6.2 Regression results
6.2.8. ESG Results - Discussion
A propriedade da IBC no Bairro Pedras, onde se localiza a Tenda, enquanto local de produção e de gestão do sagrado, pode ser caracterizado ainda como disperso e diversificado, em virtude da multiplicidade dos usos a que se destina. Essa propriedade é utilizada para grandes aglomerações como as que acontecem nos cultos dominicais ou em eventos especiais, enquanto a estrutura do Colégio Kerigma, que fica no bairro Dionísio Torres, perto da Assembléia Legislativa, é utilizada para reuniões de menor porte. Georg Simmel (apud WILLAIME, 2009, p. 149) percebeu a importância da identificação de uma organização religiosa com um lugar, ao afirmar que:
As grandes organizações têm, por natureza, necessidade de um ponto central no espaço: com efeito, elas não podem sobreviver sem subordinação e hierarquia e, em geral, o comando deve possuir uma residência fixa para, de um lado, ter seus subordinados sob controle e, do outro, para que estes saibam onde encontrar seu chefe.
O espaço onde se localiza a tenda da IBC, além de servir de referência espacial juntamente com o Colégio Kerigma, tem finalidades que transcendem a esfera meramente Cultual. Diferentemente de outras organizações religiosas contemporâneas centradas nos seus templos, tais como a Igreja Universal do Reino de Deus, a propriedade da IBC é multifuncional, tendo também outras finalidades que serão analisadas a seguir.
O primeiro uso que pode ser destacado é o Educacional, pois não apenas a área da tenda é utilizada para o ensino bíblico, também nas palhoças e
nas salas dispostas em diversos pontos da propriedade são realizados estudos bíblicos, oficinas de música, cursos de liderança e práticas de aconselhamento. Os pais que possuem crianças menores, por exemplo, podem deixar seus filhos aos cuidados de voluntários da IBC durante o momento em que participam do culto dominical para que estas participem de uma programação especial chamada de Geração Futuro, dentro da qual se inclui reuniões de pequenos grupos infantis. A presença da criança nessas salas é condicionada ao preenchimento de uma ficha na primeira vez que esta vai participar e à quantidade de voluntários disponíveis. Os pais ou responsáveis recebem um cartão colorido com o nome, o número e a classe da(s) criança(s).78 Existem salas para diversas faixas etárias, onde se realizam o
ensino de textos da Bíblia e de músicas cristãs, além de brincadeiras. As crianças e adolescentes também contam com um pequeno campo de futebol e outros espaços para atividades esportivas próximo às salas onde acontece o Geração Futuro.
Há diversos espaços onde as pessoas podem interagir e dialogar com outras pessoas. Esses espaços cumprem o papel de favorecer a Sociabilidade. Além dos ambientes mencionados anteriormente, há também a lanchonete e a palhoça de divulgação dos ministérios da IBC, que também abriga uma livraria com uma grande variedade de literatura religiosa. É importante também dizer que não existem muitos lugares disponíveis para se sentar para conversar com outras pessoas.
78O número no cartão da criança aparece nos telões se, por exemplo, acontecer algum problema, se esta vier a se machucar ou não quiser permanecer na sala.
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Fotografia 13 - Palhoça de vendas e serviços (02/03/2008) Fonte: MENDES, 2008.
O uso de atendimento às necessidades de Consumo dos presentes é atendido pela lanchonete, pela livraria e outros espaços de vendas de apostilas, CDs, DVDs, etc. A palhoça de divulgação dos ministérios também contribui como espaço onde Serviços são prestados. Além dos stands destinados às informações e inscrição em eventos, há também um stand onde os membros têm acesso a empréstimo gratuito de livros religiosos. Além disso, a IBC conta com um amplo estacionamento, o que não é comum na maioria das igrejas evangélicas, especialmente nas que estão localizadas no centro de Fortaleza.
A tenda é utilizada com maior frequência para as celebrações, reuniões e estudos bíblicos. Entretanto, serve de espaço para apresentação de musicais, de cantores e de bandas gospels. Desse modo, o local atende também o uso de
Entretenimento. Um dos maiores eventos musicais realizados pela IBC aconteceu
no dia 18 de outubro de 2008, tendo como atração principal a banda norte- americana Christafari (apresentada como a maior banda cristã de reggae do
mundo), na companhia de outras atrações internacionais como Dominic Balli, Jennifer Howland, Avion Blacman, Salomon Jabby. A Banda Surfistas, prata da casa, também marcou presença no evento (Cf. Anexo 6).
A preocupação com segurança e proteção é uma marca da sociedade contemporânea que se reflete na IBC. Um exemplo: o preenchimento das fichas pelos pais ou responsáveis das crianças que vão para o Geração Futuro atende essa necessidade. Quando termina a programação, as crianças só são liberadas pelos voluntários se acontecer a devolução do cartão fornecido na entrada, preferencialmente por um adulto, a fim de que seja comprovado o vínculo de responsabilidade com a(s) criança(s).
Os riscos de violência também incomodam o ambiente religioso. Muitas igrejas já contrataram empresas de segurança para fazer a vigilância eletrônica dos locais de culto. A IBC não fugiu a essa tendência. Além disso, em diversos pontos da propriedade podem ser observados vigilantes contratados para garantir a segurança dos frequentadores.
Essa multiplicidade de usos da propriedade da IBC se torna necessária em virtude da distância geográfica da residência dos participantes, atendendo demandas que não são supridas de forma satisfatória pela estrutura de pequenos grupos.
Essa organização do espaço é ainda reveladora da forma como o “movimento do sagrado junta as flutuações e contradições da modernidade”, conforme Balandier (1997, p. 212), que ainda acentuou que
A religião explode e se pluraliza, está sujeita à lei da concorrência. Deve se tornar crível e desejável por ser incapaz de se impor autoritariamente: “É preciso ‘vendê-la’ a uma clientela que não está mais obrigada a ‘comprá- la’... As instituições religiosas tornam-se desse modo agências de organização do mercado e as tradições religiosas tornam-se bens de consumo”. Da mesma forma que o sagrado se difunde no espaço do profano, o secular se insinua no espaço do religioso.
A cultura contemporânea, que leva as marcas da espetacularização, certamente exerceu uma considerável influência na configuração da Tenda, pois
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todo espetáculo reivindica um lugar necessariamente público, seja geográfico ou virtual, para sua realização. Conforme Ramos,
Não se pode negar a transformação espacial dos lugares de culto sob a influência da ideologia do espetáculo: a remodelação dos tradicionais templos é para parecerem mais casas de show do que com santuários. Não raro para se estabelecerem os grupos religiosos, preferem, no lugar de construir templos, adquirir casas de espetáculo, como teatros e salas de cinema. A reforma arquitetônica promovida pela religião espetacular transformou em palco o espaço outrora reservado para o púlpito, que por sua vez ocupara o lugar do altar, em função da ênfase racionalista dos reformadores (2005, p. 179).
É possível ainda, arriscando-se um pouco, a lançar um outro olhar, menos “religioso”, para essa propriedade da IBC: ele pode também ser caracterizado como um “espaço público” que “se destina a servir aos consumidores, ou melhor, a transformar o habitante da cidade em consumidor” (BAUMAN, 2001, p. 114). “Consumidores religiosos”, mas não necessariamente “consumidores” passivos.
A sede da IBC em Pedras parece adquirir, dentro das tendências religiosas contemporâneas, portanto, o aspecto de um “shopping center”. Uma ida nesse espaço representa “mais do que testemunhar a transubstanciação do mundo familiar, é como ser transportado a um outro mundo” (BAUMAN, 2001, p. 115).
Fotografia 14 - Vista aérea da IBC (Anel viário e BR 116 ao fundo) Fonte: IGREJA BATISTA CENTRAL, s/da
Assim como os shoppings se diferenciam das “lojas de esquina” do passado, a sede da IBC em Pedras se diferencia dos templos evangélicos espalhados nos bairros de Fortaleza. Mais ainda, os participantes dos cultos na IBC que procedem de pontos distantes da cidade, diferentemente dos frequentadores das igrejas de bairro, não têm a mesma preocupação com o reconhecimento ou a
conveniência (MAYOL, 1996), ou seja, com a visibilização dos seus interesses
religiosos pela vizinhança. O bairro, para muitos desses frequentadores, é só um lugar de passagem. Entretanto, recebe a atenção de outros membros interessados em colaborar com o bem-estar da população local mediante, por exemplo, iniciativas como a participação em campanhas de combate à dengue.
A Tenda está na cidade, mas localiza-se nos limites da cidade, à beira da BR 116, próxima ao Anel Viário, e por isso aparenta a realidade de que não faz parte da cidade. A sensação que esse fenômeno produz se assemelha àquela descrita por Bauman a propósito dos shoppings:
Não é o mundo comum temporariamente transformado, mas um mundo “completamente outro”. O que o faz “outro” não é a reversão, negação ou suspensão das regras que governam o cotidiano [...], mas a exibição do modo de ser que o cotidiano impede ou tenta em vão alcançar – e que poucas pessoas imaginam experimentar nos lugares que habitam normalmente (2001, p. 115).
Esse fenômeno permite o fácil trânsito das classes médias, pois se trata de um mundo e de códigos de comportamento que ela já conhece. Não deixa de atrair, no entanto, pessoas oriundas das camadas populares de outros bairros e das circunvizinhanças. Mediante as observações realizadas, penso que é possível estender à sede da IBC em Pedras, sem necessariamente perder a noção de “sacralidade” desse espaço, o que Bauman afirma sobre o shopping: “Esse ‘lugar sem lugar’ auto-cercado, diferentemente de todos os lugares ocupados ou cruzados diariamente, é também um espaço purificado. [...] Os lugares de compra/consumo oferecem o que nenhuma ‘realidade real’ externa pode dar: o equilíbrio quase perfeito entre liberdade e segurança” (2001, p. 116).
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Aliás, “[...] O templo do consumo bem supervisionado, apropriadamente vigiado e guardado é uma ilha de ordem, livre de mendigos, desocupados, assaltantes e traficantes – pelo menos é o que se espera e supõe” (BAUMAN, 2001, p. 114). É também um espaço onde se pode experimentar “o sentimento reconfortante de pertencer – a impressão de fazer parte de uma comunidade” (BAUMAN, 2001, p. 116).
“Estar dentro” produz uma verdadeira comunidade de crentes, unificados tanto pelos fins quanto pelos meios, tanto pelos valores que estimam quanto pela lógica de conduta que seguem. Assim, uma viagem de consumo é uma viagem à tão almejada comunidade que, como a própria experiência de ir às compras, está permanentemente “alhures”. Pelos poucos minutos ou horas que dura o nosso “passeio”, podemos encostar nos ombros de “outros como nós”, fiéis do mesmo templo (BAUMAN, 2001, p. 117-118).
Além disso, a tenda da IBC evita uma identificação imediata com um templo tradicional em sua concepção arquitetônica. Ela não tem a solenidade dos templos católicos ou protestantes históricos, que pode exemplificada, respectivamente, pelo templo da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, localizado na Av. Treze de Maio, e pelo templo da Igreja Presbiteriana de Fortaleza, localizado no centro, na Av. Visconde do Rio Branco. A Tenda também não possui a “aura energética” dos templos iurdianos, como o da Catedral da Fé, que se localiza na Av Trsitão Gonçalves, próximo da Praça José de Alencar.
Nada, à distância, a identifica com um templo cristão. Poderia, por exemplo, ser confundida com a estrutura de um circo. Ela se destaca pela sua multifuncionalidade e pode abrigar, sem nenhuma reserva, conforme já foi mencionado, desde cultos até shows de bandas cristãs.
A construção da Tenda da IBC no bairro Pedras operou uma verdadeira sacralização de um espaço profano. Ela encontra-se encravada numa zona urbana liminar - entre o litoral e o sertão, entre o rural e o urbano - como uma “rotura” espacial e existencialmente significativa.
Concluindo o presente capítulo, pretendo ressaltar que a Tenda, com toda a sua configuração arquitetônica e as características funcionais de toda a propriedade, se constitui como um espaço que atende às atuais demandas de sua
audiência religiosa identificadas pela liderança. As celebrações dominicais, que serão abordadas no próximo capítulo, encontram na Tenda o espaço adequado para se desenvolverem.