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Diskusjon

In document Ingrid Ruud Knutsen og Kristian Larsen (sider 123-131)

Esta é exatamente a mensagem que os contos de fada transmitem à criança de forma múltipla: que uma luta contra dificuldades graves na vida é inevitável, é parte intrínseca da existência humana - mas que se a pessoa não se intimida, mas se defronta de modo firme com as opressões inesperadas e muitas vezes injustas, ela

dominará todos os obstáculos e, ao fim, emergirá vitoriosa. (BETTELHEIM, 2006, p. 6)

As narrativas populares, apesar do aspecto lúdico e mágico que portam, foram inspiradas nas experiências do cotidiano, sendo readaptadas ao longo dos anos com a intenção de se tornar mais atraentes ao serem recontadas. Há ainda sempre um aspecto moralizante, com intenção de ensinar uma lição. Ao entrar em contato com essas histórias, podemos afirmar então que elas também eram uma forma de educar e passar ensinamentos sobre a vida.

Nesse sentido, os contos maravilhosos e os de fadas30, bem como as fábulas, surgem como narrativas populares que operam uma mistura entre o real e a fantasia, permitindo com que a criança busque uma relação entre essas histórias e sua realidade interna e social. Essa relação se funda sobre o sentimento de identificação que a criança desenvolve ao comparar as situações vividas pelas personagens e com sua própria vida. As histórias têm o poder de ajudar as pessoas a resolver seus conflitos internos, de uma forma subjetiva e sem dar respostas prontas, apenas por estímulo à reflexão sobre seu conteúdo.

Os contos retratam, através de seus personagens e acontecimentos, os nossos próprios temores e incapacidades contra os quais teremos de lutar, assim como os animais, as velhinhas ou os objetos mágicos representam as nossas capacidades e possibilidades internas, conhecidas ou não, que poderemos obter para superar nossas dificuldades. (PAIVA, 1990, p. 61)

Diana Corso e Mario Corso entendem que os contos de fadas não possuem um sentido fixo propriamente dito, mas são antes ferramentas que nos permitem criar sentidos de acordo com a bagagem que cada leitor possui: “são sim estruturas que permitem gerar sentidos, por isso toda a interpretação será sempre parcial” (CORSO; CORSO, 2005, p. 18). Enquanto retratam nossos medos e conflitos, as histórias também fornecem uma solução, ou mostram que nós possuímos também a capacidade de resolver esses problemas. A estrutura desses contos é fixa também para ajudar a criança a lidar com essas situações de uma forma harmônica. Gonçalves argumenta que:

Tanto os contos de fadas quanto os contos maravilhosos são narrativas que mantêm uma estrutura fixa (situação inicial, conflito, processo de solução e sucesso final). Essas histórias partem sempre de um problema vinculado à realidade, que desequilibra a tranquilidade inicial da narrativa, buscam no desenvolvimento uma solução, por meio da fantasia, com a introdução de elementos mágicos, para no desfecho, retornarem ao real com a restauração da ordem. (GONÇALVES, 2009, p. 15)

A situação inicial sempre está ligada à nossa realidade, sendo rompida por algum conflito no qual podemos sentir identificação (conflitos familiares, medo da morte, questões internas ou sociais), no processo de solução a resposta é dada sempre de forma mágica, a fim de trazer a ludicidade para nós e a possibilidade de que qualquer problema pode ser resolvido. No sucesso final, a história sempre retorna à realidade, e isso é o elemento pelo qual conseguimos identificar os problemas à nossa volta, apesar de se ter uma solução mágica,

30 TODOROV, Tzvetan. Introdução à literatura fantástica. Tradução de Silvia Delpy 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 1980.

podemos sempre retornar à nossa realidade, depois de findado esse processo. Sua importância se deve justamente ao que podemos encontrar nesses contos: “Neles encontramos regras de comportamento de como lidar com essas coisas. Muito frequentemente não se trata de um assunto ético muito claro, mas de como se encontrar um caminho de sabedoria natural. ” (VON- FRANZ, 1985, p. 199)

A importância de retornar ao real no fim da narrativa e de se restaurar a ordem é fundamental para que se entenda que é possível ponderar e resolver os problemas apesar das diversidades encontradas. O ponto de partida da realidade e o retorno a ela no final é o que nos faz vincular os problemas imaginários aos problemas da vida fora das histórias. O final feliz sugere ainda que o enfrentamento desses medos, desafios e limitações tem a possiblidade de um retorno positivo, estimulando a tentativa de resolução de problemas frente a obstáculos impostos ao longo do caminho.

O final sempre de caráter prático para as personagens principais dá a certeza à criança que todas as tentativas para enfrentar seus medos e desafios serão concluídos com êxito, ele lhes dá o estímulo para que se procure resoluções aos obstáculos até que sejam encontradas (PAIVA, 1990). Além do aspecto de ludicidade, é importante ressaltar o estimulo à perseverança na resolução de conflitos que os contos apresentam. Quando temos a percepção de que todos os problemas podem ser resolvidos, não importa o quão difíceis pareçam, a desistência não é uma opção e sua resolução será dada de forma harmônica.

Essas histórias sempre funcionaram como uma válvula de escape para as aflições da alma infantil e permitiram que as crianças pudessem vivenciar seus problemas psicológicos de modo simbólico, saindo mais felizes dessa experiência. Davam-lhes a certeza de que no final tudo acabava bem e todos iam ser felizes para sempre. (MACHADO, 2002, p. 79)

Não é só a criança que necessita do final feliz, essas histórias sobrevivem porque dão segurança também aos adultos. Sempre que pensamos em nossas experiências de leituras mais marcantes, lembramos das histórias que nos eram contadas ainda na infância, onde tínhamos a certeza de que o final seria satisfatório e os vilões receberiam um destino merecido. Relevante ressaltar aqui que um clássico será sempre atual, porque ele irá tratar dos aspectos que sempre perturbaram o ser humano, a necessidade de ser amado, o medo pelos acontecimentos da vida, medo da morte, relações familiares, amorosas, etc31. Machado (2002) ressalta ainda que sua leitura deve se iniciar na infância, que é quando a mente da criança está mais apta ao aprendizado e ao desenvolvimento da criatividade.

Os contos maravilhosos e os contos de fadas ao descreverem as etapas essenciais do crescimento e do acesso a uma vida independente, de uma forma imaginária e simbólica, vão estimular os seus leitores a fruir a liberdade que lhes é concedida pelo registro ficcional e pelas várias veredas que o simbólico e o emotivo possibilitam, quando estão intimamente associados. (BETTELHEIM, 2006, P. 53)

Por meio da ficcionalidade, as crianças se sentirão livres para resolver seus problemas internos e chegar à independência emocional de forma lúdica e acessível ao estado temperamental em que se encontrem. A cada leitura dos contos ela poderá ter uma percepção diferente dos mesmos problemas ou de problemas diferentes que as atingem nas diversas etapas da vida. “Exatamente porque a vida é frequentemente desconcertante para a criança, ela precisa ainda mais ter a possibilidade de se entender neste mundo complexo com o qual deve aprender a lidar” (BETTELHEIM, 2006, P. 5).

In document Ingrid Ruud Knutsen og Kristian Larsen (sider 123-131)