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A pesquisa junto aos corredores do grupo de corrida da Run & Fun do Parque Villa-Lobos mostrou que estas pessoas têm uma preocupação muito grande com a própria saúde. Ser saudável, para eles, significa estar com o corpo em boas condições, ou seja, bem disposto para enfrentar as tensões do dia-a-dia.

Entendem por corpo saudável aquele que tem disposição e reage bem aos esforços requeridos diariamente: pode até ficar cansado quando exigido, mas apresenta uma recuperação rápida. É também aquele que acompanha o avançar da idade, respeitando as limitações de cada estágio da vida, não apresentando problemas inesperados ou atípicos. Para eles, um corpo saudável também é aquele que atende aos atuais padrões sociais de beleza: magro e esbelto.

Consideram que a prática regular de atividades esportivas é uma eficiente forma de aliviar as tensões da vida que levam. Como confirma Elias, “o esporte pode resultar numa agradável excitação mimética, que é suscetível de contrabalançar as tensões, normalmente desagradáveis, das pressões derivadas do stress inerente às sociedades, proporcionando uma forma de restauração de energias” (ELIAS, 1992: 73). A corrida, na visão dos atletas pesquisados, consegue desempenhar esta dupla função de ser, ao mesmo tempo, uma “válvula de escape” e uma fonte de energia.

Para eles, a corrida proporciona benefícios não apenas para o corpo, mas também a mente. Através dela, declaram que conseguem adquirir ou manter um condicionamento físico, emagrecer ou manter o peso, envelhecer de forma ativa, passar um tempo sem pensar em nada ou usar o tempo para pensar nos problemas e até resolvê-los. Reconhecem que estes benefícios não são uma exclusividade da corrida, uma vez que a maioria dos esportes também pode proporcioná-los. No entanto, destacam que a corrida tem diferenciais relevantes como poder ser realizada ao ar livre, em contato com a natureza, e conseguir disponibilizar tanto momentos de integração com outras pessoas quanto momentos mais individuais e solitários, como atestam os depoimentos a seguir:

“Eu corro por causa da minha saúde! Para que esta ‘casa’ que habitamos, o nosso corpo, cuide bem de nós, em troca. Também corro para dar um bom exemplo, preservando a jovialidade e disposição” (Messias S., 60 anos).

“Eu corro para emagrecer, me manter saudável e envelhecer bem. Quando quero, corro sozinha e se quero um papo, é fácil arrumar alguém para correr junto” (Flora M., 45 anos).

“Eu corro porque é minha terapia. Costumo dizer que a ‘endorfina’ é melhor do que Lexotan! E para pensar na vida, nos problemas, nas soluções, é bom ter espaço à minha volta e a linha do horizonte na minha frente” (Jair M., 46 anos).

“Eu corro porque faz bem para a cabeça e para a saúde do corpo também. Enquanto corro, posso escutar música, posso ficar quieto pensando na vida, posso ficar prestando atenção no meu corpo, posso prestar atenção na natureza, nas pessoas à minha volta, conhecer as ruas de São Paulo, os parques etc”

(Maurício L., 43 anos).

Na visão deles, dedicam-se à corrida com relativa determinação, ou seja, procuram não faltar aos treinos, tentam dormir cedo na véspera de provas e esforçam-se para manter uma alimentação equilibrada e saudável. Não se consideram, no entanto, pessoas neuróticas ou “xiitas”, como se referem às pessoas que seguem à risca todas as orientações dos nutricionistas. Confessam que, de vez em quando, comem e bebem “como uma pessoa normal”.

“Acho que a gente aqui está num meio termo. Não somos atletas profissionais, que vivem da corrida e por isso têm que fazer tudo certinho, comer as coisas certas, na hora certa etc, e nem somos aquelas pessoas que não fazem nenhum esporte, que comem doces e frituras todo dia. A gente tem uma noção do que pode e do que não pode e vai tentando fazer as coisas. Se der, ótimo. Se não der, não é o fim do mundo. É só correr uma hora e meia que fica tudo bem!!!” (Helena C., 39 anos).

Os atletas deixam muito claras as suas motivações para correr. A questão que fica no ar é: por que correm em grupo?

A principal razão indicada para juntarem-se ao grupo de corrida revela, inicialmente, uma motivação ligada à conveniência e à praticidade: fazer um esporte, com orientação técnica, perto de casa. Poderiam fazer exatamente a mesma coisa com a ajuda de um personal trainer, de forma individualizada, mas preferem a companhia das demais pessoas do grupo por razões diversas, como atestam os depoimentos a seguir.

“Antes de entrar no grupo, eu treinava com um personal trainer. Teve uma noite que eu não dormi bem e não estava nem um pouco a fim de treinar no dia seguinte... Mas só de saber que tinha um cara me esperando cedinho lá no parque, me deixou mal... Aí, eu fui mesmo sem vontade... Me incomoda saber que tem alguém me esperando e que eu não posso faltar. No grupo não tem isso. Se eu faltar, não tem problema, o treino acontece do mesmo jeito.” (Rodolfo S., 45 anos).

“Correr em grupo é mais divertido, é ótimo conhecer novas pessoas e trocar experiências ‘trotando’” (Messias S., 60 anos).

“O grupo estimula a assiduidade aos treinos e, com sorte, como é o nosso caso, você desenvolve um novo ambiente de relacionamento social com gente bacana e interessante” (Rodrigo G., 38 anos).

Buscar uma atividade física mais divertida ou um estímulo para praticar o esporte, ampliar o círculo de relacionamento social ou mesmo fugir de compromissos mais

formais surgem como as principais razões para correrem em grupo. Além delas, a pesquisa também mostrou que existem outras questões, mais subjetivas, apontadas pelos corredores para juntarem-se ao grupo de corrida. A primeira delas está ligada ao prazer de realizar uma atividade que parecia, inicialmente, impossível.

“Não corro para participar de provas. Gosto de treinar, de suar, de ver que estou melhorando, que estou conseguindo fazer coisas que antes não conseguia. Quando entrei na Run & Fun não conseguia correr 100 metros e hoje já consegui correr 18 quilômetros!...” (Rodolfo S.).

“Nunca imaginei que eu fosse conseguir correr desse jeito... O grupo ajuda a superar o esforço e os obstáculos” (Anita N.).

Esta satisfação com a auto-realização, apesar de ser individual, encontra no grupo uma ambiência de cumplicidade, uma vez que todos os atletas desfrutam deste mesmo sentimento. O prazer da auto-realização, presente nestes depoimentos, é um tema bastante discutido por Tzvetan Todorov. Para ele, produzir um objetivo formal não é necessariamente uma meta compulsória, pois a pessoa pode se sentir realizada fazendo um simples esforço quando dá o melhor de si:

“A atividade esportiva, assim como um trabalho bem-feito, provém de uma jurisdição múltipla: pode conceder-me glória e riqueza, pode ser realizada como única finalidade de provar a

mim mesmo que posso saltar mais alto do que os outros, que sou capaz de atravessar o oceano num barco a remo; mas pode também proporcionar-me alegria na e pela perfeição do gesto em si, ao fato de conseguir aquilo que antes era impossível. Posso, assim, satisfazer-me com meu desempenho intelectual, com minha capacidade de resolver cálculos matemáticos, sem buscar, uma vez mais, gratificação além do gesto em si. Minha alegria é extranormativa e limita-se ao momento presente” (TODOROV, 1996: 155-156).

É dentro do grupo, portanto, que as pessoas encontram um ambiente propício no qual todos entendem e valorizam o prazer individual da auto-realização.

Uma outra motivação para juntar-se ao grupo de corrida aparece, ainda que de forma inconsciente, entre os atletas. Trata-se da vontade de serem percebidos não só como pessoas saudáveis e ativas, mas também como pessoas disciplinadas, focadas, e que “correm” em busca dos seus objetivos. Pessoas determinadas e esforçadas, movidas a metas e desafios, e que, em última instância, estão em busca do prazer do reconhecimento.

“Minha mãe está surpresa com a minha disciplina para correr! Nos dias de frio, então, ela nem acredita que eu acordei para treinar...” (Isabela M.).

“Contei no escritório que eu comecei a correr. O pessoal lá ficou impressionado!... Me perguntam como eu já consigo correr tanto, aí eu falei da planilha, dos treinos etc”(Júlio A.).

“Correr em grupo é legal porque um estimula o outro e porque obtemos parâmetros junto aos outros” (Juliana B.).

Estes corredores alimentam-se do prazer do reconhecimento que a sensação de superação possibilita e que o grupo reconhece e amplifica. Segundo Todorov,

“o reconhecimento atinge todas as esferas de nossa existência e suas diferentes formas, e nenhuma pode substituir a outra: conseguem, no máximo, proporcionar, conforme o caso, algum consolo. Tenho necessidade de receber reconhecimento tanto no plano profissional como em minhas relações pessoais, no amor e na amizade” (TODOROV, 1996: 90).

Completar uma determinada prova pela primeira vez ou melhorar suas condições físicas em um treino ou competição são situações em que o sentimento de evolução, de conquista está sempre presente. É curioso notar que “melhorar” não significa necessariamente correr mais rápido, e, portanto, fazer o treino ou a prova em menos tempo. Pode também significar chegar em melhores condições, “chegar inteiro”, “chegar sobrando”, “terminar numa boa”. Com um melhor condicionamento físico e auto-conhecimento para o pleno uso do corpo, o atleta

pode dosar o esforço de acordo com suas condições físicas e psicológicas. Nos dias em que estiver se sentindo física e mentalmente bem, poderá se esforçar um pouco mais do que o normal. Quando isso não acontecer, poderá administrar o esforço físico para simplesmente conseguir completar a atividade. O grupo, portanto, funciona como um estímulo e como uma referência, além de propiciar um espaço no qual os desejos de superar-se e superar o outro convivem simultaneamente.

Este conjunto de percepções mais emocionais aparece com muito mais intensidade entre os corredores experientes ou iniciados do que entre os iniciantes. É como se os corredores iniciantes ainda estivessem no “primeiro patamar”, o de acrescentar mais saúde em suas vidas, e a decisão de praticar um esporte é o primeiro passo. Para estes, a corrida é apenas um meio para atingirem o objetivo de tornarem-se mais saudáveis. Além disso, a pesquisa mostrou que entre os iniciantes existe um forte desejo de serem percebidos como corredores. Na sua condição de “novatos” no esporte, o simples fato de ingressar em um grupo de corrida os habilita a pertencer a esta ambiência de saudabilidade. O iniciante já se considera um corredor pelo simples fato de entrar em um grupo de corrida, de fazer parte de um grupo como este. Ele já se imagina um atleta. Esta nova particularidade de sua vida, que, para os iniciantes em um primeiro momento é mais imaginária e subjetiva do que real, dado que ele ainda não consegue correr muito, é o que denomino de “fantasia de atleta”.

Os iniciados, por sua vez, por serem mais experientes no ambiente da corrida, possuem uma visão mais ampliada deste tema, ou seja, sabem que se “considerar um corredor” é muito mais do que simplesmente se juntar a um grupo de corrida ou muito mais do que contar aos amigos que treinam com uma assessoria esportiva. É claro que, para eles, o grupo de corrida também representa um “passaporte” para uma vida saudável, um meio para a saudabilidade. No entanto, mais do que isso, o grupo serve de suporte para as realizações individuais e de fonte de reconhecimento, pois é dentro deste ambiente que as conquistas dos atletas serão reconhecidas e valorizadas pelos demais membros do grupo. As superações pessoais são importantes e são fonte de prazer individual, mas o grupo amplifica estas sensações e, por isso, desempenha um importante papel na sua “fantasia de atleta”. Para os iniciados, correr é um meio e um fim. Correr é conquistar; chegar é superar-se; completar uma prova é uma forma de reafirmar a sua percepção da condição de atleta, que é referendada pelos demais corredores do grupo.

A “fantasia de atleta”, portanto, está presente na vida dos corredores iniciantes e iniciados, mas apresenta conteúdos e repertórios diferentes. É como se cada tipo de corredor tivesse a sua própria “fantasia de atleta”, que intensifica e realça os elementos mais relevantes e sensíveis para cada perfil. Estas distintas “fantasias de atleta” são percebidas não apenas nas posturas e atitudes de cada um em relação à corrida e ao grupo de corrida, isto é, de uma forma mais subjetiva do que consideram ser um corredor, mas também de uma forma mais objetiva e literal, ou seja, na maneira como os corredores se vestem. A pesquisa mostrou

que o vestuário utilizado por iniciantes e iniciados revela muito sobre estes dois tipos de atletas. Tênis, camisetas, shorts de determinadas marcas e estilos são indicadores visuais de cada perfil de corredor. É como se cada um, literalmente, vestisse a sua respectiva “fantasia de atleta” antes de correr. A denominação “fantasia de atleta”, portanto, não se limita à dimensão imaginária e subjetiva: ela também incorpora uma dimensão literal, ligada às roupas e aos acessórios.

A “fantasia de atleta” de um corredor iniciante: o vestuário de um novato no esporte

Corredores iniciantes, homens ou mulheres, costumam fazer seus primeiros treinos junto ao grupo de corrida vestindo camisetas brancas de algodão, grandes e folgadas. Os homens geralmente usam shorts “de jogar futebol” enquanto as mulheres recorrem às bermudas “ciclistas”, originárias das academias de ginástica aeróbica. As meias de cano longo, cobrindo toda a extensão dos tornozelos, ajudam a compor este visual, que não costuma incluir bonés ou qualquer outra proteção para a cabeça (considerando que a corrida é um esporte praticado ao ar livre, este é um item de extrema importância, dependendo da hora do dia).

É muito raro um iniciante chegar ao grupo usando um frequencímetro. Geralmente, ele desconhece não só a existência do equipamento como também a sua utilidade e necessidade para os treinos. Ele tenta treinar sem o equipamento, demonstrando, por vezes, uma certa descrença na sua efetiva relevância para a atividade. No entanto, com o passar do tempo, ele tende a “dar o braço a torcer”,

pois todos os treinos são planejados e realizados tendo como base a freqüência cardíaca máxima de cada atleta.

Para evitar a sensação de “ficar perdido” nos treinos ou “por fora” do grupo, o iniciante acaba escolhendo entre os modelos mais básicos de frequencímetros, que medem apenas a freqüência cardíaca (valor médio de R$ 300,00) ou os modelos mais sofisticados, com cronômetro, medidores de voltas, G.P.S. (Global Positioning System) etc, a partir de R$ 500,00.

Nos pés, os atletas iniciantes costumam usar tênis da marca Nike, principalmente os modelos que parecem, mas não são específicos para corrida. Apesar de terem bolsas ou cápsulas de ar para amortecer o impacto do contato do corpo com o chão, tecidos que permitem a ventilação dos pés e cores vibrantes, assim como a maioria dos tênis de corrida vendidos no mercado, estes modelos são, na realidade, apropriados para caminhadas e corridas curtas e leves.

Mesmo tendo finalidades distintas, há que se reconhecer que os modelos de tênis e de caminhada são, de fato, muito parecidos, o que dificulta sobremaneira a sua identificação pelos consumidores. A escolha dos iniciantes por estes modelos, tecnicamente inadequados, pode ser creditada a alguns fatores. Em primeiro lugar, ao desconhecimento dos novos corredores sobre as características do novo esporte e de seus equipamentos e acessórios. Em segundo lugar, à falta de informação de alguns vendedores ou mesmo má-fé destes, que vendem o que eles têm em estoque e não o que os clientes de fato precisam. A tudo isto, soma-

se o fascínio que a marca Nike exerce sobre a maioria das pessoas. A Nike é uma marca que investe muito em comunicação com o seu mercado consumidor, seja através da propaganda, seja através do patrocínio de atletas famosos ou times (como é o caso da Seleção Brasileira de Futebol). Com produtos visualmente atraentes e de qualidade, ela é percebida como uma marca muito sedutora e idealizada pelos consumidores. Corredores do grupo relembram que ela é a marca que todo mundo conhece e deseja, é a marca mais exposta e que tem mais visibilidade no mercado. Consideram que a marca tem produtos bons, bonitos e caros, e que, por isso, atribuem prestígio e status a quem os utiliza. Para eles, todas essas características fazem com que ela seja tão desejada e admirada.

Para um corredor iniciante, se a Nike é boa no futebol, no basquete e no tênis, também deve ser boa na corrida. Sendo assim, na visão deles, chegar ao ambiente do grupo de corrida com um tênis Nike significa trazer consigo todo o prestígio da marca. Ao usá-la, eles querem ser percebidos como pessoas que também entendem de corrida, que “estão por dentro”, que não são novatos ou iniciantes no esporte. Como veremos mais à frente, esta visão não é compartilhada pelos corredores iniciados.

Os corredores iniciantes relatam que, a partir dos primeiros contatos com o grupo, passaram a observar os hábitos, costumes e roupas dos iniciados com o intuito de “aprender com eles”. Demonstram, com isso, uma certa humildade para reproduzir o comportamento de quem tem mais experiência, mas também, uma grande valorização dos aspectos estéticos e visuais do grupo.

“Vi que todos usam meias de cano curto. Estou pensando em experimentar também”. (Tarcísio L.).

“Eu reparei que todo mundo do grupo só usa tênis Asics ou Mizuno...” (Gabriela A.)

O grupo, portanto, parece ter o importante papel de avalizar as escolhas dos iniciantes, que, por sua vez, demonstram ter uma grande preocupação em não estar ou parecer “por fora” do grupo. Existe um forte desejo de pertencer, de ser reconhecido como “um deles”, de não destoar do grupo. Esta busca pelo reconhecimento, já comentada anteriormente, encontra nas roupas um aliado importante, como coloca Todorov:

“O reconhecimento pode ser material ou imaterial, da riqueza ou das honrarias, implicando ou não o exercício do poder sobre as outras pessoas. A aspiração ao reconhecimento pode ser consciente ou inconsciente, acionando mecanismos racionais ou irracionais. Posso também tentar captar o olhar dos outros por meio das diferentes facetas do meu ser, meu físico ou minha inteligência, minha voz ou meu silêncio. Sob essa ótica, as roupas exercem um papel particular, pois são literalmente o campo de encontro entre o olhar dos outros e minha vontade, fazendo com que me situe em relação aos mesmos, quero ser

parecido com eles ou com alguns entre eles e não com todos, ou com ninguém. Em suma, escolho minhas roupas em função dos outros, mesmo que seja para lhes dizer que me são indiferentes. (...) Não é, portanto, um equívoco quando lembramos um antigo gracejo: o ser humano compõe-se de 3 partes, alma, corpo e roupas...” (TODOROV, 1996: 90).

Na visão dos iniciantes, quanto menos chamarem a atenção do grupo para o fato de serem novatos, melhor. Por isso, pouco a pouco vão se desfazendo das antigas roupas e tênis e passam a incorporar o vestuário, as marcas e o estilo dos corredores mais experientes.

“Cheguei lá com meu ‘Nikão’ e era o único (do grupo)... Devia estar ridículo!!! Aí, comprei esse Mizuno para experimentar. Olha, deve ser bom, porque é o que todo mundo usa por aqui.” (Alberto S.).

Os iniciantes demonstram valer-se dos recursos visuais objetivando um duplo reconhecimento: o pessoal, para reconhecerem-se como corredores, e o coletivo, para serem reconhecidos pelo grupo como tais. As roupas e acessórios são utilizados, portanto, como elementos-chave neste processo de identificação. Vestir-se, ou “fantasiar-se” de corredor parece ser uma forma de credenciá-los, ainda que superficialmente, a participar deste novo cenário, desta nova ambiência. A satisfação dos iniciantes está muito mais em parecer igual e comum aos olhos do grupo do que em se diferenciar, em ser autêntico. Através da conformidade às

normas do grupo buscam integrar-se e atender à “necessidade de pertencer a um grupo, a um país, a uma comunidade religiosa. Seguir escrupulosamente os hábitos de seu meio proporciona-lhe a satisfação de se sentir existir pelo grupo” (TODOROV, 1996: 93). Atletas iniciantes estão, no fundo, em busca de um vínculo com o grupo de corrida para alimentar e consolidar a sua “fantasia de atleta”, acrescentando, desta forma, uma nova dinâmica às suas vidas.

Michel Maffesoli também aborda esta questão do vestuário como um fator de reconhecimento e um elo entre os membros de um grupo. É interessante a relação que ele estabelece entre as roupas, o teatro e o espírito de comunidade para acentuar a fusão das pessoas dentro de um grupo. Para ele, a estética