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3 Metode

5.2 Organisasjonsstruktur

Com outro direcionamento surgem os pensamentos de Walter Benjamin e posteriormente Marshall McLuhan, inclinados ao olhar não dicotômico ou separatista entre os homens e as máquinas.

Benjamin, apesar de ser localizado como expoente da Escola de Frankfurt devido às fortes influências do marxismo, tinha uma postura diferente, viu nos meios de comunicação, principalmente na câmera fotográfica e no cinema, a possibilidade de abertura, de circulação, de apropriação simbólica e também física (espaço-temporal) da arte, da cultura que antes estava restrita a uma elite e a um tipo de apreciação moral. Para Benjamin as reproduções tecnológicas dessas obras de arte implodem toda essa estrutura e esse modelo social hierárquico, enfraquecendo a dicotomia original x cópia,

Página | 40 que centralizou o fluxo simbólico e conseqüentemente organizacional da sociedade moderna, ligada às grandes fontes de saber. A obra perde sua “aura” e circula em ambientes nunca antes imaginados, fora dos museus passa pela visão de pessoas que nunca tiveram contato com uma pintura ou lugares e a grande novidade não está simplesmente no fato do acesso, mais sim no fato de que esse acesso traz novas possibilidades de percepção e relação com a realidade, com a história, com os valores e referenciais, o que conseqüentemente cria novas formas de expressão, de apropriações e organização social, uma nova cultura.

Para ele isto significava o fim da experiência social única (como na modernidade, legitimada pela racionalidade da ciência), o que problematiza todos os pressupostos que organizavam a sociedade iluminista, humanista. A qualquer momento e em qualquer lugar o homem comum poderia apropriar-se da obra.

No período industrial, assim como época da tecnologia digital, as informações chegam até as pessoas, e estas não conhecem (e nem estão voltadas para isso) o caminho que percorreram para chegarem até elas, impedindo a instauração de uma relação de propriedade sobre o valor ou a ação. Benjamin apostava no caráter pedagógico da metrópole e da circulação dos objetos. Sem ter uma origem prévia, não é possível manipular ou discriminar, tudo isso se torna pequeno diante da possibilidade da livre apropriação cognitiva, a classe dita inferior perde os fios que a associavam à materialidade histórica contada pela classe dominante.

Os nossos botecos, as ruas das nossas metrópoles, os nossos escritórios, os nossos quartos decorados, as nossas estações, as nossas fábricas, pareciam nos fechar irremediavelmente. Depois chegou o cinema e com a dinamite dos décimos de segundo fez explodir este mundo parecido a uma prisão; assim nos podemos tranquilamente iniciar aventurosas viagens no meio das suas ruínas. [...] Com o primeiro plano dilatam-se o espaço, com a tomada lenta dilata-se o movimento. [...] Entende-se, assim, como a natureza que fala para a câmara seja distinta daquela que fala para o olho. (BENJAMIN, 1992, p. 104).

O pensamento de McLuhan surge influenciado também por essa mesma linha de pensamento na qual a mídia é vista por um ângulo diferente da manipulação e da sociedade do espetáculo. Ele propõe justamente que os meios de comunicação, assim como as invenções, os objetos não estão ou não são separados da categoria humana, mas que na realidade são extensões do humano (1964). Dessa forma ele acredita no potencial transformador da tecnologia. Ele viu a mídia através da experiência proporcionada pela luz elétrica. “Os efeitos da tecnologia não ocorrem nos níveis das

Página | 41 opiniões e dos conceitos. Eles se manifestam nas relações entre os sentidos e nas estruturas de percepção, sem qualquer resistência” (MCLUHAN, 1979, p. 34). As tecnologias midiáticas condicionam um tipo de mudança nos níveis da percepção mais intrínsecos, como o sistema nervoso central, que passa a fazer conexões impulsionadas por estímulos de diferentes origens, da ordem do inorgânico e do artificial.

Quando articulou o impacto dos meios de comunicação no homem, McLuhan concebeu uma diferença entre meios de comunicação: quentes e frios. Os meios quentes envolvem empaticamente, com envolvimento de sedução na relação; já os meios frios induzem à ação. Ou seja, o meio quente pode estar relacionado às relações de poder, à hierarquia social. E os frios estão associados à eletricidade, porque prolonga mais de um sentido humano e força o homem a preencher o ambiente da troca com informações também, porque ela não fornece um conteúdo específico.

O simples fato de a tecnologia ser parte constituinte dos meios de comunicação a coloca ao lado das análises de mercado, da indústria. Como cita McLuhan, “só percebemos o meio como meio quando está a serviço de uma função” (MCLUHAN, 1979, p. 23). Ou seja, estamos acostumados a pensar os meios enquanto mensagens e não estamos acostumados a pensar a luz elétrica como meio, [...] não percebemos a luz elétrica como meio de comunicação simplesmente porque ela não possui conteúdo (MCLUHAN, 1979, p 23), estamos acostumados à cultura tipográfica.

Diferentemente da informação, a mensagem tem finalidade e conteúdo, depende da delimitação de um público alvo por parte do emissor. “A luz elétrica é informação pura, meio sem mensagem” Então, informação é meio e não mensagem. “O conteúdo de qualquer meio é outro meio, o conteúdo da fala é o pensamento, da escrita é a fala” (MCLUHAN, 1979, p. 12). Se informação é meio, ela é conteúdo de outro meio, como a TV, por exemplo. É como se a informação fosse uma forma de linguagem, um código interface, que permite a interação entre as coisas - a informação é um meio de interação.

No esforço de pensar a mídia sob outra ótica, voltada à experiência sensória, McLuhan acredita que “a mensagem de qualquer meio ou tecnologia é a mudança de escala, cadência ou padrão que esse meio ou tecnologia introduz nas coisas humanas” (MCLUHAN, 1979, p. 22). Ele aposta que a cultura tipográfica conduziu o homem à falta de sensibilidade às formas. “Os meios trazem mudança na psicologia humana, o homem da sociedade letrada e homogeneizada já não é sensível à diversa e descontínua vida das formas” (MCLUHAN, 1979, p. 34). Para McLuhan, a forma atinge o homem antes do

Página | 42 conteúdo, ela é apreendida de uma forma quase que inconsciente, fazendo com que o homem absorva aquele tipo de forma de expressão diferente.

Os meios de comunicação de massa foram pensados como parte da cultura escrita, tipográfica, associada à idéia de autonomia religiosa (quando surge o movimento protestante), participação política (consciência e conhecimento dos fatos e leis), ao individualismo e ao surgimento da opinião pública (quando o jornal aparece como o catalisador das opiniões sociais). Por isso foram vistos como conteúdo na maior parte do tempo. Assim como o livro e a escrita trouxeram leis universais e controle direto do conhecimento, os meios de comunicação eletrônicos também foram pensados como homogeneizantes e instrumentos de controle e de manutenção do poder.

O ambiente criado pela tecnologia gradualmente se constitui como algo inteiramente novo. Tal tipo de ambiente não é passivo, mas representante de processos ativos, permeados pela realidade da luz elétrica. Esta que diferentemente dos efeitos da imprensa trouxe a aceleração do tempo e o encurtamento das distâncias. O mundo moderno foi estruturado pelo alfabeto fonético e todas as implicações que esta forma de expressão trouxe. Com a luz elétrica se criou outro ambiente, outra estrutura social, por exemplo, a possibilidade de jogar uma partida de futebol a noite transforma as antigas regras de lazer.

McLuhan apostava no peso da experiência proporcionada pela simples existência dos meios de comunicação. A simples existência de um ator não humano já altera de fato o tipo de aparelho perceptivo, e não só no que diz respeito às imagens e ao som, mas ao foco em si, o homem não é o centro e não está no comando, outros aspectos também fazem parte, assim como o telescópio do Galileu ou a lente fotográfica.

Se pensarmos a partir do pensamento de Bateson sobre o meio ambiente ou ainda com Wiener sobre os inúmeros códigos de informação, podemos considerar todos os componentes do processo como fontes de vida e influência - lembrando a teoria ator- rede de Bruno Latour (1994), que reconhece a ação de agentes não humanos.

Unindo o pensamento de Benjamin e McLuhan, têm-se uma visão da mídia que contempla sua natureza, sua agência, não a definindo como manipulação, mas colocando-a no fluxo das relações como outro agente qualquer, tentando não tratar nem um lado nem outro de forma majoritária. Aqui parece existir uma boa possibilidade de abertura para se pensar a dinâmica social virtual, abarcada pelo pensamento de Latour. A importante noção de agência é a chave para se pensar a dinâmica social atual. Ao

Página | 43 conceber a rede numa perspectiva ontológica, Latour a aproxima da noção de rizoma desenvolvida por Deleuze e Guattari (2004), que pode trazer outra forma de expressão no fazer científico. Como Latour mesmo coloca no diálogo sobre o término de uma tese, o argumento da teoria ator-rede é um argumento negativo, porque visa a diferença, a difusão de perspectivas e não o foco ou a unicidade. É uma teoria não aplicável, porque se assim for, vai se tornar positiva, estabelecendo os componentes, suas ações e o grande objetivo de se fundir no social, para o “social” (LATOUR, 2006).

Nem sempre a comunicação ou os meios de comunicação foram considerados como fatores preponderantes nas análises sociais. Somente na época da Segunda Guerra Mundial que se começa a pensar na mídia e em seu efeito social. Segundo Abruzzese (2007), “o grande erro da sociologia foi analisar o ator social separado do ator midiático”. Enquanto categoria sociológica, a mudança social sempre aconteceu a partir da vontade do homem, da vontade política, da troca simbólica entre diferentes classes, da reorganização de uma regra ou instituição, ou ainda baseada na funcionalidade do conflito, o que sublimou a comunicação ao campo da significação lingüística, como se fosse apenas um recurso humano para garantir a convivência.

Muniz Sodré (2006) reconhece que o campo da comunicação sempre esteve como parasita das outras disciplinas, sociologia, antropologia, filosofia, psicologia, significando competência ou habilidade humana. Ao mesmo tempo ele percebe que essa ligação com as ciências sociais firmou a crítica as relações mediadas, como se para a sociologia não houvesse mediação nas relações, como se elas se estabelecessem de forma direta. Ao olhar para a metrópole do século XIX não se vê relações “diretas”, a interação cara-a-cara com certeza se apóia numa elaboração institucional, cultural, mental para acontecer, a exemplo da hermenêutica, ou seja, a experiência social é sempre mediada por diversos componentes. O problema todo está na consideração desses componentes que para a sociologia clássica sempre foram os homens (no sentido humanista, iluminista, do antropocentrismo), mesmo que representados pelas instituições econômicas ou pela cultura. Para as teorias da comunicação também, porque viam os meios como instrumento do homem, independente da visão ser apocalíptica ou integrada.

De uma forma geral o sentido dado à comunicação foi explicitado como:

[...] tudo aquilo que se estudou no passado sob o rótulo de formação de consciência, de processos doutrinários, de trabalho ideológico, em suma, de interferência no pensamento, na ação e na energia de atuação, voltada para a obtenção de vantagens e poderes políticos, sociais, religiosos e culturais, foi sempre assunto da comunicação, desse campo de acesso às mentes, de sua persuasão e sedução, em suma, do

Página | 44 convencimento dos homens para fins de dominação. (MARCONDES FILHO, 2005, p. 57)

A conceituação das análises dos meios de comunicação pela perspectiva da dicotomia criada por Eco em 1964, a dos “apocalípticos” e “integrados” - pode ser limitadora no que diz respeito à definição da tecnologia como instrumento, pois mantém a separação cartesiana entre sujeito x objeto.

Como já referido, muitos autores questionam tal dicotomia (MIRANDA, 1988, 1998, 2002; PERNIOLA, 2000, 2005; SANTAELLA, 2004; ABRUZZESE, 2005, 2006; DI FELICE, 2005;). Para eles, essa separação deve ser superada, já que o homem sempre esteve ligado aos objetos, e a relação homem-objeto constitui um ecossistema (BATESON, 1987) no qual, diversos agenciamentos ocorrem entre tempo presente, passado, futuro, homens e coisas.