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Evocar valores espirituais e associá-los à ciência, ou associar a imagem da ciência como substituta ao papel das religiões no desenvolvimento moral do homem foi o tom com que Walter Oswaldo Cruz, discursou "Em defesa da ciência"24, buscando trazer à tona o seu "ainda mal focalizado valor"25 e fazendo uma analogia entre a evolução biológica e o progresso da humanidade:

Assim, como no desenvolvimento fetal reproduz-se a evolução das espécies, também no desenvolvimento social encontraríamos as diversas fases pelas quais passaram as sociedades mais desenvolvidas.26

Através desse argumento, apresentado como embriologia social, as sociedades desenvolvidas e seus aspectos científicos e tecnológicos são apresentados como mais                                                                                                                           20 FERNANDES, 2000, p.79-82 21 Ibidem, p.84. 22 Ibidem, p.83. 23 Loc.cit. 24 CRUZ, 1949, p.121. 25 Loc. cit. 26 Loc. cit.

  evoluídos, um ponto ao qual todas as nações deveriam chegar. Para tal, era necessário buscar apoio e financiamento, o que era feito, inclusive, por meio de um discurso de autocrítica sobre o isolamento por parte dos cientistas:

Assim sendo, ou nos mantemos em nossas torres de marfim, a ciência minguando ao lado, ou saímos em campo aberto para mostrar ao público, mediante uma honesta propaganda, a verdadeira pujança da ciência como mantenedora do conforto e da real segurança social. 27

Contrapondo-se àqueles "que negam a evolução do homem dentro dos cânones da ética"28, alegando haver a barbárie simplesmente tomado outras formas, provenientes do mesmo homem cru da pedra lascada, e à posição de que a ciência "nada teria que ver com a estrutura do ser moral, propriedade inatingível da consciência"29, Cruz enfatiza a relação entre ciência, conforto material e ética social:

A ciência descobrindo fontes de energia, mais disseminadas e mais facilmen- te aproveitáveis, influi, através da melhoria das condições de vida, em um dos parâmetros mais importantes no cumprimento ético do homem. Quem ainda não acredita que as guerras se baseiam na luta para uma mais confor- tável sobrevivência entre os povos? Luta pelas fontes de energia - músculos acessórios que a natureza nos emprestou. Em seu bojo, talvez contenha, a ciência, as promessas de todas as religiões e de todas as utopias. 30

A ciência pura começa ditando leis a um povo e transformando assim a fisionomia de sua cultura. Os mandamentos científicos são tão ou mais rígidos que qualquer dogma religioso: devereis autopsiar, vacinarás a ti mesmo pelo menos uma vez a cada dois anos, matarás os ratos e os mosquitos, retirarás o baço de seu semelhante quando atingido de icterícia hemolítica. Tantos mandamentos quanto os achados aplicáveis, provenientes de descobertas. Cada um desses mandamentos teve que ser pacientemente metido nas brechas de boa vontade do todo cultural. 31

                                                                                                                          27 CRUZ, 1949, p.124. 28 Loc. cit. 29 Loc. cit.

30 CRUZ, 1949, p.124 (grifo nosso). 31 CRUZ, 1949, p.122 (grifo nosso).

  O tom dessa palestra merece ser salientado: seu cunho de propaganda pró-ciência e a possibilidade de “cumprimento moral do homem”32, atribuída à sua libertação da luta para suprir suas necessidades materiais. Parece haver a sugestão de que, apenas em seu sentido original (do espírito investigativo e crítico), e estendendo-se ao âmbito do pensamento de todos os seres humanos (para o âmbito da cultura) o potencial da forma científica de pensar, a ser usado para melhorar o mundo, poderia se concretizar.

Walter Oswaldo Cruz faz um discurso de contra-ataque que outros membros da comunidade científica assumiram após a possibilidade de destruição em massa da humanidade pelas bombas atômicas. Nesse tipo de argumentação apresenta-se a ciência, não apenas como moralmente neutra (talvez até moralmente benéfica), mas nunca passível de ser responsabilizada por maus usos que dela se fazem.

Se, por um lado, o poder de destruição em massa mostrou a face negativa da ciência, também mostrou seu potencial de melhoria. Os tempos eram de críticas e cuidados, mas também de entusiasmo. Os governos voltaram seus olhares para a comunidade científica, que emanava potencialidades. Mas as “negras nuvens de pragmatismo”, de “dirigismo que

nublavam os horizontes das possibilidades científicas” 33 necessitavam se dispersar.

Os governos mostram-se dispostos a dar ajuda ampla à investigação, em parte porque acreditam que isso traz benefícios à humanidade e ainda é maior porque sabem que o poder de uma nação -poder militar, humano e industrial- está em relação direta com seu progresso científico.34

“Liberdade de Pesquisa”35 foi título e tema da conferência pronunciada na I Reunião Anual da SBPC por Eduardo Braun-Menéndez, colaborador estrangeiro do campo da pesquisa médica. A liberdade de pesquisa foi uma das principais bandeiras da SBPC, como o “direito de escolher por si mesmo o problema a ser investigado e de realizar a pesquisa sem intervenção de influências estranhas”.36

                                                                                                                          32 Loc.cit.(grifo nosso). 33 BRAUN-MENÉNDEZ, 1949, p.5. 34 Loc.cit. 35

A conferência foi também reimpressa em 2004, em Cadernos SBPC: Fundação e Primeiros Movimentos - 1949-1958. Talvez o motivo da escolha dessa conferência35 para compor o atual caderno seja, além de ter ocorrido na primeira reunião, seu tema e conteúdo.

  O autor explora a origem de uma "oposição mais ou menos geral das sociedades humanas de todos os tempos à liberdade de pesquisa",37 e aponta como causas a preguiça mental e o medo. Além de associar a preguiça mental ao ensino enciclopédico "uniforme e crestador das atividades mentais"38, o considera como inércia mental, contra a qual poucos privilegiados ousariam avançar. Como se “não efetivamente uns bastardos sociais, os

bacharéis e homens de letras enciclopedistas tornaram-se uns bastardos epistêmicos” 39.

Nos trechos da Conferência é possível verificar indícios da tensão e redefinição do perfil de intelectualidade e do reforço no delineamento do cientista como intelectual, em oposição a, ou como evolução de um perfil do intelectual humanista, em concordância com a abordagem de Sá (2006), que tratou da institucionalização universitária de 1930 como o remate do processo de especialização dos saberes [...] e não como seu nascimento.40

Nessa primeira conferência podemos encontrar temas e argumentos que foram na maior parte reforçados, ou debatidos, por outros escritos na revista, tais como:

- o conhecimento científico em si, o fato, é neutro. Ele pode se tornar objeto de poder e ser usado para diferentes interesses, dependendo do contexto;

- alguns obstáculos ao desenvolvimento da pesquisa decorrem da própria organização do trabalho científico, sendo estes, principalmente, a carência de equipamentos adequados, de laboratórios e de grupos de pesquisa;

- a investigação científica não é produto da atividade individual, sendo essa atividade geralmente integrada em um trabalho de equipe;

- o desenvolvimento da ciência requer uma organização complexa; - não há conhecimentos úteis ou inúteis;

- é simplista considerar o conhecimento como um "rolo compressor", que vai esmagando os problemas inexoravelmente. A planificação da pesquisa só é possível em seus níveis mais baixos;

- os efetivos saltos do conhecimento, para além de pequenos avanços, só podem se dar em ambiente em que a pesquisa seja feita de forma livre e desinteressada (ciência pura);                                                                                                                           37 BRAUN-MENÉNDEZ, 1949, p.3. 38 Loc.cit. 39 Sá, 2006, p.85 40 Ibide, p. 25.

  - ciência aplicada, em detrimento da pesquisa pura, não é sinônimo de progresso da ciência;

- o direito à liberdade de pesquisa, como outras liberdades, repousa em postulados metafísicos e

- a ciência não pode ser culpada pelo mau emprego dela:

O remédio não está na supressão da ciência, mas na elevação da união, da segurança, da justiça e da razão nas relações entre indivíduos e nações. Para isso podem contribuir a ciência, o método científico e o espírito científico. Defendamos, pois, a liberdade de pesquisa, que é condição indispensável para o progresso científico. E para defendê-la invoquemos os valores espirituais que a ciência representa. Recordemos que, negando realidade a esses valores espirituais e não baseando a liberdade em certos postulados metafísicos, carecerá ela de apoio lógico e não resistirá ao embate das ideias que lutam por despojar o homem de sua dignidade e convertê-lo em escravo do Estado.41

Mesmo que muitas das relações estabelecidas para associar ciência e moralidade possam não ter sido muito bem explicadas, ou ainda, possam ser consideradas genéricas e utópicas, parece-nos que consistiam em estratégias de convencimento, importantes para defender a ciência de críticas que lhe vinham sendo dirigidas após a Segunda Guerra, em meio a desconfianças sobre os poderes conquistados por uns e temidos por outros, ao se abrir a "caixa de Pandora" com a chave do conhecimento científico.