A frase nominal, que, por vezes, é fruto da tentativa de apagamento do verbo no texto hugoano, realça ainda mais o uso do substantivo e do adjetivo. Todavia, ela geralmente surge como uma afirmação de algo que já foi dito antes:
Un hiver, l’ouvrage manqua. Pas de feu ni de pain dans le galetas. (HUGO, 1889, p. 157)
Il en résulta ceci. Une vilaine vie. Un monstre en effet. (HUGO, 1889, p. 178)
Nos exemplos acima, percebemos uma frase verbal seguida de frase nominal, sendo esta última uma espécie de ênfase a respeito do que já foi dito. Ela é usada para chamar a atenção do leitor e, ao menos tempo, focalizar o ponto do vista apresentado pelo narrador do texto.
Quanto menor a frase nominal, mais significado ela tem e mais polissêmica ela pode ser, todavia dentro de um contexto demarcado pelo narrador. Pode-se dizer que a frase nominal no texto hugoano seria usada a fim de causar uma perplexidade no leitor. Sendo assim, ela chama a atenção para algo que já foi dito, mas que é dito novamente com mais ênfase, para que o leitor também focalize e compartilhe o mesmo ponto de vista do narrador naquele momento do texto.
Existem muitos outros elementos gramaticais que são utilizados por Victor Hugo de forma singular, porém escolhemos apresentar aqui apenas aqueles que são mais constantes em Claude Gueux. O presente capítulo não teve a pretensão de apresentar todas as características da poética hugoana e muito menos de esgotar este assunto. O que foi apresentado constitui um panorama dos elementos que compõem a poética hugoana e que são recorrentes na leitura atenta do romance Claude Gueux.
Como percebemos, a poética hugoana é consoante ao contexto no qual Hugo estava inserido, refletido assim em seu modo de escrever e também em sua maneira de manejar a língua a serviço da arte literária. O elo entre Linguística Textual e Poética Hugoana se encontra justamente na produção de Hugo: o texto literário. É no texto literário que
percebemos o quanto há de poética propriamente hugoana e é também no texto literário que percebemos o quanto a “materialidade do texto” nos oferece elementos para que o “evento texto”, composto pelos fatores de textualidade, fundamentos da Linguística Textual, se produza.
Poética e Linguística Textual não são aí opostas, mas se complementam. Enquanto uma é capaz de analisar o fazer textual, a outra é capaz de analisar e qualificar a materialidade do fazer textual: o texto. E é nesse intuito que explanaremos o que vem a ser a textualidade no texto hugoano e nas suas traduções de Claude Gueux no Brasil.
CAPÍTULO 2
TEXTURA E RETEXTURA
Sabe-se que o texto é a materialidade que faz parte do evento textual, todavia ele também pode ser
Qualquer expressão de conjunto linguístico numa atividade de comunicação — no âmbito de um ‘jogo de atuação comunicativa’ — tematicamente orientado e preenchendo uma função comunicativa reconhecível, ou seja, realizando um potencial ilocucionário reconhecível (KOCH, 2009a, p.27). Este jogo de atuação comunicativa ao qual Koch se refere e que não diferencia texto de discurso tem o nome de textualidade ou textura:
Textualidade ou textura é o que faz de uma sequência linguística um texto
e não uma sequência ou um amontoado aleatório de frases ou palavras. A sequência é percebida como texto quando aquele que a recebe é capaz de percebê-la como uma unidade significativa global (KOCH; TRAVAGLIA, 2009, p. 26).
Ou seja, a textualidade é o fio condutor do texto. É a responsável pelo universo de significados do texto e por amarrá-los, dando-lhes sentido global. E um texto a ser traduzido tem sua textura própria e um potencial em sua língua fonte, de modo que, cabe ao tradutor “tentar passar” toda essa potencialidade do texto de partida para o texto de chegada, dando aos leitores da tradução “o mesmo” potencial de conhecimento linguístico, conhecimento social e conhecimento de mundo que o evento textual oferece.
A textura de qualquer texto se dá por meio do processo de textualização, conforme podemos ver no quadro abaixo, elaborado por Marcuschi (2008, p. 96):
No primeiro plano temos o autor (produtor), o texto (evento) e o leitor (receptor). No segundo plano temos o texto apresentado sob duas modalidades — a de co-textualidade e a de contextualidade: a primeira referente à operacionalidade do sistema linguístico e suas regras, e a segunda, ao contexto e aos conhecimentos de mundo. Por fim, no terceiro plano, temos os critérios de textualidade separados em dois conjuntos, mas com pontos de intersecção entre eles. Não muito diferente, o mesmo processo acontece ao se traduzir um texto, com algumas nuanças, é claro, mas com o mesmo objetivo de se comunicar por meio da linguagem, especificamente através do texto. Cabe lembrar aqui que no que tange ao texto literário, o objetivo da tradução não se resume apenas a comunicação, mas também visa a provocação de um gozo estético, um prazer afetivo entre texto e leitor, um ato de literatura.
Vale salientar uma observação que Marcuschi (2008, p. 98) faz a respeito do processo de textualização:
Produzimos textos por processos de textualização inadequados quando não conseguimos oferecer condições de acesso a algum sentido, seja por ausência de informações necessárias, ou por ausência de contextualização de dados ou então simplesmente por inobservância de restrições na linearização e violação de relações lógicas ou incompatibilidades informativas.
Assim também acontece com a tradução: às vezes, um bom processo de textualização só alcança meio sentido, mas não a totalidade dele – talvez seja por isso que muitas vezes pode-se criticar que o texto fonte é melhor que o texto alvo, assim como pode-se dizer que o texto alvo é melhor que o texto fonte como no caso das traduções de Poe efetuadas por Baudelaire (COSTA, 2008).
Uma má textualização pode-se dar por diversos motivos, mas principalmente, por falta de contextualização de dados, de não-cumprimento das relações lógicas ou pela contradição de informações. Logicamente, todos estes elementos, no que tange à tradução, estão diretamente ligados à figura do tradutor e à suas competências tradutórias (que segundo Albir (2007) são tecnologias que podem ser aplicadas à tradução ; conhecimento de ambas as culturas das línguas de trabalho, conhecimento relacionado à prática profissional, conhecimentos declarativos sobre tradução, terminologia, competência linguística a ser desenvolvida na(s) língua(s) estrangeira(s), competência linguística prévia na(s) língua(s) estrangeira(s), competência linguística na língua materna, conhecimentos temáticos, competência pragmática e sociolinguística na língua materna, dentre outras).