4.2 Case II: Erfart kvalitet i opplæringstilbodet til eleven Amanda
4.2.1 Erfaringar om kvalitet i utbyttet av opplæringstilbodet
O povo Tupi ocupou no Sudeste um vasto território, praticamente todo coberto pela Mata Atlântica e entrecortado por rios navegáveis. Os rios e o litoral foram fundamentais para ele, não só para sua sobrevivência física, como também para a dispersão no sentido Oeste-Leste, como foram os cursos dos rios Paraná, Paranapanema, Paraíba do Sul, Grande e São Francisco, chamado primitivamente de Pará. Da mesma forma, a expansão tupi- guarani na região amazônica se fez através dos grandes rios, como o Amazonas, Tocantins e Xingu.
Como afirmou Prous, “a impressionante extensão da cultura tupi-guarani, (...) pode ser em parte explicada por sua vocação de navegadores, particularmente fluviais” 94.
Embora não tivessem sido grandes navegadores de mar aberto, sua adaptação ao litoral foi muito bem sucedida, como se vê nesta observação de Léry, que escreveu que os Tupinambá do Rio de Janeiro afirmavam que podiam ficar oito dias em cima da água. Tirado o exagero da expressão, tal declaração mostra sua afinidade com o elemento aquoso95.
Além do litoral, buscavam áreas férteis do interior, evitando região de serra. A preferência por lugares mais quentes, baixos e úmidos, é confirmada pelos achados arqueológicos recentes:
93
Ver ACSP (20.01.1591, v. 1, p. 413).
94 PROUS, Arqueologia brasileira (1992, p. 374).
95 “Cabe observar que na América tanto os homens como as mulheres sabem nadar e são capazes de ir
buscar a caça e a pesca dentro d’água como um cão. Também os meninos, apenas começam a caminhar, já se metem pelos rios e pelas praias, mergulhando como patinhos”. E diante dum suposto naufrágio de uma canoa cheia de indígenas, os franceses pressurosos foram socorrê-los com outra embarcação, ouvindo deles a seguinte resposta: “Agradecemos a vossa boa vontade, mas pensáveis que por termos caído no mar
estávamos em perigo de afogar-nos? Ora, sem tomar pé nem chegar à terra ficaríamos oito dias em cima d’água. Temos muito mais medo de sermos pegados por um peixe grande que nos puxe para o fundo do que de afogar-nos” (Viagem à Terra do Brasil, [1578] 1972, p. 119).
nunca se interessaram em progredir nas regiões secas (...); também não se adaptaram às terras frias, de altitude ou de latitude: jamais ficaram onde há mais de cinco dias de geada noturna por ano; evitaram regiões acidentadas, havendo raríssimos indícios de sua presença em altitudes superiores a 400 metros acima do nível do mar 96.
A mata, no dizer de Laraia, foi e ainda é seu habitat natural97 Ali, após as derrubadas, é que encontravam um solo fértil.
Desta forma, o sistema tecnológico tradicional de agricultura, baseada numa plantação rotativa, mostrava-se bastante eficiente. E como diz Fernandes,
nenhuma das zonas povoadas pelos Tupinambá poderia constituir, porém, um habitat inadequado ou hostil (...) Todas elas dispunham de extensas áreas férteis, dotadas de bosques extensos e de zonas piscosas. Os reflexos da diferenciação geográfica sobre os recursos naturais não implicavam problemas graves. Não chegaram a neutralizar a eficiência do equipamento adaptativo tribal ou a pôr em perigo a subsistência e sobrevivência dos Tupinambá 98.
Por isso, as áreas onde se localizaram os maiores núcleos populacionais Tupi foram regiões de farta alimentação, como o planalto de Piratininga, o alto Mogi Guaçu, o médio Tietê o alto e o médio Paranapanema.
96 Id., p. 373.
97 Tupi: os índios do Brasil atual (1986, p. 44). 98 A organização social dos Tupinambá (1989, p. 75).
O mesmo Fernandes, apoiando-se nos cronistas, afirma que todos os povos Tupi, embora apresentassem diversos nomes “faziam parte de um grupo étnico básico, revelando em seu sistema sócio-cultural os mesmos traços fundamentais”99.
Embora esse autor advogue o uso do vocábulo Tupinambá como termo genérico para este conjunto de povos, optarei pelo termo Tupi, já que era a auto-denominação dos moradores do planalto, e também para recuperar este designativo genérico, que por muito tempo indicou o grupo que viveu na parte meridional do Brasil.
Acredito ser possível delinear o território deste povo, definindo as grandes fronteiras, sem,entretanto, atribuir-lhes a fixidez territorial dos países na atualidade. E como observa Susnik
los territórios ‘tribales’ no eran estáticos ya que siempre había movilidad migratoria y la presión expansiva de grupos étnicos belicosos, existiendo ya prehistóricamente determinadas zonas con gran potencial eco-cultural y también muchas zonas de simples refugio 100.
A partir de achados arqueológicos, é possível afirmar que a fronteira norte estaria situada no atual estado de São Paulo, na região onde hoje se encontram as cidades de Pirassununga e Mogi Mirim101.
Seus vizinhos e inimigos que ficavam além desta fronteira eram as populações de língua jê, chamados de Bilreiros102, que deviam viver na região montanhosa da Mantiqueira, como até hoje se conserva na memória regional, expandindo-se até o atual Triângulo Mineiro e sul de Goiás. Cronistas antigos afirmam que eles raramente
99 Id., ib., p. 17.
100 Interpretación etnocultural de la complejidad sudamericana antigua (1994, p. 5). 101
GODOY, Manuel. Tupi-guarani pottery at Pirassununga. Proceedings (1952, v. 1, p. 243-246). Ver também MORAIS, José Luís. Salvamento arqueológico na área de influência da PCH Moji-Guaçu (Revista do
MAE, 1995, v. 5, p. 77-98).
102 Descrição deste povo foi feita pelo Pe. Jácomo MONTEIRO, num relato de 1610 (HCJB, T. 8, apend., v. 3, p. 359-372).
penetravam a região mais ao sul, tornando o rio Grande a divisa natural103. O nome bilreiro lhes foi dado pelo fato de usarem uma pequena e mortífera arma, um cacete, chamada pelos portugueses de bilro104. Foram denominados de forma genérica pelos Tupi de Ibirayara ou Ibirabaquiyara (o povo da borduna, da madeira)105. Seriam os que posteriormente foram chamados de Kayapó Meridionais, que ocupavam o nordeste do Mato Grosso do Sul, o Triângulo Mineiro e o Sul de Minas106.
Seguindo para o Oeste, o território continuava pelo médio Tietê, até provavelmente a altura do rio Jaú, afluente do Tietê, como confirma a pesquisa arqueológica na região de Capivari107. Em 1551, o jesuíta Pero Correia foi buscar, no médio Tietê, a nove dias de viagem de Piratininga, um português que vivia numa aldeia Tupi “como índio”108. Para além deste limite, habitavam os Kaingang, que na época eram também chamados de Bilreiros109.
Na direção Sudoeste, o território se expandia pela margem esquerda do Tietê, por onde devia passar um dos ramais do Peabiru, que era o grande caminho indígena que ligava o Paraguai ao litoral atlântico, como se verá mais à frente.
O mercenário alemão Ulrich Schmidel, numa viagem que fez a pé, em 1553, do Paraguai ao litoral de São Vicente, deu algumas informações da presença tupi nessa região. É possível que tivesse vindo pelo ramal do Paranapanema e não pelo rota principal do
103
“De Itu ao Rio grande não se encontram facilmente os Caiapós, a que por outro nome chamam Bilreiros,
porque com grande dificuldade passam o Rio grande, e chegaram tão perto de S. Paulo, que tocaram o sino da Igreja de Jundiaí, com cujo som aterrados fugiram” [c. 1740] (Demonstração dos diversos caminhos de que os moradores de são Paulo se servem para os Rios Cuiabá e Província de Cochiponé. In: TAUNAY,
Relatos sertanistas, 1981, p. 205). 104
MONTEIRO, J. Ib., p. 360.
105 Ibirajara foi o nome dado também aos Kaingang do Paraná (ANCHIETA, CAP, Quadrimestral de maio, 1.09.1554); este segundo etnônimo parece se referir também aos Kayapó Meridionais ou a algum grupo que lhe era aparentado, na região do Vale do Paraíba (ver VIEGAS, M., Carta ao Pe. Geral Aquaviva, 21.03.1585. In: LEITE, HCJB, T. 9, aped. B, p. 542).
106 Nas festas tradicionais do mês de maio, em Poços de Caldas, no sul de Minas, havia a dança e a “brincadeira” do Caiapó, numa referência a este suposto morador nativo.
107 PAZINATO, Renato P. Uma segunda igaçaba de Capivari (PMP, 1983, v. 23, p. 1-8).
108 Carta ao Pe. Simão Rodrigues, 20.06.1551, CPJ, v. 1, p. 230-231. Ver também a carta ao Pe. Belchior
Nunes Barreto, 8.06.1551. CPJ, v. 1, p. 220-221. A reconstituição desta viagem foi feita, de certa maneira, pelo Pe. João de Oliveira Bueno, em 1810, sendo possível identificar que o nono dia de viagem fluvial seria na altura deste afluente (Simples narração da viagem que fez ao rio Paraná... RIHGB, 1839, v. 1, p. 165- 178).
Peabiru. Ao atravessar o rio Paraná, afirma que entrou numa região hostil, deparando-se com os Toupins [Tupi], indígenas “fiers, orgueilleux et insolent” que ali viviam110.
O território tupi na região Sul devia chegar até a foz do rio Tibagi, no atual estado do Paraná. Há dois relatos que ajudam a comprovar esta hipótese. Um deles é o do jesuíta Roque Gonzalez, que viveu na redução de Santo Inácio do Paraná, próximo ao rio Paranapanema. Numa de suas cartas afirmava que indo para o Sul, em direção ao Iguaçu, vivia um povo bastante belicoso, chamado Paraná, que “compram índios cativos de outras nações e os trazem às suas terras e os matam com grandes bebedeiras”111.
Um segundo texto é da documentação paraguaia, que mostra o Tibagi como fronteira, sendo que os Guarani permaneciam à margem esquerda e “sus inimigos los Tupies y Tobayares del Brasil” à margem direita112. Convém observar também que todas as reduções jesuíticas da província do Paraná/Guairá, da primeira metade do século XVII, se instalaram na parte ocidental do Tibagi, isto é, à margem esquerda113.
Por isso, não há fundamento documental para situar uma população de 25 mil Karijó/Guarani, na região do Anhembi/Tietê, como faz Hemming num levantamento populacional indígena do Brasil quinhentista114.
A partir da margem direita do Tibagi, os Tupi controlavam uma extensa região que ia até o litoral paranaense. É o que relata Hans Staden, quando em 1550, seu navio conseguiu escapar de um naufrágio, aportando na baía de Superagi, perto da atual Paranaguá. Ali ele e os sobreviventes espanhóis encontraram alguns portugueses que
110
Histoire veritable d’um voyage curieux..., [1567] 1837, p. 241.
111 Carta escrita na Redução de Santo Inácio, 1613. Ap. BURGOS, Jerônimo. Na Redução de Santo Inácio. (In: ACHA DUARTE & OUTROS, Padre Roque Gonzalez, 1978, p. 52).
112 Numa abordagem, escrita a partir de Assunção, o cronista narra: “Después determino el governador
[Domingo de Irala] despachar Nuflo de Chaves á la Província Del Guairá (...). Nuflo Chaves llegó al [rio] Paraná (...). Pasó adelante, y entro por outro rio que viene de la costa de Brasil, llamado Paranapané (...), dejando este rio, navegó por otro que entra á mano derecha llamado Latibajiba [Tibagi] (...), y pasando por los pueblos que está à su margenes [esquerda], llegó á los fronterizos [Guarani] que estaban cercados, con fuerte palizadas á precaución de sus inimigos los Tupies y Tobayares del Brasil” (DÍAZ DE GUZMAN, La Argentina, historia del descubrimiento... [1612] 1882, p. 156. Ap. EDELWEIS, Tupis e Guaranis, estudos de
etnonímia e lingüística, 1947, p. 49).
113 CARDOSO, WESTPHALEN & MELIÀ, Mapa das reduções do Paraná e penetração bandeirista (In: MELIÀ, El Guarani conquistado y reducido, 1993, p. 79).
moravam entre os indígenas e que afirmaram que “os tupiniquins [ali residentes] eram amigos, e deles nada tínhamos que recear” 115.
Todo o litoral sul paulista, de Paranaguá à Bertioga, foi povoado por população Tupi, chamada também Tupiniquim/Tupinikim. Portanto não é Cananéia e sim Paranaguá, o limite sul da terra Tupi, ao contrário do que afirmam vários autores modernos, repetindo o erro de Soares de Sousa116. Aliás, Cananéia até o século XVII, foi conhecida como “o porto principal dos tupis”, como registrou Vasconcelos117.
No litoral norte, a partir de Bertioga, iniciava-se o território dos Tupinambá ou Tamoio, que se estendia até Cabo Frio, região norte do atual Rio de Janeiro. Embora fossem da mesma tradição cultural e lingüística, estes dois povos eram tradicionais inimigos e viviam em constantes conflitos.
Depois de Mogi das Cruzes, no alto Tietê, começava uma região que de certa forma era controlada pelos Tupinambá do litoral, pois Anchieta fala dos “contrários”, isto é, dos inimigos que viviam à beira do rio Paraíba118.
Há também uma dificuldade em identificar estes indígenas do Vale do Paraíba, geralmente chamados de Tupi do Campo e que atacavam periodicamente os portugueses e os Tupi de Piratininga. Achados arqueológicos comprovam a presença Tupi no alto Paraíba119.
As serras de Bocaina e Mantiqueira não faziam parte do território tupi, vivendo aí populações coletoras como os Maromomis e os Guaianá, além dos Puri e, talvez dos Karajá120, todos expulsos do litoral, como registrou Anchieta:
115 Duas viagens ao Brasil, [1557] 1988, p. 57. A carta A missão dos Carijós, do Pe. Jerônimo Rodrigues, confirma também esta fronteira sul (LEITE, S. Novas cartas jesuíticas,1940, p. 196-229).
116 FAUSTO, 1992, p. 383; MAESTRI, 1995, p. 9; H. CLASTRES, 1978, p. 8. É Soares de Sousa quem dá primeiramente esta informação (Tratado descritivo do Brasil, em 1587, 1987, p. 115).
117 VVJA, v. 1, p. 43.
118 Carta ao Pe. Diego Laynes, 30.07.1561 (CAP, p. 180).
119 ANCHIETA, Carta ao Pe.Laynes, 8.01.1565 (CAP, p. 238). Ver as pesquisas de CÉSAR, que estudou urnas funerárias tupi-guarani na região de Aparecida, no Vale do Paraíba (Enterro em urnas dos Tupi- Guarani, Revista de Antropologia, 1966, v. 14, p. 53-72.
120 Sobre os Maromomi e Guaianá ver meu estudo anterior, Os indígenas do planalto paulista (2000). A respeito dos Puri, ver também a descrição de Knivet ([c. 1610] 1947, p. 66) e sobre os Karajá há as referências do Pe. Viegas, que afirmava que eram próximos aos Guaianá (HCJB, T. 9, apend. B, p. 542). Sobre este último povo Léry afirmava que “são índios de mais nobre aspecto e mais bem providos de bens,
(...) pelos matos há diversidade de nações (...) de diversíssimas línguas a que estes índios [os Tupi] chamam tapuias, que quer dizer escravos, porque todos os que não são de sua nação têm por tais e como todos têm guerra. Destes tapuias foi antigamente povoada esta costa, como os índios afirmam, e assim o mostram muitos nomes de muitos lugares que ficaram de suas línguas que ainda agora se usam; mas foram se recolhendo para os matos e muitos deles moram entre os índios da costa e do sertão 121.
O relacionamento dos Tupi com estes povos sempre foi conflitivo, pois eram vistos como inferiores, sendo objetos de escravização.
Nas crônicas, aparecem outros povos, seguramente minoritários, e de difícil localização, como os Karajá, que viviam no baixo Paraíba122, e os Ibiraquijara123, provável nome genérico dos ancestrais dos Kaingang. Aparecem também os Papaná, que poderiam ser um sub-grupo Guaianá124 ou talvez o povo descrito por Staden, chamado de Wayganna (Guaianá), mas que diferia dos demais Guaianá do século XVI, e era reputado por sua violência125. No século seguinte, surgirá um outro povo Guaianá, horticultor, de procedência sulista, e que seria ancestral dos Kaingang126.
Dentro desta grande extensão territorial, os Tupi de Piratininga tinham um núcleo restrito, que Petrone chama de área de subsistência, e que foi o planalto, onde estavam localizadas as aldeias. E havia também uma zona periférica subsidiária, com a qual tinham intenso intercâmbio, constituída pelo litoral sul paulista, que ia de Bertioga e Cananéia127.
quer em víveres, quer em outros gêneros” e “tem maneira diversa de falar”, em relação aos Tupinambá ([1578]1972, p. 229). Devem ter vivido no médio e baixo Paraíba, já no atual território fluminense.
121 Breve informação do Brasil, TH, p. 38.
122 LÉRY, Viagem à terra do Brasil (1972, p. 229).
123 VIEGAS, Carta ao Pe. Geral, 2.03.1585 (HCJB, T. 9, apênd. B, p. 542.). 124
ANCHIETA, Carta quadrimestral de setembro a dezembro de 1554 (CAP, p. 103). 125 STADEN, Duas viagens... ([1557] 1988, p. 153).
126 LEME, Nobiliachia Paulistana (v. 3, p. 64). Ver meu trabalho Os indígenas do planalto paulista (2000, p. 215-232).