7. Kulturlandskap
7.1. Endringar i kulturlandskapet – overvakingsprogrammet 3Q
Contudo, é importante assinalar, de maneira bastante incisiva, em razão da realidade brasileira dos últimos anos, o processo de distribuição de renda, que é imprescindível para compreender a determinação do consumo. Já sabemos que quanto maior o nível de renda, maior é o nível de poupança. Na contramão disto, um trabalhador que tem a renda baixa tende a gastar toda a sua renda com consumo, e quase nada com poupança, diferente do indivíduo que tem uma renda superior à média, e que tende a apresentar um percentual menor de sua renda com o consumo. Por isto, uma sociedade que tenha uma distribuição da renda agregada mais igualitária demonstraria uma menor poupança agregada. Portanto, quando a desigualdade de renda e riqueza é alta, a propensão a consumir tende a diminuir. E sendo esta baixa, a dependência do investimento é maior, para que a economia mantenha os níveis de emprego e renda. Este cenário é resultado da desigualdade de renda, coibindo o consumo (PREBISCH, 1998, p.50).
Desdobrando um pouco mais sobre a questão da distribuição de renda para Keynes, Carvalho (1991, p. 34) aponta que a Teoria Geral rompe com a percepção de distribuição de
renda como é observada pelas escolas anteriores21. Este autor avalia que Keynes altera os alicerces da discussão para a distribuição pessoal da renda e não recorre mais à antiga discussão de distribuição funcional da renda. Portanto, desloca o debate dos determinantes da esfera produtiva para a determinação da demanda efetiva, dando foco para a propensão ao dispêndio do público.
Ainda segundo Carvalho (1991, p. 29), esta visão de distribuição sugerida por Keynes é resultado de conceber uma estrutura social diferente da escola neoclássica. No entender da corrente clássica, o modo de produção capitalista é constituído por três classes sociais (trabalhador, capitalista e proprietário de terra), que atuam no processo produtivo e de tal maneira adquirem suas respectivas rendas, dependendo da relação em que sua classe atua no processo produtivo; em outras palavras, suas funções são determinadas em relação ao processo produtivo. O trabalhador aparece, nesta análise, como gerador de um produto superior a sua necessidade, o que criará um excedente, sendo este apropriado pelos capitalistas e pelos senhores de terra. Belluzzo enfatiza que esta percepção da distribuição como “reflexo” da produção, ou melhor, da maneira como se coloca na produção, é que permite a relação antagônica entre capital e trabalho e, com isto, resulta em uma distribuição desigual, onde o “desejo dos trabalhadores de melhorar suas condições de vida se contrapõe ao impulso dos capitalistas em expandir o valor de seu capital” (BELLUZZO, 1975, p. 16). Por isto, o capitalismo avança em uma estrutura contraditória.
Carvalho (1991, p. 33) faz a ressalva de que a escola neoclássica baseia-se no equilíbrio estático, e a questão da distribuição de renda, para esta corrente, está conectada aos fatores de produção e não mais a classes ou grupos. Neste sentido, a distribuição de renda aparece como resultado da compra de serviços de fatores de produção, ou seja, de quanto cada fator produtivo contribuiu e quanto representa sua parcela no produto final. Há, portanto, junção entre a contribuição produtiva de cada fator e sua parcela no produto final.
Keynes percebe o perfil distributivo não na esfera da produção como as escolas anteriores, como já foi dito, mas sim no comportamento da demanda agregada, no conflito na determinação dos salários e dos preços, descreve Carvalho (1991). O consumo, para Keynes, é o elemento de maior peso na demanda agregada, e não é diferenciado segundo a classe social que o agente ocupa, mas sim a posição no perfil de distribuição pessoal da renda. Em resumo, os clássicos e os neoclássicos tentam compreender a distribuição de renda na esfera
da produção. Os primeiros questionam como cada classe se insere no processo produtivo, e é esta maneira de se inserir no processo produtivo é que irá determinar sua parte do todo. Os segundos, também na esfera da produção, indagam sobre a demanda e oferta dos fatores de produção.
Na concepção de Dillard (1976, p. 76), a teoria de Keynes realça a importância do investimento, ou seja, a necessidade de produzir acima do consumo corrente, em razão de Keynes aceitar a estrutura social em vigor, incluindo a distribuição da renda e da riqueza, ou seja, “a teoria de Keynes não se orienta para mudanças na estrutura social, mas trata primordialmente de saber como fazer funcionar o capitalismo, dada a estrutura social existente” (1976, p. 76). Contudo, apesar de não apontar para alterações nas instituições sociais, sua teoria pode nos auxiliar a compreender as consequências das instituições, realça o autor.
Com base nesta trajetória teórica, podemos avançar para os próximos capítulos, e explorar o comportamento dos salários e do consumo na sociedade brasileira. Cabe, aqui, recuperar alguns pontos para nossa empreitada: (1) perceber que o rompimento com os neoclássicos permitiu a Keynes traçar uma nova compreensão dos salários e do mercado de trabalho, destacando que os salários reais não são determinados pela relação entre trabalhadores e patrões, além de não serem determinados pela oferta e demanda deste mercado. E mais, que os salários aparecem como consequência da demanda efetiva; (2) considerar que o consumo - uma peça chave para assimilar a dinâmica econômica a partir de Keynes – ou ainda, a propensão a consumir, que relaciona a renda e os gastos, pressupõe um hiato existente entre eles, preenchido por características psicológicas, que, por sua vez, dependem dos fatores objetivos e subjetivos, e como mencionamos, a propensão a consumir tem como fator mais importante a variação da renda.
Á vista disto, esta dissertação se propõe a esclarecer o comportamento dos salários na economia brasileira à luz de Keynes no próximo capítulo. A ideia não é colocar o trabalho em “camisa de força”, já que está apoiado apenas sobre uma matriz teórica, mas retornar a Keynes, para lançar algumas luzes. Em outras palavras, trata-se de recorrer à teoria dos salários em Keynes para pensar o comportamento dos salários no Brasil.