De forma muito precoce, em sua socialização primária, as travestis deste grupo internalizaram – geralmente de forma inconsciente – que são diferentes e que essa diferença as exclui.
Eu passei pelo “prezinho” e tudo e, já no “prezinho”, eu percebia que eu era diferente
dos outros meninos. Tinha até alguns meninos que se pareciam comigo, mas os outros
Identificar-se com - ou ser identificada por outras pessoas por ter - atributos do que é tido como feminino é comum a todas e ocorreu muito precocemente, mesmo para aquelas que se transformaram corporalmente e assumiram uma aparência feminina mais tardiamente. A expressão do feminino se deu inicialmente por meio de brincadeiras (usar toalha na cabeça para parecer cabelo comprido ou coque, ou na cintura, forjando saia), ocorrendo quase sempre com a experiência de algum tipo de interdição.
Engraçado de tudo, porque assim, quando eu era bem pequena, eu às vezes vestia as roupas da minha mãe. Eu deveria ter uns 5, 6 anos. Eu vestia, sabe? Engraçado que minha mãe, ela tinha o cabelo bem comprido e ela fazia um coque e colocava um lenço. E eu achava aquilo lindo. Uma vez eu pedi pra ela fazer isso e ela fez. Só que ela falava
assim: “Cuidado porque o seu pai não pode ver”. [Pryscilla Stephanie Gomes]
Elas também se expressam por trejeitos e imitação (cruzar pernas ao sentar, por exemplo) de um feminino que as encantava.
Teve um dia que uma professora chamou a minha mãe e falou pra minha mãe que ela ia ter problemas comigo. A minha mãe não entendeu por que e perguntou pra ela por que:
“Ele chega e senta de perna cruzada, com as mãos em cima das pernas, isso não é forma de um homem se sentar”. Eu lembro que a minha mãe veio e falou - e hoje a minha mãe
me recorda, muita coisa que eu não me recordo eu pergunto a ela -, e ela me falou que
chegou em mim e falou assim: “Quando você chegar na sala de aula, não senta de perna
cruzada[...] [Roberta Barretto]
Durante sua socialização primária, o sentimento de serem femininas vai-se intensificando com o tempo e se expressando progressivamente. A maioria delas, na infância, gosta não apenas de brincadeiras “de menina”, mas também de programas de televisão cujos papéis principais ou scripts são relacionados ao “feminino”. Isso se dá por meio de desenhos animados e seriados produzidos especialmente para meninas, por exemplo. Para algumas, mais jovens, ocorreu também uma identificação com mulheres midiáticas famosas, que além de terem grande visibilidade pública, também tinham sua sensualidade explorada de forma intensa.
Eu com sete anos. Acho que ele [o pai] começou a perceber também meu jeito
afeminado. Ele me pegou usando a calcinha da minha mãe. Foi onde eu apanhei bastante. Porque eu estava atrás de casa com a calcinha da minha mãe (risos). Ele
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Grupo É o Tchan, que fez muito sucesso na segunda metade da década de 1990] Minha mãe não sabia, aí eu apanhei do meu pai e quando minha mãe chegou eu apanhei novamente. Ah, [meu pai] falou que eu era homem, que eu não podia fazer aquilo. Só
que eu não entendi nada. [Sharon Pinheiro]
Na cena acima, a ostensiva exteriorização por parte de Sharon, que se identificava com uma sensualizada cantora popular, de uma ruptura com o script cultural de gênero compartilhado por sua família foi motivo para ela sofrer violência física brutal (contra uma criança de sete anos), além da violência simbólica. Conforme os sinais do feminino surgem, também se iniciam as diversas violências destinadas a reprimi- los ou punir quem “ilegitimamente” os ostenta.
A violência simbólica se dá de tal forma, que os scripts culturais de gênero e sexo vão sendo internalizados sem que a pessoa entenda ou se dê conta, naturalizando “papéis”. Nestes processos de interação pessoal, as travestis vão assimilando a forma “correta” ou esperada de se comportar, mas a contradição com o sentimento de serem “femininas” e, sobretudo, a interdição de sua expressão se transformam na experiência permanente e cotidiana de ser diferente, mas um diferente não desejado socialmente: a diferença que exclui e inferioriza.
Assim, as pessoas sempre me chamavam [de bichinha], mas sempre me chamavam mais
por eu brincar com menina, por não jogar futebol. Essas coisas que no colégio começa,
sabe? Tipo assim, já começaram a me infernizar com isso. Mas até então eu não me sentia ofendida, ao mesmo tempo que eu fazia aquilo com homem, digo, com meninos, na verdade. Brincava [de troca-troca] e gostava. Ao mesmo tempo eu ficava pensando: “Ah,
é uma brincadeira. Eu não quero ser isso, porque é uma coisa ruim”. Me botaram na
cabeça isso, que era ruim. Era ruim e eu não queria, tipo: “Eu vou crescer, namorar
uma menina”. E até então eu me iludia até então, escrevendo carta pra menina, porque eu pensava que era uma coisa certa eu gostar de menina. Então era assim, eu fazia essas coisas com meninos, brincava com meninos. Mas [também] fazia essas coisas que era o
certo fazer, né? [Camily Pergolini]
A violência psicológica (que, ao mesmo tempo, é simbólica) expressa-se, no relato acima, por meio das ofensas de “bichinha”, que servem para humilhar pela conduta que se distanciou dos scripts de sexo e gênero tradicionais em que foram socializadas. A violência simbólica é claramente expressa pela frase: “Me botaram na cabeça isso, que era ruim.” E pela resposta em termos de conduta: namorar menina e fazer o que “era
correto”. Ainda que a interdição seja explícita, havia sempre um jeito de driblar a norma e de se (re) inventar como ser “feminino”:
Teve até uma vez... Ele [o pai] chegou a ver eu com o cobertor amarrado na cintura e com o cinto dele. Nesse dia, foi que ele tirou o cinto da minha cintura e pendurou atrás
da porta dele, que era um local que eu não alcançava. Aí ele falou: “agora você não
brinca mais desse jeito que você sabe que eu não gosto”. Ele pendurou o cinto atrás da
porta do quarto dele, que era um local que eu não alcançava pra poder tirar o cinto de lá. Eu me recordo que, a partir dessa época, eu passei a não brincar mais, a [não] amarrar o cobertor na cintura como saia. Aí eu lembro que eu fui conseguindo outros
artifícios: a gente pega a toalha da mesa, o lençol...a gente inventa alguma outra coisa.
[Roberta Barretto]
Mas a diferença sentida como inadequação trouxe, em alguns casos, respostas agressivas e isolamento:
Aí por conta disso eu comecei a ser uma criança muito problemática. Comecei a ficar muito agressiva. Não queria ninguém perto de mim. Queria ficar mais sozinha com minhas bonecas escondidas. [Sharon Pinheiro]
As travestis que contribuíram para este trabalho sentem que são diferentes dos outros meninos, porque não gostam de jogar futebol, não gostam de brincadeiras agressivas, mas se interessam por usar maquiagem, brincar com boneca. Os outros meninos não se identificam e nem desejam ter formas corporais consideradas femininas, nem desejam se vestir com roupas e adereços que são “apropriados” às mulheres. Quando elas exteriorizam sua maneira mais “afeminada”, muito rapidamente passam a sofrer violências contínuas, tanto na família como na escola ou na vizinhança.
Ainda que a maioria tenda a evitar, em algum período da vida (com maior ou menor duração, conforme a pessoa e o contexto), que o processo continue ou, no mínimo, busque disfarçá- lo, tentando viver os papéis de sexo e gênero tradicionais, a identificação intensa com o feminino perdura. E grita.