Para a professora e coordenadora da CIMI, Rosimeire,
o universo mítico e ritual do Guajajara é muito rico. O sobrenatural esta presente em todos os momentos da vida. O pajé tem um papel muito importante nesta sociedade. Ele é quem faz o contato direto entre o mundo real e o mundo espiritual. Tem a função, basicamente, de curar e celebrar os rituais. Os poderes dos pajés podem ser usados tanto para o bem como para o mal (o feitiço). Dentre os rituais podemos destacar a Festa do Mel, a Festa do Milho, o ritual do Moqueado e a “mesada”. O mais freqüentemente realizado é o ritual da moqueado das meninas, ou seja, a Festa da Menina Moça, que marca a passagem da infância para a vida adulta (Entrevista 12.12.2006).
Da mesma forma que o trabalho para os Guajajara é algo inerente à sua cultura, a festa também se torna um elemento cultural. Os rituais festivos marcaram sua vida ao longo de sua história e continuam marcando e selando seus momentos mais significativos.
Embora a imposição do mercado e das suas leis esteja, em muito, ditando as regras entre os Guajajara contemporâneos (que é uma continuidade da colonização, apenas em outros moldes e com outras categorias), estes povos sabem e têm consciência que, para além das adversidades, eles existem e precisam manter seus rituais festivos, como por exemplo, suas celebrações, suas cerimônias. Neles e através deles se reforçam como povo, memorizam suas lutas e conquistas, mantêm vivas suas tradições, repassam seus conhecimentos, seus mitos, enfim, através de suas constantes festas e de seus contínuos rituais se conservam em existência como grupo.
Tanto a língua como a festa, foram fatores de fundamental importância na preservação, principalmente dos valores e sentidos culturais desses povos, da mesma forma que estes dois elementos contribuíram de forma decisiva para que os povos Guajajara do Pindaré continuassem elaborando e reelaborando seu sentido de pertencimento como povo.
Dentre as diversas e importantes festas que selam os momentos essenciais na sociedade Guajajara, merece destaque a “Festa do Moqueado”30, por sua significação cultural, decisiva em toda a vida Guajajara, tanto individual como do grupo.
Trata-se da festa, precedida do ritual que, atualmente, marca a passagem da puberdade feminina nessa sociedade. Vale ressaltar que os rituais da puberdade feminina continuam sendo um dos mais vivenciados e alicerçados na cultura desses povos. Atribui-se essa importância ao fato de que é a moça que exerce um papel preponderante em toda “a estruturação social, política e econômica da família extensa entre os Guajajara” (CIMI, 1988, p. 57).
Há muitos anos, era o chefe da família extensa31 que organizava a festa para
sua filha. Atualmente juntam-se todas as moças que menstruaram pela primeira vez naquele ano, bem como especificamente na Área Indígena do Pindaré. O ritual de iniciação masculina acontece dentro do ritual de apresentação das moças32, os
enfeites são diferentes, mas a estrutura é a mesma. Dessa forma, atualmente, quem convoca para a festa é o cantor da aldeia que reúne as mães e avós das moças, para planejar o período da festa. Segundo Zannoni (1999) estas mudanças podem
30 Moquear, secar a carne no moquém – grelha de varas – para conservá-la (ZANNONI, 1999, p. 68)
31 Na sociedade Guajajara a família extensa é composta por um número de famílias simples unidas entre si por
laços de parentesco. Esta se constitui pelo casamento realizado entre as filhas do chefe de uma família e parceiros de outras (ZANNONI, 1999, p. 97).
32 O ritual de iniciação masculina, antigamente era realizado cm uma certa periodicidade. Hoje só acontece em
algumas aldeias, em sua maioria distantes umas das outras e de áreas diferentes. Isto, principalmente pelo fato de que a maioria dos cantores que conheciam esse ritual já morreu. Hoje é praticado em algumas aldeias da região de Barra do Corda, Grajaú e da Área Indígena Araribóia (ZANNONI, 1999, p. 75). Para o ritual da iniciação masculina não há datas fixas, antigamente em geral acontecia a cada dois ou três anos. Ademais não existe também um período de reclusão como preparação para o ritual de passagem. Esse ritual masculino prepara o jovem para ser cantor na comunidade, função importante de um adulto Guajajara (ZANNONI, 1999).
ter ocorrido, talvez, porque atualmente quase não existem mais caças nas áreas dos Guajajara, - na festa deve ter carne de caça em abundância para todos - ou porque as festas individuais acarretam em despesas grandes para a aldeia, uma vez que é preciso comprar chumbo e pólvora o suficiente para caçar.
Ao chegar a primeira menstruação, a moça é pintada com suco de jenipapo preto-azulada e entra para a reclusão por um período entre sete a dez dias, em um quarto (divisória de palha improvisada). Várias são as restrições que precisam ser observadas por ela. Essas restrições vão desde regras alimentares - como, por exemplo, não pode comer galinha, pato, galinha d’angola; no primeiro dia “só pode comer farinha de puba sem água e pipoca de milho, no segundo pode comer caranguejo do brejo, no quarto dia pode comer arroz” (ZANNONI, 1999, p. 65), - até posturas do corpo, como por exemplo, permanecer com a cabeça baixa, (para não ficar saliente) ficar deitada na rede com os pés juntos até a hora de dormir, não pode tomar banho, (porque o espírito da água, Iwán, gosta de moça pintada e pode levá- la). Depois do segundo dia pode ser asseada pela avó da cintura para baixo, com água morna, não pode dormir ou ficar só (porque alguém pode vir à noite e querer ter relações sexuais com ela), assim, é acompanhada até para necessidades fisiológicas (ZANNONI, 1999).
O banho no rio ou igarapé marca o término dos dias de reclusão que só deve acontecer quando a pintura do corpo estiver praticamente ausente.
O cantor da comunidade é quem organiza os homens que vão para a mata providenciar a caça – quati e outras - que será servida na cerimônia durante a festa. Esta carne é preparada e conservada no processo do moqueado: a carne é exposta em cima de um jirau onde há uma fumaça constante e intensa. A fumaça, além de desidratar a carne, conserva-a e preserva dos insetos.
A festa do moqueado, em geral acontece no final da estação seca e se inicia “num dia de lua cheia, porque assim se pode enxergar à noite, protege a moça e os cantores, e porque a moça tem que ficar como a lua cheia quando a hora do parto se aproximar” (ZANNONI, 1999, p. 71). No dia da festa, desde a manhã a moça é aprontada pelos parentes mais próximos, em geral pelas avós. É ornada com penas
no corpo e no cabelo; pintada novamente com suco de jenipapo; vestida com uma saia vermelha, que vai da cintura até os pés; é ornada na cabeça com um cocar que foi cuidadosamente preparado, além de ser coberta sua face com penas de xexéu.
Os convidados das outras aldeias ao chegarem próximo à aldeia da festa dão salvas de tiros33como um aviso de sua chegada. O toque do maracá dá o início à festa. Iniciam-se assim os cantos e as danças por toda a noite. Parte do moqueado é consumido durante a festa e a outra parte que é distribuída, a todos os presentes, pela moça somente no final da festa.
Outras festas maiores são cultivadas entre os Guajajara, dentre elas, a “Festa do Mel”, celebrada no período de estiagem e tem sentido de bênção para assegurar a caça (diversas aldeias não mais a celebram); a “Festa do Milho”, realizada na estação chuvosa e tem sentido de benefícios sobre a colheita; a “Festa da Mesada”, oferecida aos espíritos em favor das pessoas - esta festa é para pedir ou agradecer a cura; a “Festa de Maíra”, oferecida em favor das almas dos que não morreram em paz e estão aguardando para ser purificadas - em geral são mortes por acidentes, violência, fome etc. Segundo Zannoni (1999) essas festas em geral duram muitos dias.
Ainda no mito de Maíra existente entre os Tenetehara, tanto no meio dos Guajajara quanto entre os conhecidos como Tembé34, percebe-se a crença no
espírito e o gosto pelas festas entre estes povos.
[...] Perto da casa de Maíra está uma grande aldeia. Seus habitantes vivem magnificamente. Para seu sustento diário necessitam apenas de algumas pequenas frutas semelhantes à cuia; sua plantação não necessita cuidados: ela se planta e se colhe sozinha. [...] Quando envelhecem não morrem, mas tornam-se novamente jovens. Cantam, dançam e celebram festas sem cessar [...]. Uma vez, um grande grupo de Tembé se dirigiu para a terra dos Karuwára apenas para aprender a cantar [...]. Então apareceu um Karuwára para ensinar aos Tembé a cantar [...]. Pintado, enfeitado com penas, chocalho e cetro (Araruwaia) ele subiu ao mais alto galho de um pau-d’arco da aldeia e começou a cantar. Os Tembé [...] limparam o lugar e se reuniram todos em baixo da árvore para aprender o canto. Finalmente o Karuwára subiu novamente para o céu. Antes, porém, deixou cair na terra seus enfeites. Os Tembé pegaram-nos tomando-os por modelo dos enfeites
33 Descarga simultânea de armas de fogo em sinal de regozijo, de festa ou em honra de alguém.
34 Os Tenetehara que migraram do Pindaré aos rios Guamá, Capim e Alto Gurupi entre o Maranhão e o Pará, por
de dança que ainda hoje usam (NIMUENDAJU, 1951, pp. 181-182 apud ZANNONI, 1999, p. 128).
Embora falando dos Tembé o mito é transversal também na cultura Guajajara, pois como foi citado, Guajajara e Tembé são nomes adquiridos regionalmente e se refere aos Tenetehara.
As festas desses povos estão carregadas de significados, e expressam sua experiência vivida na ritualização. Portanto, só se pode apreender a ritualização como algo que passa por uma revisão e ressignificação por parte daqueles que a perpetuam através dos tempos. Por esse caminho entende-se o sentido da festa Guajajara na região do Pindaré.
Fonte: CIMI – MA.
Foto 03: Prédio localizado no Engenho Central. Fonte: Fotógrafo Sebastião Domingos da Silva.
CAPÍTULO III
_______________________________________________
NEGROS E NORDESTINOS
Só é possível estabelecer uma análise dos processos históricos pelo qual passou o povo negro na região do Pindaré se for considerado o conjunto de motivos que desencadeou a fundação do Engenho Central na Região. Da mesma forma, só é possível analisar as constantes festas que ali se desenvolveram, no decorrer dos anos, investigando a presença dos três elementos formadores da cidade: o indígena, o negro e o nordestino.
Este trabalho submete-se à reflexão sobre a construção da identidade da cidade de Pindaré-Mirim, onde a festa popular se destina a cumprir este papel na localidade. Transitar pelos sujeitos históricos que formaram a região não significa dar um caráter étnico-racial à pesquisa, mas se pauta como um cunho de “mestiçagem” entre estes povos, em quem, na intersecção de elementos culturais, a festa se tornou o elemento simbólico que reflete a trajetória em sua epopéia de formação. Na festa na cidade, negros, indígenas e nordestinos, se fundem e se encontram.
Com este cuidado é que analisei os processos que originaram o Engenho Central na região. O marco significou mais que uma empresa ou um grande centro da Companhia Progresso do Maranhão, representou a região, a Companhia, os senhores, os comerciantes, os lavradores, os descendentes Guajajara ainda ali existentes, os negros escravos da redondeza ou alforriados trabalhando assalariados no Engenho. Nesse contexto pode-se presumir que praticamente tudo ali passou a ser visto pela ótica da presença do Engenho.
Apesar de algumas safras de produção de açúcar e de aguardente terem trazido um rendimento notável, as dificuldades para sustentação desse projeto estavam postas desde seu início. Segundo Viveiros,
o Engenho Central São Pedro, começou sua vida com uma avultada dívida. Pesavam-lhe nos ombros enormes compromissos – 594 contos do custo da fábrica, 10 contos da instalação da luz elétrica e 241 da linha férrea, que somavam 845 contos, dos quais pertenciam aos acionistas 447:215$000 e diversos credores 397:785$000 (VIVEIROS, 1954, p. 51).
Dentre as dificuldades que impediram a continuidade do Engenho Central estão o não cumprimento do acordo celebrado entre a Companhia Progresso e
influentes fornecedores de cana, o esgotamento do capital da Companhia gerando exorbitantes dívidas que causaram o leilão da instituição, o aumento das despesas desde a construção da fábrica e o abandono de ações por parte dos investidores.
É de se presumir também que o contexto da época não permitia mais recorrer oficialmente à mão-de-obra escrava para o sustento da indústria canavieira. O Engenho Central não dispunha de recursos financeiros para manter um trabalho assalariado que o novo cenário exigia a partir da emergência de um contingente negro alforriado.
Frente a esses sinais, a situação do Engenho e da Companhia só foi se agravando. Dessa forma, em 1890 os fornecedores de cana se retiraram por completo do empreendimento deixando o Engenho sem matéria prima para operar. A partir deste momento, várias foram as tentativas para salvaguardar e garantir o seu funcionamento, porém sem um resultado satisfatório. Nesse sentido, grupos de investidores se reuniram e criaram outras companhias, dentre elas, a Companhia Cultivadora e a Companhia de Explorações Agrícolas, todas, no entanto, experimentaram a inglória do Engenho Central que não pôde mais se sustentar vindo à falência total.