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Embora oferecendo ações de saúde, através de 5.866 atendimentos à comunidade do Pici por ano, o Cedefam sofre com a violência cometida por jovens da mesma comunidade. Só este ano foram 2 (duas) mortes, um jovem que foi morto nos arredores das piscinas do Instituto de Educação Física (IEFES), vizinho ao Cedefam e outro jovem que foi encontrado morto dentro do contêiner, próximo à Unidade de Cuidados Médico e de Enfermagem. Outra ocorrência foi a tentativa de um linchamento na presença de aproximadamente de 40 alunos e 2 professores da disciplina de Atenção Primária à Saúde (APS) do Curso de Odontologia. O professor para evitar que o linchamento se consumasse interveio, solicitando aos jovens que parassem aquela sessão de espancamento, que poderia ter como fim a vida de um jovem, que reside na própria comunidade. Outra atitude tomada pelo professor foi de levar os estudantes para dentro da sala de aula, tentando preservar que os mesmos diante dessa cena de violência, ficassem traumatizados e se desmotivassem a continuar o trabalho na comunidade. Por outro lado, essa estratégia não se mostrou efetiva, sendo necessários vários momentos de discussão e reflexão para que os estudantes compreendessem que a violência está generalizada e não é

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particularidade de uma comunidade, mas que permeia a cidade inteira. Para estes momentos de discussão que ocorreram no Curso de Odontologia que tinha por objetivo o retorno dos estudantes ao campo de práticas, o professor contou com a participação de profissionais da psicologia e da direção da Faculdade de Farmácia, Odontologia e Enfermagem - FFOE, obtendo êxito nessa nova estratégia.

O espaço do Cedefam, além de ser usado como espaço da universidade oferecendo ações de saúde para a comunidade, é utilizado pelos traficantes da comunidade para uso, venda e iniciação de crianças no mundo das drogas. Segunda a diretora do Cedefam, muitos ofícios foram enviados para a Superintendência de Infraestrutura da UFC – instância responsável pela vigilância patrimonial da instituição, relatando os episódios de violência e solicitando providências quanto ao reforço da segurança no prédio e algumas medidas que minimizariam a crescente violência dentro da unidade de saúde.

Outro episódio aconteceu no ano de 2016, quando um jovem se desentendeu com um dos vigilantes do Instituto de Educação Física e Esportes – prédio que fica vizinho ao Cedefam, e como resultado dessa discussão houve um espancamento. O jovem agredido pelo vigilante ordenou ao seu grupo que depredasse o auditório do Cedefam, espaço utilizado como sala de aula.

Após tomar conhecimento dos episódios de mortes consecutivos, o Reitor da UFC a pedido da direção da unidade ordenou o fechamento temporário do Cedefam e acionou os órgãos responsáveis pela segurança no Estado a se posicionarem sobre a violência crescente no campus do Pici. Vale lembrar que, a UFC pertence a uma jurisdição federal, portanto a polícia federal é quem deverá se responsabilizar por resolver casos de violência dentro da UFC, mas só fará se acionada pela instância responsável pela segurança da instituição.

De concreto, nenhuma medida foi tomada pelos órgãos de segurança estadual, federal e nem pela UFC. No conteúdo dos ofícios enviados à superintendência de infraestrutura, segundo a diretora, havia solicitação de uma guarita com um porteiro para controlar o fluxo de pessoas que entram na unidade, um reforço na segurança com a presença de mais um vigilante e a presença ostensiva da supervisão de segurança, bem como o aumento do muro dos fundos do Cedefam que o separa fisicamente da comunidade e por onde os jovens pulam para realizarem seus desvios de conduta.

Sem contar com alguma medida tomada pela instituição para minimizar a violência, os gestores do Cedefam resolveram retomar as atividades cotidianas por considerarem as mesmas de muita importância tanto para os estudantes, como para a comunidade. Fecharam o portão central na tentativa de selecionar o público que poderia ter acesso à unidade, deixaram

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um portão aberto que possibilita apenas a entrada de pedestres, mas não conta com um porteiro para controle do fluxo e continua a vigilância sendo feita pelo mesmo número de vigilantes patrimoniais terceirizados, dois durante o dia e um no período noturno.

Identifica-se que esse espaço é essencial para os profissionais que estão ali desenvolvendo suas atividades, como também para a comunidade que utiliza dos serviços oferecidos, bem como para a UFC, um campo rico na formação dos estudantes, que está totalmente entregue à violência e ao poder das organizações criminosas que comandam aquela área ao tempo em que a instituição, parece desconhecer ou ignora este grave problema que atinge, de modo crescente, a saúde mental dos trabalhadores e estudantes que atuam naquela unidade, segundo relatos dos mesmos.

Importa lembrar que esses jovens envolvidos com e pela violência urbana estão inseridos em um contexto de uma comunidade de renda familiar baixa com características de pobreza, sem acesso à escola de qualidade, saúde, cultura, esportes e lazer. Estas demandas sociais são, geralmente invisibilizadas pelo poder público o que provoca uma situação de vulnerabilidade e risco social para esse segmento da população impulsionada pela precarização de assistência oferecida pelo Estado.

Sem acesso às políticas de formação e desenvolvimento as perspectivas de entrada no mercado de trabalho também diminuem, sem contar com o agravante da baixa escolaridade. Cada vez tem se tornado mais estreita a relação entre o consumo de drogas e a violência para esses jovens desassistidos de políticas. Em sua vivência na comunidade o contato com as drogas se torna mais cedo devido também à presença intensa e indiscriminada das mesmas nas comunidades.

A situação colocada é bastante complexa e tem como uma das justificativas a ineficiência do Estado em prover políticas intervencionistas com foco voltado para a garantia dos direitos desses jovens à educação básica e profissionalizante de qualidade e a promoção dos direitos humanos no intuito da reparação do abismo causado pela desigualdade social.