MANZONI, Alexandre. Os noivos. São Paulo: Edições Paulinas. Col. “Os grandes romances do cristianismo”, 1957. 382 páginas.
Em 1957 é a vez das Edições Paulinas lançar mais uma tradução de I Promessi
Sposi, quinto livro da coleção “Os grandes romances do cristianismo”, que conta ainda
com Quo vadis?, de Henryk Sienkienwicz, Ricardo Coração de Leão, de Walter Scott,
Fabíola, do Cardeal Nicholas Wiseman, O Mártir do Gólgota, de Henrique Perez
Escrich, A cabana do pai Tomás, de Harriet Beecher Stowe, Sem família, de Hector Malot, e Ben-Hur, de Lewis Wallace. Não se encontra nesta edição qualquer crédito ao tradutor, mas desse assunto nos ocuparemos adiante.
A capa dessa publicação já é por si só um elemento paratextual bastante significativo, pois traz uma pintura que representa uma das passagens do romance. Nela está representada Lucia (a tiara de prata não deixa dúvidas) aos prantos; logo atrás, um senhor calvo em atitude de complacência: trata-se do Inominado. Completa a cena — já na quarta capa — uma terceira personagem, uma mulher bastante idosa que observa as outras duas figuras humanas, representando assim uma passagem do capítulo XXI do romance de Manzoni. Se Os Noivos é um dos grandes romances do cristianismo, a crise religiosa e posterior conversão do Inominado é o episódio que merece figurar em primeiro plano nessa proposta editorial. A pintura ocupa os dois terços superiores da capa, tendo o terço de baixo um fundo verde e em fontes brancas o nome do autor, “ALEXANDRE MANZONI”, da obra, “OS NOIVOS” e da editora, “EDIÇÕES PAULINAS”. A mesma proporção se observa na quarta capa, na qual a parte destinada a informações escritas traz o elenco dos oito romances da coleção. Por fim, a lombada, enquanto extensão das capas, identifica sobre o fundo verde com letras brancas e pequenas o autor “A. MANZONI”, o nome do romance “OS NOIVOS” e o logotipo da editora.
As páginas de guarda e de rosto trazem poucas e já sabidas informações. Aquela informa que o volume que se tem em mãos é o número “5” da coleção “OS GRANDES ROMANCES DO CRISTIANISMO”; já a página de rosto redunda as informações contidas na capa. Uma última informação encontra-se às costas da página de rosto e dizem respeito ao local de data de impressão.
A edição da Paulinas não traz uma tradução completa do romance de Manzoni. De todas as omissões, destaquemos as mais macroscópicas, como a ausência da transcrição do manuscrito supostamente encontrado por Manzoni, ou abreviação da passagem mais conhecida como “Addio, monti”, localizada no fim do capítulo VIII, na qual que Lúcia dá adeus à terra natal. Praticamente a segunda metade do capítulo seguinte, que inicia a narração da história da vida da “senhora” (o nome Gertrude não aparece) é suprimida, e este acaba com o parágrafo que no original encerra o capítulo X, totalmente suprimido na tradução, mas não sem uma advertência ao leitor, a qual reproduzimos tel quel:
CAPÍTULO X
Chegando a este ponto, a autor procede ao relato pormenorizado dos fatos que precederam o ingresso da “senhora” em convento. Esta história recorda lamentáveis imposturas e embustes que os pais da mocinha empregaram para que ela se formasse monja, contra sua própria vontade. O motivo desta execrível atitude era a preocupação — aliás comum na quase totalidade das famílias nobres daquele tempo — de conservar para o primogênito todo o patrimônio familiar. Não falta, pois, às famílias ricas daquele período da história, uma nota infamante e bem detestável: o desrespeito da liberdade dos filhos! Conhecendo que a “senhora” foi forçada a ingressar na vida conventual sem ter para isso aptidão alguma, não será difícil ao leitor chegar a desculpar-lhe o comportamento deselegante e, às vezes, até vergonhoso e criminoso. Esta história minuciosa e de somenos importância, nós a omitimos, para facultar aos leitores possam proceder mais expeditamente na narração. (sic) (1957, p. 114)
O trecho, em certa medida, integra mais o paratexto do que a exegese, pois deste podemos observar ao menos dois aspectos. O primeiro é o de funcionar como uma espécie de “instrução de leitura”, condicionando o leitor a interpretar as ações da senhora como consequências de sua vida pregressa, antecipando-se e preenchendo um espaço vazio que caberia ao leitor completar ou não. O segundo é, grosso modo, ideológico, e explicaria a motivação de tal omissão, porque a descrições contidas nesse capítulo, que incluem até um homicídio, não se adequariam ao “perfil” (GENETTE, 2009. p. 26) da Coleção “Grandes romances do cristianismo”.
As elisões prosseguem e o mesmo procedimento é usado para os capítulos XII e XIII:
CAPÍTULO XII — XIII
Durante todo o dia Renzo seguiu a multidão sublevada, que assaltou e destruiu vários fornos, queimando alguns instrumentos de padaria como: amassadeiras, peneiras, etc. À tarde assediou a casa de provisão do vigário para prendê-lo e assassiná-lo, crendo fosse ele o único responsável pela carestia. A tragédia atenuou-se com a chegada do grande chanceler Antônio Ferrer.
Renzo, que em seu coração condenava toda violência, juntamente com alguns momentos de boa vontade ajudou a dividir a multidão para dar passagem à carroça que conduzia o magistrado a fim de que este pudesse chegar ao palácio do vigário e o tomasse consigo conduzindo- o a salvo. (MANZONI, 1957. p. 129)
Até o presente momento podemos afirmar que existe certo padrão nas traduções brasileiras quando se trata de elipsar trechos do romance de Manzoni, mas a edição da Paulinas, neste ponto, faz algo sem precedentes. Se a intenção da coleção é exaltar as virtudes dos cristãos, perde-se uma grande oportunidade de fazê-lo, pois tais capítulos representam o inicio do bildungsroman de Renzo (MARCHESE, 1987. p. 111), etapa fundamental da viagem iniciática da personagem rumo ao amadurecimento espiritual e intelectual.
Mas nem todas as elisões estão assinaladas. O primeiro parágrafo do capítulo XIV, que descreve a dispersão do tumulto, desaparece sem deixar rastros. Já no XXII, um parágrafo antes de o próprio narrador anuir que se saltem as páginas que descrevem a vida do Cardeal Frederico Borromeu, a edição da Paulinas o faz sem cerimônias, e três quartos do capítulo não estão disponíveis ao leitor.
Porém nada na presente edição se compara à decisão contida nos dois últimos parágrafos do capítulo XXVII:
O autor chegando a esse ponto, passa a relatar minuciosamente acontecimentos que se referem à carestia no ducado de Milão, à guerra de sucessão no ducado de Mântova e afinal descreve a peste levada a Milão pelo exército alemão.
Mas a descrição minuciosa desses acontecimentos, tão distantes no tempo e tão diferentes nos costumes, quase de nada aproveita ou interessa a um leitor hodierno. Portanto, omitimo-la para retomá-la novamente no momento em que, de novo, entram em cena as personagens do romance, o que sucede quando a peste, depois de, tão furiosamente, ter feito desaparecer a metade da população, estava prestes a terminar. (Caps. XXVIII, XXIX, XXX, XXXI e XXXII). (MANZONI, 1957. p. 296)
Cinco capítulos são descartados em bloco porque considerados dispensáveis, nada acrescentando a um romance que deveria apenas contar a história dos noivos e outras personagens, como Dom Abúndio, Perpétua, padre Cristóvão, Doutor Chicana (Azzecca-garbugli), Griso, Tônio, Egídio, Gavião (Nibbio), Inominado, Dom Ferrante, Dona Praxedes. Mas depois desse grande salto, a tradução procede sem percalços até o fim.
Sobre essa edição, Luigi Castagnola levanta uma das questões mais importantes: “O leitor gostaria de conhecer o nome de quem fez a tradução de uma obra tão famosa e importante” (CASTAGNOLA, 1985. p. 50). Para Aurora Fornoni Bernardini, no prefácio à tradução de Francisco Degani, em 2012, trata-se de uma tradução anônima (p. 12). O que sucede, na verdade, é que as Edições Paulinas se utilizaram de uma tradução portuguesa, a de José Dentinho, como bem se pode confirmar observando, por exemplo, a tradução de I Promessi Sposi (Os Noivos) da editora lisboeta Inquérito (coleção “Centáuro”), datada de 1940. Sobre a tradução de Dentinho é necessário ainda esclarecer mais dois pontos. O primeiro é que o tradutor omitido pela Paulinas verteu todo o romance para o português, incluindo o manuscrito supostamente encontrado por Manzoni. Os recortes são, portanto, responsabilidade da editora brasileira. O segundo ponto é que, para o padre Francesco Spartaco Ciccotti, no 42º boletim de seu Instituto
Brasileiro Estudos Manzonianos, essa tradução muito provavelmente deriva da ventisettana (1996, p. 2). Informações, ademais, sonegadas pela Paulinas.