5.6 Impulser fra Mind Gap
5.6.4 En ny kontakt med publikum?
S aindo do audiovisual para o impresso, a personalidade de D ilma R ousseff motivou o jornalista R enato T erra a produzir conteúdo em nome da mesma, criando mais um duplo da Presidente. E m uma das sátiras de maior repercussã o, que virou livro no ano passado, T erra criou a seçã o “D iário da D ilma” na revista Piauí. A motivaçã o, segundo o ghost writer, foi mostrar a dirigente do E xecutivo como gente comum – em sintonia, mais uma vez, com o ordinary man de R oger Gérard S chwartzenberg (SC HW A R T Z E NB E R G, 1978) –, além de revelar a intimidade da personalidade retratada, mesclando ficçã o e realidade. “Somente uma mulher que consegue equilibrar seu lado exigente com sua inequívoca vocaçã o sestrosa teria autoridade para expor segredos mais profundos que o pré- sal”, justifica em falso prefácio, assinado pelo ex-Presidente L uiz Inácio L ula da S ilva, do livro que compila as colunas publicadas entre dezembro de 2010 e maio de 2014.
É importante contextualizar que o que se conhece como diário íntimo só surge
após o advento do conceito de privacidade e sua subsequente valorizaçã o pela sociedade burguesa. A firma Paula S ibilia que “a escrita do diário íntimo e o intercâmbio de cartas foram atividades burguesas por excelê ncia, que se desenvolveram rapidamente e floresceram no século X IX ” (S IB IL IA , 2003). E ssa popularizaçã o foi especialmente influenciada pelos romances psicológicos e pela convençã o social que relegava as mulheres ao universo privado, dentro do qual o diário íntimo se configurava em um confidente. A ssim, D enise S chittine explana:
T odos esses fragmentos fazem parte da memória e, mesmo que o diarista nunca mais pegue esses escritos para folhear e reler, ele sabe que, de uma forma ou de outra, eles estã o lá, que existem e fazem parte do seu arquivo pessoal. E sses escritos podem estar condenados ao esquecimento e até à destruiçã o, mas permanecem como
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marcas do que seu autor fez e sentiu em determinadas fases de sua vida ( SC HIT T INE , 2004, p. 133) .
E sses arquivos pessoais podem converter-se inclusive em registro histórico, como aconteceu com os registros deixados pela jovem holandesa de origem judia A nne F rank, que, aos 13 anos de idade, descreveu em detalhes a ocupaçã o nazista em seu país e as perseguições sofridas por ela e por seus familiares. O D iário de Anne F rank tornou-se o livro holandê s mais traduzido de todos os tempos, além de ter ganho diversas adaptações para o teatro e para o cinema.
Na contemporaneidade, a exposiçã o da vida privada deixa as páginas dos diários trancafiados nas gavetas e ganha o reforço do broadcasting dos meios de comunicaçã o.
C onforme afirma Paula S ibilia (2003), a carê ncia de sentido das experiê ncias subjetivas vividas por muitos de nós nos dias atuais acaba tornando atraente a autoexibiçã o, até aquela
que ocorre “na fugacidade de um instante de luz virtual” (Idem, online).
O fato de ser um hipertexto eletrônico diferencia os ciberdiários dos antigos diários pessoais, já que o formato hipertextual ( atualizaçã o constante, de qualquer lugar e em tempo real, com utilizaçã o de links e outros recursos audiovisuais, alcance planetário e imediato… ) e a publicizaçã o nã o faziam parte das experiê ncias com diários em papel ( L E MOS, 2002, p.4) .
No caso do D iário da D ilma, o fato de estar exposto em revista, na internet e posteriormente em livro, leva a crer que este teria sido “vazado”. Portanto, seria uma exposiçã o nã o intencional, um tanto distante dos weblogs, webcams e dos ciberdiários abordados por Paula S ibilia e A ndré L emos. E m textos curtos e de leitura agradável, o jornalista escreve em primeira pessoa as angústias, problemas e até amores platônicos de D ilma. A sessã o foi claramente inspirada na coluna “L e J ournal de C arla B .”, do periódico francê s L e C anard E nchainé, dedicada a satirizar o dia a dia da ex-primeira dama daquele país, C arla B runi. E m entrevista, T erra diz que precisou fazer um mergulho no universo feminino, uma vez que, além da agenda real da Presidenta, muito do diário é baseado em temas tidos pelo senso comum como de interesse das mulheres: moda, beleza e assuntos domésticos. Outro ponto tocado pelo jornalista é o fato de o D iário da D ilma também ter sido
alimentado por informações de bastidores (POR T A L IMPR E NS A , 2013).
Por se tratar de um diário – o que pressupõe seu caráter secreto e desconhecido de
outras pessoas que nã o seu próprio autor –, a D ilma de R enato T erra aborda pensamentos e opiniões que nã o tem coragem ou nã o deve compartilhar com terceiros. É o caso de suas
impressões sobre os pedidos inconvenientes do V ice-Presidente Michel T emer ou dos sentimentos que nutre pelo ex-Ministro de Minas e E nergia, E dison L obã o, como nos exemplos abaixo:
21 de j aneir o de 2011 [23h] C ruzei com o L obã o fazendo serã o num dos corredores do Planalto e ele me deu um sorriso encantador: “Presidenta, como vai? ”. Presidenta! Pelo visto, ele foi o único a ler meu memorando. T odos os outros insistem em me chamar de “presidente”. E sse homem é, de fato, um cavalheiro. E como se veste bem. ( D IÁ R IO D A D IL M A , 2014, p. 13) .
25 de fever eir o O T emer me ligou para contar que o tal estilista índio que a Marcela indicou é do PMD B e daria um excelente presidente da F unai. ( D IÁ R IO D A D IL MA , 2014, p. 18).
D e maneira semelhante ao fake virtual D ilma B olada, a D ilma de Piauí costuma alternar passagens ficcionais com acontecimentos reais da própria agenda presidencial, embora o tratamento dado aos fatos verídicos seja em boa parte leve e sarcástico. E ntre meados de 2013 e 2014, a maior recorrê ncia foi de textos sobre as obras e inaugurações de equipamentos para a C opa do Mundo, como nesse trecho de janeiro do ano passado: “E sse calorã o está me matando. Usar cinta vira um suplício! E ainda fui obrigada a inaugurar a tal A rena das D unas de Natal. Na minha época, lugar de jogar futebol era estádio. A gora virou essa boiolice de arena. B om, pelo menos uma está pronta” (D IÁ R IO D A D IL MA , 2014, p. 228).
Outro ponto de interseçã o entre as personagens é a maneira de retratar D ilma como alguém bem-relacionada com autoridades políticas e de trânsito facilitado no mundo
das celebridades. E m um dos textos do diário, datado de 10 de dezembro de 2013, a Presidenta trata do funeral de Nelson Mandela e critica B arack Obama: “Um tititi danado no velório do Mandela. E stava todo mundo! Mesmo. E o Obama ficou na maior saliê ncia com aquela loira da D inamarca. E le nunca fez selfie comigo nem com a A ngela Merkel...” (D IÁ R IO D A D IL MA , 2014, p. 221). “F ofocas” sobre a vida dos famosos também parecem interessar a D ilma, que na seguinte passagem, de julho de 2012, pensa na possibilidade de cortejar um recém-solteiro ator holl ywoodiano: “O B anderas está se separando da Melanie Griffith! Que coisa! E le sempre segurou a barra dela, que se viciava até em jujuba. Pensei em ligar, é uma pena que seja muito baixinho pra mim. A ndo tã o assanhada. S ó me falta virar periguete.” (D IÁ R IO D A D IL MA , 2014, p. 121). Por fim, percebe-se vez ocasionalmente o uso de um recurso interessante: as referê ncias metalinguísticas. No exemplo a seguir, ela faz mençã o ao diário francê s que influenciou sua escrita íntima: “11 de dezembr o [ 2012]
...mandei comprar o último exemplar do C anard E nchainé. O jornal continua engraçado, mas nunca mais foi o mesmo desde que pararam de publicar o D iário de C arla Bruni. [ ...] S omos muito parecidas, tanto assim que tirei dali minha inspiraçã o” (D IÁ R IO D A D IL MA , 2014, p. 149).