Mas aos poucos, mais cedo ou mais tarde, todas foram se sentindo instigadas a se montar. Algumas começaram vestindo-se de drag queen e fazendo shows artísticos, experimentando apenas representar artisticamente a figura feminina em seu exagero.
Expressar a feminilidade, porém, era um desejo que, mesmo com esforço e temor, não conseguiram reprimir para sempre. Isso começa a ocorrer de forma tímida, com adaptações mais ou menos simples: usar roupas mais apertadas, deixar o cabelo mais longo, usar maquiagem ou salto alto.
Eu já saía pra alguns lugares vestida de Roberta, mas no dia a dia era aquela coisa: o Roberto de sobrancelha fina, era o Roberto. Às vezes, quando eu fazia entrelaçamento, então era o Roberto de sobrancelha fina, de cabelo comprido amarrado, porque quando eu estava de Roberto eu estava de cabelo amarrado, e de Roberta eu estava de cabelo solto. [Roberta Barretto]
Levar apetrechos na bolsa como roupas femininas, perucas, maquiagem e sapatos de salto, para se montar em um local d istante de casa e de pessoas conhecidas, foi um denominador comum a quase todas. Essas levaram na bolsa, por um período mais breve ou mais longo, os artifícios que lhes permitiram viver a ousadia, a fantasia e o encantamento de serem possuidoras de atributos femininos. Todas fizeram muitas tentativas e usaram de muitas artimanhas para tentar esconder a mulher em quem sonhavam em se transformar, uma forma de se proteger das violências que acompanhavam o processo.
Tipo assim, como a gente era gay, até a gente se montava, tipo, eu ia pra casa do Carlos que morava em [nome do bairro], a gente ia a pé lá de casa até lá, e a gente se vestia. Tanto é que a gente comprou uma peruquinha. Nossa aquilo era uma coisa feia,
horrível. Usei ela uma vez e falei: “Não vou usar ela mais não. Vou deixar meu cabelo crescer”. Foi quando começou crescer. [Rebecca Thyfany]
Algumas sentem esse processo de se montar com estranhamento. Kharla disse que se achou bizarra ao se montar como drag queen pela primeira vez. Sharon se encantava com as travestis, mas as via como um palhaço de um programa que assistia na TV. Rebecca achava a peruca feia. Mesmo com o estranhamento, elas continuam buscando formas de se expressar.
Uma das grandes frustrações da minha vida é que eu era tão segura da minha feminilidade que eu achava que, quando chegasse aos 14 anos, meus peitos iriam crescer e não cresceu. Ficava esperando crescer e aí de repente eu descobri como tinha que fazer pra ter peito, mas estranhamente eu queria peito, mas a questão de ser mulher ou não, pra mim, eu não parava pra pensar nisso, eu não era voltada pra genitália, a minha genitália não me incomodava, eu era mulher, a minha reação era de mulher, a minha
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reação era feminina, a minha visão é feminina, toda a minha sensação é feminina
[Cynthia Toledo]
O sentimento que surge é tão intenso que sentem a necessidade de marcá- lo concretamente, então as transformações corporais se iniciam. O processo de transformação corporal foi mais rápido para algumas, mas para outras foi bem mais demorado. O momento em que as marcas do feminino concretizaram-se corporalmente variou bastante. Algumas começaram a tomar hormônios ainda na puberdade, outras o fizeram depois de adultas, mas todas tomaram hormônios para, segundo elas, ganharem formas femininas: ter seios, menos pelos, mudar a voz.
O hormônio faz efeito rápido, silicone faz efeito rápido, o cabelo, se você deixar, ele desce também. O cabelo abaixo da orelha já te dá um outro efeito de rosto. Se você deixar o seu cabelo crescer até aqui [apontando para o ombro], você vai sentir que o seu rosto dá uma mudada. Faz uma diferença tremenda. Se eu solto ou prendo o cabelo, tem uma diferença. Então pra quem sempre usou o cabelo aqui na nuca, deixar o cabelo crescer é um diferencial. Então deixar o cabelo crescer pra um feminino é muito mais diferente. [Iara Pereira]
Evidentemente que havia a vivência de uma contradição interna: marcar cada vez mais o corpo, inscrever na carne os signos do feminino e, ao mesmo tempo, tentar esconder essas marcas.
Então falei: “Vou tomar hormônio pra ver o que acontece”. Fui na farmácia tomar
hormônio. [...] Aí meu peito começou a evoluir. Aí eu andava, tipo, com duas
camisetas. Só que meu corpo estava mais evidente ainda e eu não via. Pra mim eu
escondia, ninguém estava me vendo. Eu só era Iara quando eu me montava e saía. [Iara Pereira]
Violências de toda ordem as atingem ao mesmo tempo em que vão se tornando visíveis as primeiras marcas físicas do feminino sobre o corpo masculino.
Iara, antes de começar o segundo ano do Ensino Médio, passou por uma experiência muito dolorosa na porta da escola, ao voltar “muito mais feminina” das férias devido à ingestão de hormônios e ao uso de roupas assumidamente femininas.
E aí na escola a gente teve a chuva de pedras portuguesas na calçada. Deram uma chuva de pedras em nós três. [Na volta das férias escolares, eu já] estava megafeminina.
Então eu cheguei e, no colégio também, o pessoal não deu conta. Já não era uma “bichinha” feminina, já era mesmo uma “bichinha” usando roupas de mulher. Roupa
feminina. [Iara Pereira]
Roberta, por sua vez, assim que começou a ter seios evidentes, sofreu violência sexual de um estranho.
E teve até uma ocasião que eu ia saindo da escola e um cara mexeu comigo por causa
do meu seio. Eu estava passando, estava saindo da escola, e na rua da escola mesmo,
tinha dois lugares que a gente lanchava, um era uma lanchonete mesmo e o outro era uma bicicletaria que vendia lanche. E era uma casa do lado dessa bicicletaria. Eu lembro que ele estava dentro do quintal dele, aí eu passei e ele me chamou, e fui na beira do portão pra falar com ele. E ele estava com a mão dentro da calça, querendo que eu entrasse pra dentro do quintal dele. Ele falou assim: “Se eu pegar esse seu peito aí!” e
ia colocando a mão dentro da calça. E eu fiquei com medo, e aí eu saí de perto. E toda
vez que eu via ele, eu tinha a mesma reação, eu não ficava perto. Quando ele estava perto da bicicletaria, eu não parava pra comprar lanche, eu ia embora pra casa com medo dele. [Roberta Barretto]
Os seios de Roberta, que à época teria seus 12 anos, tornou-se uma marca de objetificação e de oferta sexual. É como se ela tivesse perdido sua possibilidade de escolha, de dizer sim ou não. Ela, como as demais, ao ostentar as marcas do feminino e romper com a roteirização cultural de gênero perdeu simbolicamente um pouco de sua humanidade.
Para que o processo de feminilização fosse mais satisfatório, além da ingestão sistemática de hormônios sem acompanhamento méd ico (comprados na farmácia, por indicação de amigas), muitas aplicaram silicone no corpo, por meio de implante de próteses de seios, injeção de silicone na face, nos quadris, nádegas e em outros “pontos estratégicos”.
No decorrer disso, depois de alguns anos, eu acho que quatro anos depois que eu estava com ele [Sérgio, o companheiro], ele me proporcionou a colocação de uma prótese. E aí foi quando eu acabei me tornando travesti de vez mesmo e eu falei “agora não tem mais
pra onde fugir”. Porque até então eu conseguia transitar, porque eu podia me colocar
como menino, e em momentos estar como menininha, mas não tinha nada que chocasse, como um seio. Já tinha cabelo comprido, mas cabelo comprido até homem tem cabelo comprido e ninguém fala nada. E quando coloquei [a prótese de] seio, eu já
tinha dezessete anos. [Antes eu] passava uma imagem do menino efeminado, um menino que dava a entender pras outras pessoas que era um menino gay. Um menino que dava pinta. [Roberta Barretto]
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A injeção de silicone, por seu custo, costuma ser aplicada por “bombadeiras” ou “bombadeiros”, pessoas que ganham a vida modelando os corpos das travestis, na maior parte das vezes de forma inadequada, em condições de higiene precária e com materiais nem sempre apropriados para isso. Algumas,exibem deformações corporais provocadas por pessoas que atuam como bombadeiras, mas são pouco hábeis. Ou muito inescrupulosas.
Além desses problemas, que são comuns a várias destas travestis e são também retratados fartamente na literatura acadêmica, outros inimagináveis ocorrem nesse processo. Iara, por exemplo, quando conseguiu juntar algum dinheiro, procurou um bombadeiro conhecido, marido de uma travesti de suas relações, que cometeu contra ela uma violência sexual.
Aí eu conheci o Guilherme que era bombador. [...] Aí eu aproveitei pra bombar96 o peito, porque eu só tinha hormônio. Coloquei silicone no peito. Foi com o Guilherme. [...] Mas teve um detalhe interessante. Ele bombava na casa dele. Ele era casado com uma outra travesti. [...] Ele, no dia em que ele bombou o meu peito. Eu lembro que eu fiquei super zonza, é muita dor. Infernal. Eu não lembro se eu tomei anestesia. Só sei que eu estava meio bêbada. Quando terminou e ele falou: “Acabou!” Eu ‘tava como se estivesse bêbada mesmo. [...] E ele bateu uma “punheta” no meu peito. Algo que eu nunca conversei com ninguém sobre. Comentei [...] com uma ou outra e tal. Depois a gente ficou sabendo que ele fazia essas coisas. Mas por exemplo, nunca comentei com a mulher dele. Algo que ele fazia com as outras meninas também. No meu caso foi só uma
“punheta”, ele gozou no meu peito. Com as outras ele tinha transado. Depois ele queria
transar comigo. Foi no ponto me cantar, mas nunca rolou. Ele se aproveitava da situação, né? Ali foi um abuso. Porque eu fiquei dopada. [Iara Pereira]
Iara levou algum tempo para se dar conta de que o que Guilherme lhe fez foi uma violência, apesar do estranhamento e desconforto que sentiu. Mas devido à clandestinidade de todas essas situações, ainda que ela identificasse a violação de sua dignidade, não teria como oferecer uma denúncia. Para ela, não existia proteção nesses casos, mas apenas uma submissão conformada.
A quantidade de silicone utilizada e a pessoa que a aplica são fatores que distinguem mais ou menos as travestis. Quanto mais silicone e mais famosa for a bombadeira,
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maior status adquire a travesti entre suas companheiras, especialmente no mundo prostituição. Por outro lado, se o corpo feminino ainda não está bem formado, a travesti se torna alvo de gozações por parte de outras travestis e é por elas humilhada, pois ela não passaria de um “viadinho”, uma “bichinha” cujo corpo ainda não ostenta de forma mais definitiva as marcas que distinguem as travestis entre seus pares.
Não, mas tipo, desse grupo eu era a mais masculina. Falavam, né? Sempre fui, sempre me falavam que eu era bem masculina. Sempre foi assim. Até a Ju assim, porque tipo assim, a Ju, querendo ou não, ela não foi minha amiga porque, tipo assim, ela ao mesmo tempo que era boa com você, ela chegava na cara. Tipo, estava comigo e todo mundo do programa. Só que até então eu não conseguia fazer. É uma coisa que não me agrada. Aí, toda vez que ela conseguia dinheiro ela me dava pra eu comprar [o hormônio] Perlutan,
e tipo, ficava ali, sabe? “Ah, você não vai conseguir fazer nada, que não sei o quê. Você
é um “viadinho””. Me xingava, humilhava [por ser “viadinho” e não travesti], entendeu? [Rebecca Thyfany]
Eu não tinha ninguém. Minhas amigas acabaram sendo as pessoas que eu estava convivendo [as travestis do ponto]. Minha cabeça acabou sendo muito influenciada.
Viviam brigando comigo: “Você é um viadinho. Você não tem nada [de travesti], você
nunca vai ser feminino”. Sempre humilhação, todos os dias. Fiquei: “O que eu faço da
minha vida?” [Camily Pergolini]
Nas cenas acima, Rebecca e Camily estão entre suas iguais, mas não são tratadas como tal. Curiosamente, algumas travestis utilizavam, para humilhar Camily e Rebecca, as mesmas palavras com que costumavam ser ofendidas por familiares ou outras pessoas. Várias delas, então, buscaram radicalizar sua transformação corporal por meio de cirurgia. Iara e Camily, por exemplo, fizeram cirurgias plásticas.
Elas relataram como se reinventaram e “fizeram” sua formas com cirurgias, artifício que as transformou mais radicalmente, mas que não satisfez a todas. Iara se sente bem com suas formas, mas Camily se diz arrependida: não se sente realmente travesti, diz sentir- se gay, diz que pensa como um gay. Camily sofre por não conseguir se identificar de fato com a pessoa em que se transformou, talvez por não se sentir tão feminina. Por outro lado, continuará a tentar apagar as marcas do masculino em seu corpo com novas (e ainda mais caras) cirurgias. No entanto, para ela, como para outras travestis deste grupo, ainda resta a denúncia inescapável e humilhante de não ser o que aparenta: seu nome masculino nos documentos.