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Originalmente, o petróleo foi utilizado em larga escala para a produção de querosene para iluminação, ao substituir de forma mais eficiente outros produtos, como o óleo de baleia. Posteriormente, no momento em que a energia elétrica e a lâmpada de Edison eram desenvolvidas, novas utilizações foram dadas ao petróleo. O “craqueamento” da molécula de petróleo por refino e não mais por destilação possibilitou a criação de diversos derivados, como a gasolina, o óleo diesel, 7 DUMAS, Maurice. Las grandes etapas del progreso tecnico. México, D.F: Fondo de Cultura Económica, 1983, p. 104. Tradução nossa.

8 A denominação dessas empresas foi alterada ao longo do século. A Standard Oil teve de ser repartida por determinação judicial (Lei Anti-truste). Outras se fundiram como a ChevronTexaco ou Exxon-Mobil.

graxas e lubrificantes, óleo combustível etc. A invenção do motor por explosão interna, por meio da vaporização de gasolina, deu novo impulso ao desenvolvimento econômico e alento para os novos derivados de petróleo. Primeiramente desenvolvido para automóveis, o motor por explosão interna foi posteriormente adaptado para navios, locomotivas, tratores, geradores e máquinas industriais. O petróleo veio então a suplantar o carvão como a principal fonte energética.

A importância estratégica do petróleo e dos veículos motorizados foi primeiramente verificada já no começo do século XX. Foi imprescindível para o deslocamento e o abastecimento das tropas durante a Primeira Guerra Mundial. A invenção do tanque definiu os combates na França e esse fato, combinado com um expressivo número de carros e caminhões, definiu os rumos da guerra. Com relação a isso, o episódio a seguir narrado por Daniel Yergin é bastante significativo por sua precariedade:

[..]. a situação dos franceses tornou-se na verdade bastante precária (setembro de 1914). Os reforços desesperadamente necessários estavam nos arredores imediatos de Paris, mas parecia não haver meio de fazê-los chegar ao front. Certamente o deslocamento por ferrovia era impossível: o sistema francês estava desmantelado. A pé, jamais chegariam a tempo. E eram necessários muito mais homens do que os que podiam ser transportados pelo número insignificante de veículos militares disponíveis. O que mais poderia ter sido feito? (...) Gallieni era um gênio militar e um mestre da improvisação, e em face da desanimadora necessidade foi o primeiro a agarrar a possibilidade do transporte motorizado e o motor de combustão interna às exigências de operação de guerra (...) pareceu óbvio a Gallieni que a reserva efetiva de táxis era pequena demais e que todos os táxis disponíveis (3 mil) deviam ser localizados e recrutados compulsoriamente. Milhares e milhares de soldados foram rapidamente levados para o ponto crítico do front pelos táxis de Gallieni.9

De fato, o que foi decisivo para o desfecho da guerra foi a utilização de tanques pelos aliados. Os alemães estavam na dianteira no transporte ferroviário, mas os aliados tinham a vantagem dos carros e caminhões que viabilizavam o transporte de tropas e suprimentos com maior mobilidade.

Na Segunda Guerra Mundial, o petróleo tornou-se fator fundamental para o rumo dos acontecimentos. A sua abundância ou falta selaram os rumos das batalhas. Devido à abundância de car vão e à escassez de petróleo, a Alemanha iniciou um programa de fabricação de combustível sintético a partir do craquemaento da molécula de carvão. Conseguiram criar uma sólida indústria de combustíveis, no entanto a custos bem elevados se comparados aos dos derivados de petróleo. A Inglaterra, e particularmente os Estados Unidos, fabricaram uma gasolina de aviação de maior octanagem (100 octanas em vez de 87), conseguindo maior desempenho dos aviões nas batalhas aéreas. No Oriente, o Japão procurou garantir suprimento de petróleo ao controlar os poços da Royal Dutch Shell na Indonésia. Na medida em que os norte-americanos os desalojaram “ilha por ilha”, os japoneses não tiveram meios para continuar o embate e foram derrotados.

A utilização do petróleo como fonte energética preponderante em escala mundial foi possível graças a diversos fatores, como a possibilidade de armazenamento e transporte por grandes distâncias, a descoberta de novos poços, o aumento da produção, a queda de preços e um combustível com melhor aproveitamento energético que o carvão mineral.

Do ponto de vista civil, o petróleo modificou a vida das pessoas a partir do momento que seu consumo, reservas e produção aumentaram continuamente. No pós-guerra, o aumento da renda e do nível de vida em todo o mundo levou à criação de um novo padrão de consumo em que o automóvel passou a figurar como o centro de tudo. Somado a isso, o desenvolvimento da indústria petroquímica possibilitou a invenção de milhares de produtos. O nylon e inúmeras outras fibras sintéticas revolucionaram a indústria. Plásticos, resinas e tintas das mais variadas formas e resistências foram desenvolvidas. Por outro lado, por conta da energia barata e aparentemente abundante, as residências passaram a contar com uma série de utensílios e equipamentos como televisores, lava-roupas, geladeiras, condicionadores de ar etc., o que levou o consumo energético a um nível jamais visto.

Foi nos Estados Unidos que essa mudança aconteceu de forma mais acentuada, com milhões de automóveis em circulação e a possibilidade de as pessoas poderem escolher onde morar. Até então, a mancha urbana se espalhava do centro para o curso das estradas-de-ferro. A facilidade de locomoção proporcionada pelo uso de automóveis levou à ocupação de subúrbios distantes do “downtown”. Para facilitar o deslocamento individual, grande parte dos orçamentos públicos foi destinada para obras viárias, rodovias e as chamadas “freeways”, enquanto que investimentos em transporte público eram negligenciados. Ao longo dessas vias, a paisagem era modificada com postos de serviços, lanchonetes, motéis e oficinas.

Atualmente, mais pessoas vivem nos subúrbios do que nas cidades. Esse estilo de vida traz conseqüências negativas para a sociedade em geral. Várias questões foram levantadas acerca desse problema num artigo de Jerry Adler, publicado na revista Newsweek norte-americana, do qual destacamos:

a) cidades: aumento do tamanho das cidades com a diminuição da população, aumento da distância percorrida, diminuição da densidade populacional, falta de espaços cívicos, comércio e locais de trabalho afastado das residências, aumento da utilização do solo das cidades para o automóvel (vias e estacionamentos), aumento do trânsito, aumento da poluição atmosférica, aumento das doenças respiratórias, aumento da poluição sonora, aumento de resíduos tóxicos nos córregos, rios, lençóis freáticos e oceanos, diminuição de locomoção de crianças, idosos, deficientes físicos e pobres que não podem dirigir etc.

b) aos custos: aumento dos custos de urbanização das cidades, subutilização dos investimentos já realizados, custos “escondidos” de manter o sistema viário, subsídios no preço do petróleo, os gastos com saúde e que toda a sociedade paga por meio de impostos, aumento de gastos familiares com locomoção, aumento dos custos de operação dos negócios, perda de produtividade dos trabalhadores etc.10

O poder de sedução do American way of life fez com que o padrão automóvel se espalhasse pelo mundo. Conseqüentemente, os problemas acima identificados são similares em cidades como Shangai, Bangkok, Kuala Lumpur, México ou São Paulo.

O automóvel é uma das grandes causas do desequilíbrio ambiental, pois, além de ser a principal fonte de poluição atmosférica, consome muita energia para ser produzido. Para cada tonelada do peso de um automóvel de categoria média são gastas 25 toneladas de matérias-primas, computando-se toda a área atingida para sua produção. O uso irracional do automóvel, principalmente nas grandes cidades, é um dos fatores diretos mais impactantes ao meio ambiente.

A frota mundial de carros ultrapassa atualmente os 600 milhões de veículos. Para o ano de 2010 estima-se que possa atingir a marca dos 900 milhões. Em 1990, ela era de cerca de 445 milhões, e estimativas indicam que tenham consumido cerca de 14% de toda a energia primária utilizada no planeta na época. No mesmo período, calculava-se que 20% dos recursos energéticos utilizados por toda a população humana eram mobilizados para a produção de alimentos. Ou seja, o que se gastou na produção de automóveis foi quase o equivalente ao que foi gasto para produzir alimentos para toda a população mundial11.

A utilização do automóvel em larga escala modificou profundamente a maneira como vivemos, nos relacionamos e interagimos com o meio ambiente e com o mundo à nossa volta. Essa mudança foi tão avassaladora que nem mesmo as crises energéticas dos anos 70 conseguiram barrar o crescimento, formas de utilização e dependência do automóvel e do petróleo.