Diante da dificuldade que a recuperação destes relatos apresenta, seja devido à limitação do interlocutor ou do intérprete, como aponta Viveiros de Castro282, ficando-se
diante de algumas questões: haveria uma única entidade, Maíra seria uma única entidade com diversos nomes? Haveria um deus a criar “ex nihilo”, como na tradição judaico-cristã? Métraux acredita que Thevet teria “fundido num só diferentes mitos ou diferentes versões do mesmo mito, considerando como figuras distintas o mesmo deus, cujo nome vem seguido de epítetos vários, ou muda em função das ações a ele atribuídas”283.
Lévi-Strauss, ao contrário, pensa que eram várias entidades, e esta aparente colagem faz parte do estilo oral, que dá margem a muitas variantes da mesma história284.
Como não é meu objetivo fazer uma análise aprofundada dos mitos tupis, mas apresentar um elenco desses vários personagens míticos, segue uma breve apresentação dos mesmos, que ajudarão a entender este universo religioso tupi, já que os conquistadores receberam nomes destes heróis.
Como quase todos os povos indígenas sul-americanos, os Tupi apresentavam personagens, que no dizer de Métraux, são “mais transformadores do que criadores”. Mesmo quando algum deles aparece criando o céu, os astros e a terra, “é sua obra parcial e incompleta”, e será terminada pelos heróis civilizadores, sendo esta sua função, e por isso se distinguem das demais entidades 285.
282 O papel da religião no sistema social dos povos indígenas, 1999, p. 18-19. 283 A religião dos Tupinambás, 1979, p. 7.
284 História de Lince, 1993, p. 49. 285 A religião dos Tupinambás, 1979, p. 1.
Monã
No início do mito das origens, recolhido por Thévet, surge a figura de Monã286, que criou a terra, os animais e os homens. Mas o mar foi obra de outra entidade, Aman Atupaue (Amana Tupã= Chuva de Tupã) 287.
Certamente, influenciado pela visão judaico-cristã, o franciscano atribuiu a este primeiro herói – cujo nome Monã significa “o velho e o ancião”288 – um papel de criador, dizendo que era “sans commencement et sans fin”289.Métraux acredita que tanto a idéia de criador, como de imortalidade que lhe é atribuída, teria sido erradamente concebida pelo frade “por sua própria conta, pois tal noção é estranha aos índios”290.
Se a noção de “criação a partir do nada” pode ter sido uma releitura cristã, a noção de imortalidade, que aparece nos relatos sobre Monã e sobre os heróis civilizadores, não é estranha aos Tupi.
Os Kaapor, que vivem hoje no noroeste do Maranhão, tiveram a percepção de uma entidade criadora e de um momento primordial. É possível que tenha havido uma influência cristã, já que seriam os descendentes dos Tupinambá da costa, que convieram com cristãos:
286 Embora Thevet use a grafia Monan, será usada aqui a forma portuguesa Monã. 287 VPT, p. 148.
288 Id., fl. 916. Com esta afirmação, o relato anula a etimologia proposta por Estevão Pinto, que propõe que o nome Monan seja derivado do vocábulo munhangara [=fazer] (In: METRAUX, A religião dos Tupinambás, [1928] 1979, nota /a/, p. 17). Entretanto o verbo fazer em tupi é aimonhang (VLB, v. 1, p. 135).
289 “La première cognoissance donc que ces Sauvages ont de ce qui surpasse la terra, et d’un qu’ils apellent
Monan, auquel ils attribuent les memes perfections que nos faisons à Dieu, le disans estre sans fin et commencement, estans de tout temps, et lequel a cree le Ciel, la terra, et les oyseaux et animaux qui sont en eux, sans toutefois faire mention de la mer, né d’Aman Atouppaue, qui sont les nuees d’eau en leur langue, disans que la mer a esté faite par un inconvenient advenu en terra, qui auparavant estoit unie et platte, sans montaigne quelconque, produisant toutes choses pour l’usage des hommes”. (“A primeira crença que estes Selvagens tem sobre o que sucedeu com a terra, é de uma pessoa que chamam Monã, a quem atribuem as mesmas perfeições de creditamos a Deus, dizendo que é sem fim e sem começo, existindo de todo sempre, e o qual criou o Céu, a terra, os pássaros e os animais que vivem nela, sem entretanto fazer menção ao mar, surgido de Amaná Tupã, que são as nuvens de chuva, na sua língua, dizendo que o mar foi feito por um inconveniente ocorrido na terra, que antigamente era única e achatada, sem montanha alguma...”) La
Cosmographie Universelle, [1554], 1575, fl. 913. 290 A religião dos Tupinambás, 1979, p. 2.
Tudo era claridade, não existia nada. No princípio não existia nada, só Maíra e aquele clarão... Maíra fez a terra e os rios grandes, depois mandou um macaco gigante plantar a mata 291.
A concepção de um mundo imaterial, que existiria além da morada dos mortos, encontra-se em um outro povo Tupi de recente contato, os Kamayurá do Xingu. É Orlando Villas Boas quem reproduz um sugestivo diálogo com um velho da aldeia:
Arru chegara do mato cansado da caminhada e, encontrando-se na aldeia, sentou-se a nosso lado. Não havia muita coisa a conversar. (...) Foi por isso que ele, olhando para os lados, para o chão e depois para o céu, disse:
- Pen ivat (Lá o céu).
- Ié aquarráp (Eu já sabia), respondemos.
- Pen umaô retãm (Lá é a aldeia dos que morrem). - Ié aquarráp (Eu já sabia).
Depois de um breve intervalo, e de olhar bastante elevado para o céu, falou:
- Pen ivat ivát, uamaé (Lá no céu do céu... ela está lá).
Fomos tomados de surpresa. Céu do céu... O que viria a ser isso? Ela está lá? Ela quem? A figura de um índio velho?
Daí perguntamos:
- Avá? Mura aquarrapap anhã? (Quem? Um índio velho que sabe tudo?) - Anité auá, pen aquarrapáp ateté! (Não – pronunciado com veemência –
somente uma sabedoria!)
E com um gesto largo, abrangendo o sol e o céu, deu-nos a idéia de que lá havia somente uma sabedoria 292.
Este diálogo estimula uma discussão sobre qual a concepção de alguns povos Tupi teriam sobre este universo primordial.
Irin Magé
Depois da criação, segundo este mito, “les hommes vesquissent à leur plaisir, jouissant de ce que produisoit la terra (...) vivant desordonnement”293. Irritado, Monã decide destruir o mundo através de Tatá, que é o fogo do céu e que pode ser um outro nome de Tupã. Com este incêndio todos os homens morrem, exceto Irin Magé.
Este personagem tem uma aparição rápida. É ele quem salvará o mundo do grande incêndio enviado por Monã, conseguindo que este mande uma grande chuva. A água fria, em contato com a terra queimada, provocará o surgimento das montanhas, que se alteiam, criando por sua vez os rios, lagos e oceanos.
Sentindo-se só, Irin Magé pede a Monã que lhe dê uma companheira, com quem terá muitos filhos, reiniciando o povoamento da terra.
Este herói torna-se, desta forma, o ancestral da segunda humanidade. É possível que o vocábulo pajé tenha a mesma raiz de Magé/Mbagé/Bagé, mostrando uma ligação íntima com este demiurgo, como acredita Sampaio294.
292 A arte dos pajés, 2000, p. 89-90. Ainda hoje os Guarani Mbyá apresentam uma visão parecida: “Quando
Deus começou a fazer o mundo, não tinha sol nem lua. Então como ele pôde fazer o mundo? Ele não precisava da luz do sol e da lua para enxergar, ele tinha arandu, a sabedoria. Essa lua e esse sol que tem
aqui, não está iluminando lá em cima pra Deus, está iluminando pra nós. Pra Deus já tem luz que é arandu” (Relato recolhido na aldeia Boa Esperança, ES, Porantim, no 80, 1985, out. p. 16).
293 “Os homens viviam à sua maneira, deliciando-se do que produzia a terra (...) vivendo desordenadamente” (La Cosmographie Universelle, f. 913).
Maíra e suas várias manifestações
Entre os muitos descendentes de Irin-Magé surgirá Maíra-Monã, considerado um grande Karaíba, e pelo fato de ser próximo a Monã – “etant fammilier du grand Monan” – terá muito poder e ensinará muitas coisas boas aos humanos e castigará os maus 295. Nos mitos tupinambás o vocábulo Karaíba é usado como sinônimo de herói civilizador.
Como indica o relato, Maíra-Monã ou simplesmente Maíra, seria “um segundo Monã”, que veio para esta terra para completar a obra de Monã296.
Durante sua passagem pela terra, manifestou-se de várias maneiras. Uma delas foi na figura de um menino. Isto ocorreu num tempo em que os Tupinambá não plantavam, vivendo apenas de coleta.
Devido a uma grande seca, os homens começaram a passar fome. A mãe de Maíra pediu que fosse com seu irmão procurar alimento. No campo, encontrou um outro menino e este, imaginando que fosse um concorrente, passou a espancá-lo. À medida que Maíra era golpeado, caía sobre si muitos tubérculos e cereais, como batata doce, mandioca, milho e feijão. Com estes alimentos, recolhidos depois pela mãe, não houve mais fome na região.
Maíra apareceu também na figura de um pajé solitário, vivendo de pouca comida e mostrando-se um bom senhor297, ensinando as pessoas que o cercavam sobre as fases da lua, o percurso do sol e sobre a espiritualidade da alma, além de indicar as plantas boas e as venenosas, e interditando a ingestão da carne dos animais lentos. Deixou orientação sobre o corte do cabelo e algumas rituais para o recém-nascido.
Mas este seu poder suscitará inveja de seus conterrâneos, que tentarão matá-lo, obrigando-o a passar pelo meio de três fogueiras. Atravessou a primeira, sem se queimar, mas ao passar sobre a segunda, seu corpo incendiou-se e explodiu. Mas como era imortal, foi levado para o céu, junto a Tupã, de onde envia chuva. Afirmam os Tupi que os
295 THEVET, La Cosmographie Universselle, fl. 914.
296 “Or disent-ils que pour l’esgard de ce second Monan, qui étoit admirable entre les hommes, deja fort
multipliex sur la terre, ceux qui faisoient quelque chose de plus grand et merveilleux que les autres, estoient appelez indifferemment Maire, comme heritiers et sucesseurs de Maire-Monan ». “Ora, dizem que em relação a este segundo Monã, que era uma pessoa extraordinária diante dos homens, era chamado simplesmente Maíra, como herdeiro e sucessor de Maíra-Monã” (Id.,ib., f. 914).
relâmpagos, que aparecem antes das trovoadas, são as chamas desta fogueira que foi usada para matar Maíra.
Segundo os Tupinambá, foi Maíra quem ensinou aos indígenas, entre outras coisas, o plantio da mandioca. Rechaçado por seus contemporâneos, antes de partir, deixou no rochedo algumas pinturas e as marcas de seus pés 298. Foi Maíra Monã quem os ensinou também a maneira de cortar o cabelo299.
Maíra irá aparecer como um velho e feio, tendo sido chamado de Maíra-Poxy (poxy= feio, ruim).
Morava numa aldeia e trabalhava como servo de uma família. Nunca voltava da mata sem trazer uma caça ou algo para comer. Certa vez, a filha de seu senhor lhe pediu um alimento e após comê-lo, sentiu que estava grávida. Antes do tempo normal de gravidez, deu à luz um belo menino. O pai da moça ficou irritado e queria saber quem era o pai de seu neto. Foi feito um teste: todos os homens da aldeia deviam se apresentar, levando cada um arco e flecha, para que o menino escolhesse um deles. Mas ele recusou a todos. Lembraram-se então do velho e pediram para que se apresentasse. Imediatamente o menino agarrou seu arco e flecha.
O menino crescia rapidamente e logo se tornou homem. Uma grande seca atingiu a região e ninguém tinha alimentos, exceto na roça daquele velho. Então Maíra Poxy disse à mulher para tomar o filho e ir às aldeias vizinhas, pedindo para que seus moradores fossem até lá conhecer sua roça.
Quando os vizinhos chegaram, com os parentes da mulher, foram até à roça de Maíra. Ficaram surpresos com a quantidade de alimentos que encontraram. Tinham sido orientados para não comer nada enquanto que o velho não chegasse. Mas a maioria não resistiu, comendo os produtos da roça e, por isso, foram transformados em porcos do mato e periquitos. Apenas a moça, seu pai e alguns poucos parentes escaparam deste encanto. Mas, logo depois, foram também castigados, sendo transformados em jacaré, tartaruga,
298
D’ÉVREUX, Viagem ao Norte do Brasil, [c. 1615] (1929, p. 249).
299 “Fazem tonsura no alto da cabeça e deixam ficar em torno uma coroa de cabelos, como um monge.
Perguntei-lhes muitas vezes de onde haviam tirado este penteado, e responderam que seus antepassados o haviam visto em um homem que se chamava Meire Humane [Maíra Monã], e havia feito muitas maravilhas
gafanhoto e outros animais. Desta forma, Maíra se vingou daqueles que o haviam censurado pelo fato de ter engravidado a filha de seu senhor.
Cansado dos homens, decidiu voltar para sua morada, que ficava depois do oceano. Porém, antes de partir, transformou-se num belo jovem.
Seu filho quis segui-lo, mas foi transformado numa pedra, que ficou no mar, impedindo a passagem de outras pessoas para sua casa. Tempos depois, Maíra resolveu devolver a vida ao filho, tornando-o novamente humano e com poder semelhante ao seu, sendo, por isso chamado também Maíra.
Lévi-Strauss encontrou mitos semelhantes no noroeste da América do Norte e no Peru, afirmando que “é impressionante constatar o quão pouco essas distâncias no tempo e no espaço o afetaram”300.
Na mesma tradição tupinambá aparece Maíra-Atá (= Maíra de fogo), que será o pai dos gêmeos, que são figuras importantes na mitologia sul-americana, que aparecem em outros relatos da família tupi-guarani, como entre os Guarani Apapokuva, os Tembé e os Shipaya301.
D’Évreux, ao referir-se a este herói, registrou o nome Maratá de Tupan, que certamente seria Maíra-Atá de Tupã, o que melhor explicará o nome atá, que certamente é uma variante de tatá (= fogo). Tupã, o senhor do trovão e dos raios vai se manifestar através do fogo, e se torna desta maneira uma outra entidade 302.
Para os Kaapor do Maranhão, Maíra tem um papel de destaque, assumindo os atributos do criador303, embora vivesse como um deles, mas realizando grandes coisas e se mostrando sob diversas formas304.
300 História de Lince (1993, p. 49).
301 Ver o mito guarani, recolhido por Nimuendaju junto aos Apapokuva (As lendas da criação e destruição do
mundo, 1987, p. 143-151); para os Shipaya, ver o mito recolhido também por Nimuendaju “Os irmãos” (In: Fragmentos de religião e tradição Sipaia, Religião e sociedade, jun. 1981, v. 7, p. 19).
302 Viagem ao Norte do Brasil, [c. 1615] (1929, p. 248). Os Guarani personificaram este atributo dando o nome de Karaí, entidade muito importante na sua mitologia. Os que participam como auxiliares do culto recebem o nome de Karaí Mirim.
303
RIBEIRO, Darcy. Uirá saí à procura de Deus, 1976, p. 20-25.
304 “Maíra é como os Kaapor, moreno, pinta-se também com jenipapo e urucu, amarra o membro viril e usa
diadema [cocar] de japu como nós. As vezes aparece como Kaapor, depois dá uma volta pela casa e surge todo vestido e grita: ‘eu sou Karaiwa-té [Karaíba-êtê, o branco]’. Torna a rodear a casa, volta como onça e
Sumé
No mesmo mito, depois do dilúvio, aparece outro personagem, Sommay, maneira francesa de grafar Sumé, descendente de Maíra e pai de outras duas figuras importantes: Ariconte (Arikouté), e Tamendonare (Tamanduaré), e que provocarão novo dilúvio 305.
Anchieta fala de Sumé como um personagem diferente de Maíra, afirmando que Sumé era bom e Maíra, ruim306. Talvez tivesse se confundido com o mito dos gêmeos, que vivem em conflito, como foram os filhos de Sumé, pois Tamanduaré era bom e pacífico, e seu irmão, Arikuté, ruim e belicoso.
Métraux acredita que ambos os heróis, Maíra e Sumé, teriam sido um mesmo personagem307 e os relatos acima parecem indicar esta afirmação.
Entre os Tupinambá, a figura de Sumé era lembrada e reverenciada, como tendo deixado suas pegadas em rochas do litoral da Bahia e de São Vicente 308. A Nova Gazeta, escrita por volta de 1514, ao relatar a história das pegadas de Sumé, afirma que os indígenas falam que “ele é o deus pequeno, pois há outro deus que é maior” 309.
305 Quanto a grafia Arikuté, acompanhei NIMUENDAJU (1987, p. 111), pois acredito que houve um erro do copista no texto quinhentista, que trocou o /ou/ por /on/. Optei também pela forma Tamanduaré, seguindo o Pe. Simão de Vasconcelos, que o grafa desta maneira (CCJ, L. 1, n. 75, 1977, p. 80), assim como o Pe. J. MONTEIRO, que o coloca como filho de Tupã (In: HCJB, T. 8, apênd., p. 365). Na cultura brasileira foi conservado o vocábulo Tamandaré.
306 “Também lhes ficou dos antigos notícias de uns dois homens que andavam entre eles, um bom e outro
mau, ao bom chamavam Çumé [Sumé], que deve ser o apóstolo S. Tomé, e este dizem que fazia boas obras, mas não se lembram em particular nada. Em algumas partes se acham pègadas de homens impressas em pedra, máxime em São Vicente, onde no cabo de uma praia, em uma penedia mui rija, em que bate continuamente o mar estão muitas pegadas, como de duas pessoas diferentes, umas maiores, outras menores que parecem frescas como de pés que vinham cheias de areia, mas se verá elas estão impressas na mesma pedra. Estas, é possível que fossem deste Santo Apóstolo e algum discípulo. O outro homem chamava-se Maíra, que dizem que lhes fazia mal e era contrário de Çumé; e por esta causa os que estão em guerra com os Portugueses [os franceses], lhes chamam Maíra” (TH, p. 62)306.
307
A religião dos Tupinambás, 1979, p. 7.
308 Ver a peregrinação a estas pegadas, que existiam próximo à Salvador, feita pelas crianças indígenas do colégio de Jesus, acompanhadas pelos padres, que com cruz e cantos católicos, queriam induzi-las ao culto de São Tomé (Carta ao Pe. Domenech, 5.08.1552, CPJ, v. 1, p. 379-380).
O Pe. Nóbrega afirmava ter ouvido na Bahia que foi Sumé quem ensinou o cultivo da mandioca.310. Da mesma maneira que Maíra, Sumé foi perseguido por seus contemporâneos:
Dizen también que quando dexó estas pisadas yva huyendo de los Indios que le querian flechar, y llegando alli se le abriera el rio, y passara por médio del sin mojar a la outra parte; y de alli fue para la Índia. Ansi mesmo cuentan que quando le querían flechar los Indios, las flechas se bolvían para ellos, y los matos le hazían camino por do passasse 311.
Como os outros heróis civilizadores, Sumé estava muito presente no quotidiano destes povos, não só pelas pegadas, como também nas pinturas rupestres, sendo ainda que. em alguns locais, foi mantida esta lembrança, como é o caso de São Tomé das Letras, o que mostra que esta entidade foi confundida com o apóstolo que foi evangelizar as Índias312.
A memória deste demiurgo era conservada nos nomes dos indígenas, segundo A Nova Gazeta, quando afirma que “na terra [os indígenas] dão freqüentemente aos seus filhos o nome de Tomé” [Sumé]313. Na Paraíba uma cidade conservou o nome na forma tradicional de Sumé.
O povo Juruna, de família lingüística do tronco tupi, vivendo no Mato Grosso, possui
um herói civilizador, filho da onça, chamado Sinaá, que parece ser uma variante de Sumé
314.
310 “Também me contou uma pessoa fidedigna que as raízes de que cá se faz o pão, que S. Thomé as deu, porque cá não tinham pão (Carta ao Pe. Mestre Simão, 15.04.1549, CPJ, v. 1, p. 117).
311 NÓBREGA, Carta aos Padres e Irmãos de Coimbra, [agosto] de 1549. CPJ, v. 1, p. 154. Esta passagem, em que Sumé aparece ameaçado por flechas indígenas, pode remeter ao culto de São Sebastião, tão venerado entre comunidades nativas, sobretudo no Nordeste.
312 Ver referência na nota na página anterior.
313 Nova Gazeta... In: RIBEIRO & MOREIRA NETO, A fundação do Brasil, 1992, p. 113.
314 “Sinaá: Inundação e fim do mundo”. In: VILLAS BOAS, Cláudio e Orlando. Xingu, os índios, seus mitos, 1985, p. 197-211.
1.6.2.2 Entidades
Distintos dos demiurgos, aparecem as entidades, ligadas aos vários elementos da natureza, sendo a principal delas Tupã, o senhor da chuva e do trovão, que será analisado mas à frente, pois foi identificado pelos missionários com o Deus cristão. As demais, como o Curupira, o Baetatá, o Ypupiara ou Yara e o Anhangá, Métraux classifica-as como gênios da mata, pois nela viviam e da qual eram guardiões315.
Curupira
Tem razão Warren Dean ao afirmar que a floresta “é um lugar inóspito para o
homem” e “seus habitantes [os animais] são solitários, fantasmagóricos, e a maioria de seus pássaros é taciturna, de cores moderadas”316.
Por isso, os Tupinambá e os Tupi do Sudeste, estabelecendo-se próximos a regiões de mata fechada, vão se sentir inseguros frente a ela, que se apresentava como um lugar de espíritos aterradores e maléficos, embora não intrinsecamente maus.
Este é o caso do Curupira, erradamente classificado pelos missionários como demônio. Assim o descreve Anchieta:
É conhecido e anda na boca de todos, haver uns demônios que os