolvendo-se poucos momentos depois na variada multidão que enche as ruas da

cidade e da qual haviam emergido algumas horas antes”. (BAUMAN, 2001: 228).

Reunir-se e dispersar-se. Encontrar pessoas que compartilham a mesma atividade, enquanto esta durar. Sob este ângulo, os atletas do grupo de corrida da Run & Fun assemelham-se aos assinantes da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, a Osesp. No início do ano, os interessados podem comprar uma assinatura para os espetáculos que ocorrerão ao longo do ano. Durante este período de tempo de doze meses, os assinantes poderão freqüentar a Sala São Paulo, sede da Orquestra, tendo seu lugar previamente reservado. Este grupo de assinantes freqüentará o mesmo ambiente enquanto durar a apresentação da Orquestra e se dissipará até o próximo espetáculo. O volátil vínculo existente entre eles se dissolverá, quase que instantaneamente.

Estes assinantes, portanto, não possuem nenhum tipo de vínculo ou laço que os una. Não há um ponto de encontro na Sala São Paulo para que os assinantes se reúnam, não existe um momento do espetáculo reservado para a troca de impressões e opiniões dos assinantes etc. Estas pessoas têm um encontro marcado com a Osesp e não entre si. A assinatura da Osesp existe apenas para que as pessoas apreciem música clássica ao vivo, com a conveniência do lugar marcado, e não para que se conheçam.

Criar vínculos e laços, ainda que efêmeros. Conviver com as pessoas que praticam a mesma atividade, mesmo que superficialmente. Sob este novo ângulo, o grupo de corrida difere muito do grupo de assinantes da Osesp.

É certo que o grupo de corrida existe para que as pessoas corram e não para criar vínculos entre seus membros. As pessoas juntam-se a uma assessoria esportiva para manterem-se em forma, para sentirem-se saudáveis, e não para estreitar laços ou criar compromissos entre os participantes. Entretanto, se isto acontecer, elas certamente não lamentarão o ocorrido. Considerando a freqüência de contatos semanais a que os corredores estão expostos, esta é uma situação com alta probabilidade de ocorrer.

A vida nas sociedades contemporâneas e, especialmente, nas grandes metrópoles, é composta por diversos grupos como estes. Os vínculos existentes entre seus membros podem ser fluidos ou sólidos, dependendo do tipo de relação que se deseja ter ou construir. A fluidez, portanto, pode ser fruto de uma escolha individual, consciente e moderna, mas caracteriza, cada vez mais, grande parte das relações que mal chegam a poder ser caracterizadas como pessoais. Manter “relações líquidas” e efêmeras com a maioria das pessoas é a forma de pertencimento à nova era da modernidade líquida.

Referências

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Sites consultados:

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Anexos

Mapa do Parque Villa-Lobos (SP) e do ponto de encontro da Run & Fun

Mapa da Cidade Universitária (SP) e do ponto de encontro

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