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Uma forte influência de Alencar na elaboração de Iracema teria sido “Atala, ou os amores de dois selvagens no deserto” (1801). É uma obra de François-René de Chateaubriand, inspirada em suas viagens pela América do Norte. Causou grande impacto sobre o início do Romantismo, tendo sido adaptada com frequência para o teatro e traduzida em muitas línguas. A história é narrada pelo indígena Chactas, já com 73 anos, a René, um jovem francês que se junta à sua tribo e por ele é adotado. Durante uma noite de caça, René pede a Chactas que conte sua história.

Nesta obra também encontramos uma descrição paradisíaca da natureza, de uma terra primitiva e intocada, cenário da história de amor entre um casal pertencente a povos rivais. Temos também uma heroína virgem – Atala –, que não pode casar-se em função de um voto de castidade. No entanto, ela é mestiça: filha de um espanhol e uma índia. Havendo a mãe se convertido ao Cristianismo, a moça fora criada como cristã.

Não é difícil encontrar as fontes principais em que se inspirou Alencar. Este seguiu Chateaubriand, assim como Virgílio seguiu Homero: Iracema é, num certo sentido (não o contemporâneo da imitação, mas o da imitatio clássica), a transposição de Atala, de Chateaubriand, autor que Alencar confessou ter lido bastante. Temos, pois, o caso de uma composição homóloga, pois apresenta vários pontos em comum: o tema da felicidade primitiva dos chamados “selvagens”, que começa a se corromper diante da primeira aproximação do dito “civilizado”; a idéia do “bom selvagem”; o amor de uma índia por um estrangeiro; a morte das duas heroínas; o exótico da paisagem; enfim, o conflito fundamental representado pela oposição de índole dos dois mundos: o da velha civilização europeia e o Novo Mundo da América (MOREIRA, 2007, p. 101).

Ainda que seja de conhecimento que Alencar teve contato com as obras de Chateaubriand e que ambos os romances guardam semelhanças evidentes, existem certas diferenças notórias entre “Atala” e “Iracema”. Iracema é uma índia que nunca abraçou a fé cristã, mas Atala, na condição de filha mestiça de uma índia convertida, nasceu imersa no Cristianismo. Essa diferença irá marcar o comportamento de ambas, principalmente nas motivações do sacrifício que terão que fazer.

Atala se mata porque se apaixonou, mas não conseguiu quebrar o voto de castidade. Iracema, após quebrar seu voto e deixar os tabajaras, se deixa morrer quando percebe não ser mais amada por Martim. Ambas as heroínas encontram na morte a solução para um intenso conflito. No entanto, a morte de Iracema deu-se em consequência da escolha de seguir com Martim, abrindo mão da vida que conhecia com seu povo e do status de sacerdotisa de Tupã.

Atala, por outro lado, opta pela morte por não conseguir escolher entre manter o voto de castidade ou casar-se com Chactas.

Não existe propriamente em “Atala” o amor de uma índia por um estrangeiro, a não ser no relacionamento brevemente mencionado entre os pais da moça. O que temos como foco da narrativa é o amor de uma mestiça cristã por um índio. O estrangeiro, podendo ser aqui considerado uma instância que causa rupturas e choques culturais, surge de forma bastante contundente na religião (Cristianismo), encarnada no voto de castidade (motivo do conflito amoroso) que a mãe de Atala obrigou-a a fazer e no missionário cristão Père Aubry. Já “Iracema” apresenta claramente o amor de uma índia por um estrangeiro, sendo este o cerne dos acontecimentos do romance.

Já comentamos sobre a forma como o “bom selvagem” de Rousseau foi apropriado pelo Romantismo com finalidade de legitimação do poder vigente. No entanto, em “Atala”, ainda que tenhamos também uma obra que corrobora o status quo europeu de civilização colonizadora, somos apresentados a um ameríndio de características bastante distintas dos indígenas de “Iracema”. Chactas refere-se aos indígenas (os não convertidos) tanto os de sua tribo como de outras como selvagens e idólatras.

O ameríndio em “Atala” é uma criatura primitiva na sua forma mais hostil. Chactas o retrata como ocioso, irracional e impiedoso. Se quem constrói este retrato é um dos próprios “selvagens”, o relato adquire um tom ainda mais legítimo. Estas considerações de Chactas ocorrem quando ele conhece Aubry e passa a estabelecer comparações entre o missionário e ele próprio, bem como os de sua tribo. Chactas entende que os cristãos são mais evoluídos espiritualmente e intelectualmente, além de conseguirem lidar com animosidades de forma mais serena.

Com dezessete anos, Chactas perdeu o pai durante uma batalha contra os Muscogees. Ele foge para Saint Augustine, Flórida, onde é adotado pelo espanhol Lopes. Dois anos e meio depois, sai de casa, mas é capturado pelos Muscogees e Seminoles. O chefe Simagan sentencia-o a ser queimado em sua aldeia, mas as mulheres se apiedam de Chactas durante as semanas de viagem, e à noite lhe traziam presentes. Atala, que fora adotada por Simagan após a morte de sua mãe, tenta ajudá-lo a escapar, mas Chactas, apaixonado, recusa- se a partir sem ela. Ele conta a René da primeira vez que viu Atala e podemos identificar a descrição de uma protagonista tipicamente romântica, dotada de beleza e graça acima do mundano, sendo comparada a seres divinos.

Uma noite eu estava sentado junto da fogueira da floresta com o guerreiro a quem tinha sido confiada a minha guarda. Repentinamente, ouço a bulha de um vestido

sobre a erva, e uma mulher meio coberta vem se sentar a meu lado. Corriam de seus olhos copiosas lágrimas, e um pequeno crucifixo de ouro pendente de seu pescoço brilhava com o clarão do fogo. Ela era regularmente bela, e descobria-se em seu semblante um não sei que de virtuoso, e irresistível. Unia a todos estes encantos graças ainda mais ternas: uma extrema sensibilidade misturada com uma profunda melancolia respirava em seu olhar; o seu riso era celeste.

Eu julgava que era esta a virgem dos últimos amores, aquela, que se destina ao prisioneiro de guerra para encantar seu tumulo. Nesta persuasão, perturbado, e

balbuciante, não pelo medo da fogueira, eu lhe disse: 'virgem! Vós sois digna dos primeiros amores, e jamais fostes criada para os últimos. A palpitação de um peito, que em breve cessará, mal poderia corresponder às palpitações do vosso. Como se pode confundir a vida, e a morte? Vós me faríeis sentir bem a perda da vida. [...] (CHATEAUBRIAND, 1819, p. 28) [grifo nosso].

Na chegada à Apalachucla, ele é salvo da morte por intervenção de Atala. Os dois fogem e vagam pelo deserto por dias. Abrigados de uma tempestade, Atala conta a Chactas que seu pai era Lopes, o seu benfeitor, e o índio se emociona. Os dois estão muito apaixonados, mas Atala resiste ao toque de Chactas e ele não entende o motivo. Percebe, no entanto, que ela guarda um segredo que a atormenta.

Quando ele tenta possuí-la durante a tempestade e ela pouco resiste, um raio cai e corta uma árvore diante de seus pés. O fenômeno parece indicar que um alerta foi enviado dos céus. Assustados com a força do raio, eles correm de forma aleatória até ouvirem um sino de igreja. O encontro com um cão faz com que conheçam seu dono, Père Aubry, um religioso que os leva em meio à tempestade até sua missão idílica.

É quando passa a conviver com Père Aubry que Chactas demonstra compreender o Cristianismo como uma religião superior à de seu povo. A tranquilidade, a paz de espírito e o senso de caridade com que Aubry conduzia a vida na missão o inspiravam: “As palavras do Solitário me arrebataram e senti imediatamente a superioridade desta vida estável, moral e ocupada, à vida errante, inútil e ociosa do Selvagem” (CHATEAUBRIAND, 1819, p. 118).

Atala está apaixonada por Chactas, mas não pode se casar com ele porque fez um voto de castidade à mãe em seu leito de morte. A moça não consegue contar a ele este segredo, até ser acometida por um estranho mal que a deixa de cama. Aubry presume que ela está apenas doente. Acamada, decide contar-lhes a verdade sobre o conflito que vem sofrendo.

Chactas se enche de raiva, mas o missionário esclarece aos dois que o Cristianismo permite a renúncia dos votos. Mas Atala, frustrada ao invés de feliz, teria mais uma revelação a fazer: sua indisposição física é consequência de um veneno que ingeriu em desespero, por não poder casar-se com Chactas e ao mesmo tempo saber que não conseguiria viver sem ele. Atala morre, e, um dia depois do funeral, Chactas deixa a missão, sob o conselho de Aubry.

Atala e Iracema são duas heroínas românticas arrebatadas pela paixão. Sofreram uma série de vicissitudes e de conflitos os quais acabaram por encontrar desfecho na morte

(solução bastante comum para a dissolução de tensões nos romances do século XIX). Para não quebrar o voto de castidade que fez por sua mãe, e em nome da religião que ambas seguiam, Atala se mata tomando veneno. Já Iracema, que também deveria manter-se virgem por ser noiva de Tupã, se deixa definhar até morrer após ter traído o segredo da jurema e abandonado seu povo para viver com Martim. Vive somente o tempo suficiente para garantir-lhe o filho.