Chapter 4: The Bell Jar by Sylvia Plath
4.2 Esther: The All-American Girl
Em 2011, a EDP, prosseguindo a sua política de expansão da hidroeletricidade exibiu, no Museu da Eletricidade uma exposição do fotógrafo Edgar Martins,47 “O lugar das máquinas” foi apresentado por João Pinharanda, como artificialidade assumida, que conduz o objeto fotografado a uma dimensão de irrealidade e fantasmagoria.
O levantamento realizado nestes equipamentos da EDP recupera um passado de exaltante inovação tecnológica e crença otimista no futuro, regista espaços e objetos que caracterizam um tempo suspenso, o do Moderno: máquinas e salas que, ao mesmo tempo, nos colocam em verdadeiros cenários de ficção- científica e num inevitável campo de melancolia. Porque, o futuro ali anunciado já aconteceu; e hoje, sabemo-lo, nada se passou como a narrativa ideológica do Moderno nos quis fazer crer que tudo se iria passar.”48
Para o comissário desta exposição, a beleza e melancolia das máquinas fotografadas assenta num fundo de sonho tecnológico cuja inocência se perdeu face às injustiças sociais e à destruição da natureza que se seguiu. A era tecnológica, inocente e utópica nos anos 1950, isolada no seu contorno estético, torna-se elemento essencial da luta ideológica em torno dos recursos e do conflito de interesses dos grupos sociais intervenientes.
47Edgar Martins nasceu em Évora, em 1977, cresceu em Macau e formou-se em Belas-Artes e Fotografia
em Inglaterra, em 1996.
48PINHARANDA, João, Catálogo da exposição“O lugar das máquinas”, de Edgar Martins, que teve lugar
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Quando Edgar Martins fotografa os espaços onde se inserem as máquinas, desequilibra o seu isolamento: contextualiza-as, retira-lhes protagonismo e volume, diluiu-as em conjuntos mais vastos, prescinde mesmo delas na vertigem de certas “paisagens interiores”: termo que se justifica pelo olhar panorâmico com que constrói amplos espaços a partir de espaços que são duplamente fechados (interior de salas no interior da terra) antes de serem, também, subjetivamente interiores – quando paira sobre eles um manto de delicada melancolia.49
Este desamparo das máquinas fotografadas é também uma solidão e um retorno a uma subjetividade. O facto de só na última fotografia aparecer a água, força motriz e matricial das máquinas, é lido como escolha propositada do artista, que assim nos reenvia para uma tensão entre a interioridade/subjetividade e a exterioridade.
O artista discorda do comissário. Para ele, o texto de João Pinharanda, por se situar num registo estético, perde a dimensão histórica e social que o autor quer ver representada:50
São as narrativas que podem ser criadas tendo em conta esta temporalidade alargada, ou uma quase intemporalidade. É um projeto que se situa no presente, mas que faz referência ao passado. Queria que as pessoas experienciassem esta noção plástica do tempo. Queria que se abstraíssem do presente e que, através destas imagens, conseguissem imaginar-se no passado a olhar para o futuro. É um pouco daqui que vem o tema The Time Machine que dá título à exposição e ao livro.51
Edgar Martins coloca aqui uma questão importante, ao reivindicar para o terreno do histórico e social, o que João Pinharanda coloca no terreno estético. Para o artista, esta estetização esvazia o conteúdo social que quis colocar nas suas fotografias.
A escolha sobre a dimensão do tempo é a escolha sobre o modo de legitimar as representações do presente:
49PINHARANDA, João, Idem.
50“Mas isso é terrível porque significa que quase não tem conteúdo, que acaba por ser apenas forma sobre
conteúdo, despido.”, in Público, 17.10.2011, Entrevista a Edgar Martins “Fotografias para nos vermos
“no passado a olhar para o futuro”. Por Sérgio B. Gomes. Ver também:
http://fundacaoedp.pt/exposicoes/the-time-machine-edgar-martins/40 , página pela última vez acedida em 15 mar.2015.
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O mundo do inteligível, definido em termos de experiência temporal, é um corpo organizado de expectativas baseada na recordação (CONNERTON, 1993:5).
De forma consciente ou não, Edgar Martins separa o sentido estético da conotação ideológica, que quer ver representada.
Em 28 de fevereiro de 2012, Eduardo Souto Moura apresentou o projeto para o edifício do Aproveitamento Hidroelétrico de Foz Tua. Envolvida em acesa polémica e desencadeando movimentos de contestação, a EDP investiu numa imagem culturalmente estruturada, cuja moldura ideológica, passou nos media pela defesa dos valores de desenvolvimento sustentável e de natureza ambiental. A arte foi aqui chamada para cumprir este desígnio. Aos artistas foi dada a liberdade de usarem os meios que entendessem. A arte ligou-se às políticas energéticas na defesa da construção de barragens.52
O discurso dos anos 1950, que apresenta a técnica como fator de progresso encontra a sua primeira rutura importante nos anos 1990. A partir daí, será o discurso ecológico, ambiental e culturalmente sustentado, a integrar a argumentação das escolhas políticas relacionadas com os recursos.
A intervenção de Pedro Cabrita Reis na barragem de Bemposta fazia parte desta estratégia enraizada no novo conceito de património cultural, que a EDP protagonizava.53
52“Souto Moura em Foz Tua, Calapez e Cabrita Reis em Picote e Bemposta”, http://www.a-nossa- energia.edp.pt/noticias/artigo.php?id=90, em 24 abr. 2012.
53http://sicnoticias.sapo.pt/pais/article1069763.ece em 02 abr. 2012.
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Novos atores se configuraram então, perante esta intervenção: cidadãos anónimos ou habitantes das proximidades discutiram a obra de arte. O espírito português foi assim caracterizado, de acordo com as representações ideológicas implícitas, como um espírito “saloio, cinzento, incapaz de aceitar o novo, preso a preconceitos de toda a ordem”. A nação mostrava-se “incapaz de olhar o futuro sem medo”, incapaz de aceitar a “novidade”.
“Saloio” tanto pode designar o amarelo da intervenção de Pedro Cabrita Reis ‒ porque o
amarelo destoa da paisagem e é feio, agressivo ‒ quanto a incapacidade de aceitar a novidade ‒ o cinzentismo português, incapaz de aceitar uma intervenção estética daquela natureza.
Os defensores das intervenções no espaço público, argumentaram que essa intervenção deve ser precedida de um debate e consulta públicos. Alguns títulos, como “EDP e a Escravatura Amarela”54, moldaram discursos radicais usando as palavras crime e destruição para condenar a obra.
A reação da população local a esta intervenção de Pedro Cabrita Reis foi variada: o tom amarelo chocava a generalidade dos entrevistados, que oscilava entre uma viva condenação da cor e uma defesa do cinzento como menos chocante na paisagem protegida. O seu sentimento de estranheza reenviou para os técnicos a decisão sobre esta intervenção.55
Escolheram-se dois comentários a esta notícia:
João, Lisboa. 28.02.2012 23:35
Eu cá gosto muito do modo como o amarelo está a cobrir parcialmente o betão, fazendo com que a mancha amarela quebre a massa monolítica da estrutura, que já em si tem uma grande beleza, na minha opinião. A dicotomia homem- natureza é o grande problema nas argumentações ditas ambientalistas. O homem é parte da natureza, e estas discussões mostram sempre o lado ideológico daqueles que deveriam ter um discurso cientifico sério, aberto e descomplexado. Não há nenhum perito em conservação da paisagem e da natureza que possa construir argumentos sólidos contra esta obra do Pedro Cabrita Reis. Ou se tem um raciocínio sério sobre aquilo que aqui importa, que é a questão da imagem, ou então não vale a pena.... Mas claro que a minha opinião é apenas baseada nesta foto.56
Anónimo, Bemposta. 28.02.2012 20:03 54 http://www.linhadotua.net/3w/index.php?option=com_content&task=view&id=758&Itemid=37 em 02 abr. 2012. 55http://sicnoticias.sapo.pt/pais/article1069763.ece em 02 abr. 2012. 56http://m.publico.pt/Comments/Index/1535507/1, em 21 jan.2013.
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Não está no contexto do parque natural.
Se os senhores do Parque Natural pegam por qualquer coisa, por mto mesquinha que seja será que na altura andavam com morrinha nos olhos para não ver tal aberração, então não viram o impacto negativo quer a nível natural como a nível da fauna, ou será que agora terá que se fazer uma caçada aos pássaros para os pintar da mesma cor, só assim é que a obra de arte ficaria completa talvez mais parecida com 3D, o mesmo fazê-lo aos peixes para se verem melhor nas águas verdes do rio e esta hemmmm. Que tal este Sr. artista plástico vá falar com o Sr. Eng. Filipe Menezes e lhe propõe pintar com a mesma cor o lado de Gaia junto da ponte D. Luís até ao quartel pois tem ai mto betão para dar largas à imaginação.”57
João de Lisboa e o leitor anónimo de Bemposta representaram duas maneiras distintas de interpretar a arte e a obra. No primeiro caso, a obra de arte vale por si, e a intervenção estética valoriza um contexto de grande beleza, que não põe em causa os equilíbrios de natureza ambiental. Para ele, a incapacidade de aceitar esta intervenção é o sinal de um espírito complexado, que se opõe à seriedade de que se deve revestir um debate desta natureza. Curioso é que neste, como em muitos outros comentários, se diga sempre que não se sendo especialista, e apenas emitindo uma opinião, se está a ser “sério”, contra o “outro”, que aqui representa toda essa estupidez, mediocridade e estreiteza de vistas. Pergunta-se: como seria a narrativa de João, se o seu território (o seu bairro, a rua onde mora) fosse de repente invadido por esta cor?
O leitor anónimo de Bemposta não cuida da sua expressão escrita. As abreviaturas e reticências são expressivas de uma revolta contra os senhores da cidade que vão pintar longe dos seus centros de decisão. A aberração do amarelo não lhe retira o humor, ao sugerir que se pintem os peixes e os pássaros da mesma cor.
Pergunta-se: o que acharia este leitor anónimo de Bemposta, de uma intervenção estética desta natureza, numa barragem espanhola? Condená-la-ia do mesmo modo? Ao nível
57http://sicnoticias.sapo.pt/pais/article1069763.ece em 02abr.2012. Corrigidos alguns erros ortográficos.
Em 21 jan. 2013 : http://m.publico.pt/Comments/Index/1535507/1
Figura 61 Em linha: http://5l-henrique.blogspot.pt/2012/02/mogadouro-utilizadores-do-facebook-dao.html em 21 mar.2015.
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local também encontramos comentários variados, como este, em “O Mensageiro de Bragança” em que o amarelo é pintado de vermelho, numa alusão ao recente negócio com a China58.
Pedro Cabrita Reis e Edgar Martins representaram dois discursos diferentes perante a obra. Para Pedro Cabrita Reis, a barragem pintada de amarelo foi uma homenagem às máquinas que fizeram a obra, aos seus trabalhadores. A paisagem, assim reconfigurada politicamente inseriu essa marca simbólica no território da obra, com o apoio financeiro e logístico da EDP.
Edgar Martins fotografou o silêncio e abandono das máquinas, evidenciando um sonho de industrialização não cumprido e uma vanguarda transformada em passado. Ao fotografar um parafuso ou uma ferramenta, remeteu para a expressividade dos objetos nesse abandono.
Assinalado o terreno de disputa, a memória não se separa das dinâmicas sociais envolventes e dos interesses estratégicos.
A EDP não financiou nenhum dos livros produtores de memória e geradores da identidade barragista anteriormente discutidos. Como afirmou Henrique Pinto, estes barragistas são, eles também:
‒ Pedras que falam, …
Estão colocadas num passado que se quer esquecer e que a sua escrita pretende recordar.
58http://www.mensageironoticias.pt/noticia/3806 página acedida em 06 abr. 2012.Posteriormente a
página deixou de estar acessível, podendo aceder-se a esta imagem em: http://5l-
henrique.blogspot.pt/2012/02/mogadouro-utilizadores-do-facebook-dao.html página acedida em 21 mar.2015.
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