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MANZONI, Alexandre. Os Noivos: História Milanesa do Século XVII Descoberta e refundida por Alexandre Manzoni. Petrópolis: Vozes, 1951. Tradução de Luís Leal Ferreira. 525 páginas.

Em 1951 a editora petropolitana Vozes lança mais uma tradução de I Promessi

Sposi, com a tradução de Luís Leal Ferreira.

Trata-se de uma edição modesta se comparada às anteriores, algumas decididamente luxuosas; de feitio mais simples até do que o livro publicado pela Pongetti. As capas foram fabricadas com uma cartolina de cor clara pouco mais densa que as folhas que compõem o miolo. Na quarta capa, a exemplo do que já haviam feito os Pongetti, encontra-se uma relação de romances e contos publicados pela editora Vozes, os quais podiam ser encomendados pelos correios. Mas ao contrário da editora que publicou a tradução de Guaspari, esta edição de Os Noivos não integrava nenhuma coleção temática. Naquele período, a Vozes tinha em seu catálogo obras como Abel e

Caim, do padre François Dubois, A família Moraes Gomes, de Ancilla Domini, ou Da Islândia, de Jón Svensson. Já a lacônica lombada traz, escritas em marrom, o

sobrenome do autor, “MANZONI”, e o título, “OS NOIVOS” na parte superior e na inferior, o nome da editora “Vozes”. A capa porta além do nome completo do autor no alto, “Alexandre Manzoni”, grafado em letras marrons, o título do romance e o nome da editora ao pé da capa em versalete impressos na cor verde, e uma ilustração em cor marrom das linhas de duas mãos que se apertam, enredadas por uma fita, tendo ao fundo duas alianças encadeadas sob uma cruz, simbolizando — o que parece bem evidente — a união matrimonial sob as bênçãos da religião cristã. Esta edição é a primeira a trazer orelhas, embora em branco, o que para Genette é um sinal de distinção, já que “uma orelha muda, como todo ato de desperdício, é uma marca de prestígio” (GENETTE, 2009, p. 30).

A página de rosto traz novas e importantes informações. Logo abaixo do título, “OS NOIVOS”, localizado na parte superior, reaparece, após as traduções de Guaspari e Polilo, o subtítulo, “História Milanesa do Século XVII Descoberta e refundida por ALEXANDRE MANZONI”. Sobre as costumeiras elisões de subtítulos, que geralmente desaparecem com o tempo, dando lugar a formas mais simples de identificação, Genette afirma que

A forma mais simples dessa mudança é o eventual esquecimento do subtítulo. Esquecimento aliás seletivo e de intensidade variável. (...) os editores contribuem, às vezes de maneira deplorável, para esse esquecimento, pois em muitas edições modernas, mesmo eruditas, os subtítulos desaparecem da capa, inclusive da página de rosto. (GENETTE, 2009. p. 68)

Fato é que a tradução de Ferreira é a primeira das traduções por nós observadas que respeitou e verteu em sua integralidade o subtítulo manzoniano. Antes dessa edição ele fora ou vertido parcialmente (e com equívoco), ou simplesmente suprimido. E o respeito ao subtítulo é um indício de uma postura que se reflete em todo esse trabalho de tradução, como veremos neste subcapítulo.

A página de rosto contém ainda o brasão da editora, o ano da edição, “1951”, seguido das informações legais, bem como dos endereços da empresa, “EDITORA VOZES LTDA. — PETRÓPOLIS, R. J. — RIO DE JANEIRO — SÃO PAULO”,

localizados no pé da página. Deixamos por último a descrição de algumas informações localizadas no centro da página, às quais nos debruçaremos mais atentamente. Lê-se que esse romance é uma “Tradução direta do original, com respeito do estilo, por LUÍS LEAL FERREIRA”, informações que no mínimo dialogam e fazem referência às suspeitas de que algumas das traduções anteriores não teriam partido do italiano, bem como tenham deturpado a escrita manzoniana a partir de procedimentos vários (infidelidades, cortes, inversões). Obra de seu tradutor, cujo nome aparece pela primeira (e única) vez no paratexto do romance. Observemos mais de perto o trabalho de Ferreira.

Como esclarecido anteriormente, não é escopo desse trabalho arbitrar sobre as qualidades ou defeitos das traduções, sobre técnicas e conceitos de tradução. Por isso, deixemos falar o próprio Ferreira que assim descreveu seu trabalho em carta escrita no ano de 1961 para o professor Luigi Castagnola:

[Uma tradução] de fio a pavio, que reproduz com exatidão o original e pode oferecer ideia assaz aproximada deste. E justamente pelo respeito que tenho à forma, na produção literária, foi que declarei a minha tradução “com respeito de estilo”. Por outro lado, dizendo-a “direta do original”, quis dar a entender que não era feita de outra língua. (...)

Empreend[i], não sem relutância, a tradução de I Promessi Sposi, do imortal Manzoni. Com relutância justamente por se tratar de uma obra

clássica, de fama mundial, e cujo original eu já possuía, comprado no Recife, onde estudei, e de onde saí no fim de 1913.

Em todo caso, homem pobre, com pesados encargos de família, lutando duramente pela vida, acabei aceitando a incumbência, de que aquele religioso [Frei Tomás Bogmeier, diretor da editora Vozes] me dizia inteiramente capaz... Devo dizer-lhe que, se me perguntarem o que penso de minhas traduções, tenho apenas a dizer o seguinte: que procuro ser decente nos meus trabalhos e fiel na tradução. Por princípio, só faço traduções literais, porque tenho sumo respeito aos autores, tanto no tocante ao seu pensamento como no tocante ao modo e às próprias palavras com que o exprimiram. Fundo e forma. Não me concedo senão a liberdade mínima que se faz de mister para que a tradução seja aceitável na língua para a qual é feita. Fidelidade a mais estrita possível tanto no fundo como na forma, elegância, correção e clareza na língua para que se traduz, eis os princípios que norteiam meus modestos trabalhos... Eu gostaria muito de fazer uma tradução definitiva de I Promessi Sposi, ou seja, a que fiz, escoimada dos defeitos... Em todo caso, o livro de Manzoni já tem realmente no Brasil uma tradução completa, de fio a pavio, que, mesmo com defeitos, reproduz com exatidão o original e pode oferecer ideia aproximada deste. (CASTAGNOLA, 1985. pp. 51-52)

Norteado por esses princípios, Luís Leal Ferreira oferece aos leitores brasileiros uma tradução completa do romance Manzoniano, desde o manuscrito supostamente encontrado, até o trigésimo oitavo capítulo do laborioso casamento entre Renzo e Luzia que, não obstante os obstáculos impostos por Dom Rodrigo, Dom Abbondio, Azzecca- Garbugli (em nota de rodapé o tradutor explica que esse nome em italiano quer dizer “Arranja-Encrencas”), Gertrudes, Nibbio e o Inominado, por exemplo, levam a termo o firme propósito de se unirem em matrimônio graças também à ajuda das personagens positivas. Não há sequer um pormenor da narrativa que tenha sido ignorado por Ferreira, pois diferentemente do que fizeram Guaspari ou Polilo, as descrições da guerra, da peste, da carestia, das gride, da vida do Cardeal, encontram-se intactas.

Depois dessa edição, a Editora Vozes reeditaria sua tradução somente em 1989, a única completa lançada nesse período de quase quarenta anos, como veremos nesse capítulo. A segunda edição, além da tradução integral de Ferreira, conta agora com um paratexto bastante rico, como veremos a seguir.

A capa é composta por uma pintura que, aparentemente, foi feita ad hoc para essa segunda edição. Ilustração de uma paisagem lacustre na qual se vê uma fortificação à direita e montanhas nevadas ao fundo. Duas figuras humanas integram o cenário,

sendo uma jovem à margem esquerda do lago, que parece acenar para um barqueiro remando no meio das águas calmas. Imagem que, na sua composição, remonta ao clima da situação inicial do romance, no qual pobres camponeses viviam sossegadamente à beira do lago de Como. Lê-se claramente na assinatura o nome do autor da pintura, André Esch (informação confirmada pela quarta capa), que realizou para essa mesma editora um trabalho que ilustra várias publicações do filósofo Jean-Paul Sartre. Completam a porta de entrada do livro informações que não se encontravam na primeira edição. Além do título da obra, “OS NOIVOS”, localizada na parte superior, logo abaixo se lê, entre aspas, o título original em italiano, “I Promessi Sposi”. A seguir o nome do autor que, ao contrário da edição publicada quatro décadas antes, não é aportuguesado: “ALESSANDRO MANZONI”. Por fim, no pé direito da capa, uma definição quanto ao gênero dessa obra literária, “Romance”, bem ao lado do símbolo da editora. Sobre tal decisão, Genette postula que

(...) a indicação genérica é um anexo ao título, mais ou menos facultativa e mais ou menos autônoma, conforme as épocas ou os gêneros, e por definição temática, pois se destina a dar a conhecer o estatuto genérico intencional da obra que segue. Esse estatuto é oficial, no sentido de que é aquele que o autor e o editor querem atribuir ao texto e de que nenhum leitor pode legitimamente ignorar ou negligenciar essa atribuição, mesmo que não se considere obrigado a aprová-la. (GENETTE, 2009. p. 88).

Nesse sentido, a indicação de gênero converte-se numa espécie de instrução de leitura, a qual “é visível demais para ser percebida” (Idem, quarta capa), mas impediria, por exemplo, considerar como mera digressão histórica, alheia à trama, as primeiras páginas do capítulo XXVIII ou outros trechos em que Manzoni põe a história a serviço de sua ficção.

Já a lombada recebeu um novo investimento. Ainda que sua função de indicar nome da obra, “OS NOIVOS” e autor, “ALESSANDRO MANZONI” seja mantida, o faz com uma fonte em cor branca bem grande, ocupando a quase totalidade da superfície cinza, podendo assim ser vista e identificada à distância, ainda que a posição privilegiada para leitura seja a horizontal. Completando essa instância paratextual, tem- se o logotipo da editora.

Na quarta capa também comparecem elementos paratextuais que receberam grande investimento no sentido de promover o interesse pelos predicados artísticos do romance. São os “Pareceres sobre o romance ‘Os Noivos’” de autoria de grandes nomes da intelectualidade ocidental. Trata-se de um excerto do ensaio usado à guisa de prefácio ao livro, do qual trataremos mais tarde, no qual Castagnola elenca as opiniões de 14 grandes nomes sobre I Promessi Sposi, mas na quarta capa se lê as opiniões de alguns desses, a saber, Goethe, Chateaubriand, Comte, Lamartine, Poe, Rosmini, De Sanctis, Carducci, Momigliano e Giacomo Devoto. Esse panteão descreve o romance como inigualável, à frente de seu tempo, maravilhoso, ideal, de uma atualidade sempre renovada. Sentenças que se constituem num verdadeiro blurb paratextual (Idem, p. 106). Ao pé da página informações mais “práticas”, como o logotipo e o nome da editora, o ISBN (International Standard Book Number), o código de barras e o devido crédito ao ilustrador da capa, André Esch.

Outra novidade desta segunda edição são as duas orelhas, nas quais encontram- se a rápida apresentação assinada por Antonio Angonese (sem maiores informações deste), que descreve brevemente a vida e as obras de Manzoni antes da experiência romanesca, alude ao ensaio de Castagnola que antecede à narrativa e pondera de forma pertinente as discussões linguísticas, religiosas e históricas que permeiam as discussões críticas sobre I Promessi Sposi. Já a página de rosto contém pouquíssimas mudanças em relação àquela de 1951, quais sejam, a grafia italiana do prenome do autor, “Alessandro”, e a informação de que se trata da “2ª Edição”; além de, naturalmente, o ano de impressão: 1989 e 1990. Às costas da página de rosto encontram-se mais informações legais sobre a edição, como o copyright “© 1951 e 1989, Editora Vozes Ltda.” e seu endereço na cidade de Petrópolis. O autor do copidesque, “Walter Hugo de Almeida” e do diagramador, “Daniel Sant’Anna”. Por fim, novamente o ISBN do livro.

Um ensaio do professor Luigi Castagnola intitulado “Trajetória existencial e Literária de Alessandro Manzoni, o Autor de ‘Os Noivos’”, trabalho que já havia sido publicado em 1973 no livro Vida e Obra de Alessandro Manzoni, coletâneas de artigos realizada pelo Ministério da Educação e Cultura, e também para o Centro Cultural Ítalo- Brasileiro Dante Alighieri de Curitiba, no mesmo ano, funciona como um prefácio, mas do conteúdo deste ensaio nos ocuparemos no capítulo III deste trabalho.