A temida invasão de produtos brasileiros ao mercado argentino nunca chegou de fato a ocorrer, sendo que a redução no superávit bilateral em favor da Argentina deveu-se muito mais à recessão que atingiu os dois países e diminuiu consideravelmente as importações brasileiras.
Afinal, apesar da desvalorização do real em tese ter gerado vantagens competitivas para os exportadores brasileiros, estes se viram num primeiro momento diante de um cenário completamente imprevisível, já que ninguém era capaz de calcular com exatidão em qual patamar o real iria se estabilizar em relação ao dólar e qual efeito esse novo patamar cambial teria sobre inflação e custos de produção, por exemplo. Além disso, os exportadores brasileiros teriam ainda pela frente dificuldades na obtenção de crédito (com as instituições estrangeiras olhando com ressalva o Brasil), na administração de suas dívidas em dólares e no aumento dos custos para importação de insumos.
De acordo com dados da SECEX, as exportações brasileiras para a Argentina declinaram 20,51% em 1999, totalizando US$ 5,364 bilhões, enquanto as importações recuaram 27,56% para US$ 5,812 bilhões. Em 1999, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresceu apenas 0,9%, de acordo com estimativas da Comissão
Econômica para América Latina e Caribe (CEPAL), após ter registrado expansão de somente 0,2% em 1998 e de 3,1% em 1997. Na Argentina, a economia sofreu retração de 3,4% em 1999, revertendo drasticamente as taxas de crescimento de 3,8% e 8%, vistas em 1998 e 1997, respectivamente.
Para Rozemberg e Svarzman (2002), a não concretização da invasão de produtos brasileiros, apesar da mudança cambial em favor do Brasil, pode ter decorrido da preponderância negativa que o fator renda exerceu sobre o comércio da região no período.
(...) no es menos cierto que la caída en el nivel de actividad que fue afectando no solo a los países socios sino también a las restantes economías da región, actuó como barrera natural para la ‘revelación’ de las esperadas ganancias de competitividad de las empresas brasileñas (ROZEMBERG; SVARZMAN, 2002, p. 38).
A mesma opinião aparece no relatório de 1999 da Comissão Nacional de Comércio Exterior (CNCE) da Argentina. Segundo o documento, a forte alteração nos preços relativos em decorrência da desvalorização do real gerou a expectativa entre os empresários de acentuado incremento nas importações originárias do Brasil, pelo menos num primeiro momento, aliado a uma significativa queda das exportações argentinas para o Brasil.
A CNCE destaca, no entanto, que tal efeito não foi verificado no que se refere às importações originárias do Brasil, nem houve mudança significativa na penetração de produtos brasileiros em segmentos do mercado argentino em que havia grande participação dos importados. No setor de material de transporte, por exemplo, a participação dos importados brasileiros dentro do total de importações argentinas do setor caiu de 38% no período de 1997 a 1998 para 31,3% em 1999 e de 18,4% para 17,3% no segmento de produtos químicos, em igual período comparativo. Outros setores mostraram incrementos discretos ou se mantiveram
praticamente estáveis: máquinas e materiais elétricos, passou de 12,8% para 14,1%; plástico, borracha e suas manufaturas, de 26,1% para 26,9%; têxteis e suas manufaturas, de 32,9% para 33,6%; e madeira, papel e cartão, de 27% para 27,01%.
Este comportamiento estaría sustentando la hipótesis acerca de que el efecto-ingreso tiene un peso mayor que el efecto-precio como generador de comercio entre la Argentina y Brasil. Siguiendo este concepto, la recesión experimentada por la Argentina y el estancamiento de la economía de Brasil predominaron sobre el cambio de precios relativos que a partir de la devaluación se dio a favor de los productos brasileños, induciendo la retracción en el intercambio entre ambos socios comerciales (COMISSÃO NACIONAL DE COMÉRCIO EXTERIOR, 1999, p. 91).
A Comissão advertia, no entanto, que assim que a situação econômica, tanto da Argentina como do Brasil, melhorasse, seria de se esperar que ocorresse uma mudança nas trocas comerciais, com a modificação nos preços relativos ganhando maior importância.
O relatório destaca ainda que essa trajetória de impacto inicial negativo tanto nas importações como nas exportações podia também ser vista em outros países que sofreram overshooting, com tais características negativas não tendo duração menor que um ano na maior parte dos casos. Os países do Sudeste Asiático, por exemplo, apresentaram tal padrão logo após a crise de 1997, com as exportações da Coréia do Sul registrando declínio de 3% em 1998 e as importações, de 35%, mas recuperando-se no ano seguinte, com as exportações crescendo 5,3% e as importações, 25,6%. No caso da Malásia, as vendas externas declinaram 7% em 1997 e as compras no exterior, 26%, para no ano seguinte mostrarem alta de 15,9% e 12,4%, respectivamente.
En cuanto a la paridad cambiaria, al “overshooting” inicial le siguió una lenta apreciación de las monedas locales que redujeron el primer impacto en los precios relativos entre bienes transables y no transables, aunque sin restablecer los niveles anteriores (COMISSÃO NACIONAL DE COMÉRCIO EXTERIOR, 1999, p. 88).
No caso específico de Brasil e Argentina, os dados da SECEX mostram que as exportações brasileiras para a Argentina apresentaram incremento de 16,2% no ano de 2000, enquanto as importações cresceram 17,72%.
Em 2001, a trajetória de crescimento foi interrompida e os números voltam a mostrar variações negativas. Entretanto, a análise nesse período é prejudicada pela crise que atingiu a Argentina, culminando na moratória da dívida externa e no abandono do sistema de conversibilidade, o que gerou fuga de capitais, desconfiança em relação ao sistema bancário, quebra de empresas, confisco de depósitos e uma recessão que consumiu quase vinte por cento do PIB argentino. De acordo com os números da CEPAL, a economia argentina teve retração de 4,4% em 2001 e de 10,8% no ano seguinte. Fatos estes que afetaram o comércio bilateral e estabeleceram novos parâmetros, com as duas moedas (real e peso) mostrando cotações semelhantes em relação ao dólar nos anos seguintes.