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Os edifícios hospitalares traduzem, pela concepção do desenho arquitetônico, as diversas funções assistenciais de saúde, tornando-os testemunhas da história da arquitetura e da própria medicina (BITENCOURT, 2007). Da mesma forma, a iluminação dos ambientes hospitalares acompanhou tal evolução histórica, marcada, dentre outras transformações, pelo advento da energia elétrica.

Trabalhos precedentes apresentam dados históricos sobre Arquitetura Hospitalar desde a Antiguidade, razão pela qual se optou por apresentar neste subitem um recorte específico com foco nos aspectos relativos à iluminação natural.

Na Idade Média a imagem dos hospitais estava associada à morte, não à toa, eram chamados de Salle de Mourir3. Não havia preocupação com o conforto ou bem estar do paciente. A relação entre o espaço e saúde retratava a forma como a sociedade da época tratava seus doentes, com pouca esperança de recuperação. As pessoas doentes eram confinadas em ambientes insalubres, com péssimas condições de higiene e escuros. O aquecimento de ar se dava por meio de fornos a carvão ou lareira se as janelas pequenas possibilitavam pouca circulação de ar.A iluminação era natural ou por archotes, que geravam luz e sombra e altos contrastes (COSTI, 2001).

No período gótico, as tipologias eram inspiradas nas catedrais. O arco ogival gótico permitiu a execução de vãos e aberturas mais amplas. No entanto, janelas altas e estreitas

3Do francês “sala de morte” ou “sala para morrer”.

35 se tornavam pequenas em relação à grande dimensão do espaço e paredes espessas que impediam a entrada de luz nos locais mais profundos dos ambientes, proporcionavam baixos níveis de iluminação e elevados contrastes no ambiente (CAVALCANTI, 2002).

Os altos contrastes caracterizam os interiores dos ambientes de saúde até o período renascentista. As sombras geradas pela luz natural conferiam dramaticidade, destacando um período de terror (COSTI, 2001; SILVA, 2000).

Com a Revolução Industrial a sociedade passa a ter uma nova visão do homem e da natureza. Na saúde, essa mudança se reflete na melhoria nas condições sanitárias. A visão do hospital como instrumento terapêutico se materializa, tornando-se local de tratamento das enfermidades (CAMPOS, 2013). Tido inicialmente como local de morte, transforma-se em local de cura e de acúmulo e formação do saber médico, onde a preocupação com a salubridade e o conforto se torna visível, conforme evidencia Focault:

O Hospital tende a se tornar um elemento essencial na tecnologia médica: não apenas um lugar onde se pode curar, mas um instrumento que, em certo número de casos graves, permite curar (FOCAULT, 1979, p. 206)

A consciência de que o hospital pode e deve ser um instrumento destinado a curar aparece claramente em torno de 1780 e é assinalada por uma nova prática: a visita e a observação sistemática e comparada dos hospitais (FOUCAULT, 1979: 99)

O conceito de hospital terapêutico surge no final do século XVIII, ao incorporar a preocupação com os fluxos hospitalares. As pesquisas desenvolvidas por Howard e Tenon estabeleceram, pela primeira vez, a relação entre o espaço, os fluxos e as taxas de mortalidade e de sucesso dos atendimentos hospitalares (TOLEDO, 2006).

A partir dos esforços de Howard e Tenon em levantar e analisar as condições físicas e operacionais de diversos hospitais europeus foram estabelecidas diretrizes projetuais que foram seguidas até pelo menos o início do século XX. Dentre elas, destacam-se as exigências de salubridade ambiental, das necessidades funcionais de suas atividades e da articulação desses espaços por meio de uma circulação, que consolida a tipologia pavilhonar (SILVA, 2000; SAMPAIO, 2005; TOLEDO, 2004).

O hospital pavilhonar se consagra, pela possibilidade em que o pavilhão tem em se configurar como um edifício independente e de laterais livres, permitindo ventilação cruzada e iluminação natural, resolvendo problemas recorrentes de insalubridade, a estagnação do ar e a umidade (MEDEIROS, 2005).

Com o advento da luz elétrica, a iluminação artificial alavancou os hospitais modernos, possibilitando a implantação de programas arquitetônicos mais complexos,

36 modificando o seu caráter. Com uma planta mais livre, os espaços ficaram mais profundos e os tratamentos dos pacientes passaram a ocorrer também no período noturno. Nesse contexto, se consolida na Inglaterra, ao final do século XIX, o modelo pavilhonar na tipologia hospitalar, incorporado aos conceitos de conforto ambiental destacados pela enfermeira italiana Florence Nightingale (COSTI, 2001).

O início do século XIX se caracterizou pela afirmação das preocupações higienistas e dos progressos da medicina (MONTEIRO, 2009). Nesse contexto, o trabalho de Nightingale merece destaque. Na Inglaterra, a enfermeira foi pioneira ao idealizar novos conceitos em enfermarias, valorizando da radiação solar para higienizar e estimular a recuperação dos pacientes. A partir de seus estudos, modificou a configuração de enfermarias, valorizando corredores, de forma a fornecer janelas em ambos os lados da edificação, pois acreditava serem os meios certos para se obter luz natural e sol, compondo a atmosfera necessária para tratar os pacientes (FREIRE, 2004). Dessa forma, propagou a importância da ventilação e principalmente da insolação pela Europa, pois considerava que a luz e o ar puro eram fundamentais nos ambientes hospitalares (COSTI, 2001).

Soluções como a redução do pé-direito para melhor controle da temperatura, leitos dispostos perpendicular às paredes perimetrais e janelas que possibilitaram ventilação cruzada além de sol e luz natural em todo o ambiente foram de grande contribuição para humanização dos ambientes de saúde, uma vez que alteraram as ideias vigentes em relação à qualidade dos interiores (COSTI, 2001).

Ventilação, insolação e higiene também foram consideradas pelo médico alemão Karl Turban, quando, em 1983, a tuberculose matava milhões de pessoas. Amplas janelas envidraçadas com esquadrias, que possibilitavam diferentes formas de abertura, permitiam o controle da luz e ventilação cruzada (COSTI, 2002)

Entretanto, o século XX se caracterizou pela tipologia de monoblocos verticais. Em função da elevação uso do solo, reflexo do adensamento nas cidades, conduziu a arquitetura hospitalar para edifícios compactos. Vale ressaltar que a construção vertical foi facilitada pelos avanços tecnológicos como a estrutura metálica e o surgimento dos elevadores (MIQUELIN, 1992).

O hospital tecnológico, surgido nos anos 1940, caracterizava-se por espaços herméticos, com ar-condicionado e elementos artificiais que dificultam a situação psicológica do paciente, interferindo no ritmo circadiano, tornando-o inóspito e inadequado

37 até para o processo de cura ao aumentar o nível de estresse ambiental dos usuários, em especial de pacientes internados.

A fim de resolver problemas de iluminação em enfermarias, as prateleiras de luz4foram utilizadas em ambientes de saúde pela primeira vez em 1950, no Centro de Diagnóstico Nuffield em Corby, Reino Unido (Figura2.2), com o objetivo de reduzir a claridade intensa nos leitos próximos as janelas e iluminar as áreas mais profundas, reduzindo o contraste claro e escuro que gerava desconforto visual e mantendo a luz direta que trazia calor para o ambiente nos dias frios. Sua utilização também reduzia a contaminação ambiental (COSTI, 2001).

Figura2.2: Desenho esquemático de uma prateleira de luz, sistema de iluminação que impede o ofuscamento

Fonte: Costi (2001) apud Nuffield (1955).

Porém, desde o modernismo, com a internacionalização da arquitetura, os hospitais vêm acompanhando a arquitetura dominante. A tipologia hospitalar ainda não possui um caráter próprio, apropriando-se de diversas tipologias. Para atender as novas demandas, os sistemas de iluminação se tornaram mais artificiais.

Na direção oposta, os projetos elaborados por João Filgueiras Lima (Lelé) para a Rede SARAH se realçam pelos conceitos arquitetônicos que objetivam o conforto ambiental e a eficiência energética, sempre priorizando o modelo horizontal. Neles,

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Prateleiras de luz são dispositivos arquitetônicos utilizados na parte superior de aberturas. Estes elementos são capazes de promover uma melhor distribuição da luz natural ao longo da profundidade dos ambientes, pois contribuem para a uniformização da iluminância no ambiente interno. Seu funcionamento se baseia na captação da radiação luminosa, que é refletida para o teto dos ambientes por planos horizontais ou inclinada, redirecionando a radiação para os espaços mais distantes da abertura.

38 observa-se que orientação solar, aproveitamento da ventilação e iluminação natural, dimensionamento de aberturas (portas e janelas), de proteções solares, escolha de materiais, formas, cores e proporções dos espaços exteriores e interiores foram pensados desde o começo do processo de desenho.

Ao projetar hospitais feitos pra curar, Lelé devolve ao edifício hospitalar a capacidade de contribuir para o processo de cura. Ao projetá-los com essa finalidade resgata um objetivo que surge no final do século XVIII e que não vem sendo enfatizado por boa parte da arquitetura hospitalar contemporânea (TOLEDO, 2004. P.101).

Para Alves (2011a), as obras hospitalares de Lelé seguem requisitos do modelo do hospital contemporâneo, como: flexibilidade, racionalização, contiguidade (expansão e zoneamento), desenvolvimento horizontal e vertical (circulação), flexibilidade estrutural, humanização, conforto ambiental, tecnologia, meio ambiente e assepsia.