“Considera-se que as histórias são escritas como uma leve tatuagem na pele de quem as viveu. A formação de curandeiras, cantadoras y cuentistas é muito semelhante. Ela deriva da leitura dessa escrita levíssima, do desenvolvimento do que se encontra nela. [...] É preciso que haja um pouco de sangue derramado em cada história, se quisermos que ela tenha função balsâmica” (ESTES, 1999, p. 343)
Os contos de fadas e maravilhosos são histórias populares e folclóricas nas quais ocorrem uma mistura entre o mundo real e o mundo de fantasia. Tratam-se de narrativas envolventes que permitem àqueles que as leem estabelecer uma importante ligação entre o elemento fantástico e seu meio social. Essas histórias são elementos constantes desde a infância, pois além de se relacionar com a realidade da criança, ensinam lições e dão respostas à aceitação de angústias. A conexão entre o real e o ficcional toma forma no aspecto alegórico que
problemas e soluções testemunhados nas histórias assumem frente a fatos de natureza similar na experiência do mundo real. De tal modo, a solução mágica para o problema até então insolúvel pode também não encontrar paralelo imediato no plano da realidade, mas isso não impede o leitor de acreditar em seu eventual surgimento.
Os contos de fadas integram o inconsciente de grande parte dos seres humanos desde a sua infância, pois estes são capazes de reconhecê-los, citar seus elementos e contá- los. Até mesmo as pessoas que nunca ouviram as estórias conseguem depreender-lhes o sentido, ou, ainda, atribuir-lhes uma moral. Além disso, as crianças, desde tenra idade, são preparadas para receber estas narrativas através das cantigas de ninar que lhe serão cantadas e das quais também podem ser depreendidas morais, à semelhança dos contos. (DIAS, 2013, p. 83)
Essas narrativas existem em meio oral desde que o ser humano começou a se comunicar e conservam dentro de si a essência dos valores e da cultura da sociedade de cada época. Dirigidas inicialmente aos adultos, essas histórias surgiram como uma forma de entretenimento para a população em geral. “Foi entre os séculos IX e X que, em terras europeias, começa a circular oralmente uma literatura popular que, através dos séculos, seria conhecida como folclórica, mais tarde transformada em literatura infantil”. (COELHO, 2010, p. 25).
Contadas oralmente, ficaram conhecidas como histórias passadas enquanto as mulheres trabalhavam nas rodas de fiar, ou em períodos de descansos no meio rural. Sobreviveram até os dias atuais devido a interferência escrita de diversos contistas e folcloristas: “Os contos de fadas devem sua sobrevivência a uma série de folcloristas, que, de uma forma mais apaixonada do que científica, nos legaram suas versões” (CORSO; CORSO, 2005, p. 18). As histórias contadas oralmente foram por muito tempo a principal forma de entretenimento e de transmissão de conhecimentos em uma sociedade majoritariamente iletrada e que dispunha de bastante tempo para se contar histórias. Para Von Franz, o ato de contar histórias assumiu algo que a pesquisadora chama de uma “ocupação espiritual essencial” (1985, p. 18), tal como a filosofia da roda de fiar.
Esses contos sobreviveram até hoje por sua habilidade de servirem como escapatória e darem a esperança de um mundo melhor, também são um meio pelos quais podemos tratar assuntos do cotidiano e questões da vida humana, conflitos internos e familiares. Eles ainda existem menos por terem sido preservados de maneira escrita em nossa sociedade e mais pela própria essência de suas histórias. “Enquanto as histórias servirem como válvula de escape para um mundo melhor e combustível para a fantasia, elas terão espaço nas nossas estantes e grades televisivas” (HUECK, 2016, p. 254). Pela esperança de um mundo melhor e pelos efeitos que possuem em seus leitores é que essas histórias sobreviveram.
A transição da oralidade para a escrita ocorreu na França entre os séculos XVII e XVIII, sob o impulso de Charles Perrault, um dos primeiros compiladores desse gênero. Sua primeira obra, A Paciência de Griselidis, foi publicada em 1691; os Contos da Mamãe Gansa, seu mais famoso trabalho seria lançado somente em 1697. A prática de compilação e publicação de histórias tradicionais também teve frutos na Alemanha, onde os irmãos Jacob e Wilhelm Grimm lançaram os Contos Maravilhosos, em 1812. A obra dos Irmãos Grimm constituiu-se em um marco histórico para a literatura, fazendo dessa uma produção artística voltada para o grande público que surgia no contexto da Revolução Industrial, o que abriu caminho para escritores como Hans Cristian Andersen, Lewis Carroll e James Barrie.
O sucesso do empreendimento reside tanto no talento dos irmãos compiladores quanto a todo um contexto histórico favorável da Europa pós-napoleônica, no qual a busca pela construção de identidade nacional e a tentativa de compreender o povo e a cultura popular tinham forte apelo, e isso aparece refletido tanto na motivação dos autores quanto na recepção dada a seu trabalho.
Os imperativos que motivaram os irmãos alemães são diferentes dos que guiaram o francês Charles Perrault pouco mais de um século antes. Perrault propunha um trabalho moralizante e educador acima de tudo. Os irmãos Grimm, no entanto, buscaram a sabedoria popular e o que se constituía como moral ou pedagógico a partir dela, além do desejo de construção de uma identidade nacional germânica a partir da compilação de histórias populares.
A intenção ao coletar histórias e canções populares remete justamente a uma vontade de se ligar aos antepassados e retornar às histórias nas quais já se tem a garantia de saber o seu desfecho. Essa sensação de segurança - que nem sempre sentimos em nossa vida - é um dos elementos pelos quais adultos e crianças ainda sentem necessidade de voltar aos contos clássicos. Paiva afirma que “Os contos proporcionam à criança e aos adultos a vivência de elementos mágicos e mitológicos, que não correspondem a uma realidade objetiva, mas sim subjetiva” (1990, p. 24). Essa realidade subjetiva a que a pesquisadora faz menção são justamente as diversas interpretações e desdobramentos que podemos dar às histórias em nossas vidas, recolhendo delas aquilo que mais se destaca aos nossos olhos, em diferentes épocas da vida.