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Endring av bestemmelsen om annullering av eksamen ved formelle feil

Conforme Nogueira e Nogueira (2009), ao se referirem ao pensamento de Bourdieu,

as práticas sociais seriam estruturadas, isto é, apresentariam propriedades típicas da posição social de quem as produz, porque a própria subjetividade dos indivíduos, sua forma de perceber e apreciar o mundo, suas preferências, seus gostos, suas aspirações, estariam previamente estruturadas em relação ao momento da ação (NOGUEIRA; NOGUEIRA, 2009, p. 24-25).

Bourdieu tem a convicção de que, aos sujeitos, escapa o sentido objetivo das ações, de que eles agem como membros de uma classe social mesmo quando não possuem consciência clara sobre isso. Assim, agiriam de acordo com sua posição social, sem a plena consciência de que estariam atuando no sentido da perpetuação das relações de dominação. Segundo Nogueira e Nogueira (2009), estudiosos de Bourdieu,

[...] a subjetividade dos sujeitos é algo socialmente estruturado – no sentido de estar configurada de acordo com a posição social específica ocupada originalmente pelo sujeito na estrutura social – e que suas percepções, apreciações e ações refletem essa estruturação interna, ou seja, apresentam características que indicam a vinculação com determinada posição social (NOGUEIRA; NOGUEIRA, 2009, p. 27).

Outro conceito fundamental em Bourdieu é o de capital cultural, que ele utiliza em analogia ao capital econômico. Por exemplo: o domínio da língua culta funciona como moeda – capital – que propicia recompensas a quem o possui, seja no mundo escolar ou profissional. O capital cultural pode se apresentar em três modalidades: objetivado, incorporado ou institucionalizado. O primeiro tipo está relacionado à propriedade de objetos culturais valorizados, como livros e obras de arte. O segundo se refere à cultura legítima internalizada pelo indivíduo, como habilidades linguísticas, crenças, conhecimentos, hábitos e comportamentos relacionados à cultura dominante (NOGUEIRA; NOGUEIRA, 2009). Pode-

se ver, no exemplo abaixo, o depoimento de um aluno sobre hábitos de consumo musical de sua família e que são seus também, propiciados pelo ambiente de casa e levados pelo seu pai.

E PII11 – Ouço muita música porque meu pai é músico, ele toca ali no Palácio das Artes, ele toca... ele é percussionista. Ele toca nas aulas de balé do Palácio das Artes e numa companhia ali em cima, chamada Corpo. Eu ouço várias vezes muitas músicas em casa, o meu pai também. Aí, todo mundo da família escuta muita música. Eu gosto do rock clássico porque tipo... tem umas bandas bem boas que eu curto muito, temos Beatles, Led Zeppelin, Pink Floyd, um monte de músicas. Porque as músicas deles são muito chiques, chiques mesmo, eu gosto muito. Às vezes eu ouço pela internet, celular, na rádio mesmo, no CD do meu pai, desse jeito.

O terceiro se refere à posse de certificados escolares, que tendem a ser valorizados socialmente como atestados de formação cultural (NOGUEIRA; NOGUEIRA, 2009).

Em sua obra A cGltGra dos indivídGos, já referida aqui, Lahire (2006), apoiado em dados estatísticos como entrevistas a mais de cem pessoas e observação de comportamentos e de documentos diversos, muda o foco do olhar sobre a cultura e suas diferenças em classes sociais (variações interclasses) para um olhar sobre diferenças internas de cada indivíduo (variações intra-individuais), em relação às suas práticas e preferências culturais. Esse olhar para as estruturas microssociológicas o difere de Bourdieu, que atribui os gostos e escolhas culturais sendo relativos ao pertencimento a classes sociais.

Não focalizando fatores de legitimidade e homogeneidade nem da legitimidade cultural em suas pesquisas, Lahire levantou tais práticas e preferências dentro de diversos domínios culturais. Ele encontrou as pessoas entrevistadas manifestando

[...] ambivalências, oscilações ou alternâncias dentro de cada campo (por exemplo, música clássica e música pop ou literatura clássica e literatura folhetinesca ou revistas people) e/ou de um campo cultural a outro (da leitura à música, da televisão aos programas culturais, etc) (LAHIRE, 2006, p. 18-19).

“Uma nova menina diz gostar de clássico. Eu me viro e pergunto quais. Ela diz que gosta de ‘Johann Sebastian Bach, Salieri, Mozart, Strauss, Rachmaninov, pop também, rock, vai tudo’” (O SM9). Essa foi a única menção de jovens à música clássica, em todas as coletas de dados da minha pesquisa. Pode-se notar que seu gosto é bem eclético, enquadrando-se no que Lahire descreve acima.

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A argumentação de Lahire é sobre a importância de se estudar o individual para se entender o social, na contramão de estudiosos que, segundo ele, só validavam resultados quando podiam ser “generalizáveis”. Assim é que seus estudos revelam os motivos individuais de tantas variações de gostos, tais como:

[...] experiências socializadoras heterogêneas na infância e na adolescência, [...] mudanças importantes de condições materiais e/ou culturais de vida, [...] efeitos específicos e localizados de formações escolares muito especializadas, [...] relações ambivalentes com sua própria cultura familiar de origem ligadas às condições de “transmissão” do capital cultural dos pais, influências conjugais [...] e relações de amizade (LAHIRE, 2006, p. 19).

No caso desta pesquisa, poderíamos pensar que, entre os motivos individuais para as variações de gosto dos seus sujeitos, estariam a identificação com estados de ânimo, ser membro de um grupo/tribo, e também influências da escola, em alguns casos, para citar somente alguns. Para Lahire (2006), as realidades individuais são sociais e são socialmente produzidas, e

[...] as variações intra-individuais dos comportamentos culturais são produto da interação entre, de um lado, a pluralidade de disposições e de competências culturais incorporadas [...] e de outro, a diversidade de contextos culturais [...] nos quais os indivíduos têm de fazer escolhas, onde praticam, consomem, etc. (LAHIRE, 2006, p. 20).

Se formos tratar de diferenças quanto ao pertencimento social dos grupos das duas escolas investigadas, relacionando-as quanto aos gêneros musicais consumidos por jovens da escola pública e da escola particular, as coincidências são muitas, como já se mostrou em outra passagem deste trabalho, o que invalidaria a teoria da legitimidade, de Pierre Bourdieu, uma vez que existem alunos de diferentes grupos sociais representados nas duas escolas, com gostos que vão de um extremo ao outro, e não estamos colocando a questão de qual grupo legitima essas práticas culturais, ou se o que é legitimado pelos jovens da pesquisa não seria classificado como um saber cultural relevante numa classificação entre tipos de saberes que uma instituição como a escola ou os críticos culturais, em determinado tempo e contexto, poderiam fazer.

De acordo com Lahire (2006), o mundo social nunca foi tão unificado a ponto de permitir a existência de apenas uma escala de legitimidade cultural, mesmo que essa esteja dentro das classes dominantes, e do reconhecimento dessa legitimidade por parte dos indivíduos das classes dominadas. Interessante é a sua colocação e reflexão sobre o deslocamento da ordem

cultural dominante, pois ele exemplifica com o caso relativo ao consumo musical de jovens. O autor refere que um jovem fã de um roqueiro não dá o menor crédito à questão da legitimidade da cultura musical dominante, porque, para ele, o seu ídolo é aquele em quem ele põe toda a fé. Assim se expressou um aluno da escola particular (EP2) a respeito de um ídolo de música pop que ele admira: “E SM12 – É um dos meus artistas preferidos, inclusive, lá no topo, número um. Vida louca. Eu admiro neles o seguinte... é porque eles são os famosos, é o cara, é a bola da vez, né? São os tops”. É como se para ele apenas isso interessasse, a admiração que tem por seu ídolo.

Lahire cita, ainda, que é o grupo de jovens estudantes que forma uma instância de consagração de gêneros artísticos, e que o grupo de iguais é que permite a legitimação, que é sustentada pelo mercado midiático. Para ele, a música, o cinema e a televisão são os que mais atraem jovens para essa prática em conjunto, mais do que a literatura, por exemplo, que não permite as trocas e compartilhamentos da mesma forma grupal que estes (LAHIRE, 2006). Observei isso entre os jovens da escola pública (EP 1), no hábito de ouvirem juntos o mesmo fone de ouvido, comum especialmente entre as meninas, que, muitas vezes, também dançam e conversam, enquanto escutam música (O PII2, O PII3, O PII4).

Ainda sobre legitimidade cultural, ele diz que a crença na legitimidade cultural de produtos e práticas supõe a relação entre populações, e que somente nessas relações se determinará a força ou a fraqueza da legitimidade em jogo.

Assim, as populações que passam pela escola sem encontrar ali um sentido e um interesse hoje são facilmente atraídas por instâncias de consagração (televisão, rádio, imprensa escrita, etc.) objetivamente em luta com a instituição escolar e não se sentem envergonhadas diante de certos bens culturais legítimos. Em vez disso, sua crença orienta-se a outros bens e a outras práticas e, desse modo a legitimidade de bens objetivamente dominantes pode debilitar-se ou desaparecer completamente para elas (LAHIRE, 2006, p. 55).

Nessa perspectiva, é importante destacar em Lahire a conceituação de cultura popular e de alta cultura. O autor afirma que há duas formas de dominar culturalmente: pelo nome e pela popularidade, como canções, séries de TV, etc. e pela raridade e pela nobreza, como obras musicais e pictóricas, obras literárias e teatrais, etc. (LAHIRE, 2006). Segundo ele, as duas formas dominam, uma pela extensão do seu público e a outra pelo prestígio que conquistou

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menor de indivíduos” (LAHIRE, 2014, p. 56). Essas afirmações vêm ao encontro de uma questão que encontrei em minhas reflexões sobre se a cultura erudita seria realmente dominante diante do poder da cultura comercial, movida pelas mídias, na atualidade, e que arrasta consigo milhões de espectadores e ouvintes nas sociedades do planeta.