Antes de iniciar a técnica de produção de dados propriamente dita, solicitei que os participantes se dividissem em duplas. Disse-lhes que iriam massagearem-se uns aos outros. O procedimento desse exercício foi simples, mas potente. Lembro que fiquei receosa de propor algo que demandava um maior contato corporal no segundo dia de encontro, mesmo assim arrisquei porque senti abertura para isso. A primeira instrução foi a de que uma pessoa se colocaria à disposição do restante do grupo para ser massageada.
Depois de receber a massagem, a pessoa ficava em repouso. Enquanto isso, os outros membros massageavam o corpo de outra pessoa. Após breve descanso, a pessoa se juntava aos demais para ajudar a massagear outra pessoa. Dessa maneira, todos experimentaram as duas posições.
A segunda instrução dada aos grupos de professores foi de que cada um, ao ser massageado, se comportaria como uma “boneca de pano”, ou seja, não ofereceria resistências aos toques dos colegas. Enfim, se entregaria plenamente. Instruções dadas, o grupo começou o exercício.
Após concluírem esse trabalho corporal, os co-pesquisadores foram convidados a se deitarem nos colchonetes e a permanecerem de olhos fechados. Sugeri que prestassem atenção em seus corpos. Pedi para que começassem a sentir os pés com os seus dedos, as pernas, o sexo, o tronco com todos os órgãos nele contidos (rins, pulmões,coração, fígado), braços, mãos, dedos, ombros, pescoço, cabeça, olhos, boca, nariz, queixo, cabelos, cérebro etc.
Solicitei que imaginassem uma quantidade enorme de bolinhas coloridas entrando no local onde estavam. Disse-lhes também que eram as bolinhas de suas criações na EJA. A cada momento que passava, o número de bolinhas era cada vez maior, ocupando todo o espaço onde os co-pesquisadores se encontravam. Com essa “invasão” das bolinhas, os corpos dos co-pesquisadores passaram a ser tocados por elas. A todo instante, sentiam as bolinhas roçando seus corpos. Não tendo mais espaço para se acomodarem no local onde se encontravam, as bolinhas resolveram adentrar os corpos dos co-pesquisadores. Penetravam as narinas, boca, e ouvidos deles. Preenchiam todos os espaços que encontravam nos corpos dos co-pesquisadores.
Após experimentarem as sensações das bolinhas adentrando seus corpos, os co- pesquisadores foram convidados a imaginarem que elas iam embora com a mesma velocidade que haviam entrado. Ao saírem, elas se juntavam às outras e tomavam rumo ignorado. Abandonavam o recinto onde os co-pesquisadores se encontravam. Com essa debandada, em poucos minutos, o(s) lugar (es) ficou (ram) vazio(s), ou melhor, voltava a forma que tinha antes da invasão das bolinhas.
Pedi para os co-pesquisadores abrirem os olhos, tomarem uma folha de papel sessenta quilos e começassem a produzir um desenho individual sobre as suas criações na EJA.
Após a produção desse desenho, cada um falou das sensações que teve realizando os exercícios corporais (massagem coletiva), bem como da viagem imaginária. Em seguida, as pessoas foram solicitadas a falarem também dos seus desenhos e do por que ele representava as minhas criações na EJA.
Ao realizar essa técnica com os alunos, apliquei outros procedimentos. Fiz um alongamento guiado com os estudantes. Sugeri que eles realizassem uma massagem mútua. Em duplas uma pessoa massageava um corpo. Depois o corpo massageado recebia a massagem de quem havia lhe massageado. Após isso, pedi para que o grupo ficasse em círculo e fizesse silêncio.
Convidei o grupo para dançar de forma não convencional. Fiquei no meio do círculo para fazer a demonstração de um passo de inspiração africana. Repeti algumas vezes. Pedi para que me imitassem. Depois desse ensaio, coloquei uma música africana e sugeri que passássemos a dançar conforme havíamos ensaiado.
Ao terminarmos, lancei um desafio para o grupo: uma pessoa se apresentava como voluntária. Em seguida, coloquei uma música de um CD de música africana, supostamente desconhecido por eles, pedia para que a pessoa criasse um passo da dança das minhas criações na EJA. Então, todos deviam olhar e imitar a pessoa que dançava até que eu parasse a música. Enquanto o (a) dançarino (a) se apresentava, outra pessoa filmava a sua apresentação. Toda vez que a música era interrompida, as duplas de dançarino e pessoa que filmava trocavam de papéis. Desse modo, todos os (as) co- pesquisadores(as) foram dançarino(a) e câmera, experimentando as duas posições: de estar na frente da câmera e por trás dela. É importante também esclarecer que toda vez que a música era interrompida, uma nova música era colocada.
Concluída essa etapa da técnica, dispus novamente o grupo em duplas para que se entrevistassem mutuamente. Para realizar essa entrevista, os membros do grupo
receberam um mini roteiro preparado por mim, com as seguintes perguntas: nome do entrevistado, fale dos sentimentos e sensações que você teve com o movimento corporal que você criou e o que esse passo que você criou tem a ver com as suas criações na EJA.
A utilização de procedimentos diferenciados com os alunos surgiu durante a pesquisa de campo, pois observei que o grupo-pesquisador do Educandário Santa Clara se mostrava muito acanhado para se expressar seja por escrito, seja oralmente. Diante disso, imaginei que colocando o microfone e a câmera fotográfica nas mãos deles, se sentiram mais autores. Hoje avalio que talvez tivessem se descontraído mais, se não tivesse me equivocado ao elaborar as perguntas individualmente e sim com a participação deles. De qualquer forma, isso propiciou a apropriação dos instrumentos da pesquisa por eles.
Minha intenção quando pedi para elaborarem produções acerca das suas criações na EJA era fazer com que os co-pesquisadores se colocassem como inventores da EJA. Daí escolher este sub-tema para instigá-los a pensarem sobre isto.
Fotos da produção plástica das técnicas minha criações na EJA do grupo- pesquisador CEJA-manhã
Análise classificatória da técnica minhas criações na EJA com o grupo- pesquisador do CEJA- manhã
CATEGORIAS:
SENSAÇÃO DA VIVÊNCIA: