5. Makroøkonomiske perspektiver
5.3 Endringer i økonomien
Resquícios da escravidão negra deixaram marcas profundas que refletem ate hoje nos descendentes desse grupo, marcado pela sua cor e posição. Foram aproximadamente 300 anos de escravidão no Brasil caracterizada pelo tráfico de mulheres e homens negros retirados à
força das várias regiões da África. A escravidão no Brasil15 estava vinculada a mão de obra do negro, neste quesito, independia de gênero ou de idade, praticamente todo o trabalho realizado na colônia era advindo dos braços de homens e mulheres negros.
Esse modo de trabalho era justificado por uma ideologia pautada na visão de que alguns homens são naturalmente inferiores que outros. Tal visão era amplamente divulgada e reforçada pela igreja, pelos pesquisadores da época. Frações da sociedade que ditavam (e ainda ditam) as regras para o social. Para o historiador francês Olivier Pétré-Grenouilleau (2009), autor que discute a História da Escravidão desde os seus primórdios, é com a afirmação de “inferioridade natural” que se justifica o direito de um grupo da sociedade dominar física e mentalmente outro grupo utilizando o fator cor de pele, ou seja, “o direito de mantê-los numa posição social de dominação” (2009, p.33). Esquecendo que a natureza não define o direito.
A inferioridade natural afirmada e reforçada pela a ideia de que o povo negro era descendente de Cam16 retirada dos textos sagrados cristãos (Bíblia), além da noção de que o escravo era um ser estranho, ou seja, não dividia os costumes e as práticas da região onde eram escravizados, foram justificativas encontradas pela fração dominante para instaurar o regime escravocrata. A condição do sujeito escravizado era dúbia, pois ao mesmo tempo em que era valor, no sentido econômico e financeiro, também não tinha valor, no sentido pessoal e espiritual. Essa noção vinculada aos escravizados se relaciona diretamente ao racismo.
De acordo com Pétré-Grenouilleau (2009) o racismo pode ser visto e sentido de duas formas: uma associada à cor da pele, como no caso do Brasil, e outra associada à cultura, onde o tom de pele tem um peso menor, como no caso dos Estados Unidos. Vamos nos deter um pouco mais sobre a primeira forma. Como a escravidão brasileira foi marcada pelo comércio de escravos negros, praticamente todos os que tinham a cor da pele escura eram
15Durante o período colonial no Brasil, além da mão de obra negra, também foi escravizado o indígena,
especialmente na região nordeste do país. O uso de mão de obra indígena foi contestado pelos jesuítas, e no ano de 1757 foi oficialmente proibida. Ver: CARNEIRO DA CUNHA, Manuela. História dos índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. FERNANDES, Florestan. A investigação etnológica no Brasil e outros ensaios. Petrópolis: Vozes, 1975. MONTEIRO, John M.; AZEVEDO, F. L. N. (org.). Raízes da América Latina. São Paulo: Expressão e Cultura, 1996.
16A justificativa adotada pela Igreja para a escravidão negra pautava-se nos textos sagrados presentes na Bíblia,
em especial a Maldição de Cam. Em Gêneses, capítulo 9, versículos de 18-29, narra à história de Noé, o lavrador ao se embriagar de vinho fica nu. Seus filhos, Sem e Jafé procuram cobrir seu corpo, enquanto que Cam, seu filho mais novo vê a sua nudez e começa a rir, ao acordar, Noé descobre o que o filho caçula fez e lança uma maldição; “Maldito seja Canaã! Que seja para seus irmãos o escravo dos escravos”. Cam é banido para a região onde está localizada a África, justificando assim a procura por escravos advindos dessa região. Ver também: SILVA, Elizete. Visões protestantes sobre a escravidão. Revista de Estudos da Religião. n°1, 2003. Disponível em http://www.pucsp.br/rever/rv1_2003/p_silva.pdf. Acesso em 08.03.2017. DUNCAN, Quincin. Racismo, Igreja e Teologia. Identidade Negra e Religião. Rio de Janeiro. CEDI. Liberdade, 1986
relacionados a escravos. À medida que as transformações aconteciam na economia, como a proibição do tráfico negreiro em 1850, advindo de pressões internas e externas no país ate chegar à abolição em 1888, prevalecia a noção de que todo negro era escravo e aqueles cuja pele tornava-se mais clara, por meio da miscigenação, ainda estavam vinculados à escravidão. Era, portanto, uma “mácula”.
A miscigenação17 caracteriza-se pelo clareamento da pele por meio da união entre pessoas de diferentes raças, que gerava indivíduos mestiços, que não tinham a pele alva, mas também não tinha a pele escura. Esse processo tem impacto negativo para a realidade brasileira, pois esconde, omite e naturaliza a discriminação contra o negro, reafirmando que no Brasil não existe preconceito racial, pois se todos tem a mesma origem genética, sangue de negros, brancos e indígenas, não teríamos diferenças étnicas a serem consideradas.
O termo miscigenação carrega historicamente uma dubiedade, pois o conceito se transforma ao longo do processo histórico. De acordo com a professora Emilía Viotti da Costa (2010) inicialmente a miscigenação foi vista de forma depreciativa, onde ter em suas veias sangue negro significava estar impregnado de condições degenerativas, que eram apresentadas pelos cientistas como sendo próprias dos negros. Em um segundo momento, o termo passa a ser visto de forma positiva, onde por meio da mistura de raças, o Brasil superaria seus problemas raciais, e seus habitantes, com o passar dos anos, teria a pele cada vez mais clara ate serem totalmente brancos. Para a autora, essa dubiedade baseada na “integração e na assimilação” (2010, p.373) proposta pela classe dominante brasileira fez com que o preconceito racial fosse sutilmente sendo aceito, permitindo a formação da ideia de que no país existe uma democracia racial.
A perpetuação da memória identificando o negro como igual ao escravo é contada e recontada na escola através da história, cristalizando uma versão dessa trajetória. Gera-se a noção de que todo aquele que descende do povo negro que foi escravizado, carregue direta ou indiretamente o peso dessa “mácula”. Essas lembranças reafirmadas historicamente pela cristalização da memória do negro/escravo retira dele o direito à participação ativa na História do Brasil. Ele aparece, mas somente na condição social de escravo e não de agentes históricos de transformação social.
17 Um processo contrário a miscigenação era visto como negativo pelo grupo racial branco, denominado de
criolização; a união entre pessoas de raças e cores diferentes poderia, também, gerar indivíduos com pele mais escura, podendo formar uma população mestiça. Essa era um preocupação constante deste grupo. Sobre esse processo ver: PRICE, Richard. O milagre da criolização: retrospectiva. Estudos Afro-asiáticos, vol. 25, n° 3. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_issuetoc&pid=0101- 546X20030003&lng=es&nrm=iso. Acesso em 15.01.2017.
A busca pela igualdade dos direitos entre todos, independente da cor da pele, surge com a quebra de barreiras da memória e da história, buscando eliminar preconceitos instaurados na sociedade com ideologias impostas por uma fração do grupo social. Essa ação teve início com a própria resistência dos negros africanos e culmina na aprovação de políticas públicas de ação afirmativas para a população negra no século XXI.