Dentro do conjunto de críticas à política externa brasileira, aquelas relacionadas ao pragmatismo, que, como se disse, ora era acusado de ser imoral, ora de não ser pragmático, ganhou destaque o tema das relações entre o Brasil e os países árabes, sobretudo os membros da OPEP. Embora tais críticas se direcionassem principalmente ao governo Geisel, que a implementou, as mesmas seguiram-se na gestão Figueiredo, que deu-lhe continuidade, embora já se percebesse que não havia rendido o esperado16.
O movimento que se chamou na imprensa de “arabização” da política externa começou precisamente após a primeira crise do petróleo, em 1973, e teve como motivação atenuar os efeitos de tal crise no país, cuja matriz energética era fortemente centrada naquele produto, suprido quase totalmente por meio de importações17. Para manter os altos índices de crescimento da economia brasileira, verificados nos anos do milagre econômico, o aumento da oferta de energia era fundamental. Além da manutenção da matriz hidrelétrica, as opções adotadas, no plano energético, pelo governo Geisel, que se recusou a desacelerar o ritmo de crescimento, mesmo em face da crise do petróleo e da alta de juros, foram: a intensificação das relações com os países produtores de petróleo, o incentivo à continuidade do programa do álcool combustível, o aumento da produção interna de petróleo e a opção nuclear, em convênio com os alemães. A segunda e a terceira18 opções só renderam frutos a médio e longo
prazo e, da quarta opção, nunca se colheram frutos.
Por isso, a primeira foi a opção da qual se esperavam resultados mais imediatos. A estratégia brasileira, conforme se comentou em um artigo19, significaria “radicalizar o caráter pragmático da política externa”, reconhecendo que “os grandes princípios que orientam a convivência internacional são importantes, mas (seus) formuladores entendem que eles precisam ceder espaço a posturas diretamente inspiradas pela conjuntura econômica difícil que o país está vivendo”. Tal estratégia se desenvolveria, ainda segundo esse artigo, em três direções, a saber, a orientação dos atos de política externa, inclusive por meio das votações na
16 Cf. dado da CACEX, em 1978 o déficit brasileiro em relação aos países árabes foi de U$ 3,6 bilhões. Publicado pelo OESP, 04/03/1979.
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Cf. dado da FUNCEX, em 1972 o petróleo era responsável por 8,1% na nossa pauta de importações, enquanto que em 1978 passou para 29,9% para atingir, em 1982, 49,3% do total. Citado por Sennes, 2003, p. 90.
18 Cf. Cervo: “Em 1973 o Brasil produzia 9,8 milhões de metros cúbicos de petróleo bruto e importava 37 milhões; em 1985, produzia 31,7 e importava 30,9 m³, além de produzir 8 milhões de m³ de álcool combustível” (1992, op.cit. p.390). Em 2007 a Petrobrás anunciou a auto-suficiência do país em petróleo. 19 OESP, 28/12/1979, artigo de Walder de Góes, “A nova política externa (1) – Pragmatismo conduz a maior
ONU, de acordo com os interesses árabes, o que significava o apoio à causa palestina, com o conseqüente distanciamento em relação a Israel; o aprofundamento dos contatos com os países árabes produtores de petróleo, para conquistar-lhes a confiança; a elevação da importância atribuída às principais embaixadas brasileiras em países árabes, conferindo-lhes caráter geoestratégico semelhante às dos países desenvolvidos, o que se traduziu em aumento da quantidade e qualidade do pessoal a elas designados.
Como exemplo da primeira orientação, temos o voto anti-sionista proferido pelo Brasil na ONU em 1975, atitude esta que rendeu inúmeros comentários ao longo dos anos seguintes. Além disso, desde o início do governo Figueiredo cogitou-se a abertura de um escritório político da OLP (Organização para a Libertação da Palestina) em Brasília, em razão de solicitação feita pelos membros do movimento (eles alegavam que as campanhas sionistas no país estavam crescendo desde sua chegada, e pretendiam combatê-las) (OESP, 29/12/1979). Isto reforçaria o apoio a essa causa e atrairia a simpatia dos árabes. Porém, em 1982, conforme noticiou a Folha de S. Paulo (27/10/1982), a visita do chanceler brasileiro à Arábia Saudita, um dos maiores fornecedores de petróleo ao Brasil, com a intenção de “transformar os sauditas em aliados políticos do Brasil no Oriente Médio”, foi acompanhada de uma “verdadeira sombra”: a decisão do governo brasileiro de não permitir a abertura do escritório da OLP no Brasil. Embora os diplomatas tenham declarado que o ministro justificaria às autoridades daquele país que continuaria estudando o pedido, feito, segundo esse jornal, havia mais de três anos, o que se divulgou aqui foi que alguns setores da sociedade brasileira favoráveis a Tel Aviv haviam combatido tal proposta. Ainda assim, a “posição intermediária” do governo brasileiro de, apesar da proibição, apoiar a causa externamente, não afetaria enormemente a relação com os membros da OLP, visto que os palestinos, mesmo sem o escritório oficial, não sofriam “restrições na ação política que desenvolvem junto aos setores políticos, intelectuais e econômicos do Brasil, na busca de apoio à sua causa”.
Em que pese a realização de várias visitas de delegações de países árabes ao Brasil20, e recíprocas visitas brasileiras, a intenção de reduzir o déficit brasileiro nas relações comerciais com aquele grupo de países não foi muito bem sucedida. Os jornais mais favoráveis ao universalismo sempre noticiavam21, sem criticar, esses eventos e os resultados que se esperava deles, mas, mesmo sem se opor a tal política, registravam suas dificuldades. O Brasil
20 Como, por exemplo, a de uma delegação dos Emirados Árabes, cujo chefe teria dito “Viemos aqui para falar pouco e comprar muito”, CB, 27/09/1980 e GM, 29/09/1980.
21 O J. de Brasília, por exemplo, noticiou que as relações eram “totalmente favoráveis” aos árabes (23/05/1982); A G. Mercantil, focada nos temas econômicos, manifestava simpatia a essas iniciativas como forma de compensar o protecionismo dos desenvolvidos, que sempre criticava.
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aumentou bastante sua pauta de exportações22, que consistia principalmente de alimentos (sobretudo frangos), produtos manufaturados (com destaque para os armamentos) e serviços (como na área de engenharia). No entanto, a necessidade de petróleo era de tal ordem que dificilmente poderia ser compensada23.
Havia também, da parte do Brasil, o interesse em conseguir capital diretamente com os árabes para financiar projetos nacionais, já que as fontes no Primeiro Mundo estavam se restringindo. Nesse sentido, quando da visita de um ministro kuweitiano, se noticiou: “Mais capital de risco e crédito direto ao Brasil são as duas propostas fundamentais que o governo brasileiro tem para fazer ao ministro das Finanças do Kuweit” (GM, 02/10/1980). Eram os chamados petrodólares. No entanto, para a decepção brasileira, os árabes preferiam investir em outras praças, conforme se noticiou24 a respeito da visita de um ministro saudita: “Apesar de não receber investimentos sauditas, que prefere aplicar em países desenvolvidos, o governo brasileiro não tem evitado apoiar as iniciativas sauditas nas questões do Oriente Médio”. E até mesmo jornais simpáticos ao Itamaraty apontavam a frustração (J. Brasília, 04/12/1981): “Essa expectativa se frustrou enormemente. (...) o Brasil deu muito e recebeu pouco. (...). Os sonhados petrodólares foram desviados para os Estados Unidos e a Europa Ocidental (...). A filosofia do lucro (...)falou mais alto”.
Tais fracassos da política inaugurada por Geisel eram duramente criticados pelos jornais da corrente liberal-ocidentalista, como segue:
Em nome do ‘pragmatismo responsável’ nos afastamos progressivamente do Mundo Ocidental: abandonamos a neutralidade no conflito árabe-israelense em favor dos donos do petróleo; condenamos o sionismo, mediante falsa invocação de um princípio moral universal, a condenação do racismo (OESP, 17/05/1981).
No mesmo sentido, afirmou-se, em um editorial (OESP, 13/11/1981), que o pragmatismo brasileiro “no fundo mascara sua dependência do petróleo com bonitas palavras”; em outro (OESP, 15/12/1981), considerou-se muito grave a “volta face no caso de Israel (caracterizada pela votação da resolução contra o sionismo) (...)” (grifo original). Também, em um artigo do Jornal do Brasil (12/08/1979), o advogado e economista J. Renato
22 O Itamaraty, quando da visita do Ministro de Negócios Estrangeiros da Arábia Saudita, mesmo reconhecendo que havia ainda uma grande necessidade de expandir as exportações para a região, divulgou que em 1980 houve uma expansão de 109,1%, enquanto a média das exportações brasileiras havia crescido, no mesmo período, 32,1%. OESP, 09/08/1981.
23 Conforme notícia do J. de Brasília, o Brasil gastou durante os nove primeiros meses de 1980, 77% a mais do que no mesmo período do ano anterior. Publicada em 24/03/1981.
Corrêa Freire ironizou: “A postura anti-sionista, que tinha o único e exclusivo motivo mercadológico de obter arabificados petrodólares, faliu (...) (grifo original)”. O mesmo jornal, em editorial (JB, 04/11/1982), referindo-se ao apoio brasileiro ao plano árabe que resultou da Conferência de Fez, criticou tal decisão como “(...) um indício inquietante de que a diplomacia brasileira continua a perder a sofisticação que a caracteriza em outros terrenos (para não dizer que perde a seriedade e a dignidade) quando sofre a interferência de vapores petrolíferos”. Esse jornal criticava os radicalismos de Israel e dos palestinos e julgava o plano de paz proposto pelos Estados Unidos mais realista e viável que o plano saudita, e, por isso, considerava mais oportuno que o Brasil o apoiasse.
Já correndo o último ano de governo, a crítica se aguçou. Em editorial (JB, 15/01/1984, p. 10) sintomaticamente intitulado “Ladeira Abaixo”, que comentava o discurso do Chanceler Saraiva Guerreiro na Conferência da SELA, o Jornal do Brasil criticou o que chamou de “amontoado de lugares comuns encontradiços nas arengas da liderança dos países comunistas” usados para analisar a conjuntura de então. Conforme se publicou: “Para o Sr. Saraiva Guerreiro, a atual conjuntura mundial assemelha-se a uma vasta conspiração do Ocidente para impedir que os países subdesenvolvidos percam essa condição. O Itamarati desconhece solenemente a brutal elevação dos preços do petróleo, em dois momentos precisos da década passada (...)”. E, após citar as cifras dos milhões despendidos pelo Brasil na importação desse produto, ironizou: “É o caso de pensar-se que na cabeça dos técnicos do Itamarati essa alta há de ter sido provocada pelas empresas ocidentais e não por seus amigos do Terceiro Mundo”.
Nesse mesmo ano, uma notícia (CB, 03/05/1984) registrou uma tendência a mudanças na política para o Oriente Médio. Essa notícia abordava a decisão brasileira de nomear um embaixador para Teerã, capital iraniana, como uma decisão de aprofundar as relações com esse país, tendo em vista que a preferência anteriormente dada ao seu rival na guerra que durou quase uma década, o Iraque, estaria se mostrando um pouco problemática. Isto porque, se de início a guerra favoreceu economicamente a indústria armamentista brasileira, o prolongamento do conflito estaria afetando de tal forma a economia daquele país que começava a comprometer os pagamentos ao Brasil. Por isso, concluía o jornal: “Tudo isso deixa bem claro que o governo brasileiro está promovendo uma reavaliação de posições e parcerias no Oriente Médio”.
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