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In document Mediehistorisk Tidsskrift nr. 2 2018 (sider 70-75)

No primeiro modelo desenvolvido no segundo capítulo, fazemos uma reflexão sobre os avanços que foram acontecendo em relação a um tipo de teatro que tradicionalmente era realizado em escolas centrado no talento de alguns e na declamação de textos, para um outro tipo de teatro que utiliza os jogos como meio envolver qualquer pessoa com fazer teatral. O jogo, como metodologia teatral, possibilita ao sujeito que participa do processo teatral

momentos de experimentação, criação e liberdade. A teoria spoliniana é utilizada como referência nesse momento. A conclusão a respeito desse modelo de teatro é que a metodologia dos jogos favorece tanto o envolvimento dos não-atores com o fazer teatral quanto a relação desses com a platéia. Assim, um processo teatral que tem o Jogo Teatral como metodologia permite ao grupo decidir sobre o modo como quer explorar a forma e o conteúdo a serem apresentados e esse fator poderia garantir que questões sobre a cultura local pudessem ser postas em cena contribuindo para a aproximação entre escola e comunidade.

Com referência a essa proposta, articulada no capítulo anterior, podemos dizer que tanto no processo teatral de Uma história da Ilha quanto no processo teatral do Teatro da

festa junina: casamento caipira não foi utilizada uma metodologia teatral específica. O grupo encontrou caminhos durante o processo que estavam ligados em parte a um fazer teatral tradicional, decorar textos, e em parte estava ligado ao lúdico, a diversão, a liberdade de expor idéias e criar situações, aos acordos, às trocas, enfim, a uma profunda ligação com o jogo.

O primeiro encontro dos membros internos e externos do NEI foi um momento de descobertas, de experimentações, não havia um caminho traçado para seguirem, não havia um coordenador com experiência em teatro para orientá-los no início dos trabalhos. Na primeira experiência, os adultos que se reúnem para fazer teatro não pertenciam a um grupo teatral, ou tinham experiência com teatro profissional. Alguns haviam experimentado o fazer teatral na escola quando crianças, na comunidade, em festas juninas ou na Igreja. Um pai disse em entrevista que nunca tinha feito teatro antes da peça Uma História da Ilha. Demonstrando uma certa resistência inicial a participar do processo ressalta : “Eu não queria, mas começaram a me convidar. Então eu fui. Começamos a ensaiar, decorar o texto.” (Valdir, entrevista pessoal concedida em 19-05-2006).13 Além disso, durante as entrevista, percebemos que as pessoas têm conceitos diferentes a respeito de teatro. Alguns preferem fazer teatro a partir de um texto, para que possam refletir sobre o seu personagem, pensar isoladamente a forma de construí-lo e depois fazer os ensaios. Na fala de um pai, fica clara a sua preferência pelo texto clássico que permite o aprimoramento do personagem. “Eu fiz teatro durante nove anos no Anabá14. Dois anos eu fiz um pastor e durante sete anos eu fiz José (...) Eu gosto de andar sozinho pela rua pensando no meu personagem” (Davi, entrevista pessoal concedida em

13 Valdir participou de várias apresentações teatrais no NEI e Escola do Canto enquanto suas filhas foram alunas

nessas instituições.

14 Escola da rede particular de ensino do município de Florianópolis, que segue metodologia Antroposófica,

30-09-2005). Outros preferem participar de experiências baseadas somente no improviso, sem nenhum texto prévio, criar no ato da representação. Beatriz, uma mãe de crianças que estudaram no NEI e Escola do Canto diz: “Eu não tenho muita paciência, aquela coisa séria, aquela coisa parada [se refere à exercícios de concentração para preparação do personagem]. Eu sou muito de improvisos. Eu gosto muito de escrever, tenho muitas idéias, eu tenho muito assunto (...) Essas coisas divertem, distraem. Se eu achar engraçado, provavelmente tu também vais achar (...) e, às vezes, na brincadeira qualquer coisa que tu faça pode virar uma piada, pode virar um versinho (...) (Entrevista pessoal concedida em 06-09-2005) Outros preferem pensar a prática teatral como uma terapia, um momento de se soltar, de brincar, de esquecer os problemas do cotidiano. Podemos confirmar esse fato na fala de uma mãe sobre um processo teatral vivenciado na Escola do Canto:

(...) a gente fazia brincadeiras nas aulas, exercícios de concentração (...) fazia pequenas esquetes, que a gente inventava. Eram brincadeiras com fala, brincadeiras sem fala, só com o corpo. Para mim, era tipo sair de casa para brincar, eu vinha aqui e esquecia do mundo (...) O movimento de teatro é importante para as pessoas aprenderem a se expressar, aprenderem a essência das coisas. Não sei, acho que o teatro tem muito a ver com terapia mesmo, eu acho. (Mariana, entrevista pessoal concedida em 06-09-2005)

Um aspecto que permite pensarmos sobre o meio que as pessoas encontraram para se adequar ao trabalho teatral é o fato de que estavam realizando a atividade numa instituição de Educação Infantil. Espaço esse no qual a linguagem lúdica é primordial. Esse aspecto pode ter colaborado para que houvesse muita diversão durante o processo. Uma característica dos encontros eram as brincadeiras, sempre tinha muita “palhaçada”, como diz o Nado. “Nas rodas de aquecimento nós fazíamos cirandas, brincávamos.” (Nado, entrevista pessoal concedida em 06-06-2006).

A respeito do uso do jogo podemos citar também a influência que o Nado teve durante a preparação de Uma história da Ilha. Ele tinha uma vivência prática do trabalho com Jogos Teatrais a partir de sua vivência semanal, de março de 94 a dezembro de 95, no projeto de Ratones15 que utilizava o sistema de Viola Spolin como um de seus fundamentos. Nado entendia que era através da “consciência sensorial”, do envolvimento físico, que cada um podia descobrir a sua expressividade. Disse na entrevista que tinha sempre em mente uma regra de Spolin “mostrar e não contar”. Embora não tivessem feito uso do manual spoliniano

15 Ratones é uma comunidade que fica no interior da Ilha de Florianópolis. Sobre o projeto de Ratones ver

NOGUEIRA, Márcia Pompeo. “Criando ou dramatizando histórias.” In: Experiências interculturais/CABRAL, Beatriz. Florianópolis: Imprensa Universitária, 1999.

para desenvolver o processo teatral, o grupo interagia através do jogo, aceito pelos participantes e pelos estímulos provocados pelo Nado.

Quando eu era bandeirante eu ficava brincando, e cutucava os outros, aí eles entravam no jogo. Eu pegava um pedaço pau, pra fazer que era a arma, e ficava provocando, aí aquele cara entrava no jogo. Um comentava: - Que legal que ficou! Outro comentava outra coisa. Alguém já dizia que parecia com fulano, que não estava ali, mas que morava na comunidade. Então já começavam a incorporar o jeito daquele fulano da comunidade, era um jogo, uma brincadeira. Ninguém dizia: Olha o corpo tem que estar assim, ou faz assim. Era no jogo, na brincadeira mesmo.(...) (Nado, entrevista pessoal concedida em 06-06-2006)

Isso levou a uma “multiplicidade de imagens e associações, que são experimentadas corporalmente, através da linguagem gestual” (KOUDELA, p. 1999, p.119).

Sobre o conteúdo utilizado para compor a peça Uma história da Ilha podemos dizer que, embora os pais não tivessem escolhido o tema da peça, indiretamente, essa idéia dizia respeito a uma questão latente na comunidade16. Quando a questão da migração foi levada para a sala de aula os professores e direção já haviam definido esse tema como um assunto de interesse dos pais. Talvez isso explique, em parte, a familiaridade dos pais com Uma História

da Ilha. A própria comunidade naquele momento, 1994, era formada por muitas pessoas que vinham de outros lugares. Falar de migração era tratar de uma temática universal para os moradores. Esse tema , segundo a opinião do Nado, gerou um sentido de pertencimento para o grupo:

(...) a história [utilizada em Uma história da Ilha] foi feita com muito “pertencimento”, contavam a sua própria história, um pouco anterior a ela, a época dos Carijós, os índios, os açorianos. Me parece que eles se sentiam muito parte do que estava acontecendo, eles estavam contando a sua história. O linguajar, o jeito... Então eles adentraram aquele mundo ali de uma forma muito fácil. Se para alguns o teatro é uma linguagem muito difícil, para eles foi muito fácil. (Nado, entrevista concedida em 06-06-2006)

Mesmo havendo no grupo algumas pessoas “de fora”, que não nasceram no Canto da Lagoa, conhecer um pouco a história da localidade fez com que se sentissem pertencendo também aquele espaço.

16 Uma pesquisa feita em 1994, para compor o perfil da comunidade a ser definido no PPP do NEI, contou com

a participação de professores, funcionários, pais, crianças e foi mais além contou também com a participação de representantes das entidades locais: Associação de Moradores, Comissão da Igreja, Intendência, Delegacia, Posto de Saúde, Centro Cultural. Nessa pesquisa o tema migração surgiu como uma das características da comunidade. (FONSECA, 2000)

Na segunda experiência, Teatro na festa junina: casamento caipira, o grupo já se sentia mais preparado para realizar uma apresentação. O caráter lúdico, os jogos, a diversão, continuaram sendo uma característica do trabalho, mesmo não havendo crianças fazendo parte do processo teatral. No primeiro encontro foi feito um trabalho de improvisação, os participantes se dividiram em dois grupo, cada grupo criou uma família, e um lugar onde vivia essa família. A estrutura cênica “ONDE, QUEM, O QUE” que Spolin (2001) define como centro de sua proposta para a construção de um processo teatral estão presentes nesse primeiro encontro do grupo. O que nos faz perceber que, mesmo não definindo uma metodologia para o trabalho, o grupo ia incorporando ao processo noções sobre a linguagem teatral oferecidas pelo Nado. Os participantes adquiriam, mesmo informalmente, conhecimentos essenciais para a organização de uma representação teatral. Isso porque, diferente do trabalho de Uma história da Ilha nessa prática teatral não havia um texto, ou fragmento de texto pré-estabelecido. Todo o processo se originou das improvisações, das brincadeiras, dos jogos internos realizados pelo grupo e, principalmente, pelos diálogo constante entre os participantes. Esse movimento gerou a textualidade que deu forma à peça teatral.

As falas emitidas em situação de improvisação, apesar de não serem previsíveis quando resultam tão somente das relações estabelecidas ao longo do jogo, designam, sem dúvida, ordenação referente a alguma textualidade. (PUPO, 2001, p.185)

Dentro das cenas que foram sendo criadas havia sempre aspectos de identificação com a comunidade, o nome de determinado lugar, o tipo físico de algum morador que todos conheciam, que se tornava a característica física ou psicológica de um personagens. Inclusive fatos verídicos eram incorporados às cenas.

O sucesso da peça Uma história da Ilha e a familiaridade do público com o tema proposto naquele trabalho colaborou para que nesse novo projeto o grupo decidisse por escolher situações da história local. Mariana, mãe de crianças que estudaram no NEI assistiu a algumas representações e comenta: “Eu me lembro que a comunidade participava muito, ou seja, falava, ou gritava, fazia comentários junto com as pessoas que estavam no evento. Não era uma coisa comportada, brincavam com os personagens, faziam comentários (...)” (Mariana, entrevista pessoal concedida em 06-09-2005). Parece que na peça do Casamento

caipira houve uma manutenção do sentido de pertencimento criado em Uma história da Ilha, tanto para os que atuavam quanto para os que a ela assistiam.

Em ambas as experiências o grupo criou uma espécie de “jogo interno”, um jogo particular. Estipulavam regras, criavam códigos de comunicação, de que todos participavam. Dessa forma, as pessoas se sentiam pertencendo ao grupo, e pertencendo a uma nova história, que estavam escrevendo, uma história de união entre escola e comunidade.

Mesmo sendo uma experiência desenvolvida sem o suporte de uma metodologia específica, incluindo por vezes, algumas práticas de um teatro tradicional, o grupo sempre avaliava as expressões que iam surgindo. A avaliação era um fator importante para as relações que iam sendo estabelecidas pelos participantes naqueles processos teatrais. A avaliação quando não é feita de forma autoritária, quando não é uma censura ao modo como o participante age, e sim uma ajuda para solucionar problemas “remove a carga de ansiedade e culpa dos jogadores. O medo do julgamento (próprio e dos outros) lentamente abandona os jogadores na medida em que bom/mau, certo/errado revelam ser as correntes que nos prendem, e logo desaparecem do vocabulário de todos.” (SPOLIN, 2001, p. 24). Improvisar, jogar, brincar, parece ter sido a regra geral aceita pelo grupo, associada ao respeito, humildade e doação. Em troca se divertiam, aprendiam e ensinavam.

Se a apresentação era uma necessidade para o grupo, o processo em si determinava o grande envolvimento das pessoas com o fazer teatral, denotando um momento de crescimento pessoal para os participantes. “ Parece-me que a apresentação foi apenas um fragmento daquilo que já acontecia nos ensaios. Toda vez que nos encontrávamos para os ensaios era uma espécie de apresentação fechada. Era uma apresentação para eles mesmos.” (Nado, entrevista concedida em 06-06-2006)

In document Mediehistorisk Tidsskrift nr. 2 2018 (sider 70-75)