Apesar do desenvolvimento de suas teorias seja datado anteriormente ao movimento mundial de inclusão, a perspectiva filosófica de Paulo Freire repercute-se contemporânea e evidencia um conceito real de inclusão. A pedagogia freireana com sua práxis libertadora carrega a gênese do conceito da educação inclusiva, que nega o sistema educacional tradicional e a homogeneização dos educandos subordinados aos interesses do capitalismo neoliberal. Volta-se não apenas para às Pessoas com Deficiência e os demais excluídos, mas é defendida para todos, sem discriminação de qualquer natureza. Institui-se autenticamente como uma pedagogia inclusiva, que na sua lógica da práxis libertadora, transforma a alteridade entre os sujeitos na medida em que reconhece as diferenças que os constituem e os caracterizam enquanto humanos.
Se o conhecimento da escola se distancia das necessidades de vida dos alunos, impedindo que eles o assimilem, o resultado escolar será marcado necessariamente pela exclusão daqueles que deveriam dominar este conhecimento, reproduzindo de forma conservadora a vida desigual desta sociedade, onde poder traz saber, (KRUPPA, 1994, p.31).
Freire (1921 – 1997) complementa, ao considerar sua vasta contribuição para área da educação e da pedagogia, expunha como tarefa primordial da educação, do ensino e da escola a restituição da dignidade do aluno, da libertação e, advindo disto, a humanização da sociedade (ARANHA, 2006). Em concepções freireanas, a humanização da sociedade é intrínseca à natureza humana, e, sendo assim inerente, apenas realiza-se a partir da libertação de aspectos que levam à desumanização. Deste modo, a pedagogia de Paulo Freire posiciona-se comprometendo-se com uma sociedade humanizada, liberta e fundamentalmente ética. Convergindo-se, assim, para uma vida em totalidade (ZITKOSKI, 2007). Ao referir-se sobre Paulo Freire, Jorge (1979, p.24) discorre que:
Libertar, pois, o homem oprimido desta realidade desumanizante, desta ‗coisificação‘, desta situação de ‗objetos‘, de ‗ser menos‘, para ser ‗mais‘, isto é, adquirir a própria dignidade humana perdida, realizar sua vocação histórica, tornou-se o objetivo principal de Paulo Freire e o ideal de sua luta.
Centrando-se a análise em algumas obras de Freire, percebe-se sua preocupação coerente em reiterar sobre a concepção de uma educação conversadora e suas práticas desumanizantes, que ao contrário de afirmar o aluno enquanto sujeito autônomo e criativo, oprime-o, pondo-o em uma situação de inferioridade. Na perspectiva de opressão, a escola como um todo não exerce sua função de satisfação das necessidades educativas de todos e para todos, de uma escola inclusiva, mas persiste na lógica de segregação, exclusão e opressão. Ao pensar uma pedagogia humanista e libertadora, Freire (2014, p. 57) aponta dois momentos distintos:
O primeiro, em que os oprimidos vão desvelando o mundo da opressão e vão comprometendo-se, na práxis, com a sua transformação; o segundo, em que, transformada a realidade opressora, esta pedagogia deixa de ser do oprimido e passa a ser a pedagogia dos homens em processo de permanente libertação.
Deste modo, pode-se situar as práticas inclusivas da Pessoa com Deficiência como um ato de libertação dos sujeitos historicamente mantidos segregados. Freire (2014) parte de que vive-se em uma sociedade dividida em classes na qual os privilégios de uns impedem a maioria de usufruírem os bens socialmente produzidos. Na pesquisa que resulta a presente tese, o Participante A evidencia o desejo da filha com deficiência em participar, estar presente na escola regular, demonstrando que não há necessidade de segregação.
Bah, ela veio pra cá, ela... Antes quando ela ia na APAE ela não sabia nada, ela tinha medo de tudo, medo de tudo, ela enxergava alguma outra criança com deficiência ela ficava triste, então por isso eu tirei, eu não levei ela mais lá na APAE... porque lá só tem pessoas, Deus que me perdoe, pior que ela né? Então ela se adapta mais e melhor com as pessoas normais, que não tem problemas de saúde do que estar lá, porque a cabecinha dela de certo é mais avançada, então ela olha as outras pessoas, as crianças, os coleguinhas, ela quer ajudar, ela quer pegar uma criança que vai cair, ela não pode porque ela não para em pé, ela não se equilibra... (PARTICIPANTE A, 2015).
Neste sentido, Stainback & Stainback (2009, p.24) afirmam que ―as turmas segregadas não conduzem à independência e à competência, mas estimulam uma sensação irrealista de isolamento [...] além de gerar um sentimento de inferioridade com relação à situação‖. Ao incluir as Pessoas com Deficiência nas escolas e demais ambientes da sociedade está, nesta lógica, garantindo-se uma micro ruptura nas relações de poder até então estabelecidas. A opressão afirma-se pelo não acesso aos bens culturais, sociais e políticos, e os oprimidos somente poderão romper com a opressão no exercício das liberdades, acesso à justiça, na luta pela recuperação de sua humanidade roubada.
Quem, melhor que os oprimidos, se encontrará preparado para entender o significado terrível de uma sociedade opressora? Quem sentirá, melhor que eles, os efeitos da opressão? Quem, mais que eles, para ir compreendendo a necessidade da libertação? Libertação a que não chegarão pelo acaso, mas pela práxis de sua busca; pelo conhecimento e reconhecimento da necessidade de lutar por ela (FREIRE, 2014, p. 42 - 43).
Na dimensão em que segrega-se as Pessoas com Deficiência, excluindo-as do acesso a escola regular concomitantemente está evidenciando-se a relação opressor-oprimido. Assim as contribuições de Paulo Freire, que naquele momento
visavam contribuir para a democratização do acesso à educação, contribui também para problematizar o acesso à política de educação para as pessoas com deficiência. Dorea (2008) afirma que a pedagogia desafiadora proposta por Paulo Freire é necessária para o desenvolvimento da ética fundamentada no diálogo entre as diferenças, e enquanto estudioso da obra de Freire e da educação inclusiva, aponta que:
Trata-se de pensar os homens como seres em constante devir e não como indivíduos prontos e acabados, alguns até circunscritos, por exemplo, sob os rótulos de inferiores e mesmo deficientes, além de estigmatizados como limitados em relação à sua capacidade de aprendizagem e de se posicionar diante de si mesmo, do outro e da própria vida (DOREA, 2008, p.4).
Concomitante ao pensamento de Dorea (2008), Brandão (2002, p. 5) destaca a educação pedagógica dialética proposta por Freire numa perspectiva inclusiva e agente de transformação social, assim explicitada:
A relação dialógica preconizada por Freire deve ser revisitada por todos aqueles que fazem educação e que buscam a inclusão como arma de transformação da sociedade que temos, para aquela que queremos, pois o referido autor é e sempre será um exemplo para a educação (inclusiva) brasileira porque calca no verdadeiro diálogo a relação interativa, pautada pelo compromisso político de seus pares. (BRANDÃO, 2002, p. 5).
Ao pensar esta concepção, a relação interativa entre educandos e educadores dá-se a partir de um processo recíproco de aprendizagem, onde o professor ao ensinar aprende e o aluno, numa contrapartida, ao aprender também ensina. Esta relação de troca de saberes pauta-se na pedagogia dialética, como pontuada anteriormente, baseada no princípio da igualdade. A construção do saber, pensada nesta perspectiva, não deve ocorrer através de posturas autoritárias e verticalizadas, mas fundamentada na autonomia, na liberdade e na valorização dos conhecimentos adquiridos e apreendidos pelos educandos e no respeito à realidade social no qual estão inseridos. Cabe ressaltar que a expansão do contexto social no qual fazem parte, possibilita a transformação dos sujeitos que vivenciam a inclusão.
Gosto de ser gente porque, mesmo sabendo que as condições materiais, econômicas, sociais e politicas, culturais e ideológicas em que nos achamos geram quase sempre barreiras de difícil superação para o
cumprimento de nossa tarefa histórica de mudar o mundo, sei também que os obstáculos não se eternizam. (FREIRE, 2013, p.53).
Configura-se, a escola desenvolvida na perspectiva da pedagogia dialética, como autora de uma inclusão real de todos, humanizando os educandos e o mundo, possibilitando condições indispensáveis para que alunos com ou sem deficiência conquistem e reconheçam-se enquanto sujeitos na construção e apreensão do conhecimento.
3.5.2. Pedagogia montessoriana e a abertura do ensino para a criança com