Maria d’Aires Sítima, [email protected] Escola Básica dos 2º e 3º Ciclos de Alcabideche
Resumo
Nesta comunicação apresenta-se o projecto “O moodle na nossa escola” desenvolvido na Escola Básica dos 2.º e 3.º Ciclos de Alcabideche. É um projecto que pretende dar suporte a um modelo de aprendizagem construtivista e ao reforço do trabalho colaborativo. Para além do interesse crescente da plataforma Moodle entre a comunidade educativa, a justificação de um projecto deste tipo é naturalmente contextualizada no quadro do uso educativo das TIC nas escolas. A expansão da comunidade de utilizadores educativos do Moodle tem motivado a escola a explorar de forma rotineira e enriquecedora as situações de ensino e de aprendizagem, tanto nas aulas com os nossos alunos, como em acções de formação formal ou informal, em projectos, grupos de trabalho, etc., quer na sua dimensão de trabalho presencial quer a distância. Propomo-nos aqui documentar perspectivas e experiências de um projecto de colaboração entre pares de professores, entre alunos e entre professores e alunos.
Abstract
In this paper we present you the Project entitled, Moodle in Our School. This project has been developed in Basic School of Alcabideche. The Project aims to support a constructivism learning model and reinforcement of collaboration work. Besides the growing interest in the Moodle platform within the educational community, the educational use of technology in our schools is of the utmost importance. The broadening of the educational Moodle users community has been a strong motivation factor and has led to an every day usage of learning and teaching situations either in the classroom, in formal or informal sessions for teachers, in projects or group work. This situation has occurred either in traditional education or in distance learning. We propose to document here some views and experiences of a cooperation project in peer teaching, among students and between teachers and students.
Introdução
Transformar as escolas em comunidades profissionais de aprendizagem, de modo a envolver os professores em processos colaborativos de questionamento de concepções de ensino e de estratégias que se adaptem ao contexto da escola, pode conduzir na opinião de Freire (2004) não só ao desenvolvimento profissional dos professores, como pode aumentar o gosto e empenho no processo de implementação curricular. Segundo Cortelazzo (2000), as interacções colaborativas podem também contribuir para o desenvolvimento de processos cognitivos dos seus participantes quer no respeitante aos professores quer no que concerne aos alunos. Todos eles, ao interagirem de forma colaborativa, fazem negociações, compartilham materiais, produtos, observações, conhecimento anterior e desenvolvem uma construção conjunta do conhecimento.
As novas tecnologias exigem mudanças a vários níveis, quer em termos de infra-estruturas, quer no plano das atitudes dos professores. O tipo de pedagogia em que o professor fecha a sua porta de sala de aula e lá permanece com os seus alunos, é uma situação ainda frequente em muitos países (Lundin, 2004). Porém, esta generalização não seria justa para todos os professores, pois muitos estudos mostram que, um grande número de professores utiliza as novas tecnologias, não só como forma privilegiada de ensino, como para o seu próprio desenvolvimento profissional, dando ênfase ao trabalho colaborativo nos seus diversos aspectos. Um dos grandes desafios da escola actual é a sua transformação em comunidades de aprendizagem de professores de modo a desenvolver e a possibilitar o seu efectivo papel como agentes de mudança dos vários modos de ensinar e aprender. Freire (2004) reforçou recentemente a ideia de que é necessário que se transformem as escolas em comunidades profissionais de aprendizagem, de modo a incrementar o desenvolvimento profissional dos professores e a conduzi-los a um empenhamento activo no processo de implementação curricular. Na perspectiva de Richardson e Placier (2001), os professores devem aprender não só com as suas próprias experiências e com os seus alunos, mas com as dos seus colegas. Em sintonia com esta posição César(2002) afirma que as pessoas envolvidas numa actividade
conjunta entram em processos dinâmicos de redefinição da situação, interpretando-a, atribuindo-lhe um significado e actuando de acordo com ele.
Descrever as características duma comunidade virtual de aprendizagem, da conduta e hábitos dos seus participantes e o seu funcionamento, no dia-a-dia, representa ainda um desafio, mesmo para aqueles que aderiram à ideia de que estas comunidades oferecem estratégias de progresso e inovação no campo educacional.
Partindo da hipótese de que professores e alunos manifestam interesse por aplicar as novas tecnologias em contexto educacional e constituir possíveis zonas de intervenção no desenvolvimento de competências, bem como criar situações promotoras de inovação e mudança quer nas concepções quer nas práticas pedagógicas pensou implementar-se a Plataforma Moodle na nossa escola. As razões para apresentar este projecto tiveram origem em duas vertentes, a importância que reconhecemos ao ensino colaborativo e a utilização das TIC no processo de ensino/aprendizagem.
Pretende-se descrever, em primeiro lugar como surgiu o Projecto, quais os objectivos e as actividades propostas para o desenvolver, em segundo lugar descrever qual a proposta didáctica para o desenvolvimento da Disciplina de Ciências Naturais do 7.º Ano, finalidades e actividades e em terceiro a avaliação feita pelos alunos e pelos professores do projecto que continua em curso e se pretende expandir. As conclusões deste trabalho poderão contribuir para aumentar o conhecimento das potencialidades e dificuldades no processo de implementação e utilização da plataforma e permitir em termos de intervenção pedagógica orientar o ensino colaborativo de modo favorável ao sucesso de todos os alunos com vista a uma escola de excelência.
O Projecto “ O Moodle na Nossa Escola”
Como surgiu?
A frequência da acção de Formação, no Centro de Formação de Professores do Centro Naval de Ensino a Distância, despertou o interesse pela utilização da plataforma Moodle como a ferramenta impulsionadora do trabalho colaborativo na escola. A escola não possuía uma plataforma de aprendizagem pelo que havia a necessidade urgente de nos colocarmos a par de outras instituições de ensino e não perder o barco. Convidou-se uma professora que mostrava interesse pelas novas tecnologias e que se sabia com pratica do uso da plataforma Moodle e a professora de TIC da escola. Elaborou-se o projecto para apresentar em Conselho Pedagógico.
Quais os objectivos traçados?
Os objectivos traçados foram:
Potenciar o ensino e aprendizagem on/line por todos os actores do ensino através da apropriação generalizada da plataforma moodle;
Criar condições tecnológicas para que professores e alunos pudessem usufruir da diversidade de informação, comunicação, colaboração e partilha on-line.
Enriquecer as práticas lectivas com um propósito de carácter disciplinar e transdisciplinar. Desenvolver competências através das novas tecnologias de informação e comunicação. Diversificar práticas pedagógicas.
Quais as actividades planeadas?
Construção do sítio do moodle da escola.
Sessão de apresentação aos professores da escola “O que é o Moodle, potencialidades e aplicabilidade”.
Acção de Formação “As Tic no Processo de Ensino /Aprendizagem” ministrada por um formador externo à escola.
Definir e criar grupos disciplinares na plataforma moodle.
Criar disciplinas e atribuí-las aos administradores das mesmas (Workshop) Configuração das disciplinas com os administradores (Workshop)
Manutenção da Plataforma.
Apoio aos actores do ensino que desejem participar no projecto.
Como foi desenvolvido?
Contactou-se a Malha Atlântica 1por aí estar alojada a página da escola e em finais de Janeiro de 2008 tínhamos a nossa plataforma a funcionar. Colocava-se um novo desafio: incentivar professores e alunos a utilizar a Plataforma Moodle. Começou por se fazer uma sessão de apresentação aos professores da Escola onde se referia: O que é o Moodle, quais as potencialidades da plataforma, qual a aplicabilidade na escola e alguns dos objectivos a longo prazo.
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Mais tarde deu-se um novo passo, pediu-se uma Acção de Formação ao centro de Formação da Área Educativa da Escola que se veio a realizar durante o 2.º período lectivo. Entretanto foram definidos e criados grupos disciplinares na plataforma da escola.
Após a conclusão da Acção de Formação houve várias inscrições na plataforma e no final do 2.º Período havia cerca de 10 utilizadores. Houve pedidos de abertura de disciplinas mas apenas para treino dos professores.
No terceiro período foi criado um espaço exclusivo a Professores designado por “Sala de Professores” onde foram abertos fóruns de discussão, colocados documentos relativos ao Ministério da Educação, à Escola (regulamento interno, projecto educativo), um espaço sobre Segurança na Internet, outro sobre Didáctica e Pedagogia e outro sobre Formação de Professores. Esta disciplina pode ser ampliada por qualquer professor da escola inscrito na plataforma, o que aliás está a ser feito neste momento com algumas participações.
Proposta didáctica na sala de aula: “Ciências Naturais do 7ºAno”
Nesta última década, os esforços desenvolvidos nos diferentes países estão a caminhar, na opinião de Pereira (2002), no sentido de tornar a ciência mais aliciante para os jovens e articulá-la com as questões práticas do dia-a-dia. Neste contexto é importante a ênfase atribuída às TIC nos currículos de ciências, numa sociedade caracterizada pelo crescente impacto da Ciência e da Tecnologia.
A proposta didáctica foi planeada com o objectivo de desenvolver competências de Ciências Naturais (C.N.) que permitam aos alunos encarar a ciência não como um campo isolado, mas passando a gozar da transversalidade que faz parte integrante deste currículo nas suas finalidades gerais.
A disciplina de Ciências Naturais começou por ser desenvolvida no âmbito do projecto individual, para a avaliação da Acção de Formação realizada no Centro de Formação de Professores do CNED. Mais tarde e já na escola esta disciplina foi ampliada e adaptada para dar respostas às necessidades das 4 turmas de 7º Ano que então leccionava.
Finalidades da proposta
Inscrever os alunos do 7.º Ano na Plataforma Moodle
Motivar os alunos para uma nova abordagem ao currículo de Ciências Desenvolver competências gerais
Incentivar o aluno à participação interactiva no currículo de Ciências Promover o processo de saber ou aprender com as tecnologias de informação Facilitar a aprendizagem através de ferramentas do interesse dos alunos
Actividades
O primeiro passo foi explicar aos alunos o que era a plataforma, quais as suas potencialidades e aplicabilidade. Aqui as dificuldades foram de dois níveis: não tinha acesso à Internet na sala de Ciências Naturais e tinha de falar com os meus alunos retirando um tempinho a cada um dos meus escassos 90 minutos semanais com cada turma. A sala de TIC não podia ser requisitada porque as minhas aulas coincidiam sempre com a ocupação da respectiva sala para leccionação de TIC. Optei por pedir os endereços de e-mail aos alunos que se queriam inscrever na disciplina e fazer a sua inscrição.
Foram disponibilizados na disciplina vários recursos: Programa de Ciências Naturais para o 7.º ano
Competências de aprendizagem para cada conteúdo programático Sumários das aulas
Acetatos apresentados nas aulas Textos informativos
Fichas formativas
Matrizes das fichas de avaliação sumativa Exercícios diversos
Como realizar um trabalho escrito
Protocolos experimentais (quer das actividades práticas da aula quer de actividades práticas que podiam ser realizadas em casa)
Como realizar um relatório de uma actividade prática Links diversos sobre assuntos de interesse para a disciplina Etiquetas para avisos, datas de testes, pedidos de trabalhos, etc.
Foram introduzidas várias actividades para que os alunos pudessem participar activamente: Fóruns de dúvidas
Fóruns de opinião (por exemplo sobre a visita de estudo, sobre temas concretos da disciplina, sobre a avaliação das aulas de C.N. entre outros)
Glossários Trabalhos Hot potatoes Referendo Chat Avaliação do Projecto
A avaliação em Educação assume particular importância no despiste de situações problemáticas e é necessária como instrumento regulador da aprendizagem. A elaboração e desenvolvimento deste projecto e a adequação e reorganização da proposta didáctica aqui apresentada pressupõe um processo continuado e interactivo, de recolha e análise de informação cujo objectivo comum, e último, é orientar o aluno na construção do seu saber.
Professores
O interesse manifestado pelos professores da Escola pode ser representado pelo número de professores inscritos na Acção de Formação “As TIC no Processo de Ensino Aprendizagem “ e pelo número de professores inscritos na Plataforma Moodle no espaço de tempo de dois períodos lectivos. Assim, Na Acção de Formação o número de inscritos, foi o dobro das vagas existentes (20 professores). Utilizadores na Plataforma Moodle, de um universo 70 professores, contamos actualmente com 30 utilizadores dos quais cerca de dez com participação activa, especialmente nos fóruns.
A maior dificuldade sentida pelos professores prende-se com as fracas competências que dizem ter sobre as novas tecnologias. Muitos destes professores não tinham endereço de e-mail, pelo que tiveram que criar um, desconheciam totalmente a existência da plataforma Moodle e habitualmente só utilizavam o computador para processamento de texto para a realização das fichas formativas e de avaliação sumativa.
Alunos
Actualmente as turmas de 7º Ano são constituídas por 85 alunos dos quais apenas 25% possui computador e Internet em casa, no entanto 90% tem “Hotmail”. Atendendo a estes factos e considerando que a Plataforma da escola tem ao momento presente 59 utilizadores dos quais cerca de 25 entra na plataforma pelo menos uma vez por semana, podemos considerar a frequência de sua utilização positiva.
Quanto aos ganhos proporcionados com a sua utilização podemos referir as idas mais frequentes ao Centro de Recursos Educativos, a participação nos fóruns de opinião onde é visível o interesse por manifestar convicções, críticas e análise de problemas. As entradas frequentes no fórum de dúvidas nos dias anteriores aos testes são bem-vindas e notórias do interesse pelo estudo. As consultas frequentes aos documentos informativos e a realização de exercícios são também um factor positivo do uso da plataforma.
Tivemos até o caso de um aluno que nas férias da Páscoa foi para a Alemanha passar uns dias com o pai, aí emigrado. O aluno contou depois à turma que foi ver se a professora tinha mais algum desafio na plataforma e mostrou ao pai como era a matéria de Ciências Naturais e como podiam pôr dúvidas à professora. Por outro lado, muitos dos nossos alunos perguntam já aos seus professores quando é que abrem uma disciplina no Moodle para que possam consultar a matéria de uma forma mais divertida e
fazer exercícios de palavras cruzadas.
Existem, porém, ainda muitos problemas que se relacionam com o facto de não existir Internet em todas as salas, os alunos não terem acesso à Internet em casa e o desinteresse de um número de alunos que se pretendia que fosse menor. No entanto o balanço é muito positivo e o projecto ainda se pode considerar no seu início.
Considerações finais
A realização de projectos colaborativos providenciam, nos nossos dias, a possibilidade de aprender com outros professores em ambientes de reflexão, partilha de conhecimento e de experiências com a finalidade de melhor compreender os currículos, a escola, os alunos e as práticas desenvolvidas. O ensino inserido em comunidades de aprendizagem de e-learning ou b-learning oferece múltiplas oportunidades para novos modelos de crescimento profissional dos professores e um desenvolvimento de competências
gerais por parte dos nossos alunos. As comunidades de aprendizagem (Lundin, 2004) restritas a pequenos grupos podem ser alargadas a grandes grupos de professores e alunos, as tarefas a que se propõem podem ser muito específicas ou de carácter mais geral e a comunicação entre os seus elementos pode ser de grande proximidade embora virtual. Estabelecem-se deste modo ligações entre o interior e o exterior da sala de aula onde os recursos de aprendizagem são múltiplos e as possibilidades de crescimento e construção de conhecimento podem ser incrementadas pelas diversas formas de colaboração.
Podemos concluir que as vantagens da utilização da plataforma para os alunos são diversas: a flexibilidade no acesso à aprendizagem a qualquer hora do dia ou da noite, a disponibilidade de conteúdos programáticos e recursos orientados, a possibilidade de esclarecer dúvidas, a oportunidade de emitir críticas, fazer comentários e partilhar incertezas e opiniões. Também para os professores permite disponibilizar recursos e informação permanente, construir diversas experiências educativas que incentivem a aprendizagem personalizada, optimizar a aprendizagem de um maior número de alunos e facilitar a interacção professor.
A plataforma obriga o aluno a ter uma motivação forte e um ritmo próprio, o que pode ser considerado uma desvantagem, no entanto não se pode encarar a plataforma como um substituto da aula presencial mas sim como uma ferramenta complementar da aprendizagem.
Para o professor exige mais tempo de formação (pedagogia/avanços tecnológicos) e mais tempo na selecção e elaboração de conteúdos. Porém uma vez produzida a disciplina o tempo posterior não é necessariamente longo para a actualização daquela.
Em síntese, os resultados deste ano de trabalho levantaram alguns desafios para ano lectivo 2008/2009 como seja o incremento de número de utilizadores activos da plataforma, quer por parte dos alunos quer por parte dos professores. Para tal, está já planeada uma nova Acção de Formação e um Workshop de informação e divulgação na escola da Plataforma Moodle.
Referências bibliográficas
César, M. (2002).A Escola inclusiva enquanto espaço-tempo de diálogo de todos e para todos. In D. Rodrigues (Ed.), Perspectivas sobre inclusão: Da educação à sociedade. Lisboa: Faculdade de Motricidade Humana & Porto Editora.
Cortelazzo, I. (2000). Colaboração, trabalho em equipa e as tecnologias de comunicação: relações de
proximidade em cursos de pós-graduação. Tese de doutoramento inédita, Universidade de São
Paulo, Departamento Educação.
Freire, A.M. (2004). Mudança de concepções de ensino dos professores num processo de reforma
curricular in Flexibilidade curricular, cidadania e comunicação. Lisboa: Departamento de
Educação Básica, Ministério da Educação.
Lundin, M. (2004). Learning communities on teachers and students. In M. Selinger (Ed.), Thought
leaders. London: Premium Publishing.
Pereira, A. (2002). Educação para a ciência. Lisboa: Universidade Aberta.
Richardson, V. & Placier, P. (2001). Teacher change. In V. Richardson (Ed), Handbook of research on