Na varanda de sua casa, em uma tarde de outono, o Sr. Angelo José Bolomini nos esperava para nosso encontro17. Nascido no dia 30 de agosto de 195018, casado e pai de cinco filhos, Sr. Angelo (Figura 4), que nasceu em Schroeder, conta que por falta de oportunidades só conseguiu estudar até a 5ª série e atribui ao falecimento do pai o principal motivo da interrupção de seus estudos, e repetidas vezes enfatiza: “eu era um cara bom na aula, eu
tirava só notas dez geralmente!”.
Sr. Angelo conta que aos 17 anos veio morar em Guaramirim, na região da Ponta Comprida, e após o seu casamento mudou-se para Bananal do Sul. Entusiasmado, fala das diferenças de Guaramirim e Schroeder, dizendo que Guaramirim era melhor porque era maior, tinha trem, que ele chama de misto, e litorina. Sr. Angelo costumava fazer uso desses transportes para ir a Joinville procurar trabalho, porém recebeu respostas negativas em cada uma das empresas que visitou.
Em 1974, com 24 anos, se casou com D. Catarina, e fala do dia de seu casamento com grande carinho. Em sua narrativa, Sr. Angelo procura mostrar que, apesar das dificuldades, foi um dia muito especial:
Olha, naquele tempo era só um almoço, vamos supor. Porque naquele tempo o casamento era sábado às 9h. Esse era o horário, aí 9h ia bater foto, tinha que ir pra Jaraguá bater foto, era o Loss, aquele tempo, que batia foto, e o Piazera. Tomamos café em Jaraguá depois de bater foto e depois almoço na casa da noiva, depois de quatro cinco horas não tinha mais nada, só um cafezinho à tarde e [...] acabou. Hoje em dia é mais luxuoso, naquele tempo não tinha nada disso aí, era mais religioso e pronto.
Sr. Angelo procura sublinhar a simplicidade com que um evento como este era tratado, mostrando, através da sua preocupação em descrever este dia com tantos detalhes, como aconteciam os casamentos na década de 1970, momento em que ele chama de “naquele tempo”.
Em relação ao seu namoro com D. Catarina, Sr. Angelo conta que foi em uma festa de Igreja na Ilha da Figueira19, por uma brincadeira, que começaram a namorar, pois já conhecia a família de D. Catarina, mas confessa que nunca tinha se interessado por ela. Lembra com muita saudade das festas de Igreja, das domingueiras (bailes realizados em salões) e das
17 BOLOMINI, Angelo José. Entrevista concedida a Elaine Cristina Machado, Guaramirim, SC, 16 maio
2011.
18 Até a data da entrevista Sr. Angelo tinha 60 anos.
“surpresas”, festas de aniversários onde os vizinhos e parentes se reuniam para comemorar a data e dançar ao som de gaita. Sr. Angelo, católico, relata que havia um certo controle em relação à presença de católicos nos bailes. “Deus o livre, se ele [Padre Mathias] soubesse que um
católico ia pro baile, ele pegava pela orelha depois, porque se ele descobrisse depois ele pegava na rua por aí.”
A proibição de frequentar bailes é relatada por Sr. Angelo como uma prática predominante em todo o período que Pe. Mathias esteve na cidade, e sua fala aponta para um controle sobre a vida pública dos fiéis, além de demonstrar como o pároco católico conhecia a maioria deles.
Sr. Angelo conta que seu principal trabalho foi na Paróquia Senhor Bom Jesus, na construção civil. Segundo ele, era um dos responsáveis pela construção de igrejas, trabalhou também na construção das casas que abrigavam as irmãs, em grupos escolares e na construção do único hospital da cidade. Exibindo sua carteira de trabalho, Sr. Angelo relata que, além dele, mais oito funcionários eram registrados pela paróquia para trabalhar nessas obras, mas contavam também com a ajuda dos fiéis que eram recrutados pelo Pe. Mathias para trabalhar.
Suas lembranças são marcadas, sobretudo, pela forte ligação que mantinha com a paróquia e com o Pe. Mathias, e narra com tristeza o momento em que o pároco anunciou sua despedida de Guaramirim:
Olha, a gente trabalhando junto com ele, até o sábado de meio dia. Domingo de manhã foi a missa, aí no final da missa ele disse: “Eu peço um minuto de ‘silêncio’”. Todo mundo ficou quietinho, né? E ele disse: “Estou me despedindo de Guaramirim, amanhã eu vou embora para a Alemanha, para minha terra”. Foi uma surpresa para todo mundo e a gente que trabalhava com ele foi uma surpresa maior ainda. Aí ele prestou conta para a paróquia, disse que estava tudo pago e as construções que estão em andamento vão continuar. Porque ele disse: “Vou ficar dois anos pra lá e depois vou voltar”. Mas não voltou. Isso foi em 20 de junho de 1976. Para Sr. Angelo o inesperado retorno de Pe. Mathias para a Alemanha representou uma profunda mudança na vida de toda a cidade, e especialmente na sua. Sem esconder seu sentimento de gratidão em relação ao padre, afirma que as cartas enviadas da Alemanha serviam para diminuir a falta que ele fazia, porque Sr. Angelo o reconhecia como líder religioso e como uma figura paterna. Sr. Angelo afirma que as cartas eram “[...] uma maneira
de a gente sempre estar lembrando, porque foi muito difícil”.
Durante sua narrativa, procura nos mostrar que, mesmo longe, Pe. Mathias manteve laços com muitos moradores da cidade, principalmente através de correspondências e cartões postais que ele geralmente enviava no final de cada ano.
Ele sempre escrevia, tenho carta aqui que ele sempre escrevia pra mim. Todo o final do ano eu recebia carta, todo final do ano. Aquilo vinha pra mim umas cinquenta cartas para entregar, eu recebia um envelope grande e dentro do envelope tinha uma carta: “Angelo, faz favor de entregar isso aqui tal e tal fulano... que vou rezar uma missa pra ti”. Tinha outro cara também que entregava, mas o mais grosso era para mim, aí era município de Schroeder, Guaramirim e toda essa região. Eu era de bastante confiança dele.
Após ser desligado da paróquia, segundo ele porque o novo pároco não tinha interesse em continuar fazendo novas obras, Sr. Angelo foi trabalhar na WEG, onde permaneceu até sua aposentadoria. Atualmente, cria abelhas, é apicultor, confessa sua paixão por flores e por abelhas. Embora completamente envolvido com essas atividades, continua indo com frequência à missa e confessa que de vez em quando abre uma carta ou outra para lembrar do tempo de Pe. Mathias.