Ao estabelecer uma analogia entre a obra de Alencar com a epopeia “Eneida”, de Virgílio, Moreira (2007) encontra em três mulheres que se relacionam com Enéias – Camila, Dido e Lavínia – traços que se assemelham a Iracema. Quando discorre sobre Camila, a virgem guerreira protegida por Diana, a deusa romana da caça, a autora evidencia a beleza graciosa confundindo-se com habilidades de luta, tal como ocorre em Iracema:
“[...] ambas as donzelas [Iracema e Camila], embora pertencentes a mundos tão distantes, são muito parecidas, tanto pela beleza física quanto em seus atributos capacitivos. São personagens de coragem e ousadia, que enfrentam as forças masculinas e os horrores da guerra sem, sequer, se intimidarem” (MOREIRA, 2007, p. 131).
Camila compõe a mitologia romana sendo filha de Métabo, rei dos volscos, povo que habitava a Itália Central. Cresceu como amazona, tornando-se uma cavaleira experiente e bastante habilidosa no manuseio do arco e flecha. Na “Eneida” de Virgilio, decidiu lutar na guerra dos rútulos contra os troianos de Enéias, que tentavam ocupar a Itália.
Assim como Iracema, que possui velocidade e graça tão acima do comum, sendo “mais rápida que a corça selvagem”, cujo “o pé grácil e nu, mal roçando, alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras”, Camila também é exaltada por sua velocidade e graciosidade: “voaria por cima das verdejantes searas sem as aflorar nem ferir, na carreira, as tenras espigas; correria sobre o mar, suspensa nas ondas levantadas, sem molhar as plantas dos velozes pés [...]” (VIRGILIO, 2005, p.225).
Coragem e ousadia próprias de um herói mítico manifestam-se em Camila quando ela roga a Turno, rei dos rútulos, para combater sozinha os guerreiros de Enéias: “Turno, se é lícito à coragem inspirar confiança, atrever-me-ei, prometo, a desafiar os pelotões dos companheiros de Enéias e enfrentar sozinha os cavaleiros tirrenos. Deixa-me correr os primeiros riscos da guerra [...]” (VIRGILIO, 2005, p. 330-331).
Iracema e Camila são exímias arqueiras. Trata-se de uma característica importante nestas personagens porque o arco e flecha é uma arma considerada propriedade de grandes
guerreiros, ligados de alguma forma ao divino (CHEVALIER; GHEERBRANT, 2012). Na guerra contra os troianos, Camila liderou muitos homens, lutando pelos rútulos. Iracema, por outro lado, não era formalmente considerada uma guerreira pelos tabajaras (tendo em vista que não fazia parte da guarda de Irapuã). No entanto, porta e domina perfeitamente uma arma nobre, reservada somente àqueles de índole mais elevada. A posição de sacerdotisa que ocupa já lhe vale o caráter ilibado e uma relação com o divino. O arco e flecha parece não apenas reforçar este caráter, mas também conferir-lhe atributos de uma guerreira superior.
Dido era viúva do rei Siqueu e teria sido a primeira rainha de Cartago. É descrita por Virgílio como uma mulher extremamente bela, alegre, justa, amada por seu povo e com grande poder de liderança:
[...] chega a belíssima rainha Dido, acompanhada por grande séquito de jovens. [...] assim era Dido, assim alegre caminhava entre os súditos, incitando-os ao trabalho para o futuro império. [...] distribui justiça e dita leis aos seus homens, partilha igualmente os trabalhos ou os sorteia [...]. (VIRGILIO, 2005, p.46-47).
Ela acolheu Enéias e sua tripulação, após enfrentarem um naufrágio. Apaixonando- se por Enéias, convida os troianos para uma caçada e aproveita-se de uma tempestade para abrigar-se sozinha com ele em uma gruta, onde o conquista e se entrega. Dido trai a fidelidade à memória do marido e vive com Enéias uma paixão extremamente intensa.
O guerreiro troiano, também bastante envolvido, praticamente esquece sua missão de fundar um império na Itália, até o deus Júpiter enviar o deus mensageiro Mercúrio para lembrá-lo de seu destino e ordenar que deixe Cartago o quanto antes. Enéias tenta fazer os preparativos para deixar o reino com sua tripulação sem que Dido perceba, enquanto pensava no melhor momento e forma de falar-lhe. A rainha, no entanto, percebe a movimentação e vai ter com Enéias, que alega não poder permanecer no reino em virtude do chamado de Júpiter.
Sentindo-se traída, abandonada e, em consequência, cheia de fúria, Dido não se satisfaz com as explicações de Enéias. Oscilando entre o delírio e o sofrimento, apunhala-se com uma das espadas de Enéias e atira-se numa pira funerária que manda fazer especialmente para si. A fumaça ainda pôde ser vista do navio de Enéias. A paixão e a entrega da rainha foram tão intensas quanto a dor de ser deixada. Somente a morte – e uma dolorosa morte – poderia dar conta de tamanho sofrimento.
Iracema e Dido são tomadas pela paixão e em nome dela se entregam incondicionalmente ao seu objeto de desejo. Enquanto Dido renuncia à memória de seu rei e marido, Iracema abdica de seu povo e de suas responsabilidades de sacerdotisa. Essa mesma
paixão, quando frustrada, cria uma dor tão insuportável nestas heroínas que a única saída possível parece residir na morte.
Quando todos os anseios não consolidam a conjunção amorosa do ser enamorado, resta apenas para as amantes a fuga, através da morte – válvula de escape para a contenção do drama vivido. Nas duas obras, a paixão pode ser definida como um sentimento ou emoção, levado a um alto grau de intensidade, sobrepondo-se, por conseguinte, à lucidez e à razão. Sendo a fixação pelo outro, por uma pessoa, uma idéia ou uma coisa, a paixão se distingue de outros sentimentos por sua força, sua intensidade, sua exclusividade. Assim, as heroínas apaixonadas prodigalizam todo tempo para não deixarem de honrar seus compromissos amorosos – tópico do amor romântico – que encontrava, não raro, saída na morte. O caráter passivo das amantes apaixonadas domina a própria vida, fazendo-as percorrer outros itinerários que, todavia, não percorreriam em estado de lucidez, como demonstram Alencar e Virgilio no enredo e desenlace da situação conflituosa entre os pares românticos. Ambas, Dido e Iracema, representam, dentro das narrativas, as faces mórbida e trágica, apaixonada e sensual do feminino (MOREIRA, 2007, p. 111-112).
Tanto para Iracema como para Dido, não havia nada de maior importância do que estar ao lado dos homens que amavam. Eles eram a prioridade, o bem mais precioso e, por eles, elas seriam capazes de cometer qualquer sacrifício. No entanto, a recíproca não era verdadeira: Martim enfada-se de Iracema após a paixão converter-se em rotina e segue com Poti para lutar contra os tabajaras e defender o assentamento português; e Enéias não hesita em atender ao chamado de Júpiter e retoma o projeto de fundação de Roma, que o leva para longe de Dido. Os dois heróis tinham uma civilização para fundar e esta era a prioridade deles. E os dois foram embora negando a essas mulheres não apenas o amor, mas também a chance de uma despedida. Iracema e Dido têm em comum a sina de serem deixadas, de amarem com toda a intensidade que conheciam sem obter reciprocidade ou mesmo o devido reconhecimento. São duas heroínas de extrema coragem: desafiaram as regras sociais de seu povo por amor. E por amor abraçaram a morte. Dessa forma, inscrevem em si a marca da heroína trágica. No entanto, o processo do abandono é experienciado de modo diferente pelas duas.
Dido é consumida por uma cólera tão profunda que sucumbe à loucura. Seu suicídio, além de constituir-se em alento definitivo para a dor de ser deixada, é também sua vingança, pois se deixa queimar às vistas de seus súditos e do próprio Enéias, que de seu barco consegue ver a fumaça subindo da pira funerária. Este último ato de Dido garante a inimizade entre Cartago e Roma. Já Iracema recebe a morte com resignação, compreendendo tratar-se de sua sina. Procura garantir sobrevivência apenas até conseguir entregar seu filho ao pai. Não há arrependimentos, fúria ou rancor em sua partida, somente tristeza. O sacrifício de Dido busca a vingança e o antagonismo entre duas cidades, mas o de Iracema busca a fundação de um novo povo.
A jovem Lavínia, filha de Latino, torna-se a segunda esposa de Enéias e dá-lhe um filho, Sílvio, assegurando a fundação de um novo povo pelo enlace entre troianos e latinos. Segundo Moreira (2007), Lavínia é uma personagem dependente, cujas ações estariam sempre atreladas às vontades dos pais ou do destino. Assim como Iracema, Lavínia é parte de uma profecia que será cumprida a um custo muito alto. Seu casamento com Enéias foi antevisto em consulta ao oráculo de Fauno por Latino, mas a deusa Juno, esposa de Júpiter e inimiga dos troianos, decide intervir:
[...] Não me é dado afastar Enéias de Latino e os fados reservam-lhe inexoravelmente Lavínia por esposa: ser-me-à permitido, porém, exterminar povos de dois reis. Que o genro e o sogro firmem sua aliança a esse preço. O sangue troiano e o rútulo será teu dote, ó virgem [...] (VIRGILIO, 2005, p. 208).
Lavínia já estava prometida por seu pai a Turno, rei dos rútulos. No entanto, Latino decide voltar atrás na promessa e seguir a recomendação do oráculo, que disse que a jovem deveria casar-se com um estrangeiro. Assim, Latino oferece a mão de sua filha a Enéias. Turno, enfurecido e incitado por Juno, inicia uma guerra com os troianos-latinos, mas é derrotado. O casal uniu os sobreviventes em um único povo e fundou uma nova cidade, que Enéias nomeou de Lavínia, em homenagem à esposa.
A filha de Latino não seria propriamente uma heroína, pois Virgilio não destaca nela grandes virtudes, além da impecável obediência aos pais, inclusive no que concerne ao seu próprio casamento, cuja escolha do esposo em nenhum momento passou por seu crivo. Fosse para Enéias ou Turvo, Lavínia caminharia ao altar da mesma forma. Assim, seu casamento com Enéias não foi motivado pelo amor ou pela paixão, como a união de Iracema e Martim, mas foi motivado pelo destino, que, por intermédio do oráculo, apoiava a união simbólica entre ou dois povos envolvidos. Temos, então, com Lavínia e Enéias, um casamento de finalidades políticas, que permitiu a fundação de Roma.
Iracema e Lavínia, cada uma ao seu modo, estão atreladas a um destino que se manifesta para além de suas vontades. No entanto, a Lavínia cabe apenas a espera dos acontecimentos que envolvem a guerra entre troianos e rútulos. O matrimônio, em sua vida, é mais um ato de obediência aos pais. Já o destino de Iracema está condicionado à escolha amorosa de trair o segredo da jurema e deixar seu povo para seguir Martim como sua esposa.
Lavínia não apenas gerou o princípio de um novo povo, resultado da união entre troianos e latinos, mas também se tornou o nome de uma nova cidade, uma nova cultura. Iracema é a terra primitiva, a cultura indígena que morre durante o nascimento de uma nova
cultura construída em moldes europeus. Lavínia torna-se um novo mundo, a partir da aliança entre troianos e latinos e da vitória liderada por Enéias.