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O conceito de Representação Social, como mencionado anteriormente, nasce na Sociologia com Durkhein que, por sua vez, baseou seus estudos nas pesquisas antropológicas desenvolvidas por Lévi Bruhl. De acordo com Alexandre (2004), diversos foram os autores que contribuíram para a criação da teoria, sendo que dentre esses se destacam: Saussure, com

a teoria da linguagem; Piaget, com a sua teoria das representações infantis; e Vigotsky com a teoria do desenvolvimento cultural (ALEXANDRE, 2004. p. 124).

A teoria das Representações Sociais foi, então, proposta por Moscovici (1961), a partir de uma pesquisa empreendida na França, por meio da qual este autor estudou as transformações sofridas pelos conceitos psicanalíticos, quando da sua inserção em contextos diversos: no universo dos católicos, dos nazistas e dos profissionais liberais. O fruto do estudo desenvolvido por Moscovici resultou num livro intitulado: La Psychanalyse Son Image et Son Public (1961), cuja segunda edição (1976) foi traduzida para o português sob o título: “A psicanálise: sua imagem e seu público” (2012), obra essa que serve como uma das bases teóricas para o estudo ora desenvolvido.

Após a Segunda Guerra Mundial os estudos teóricos encontravam-se fortemente influenciados pelo positivismo, fazendo com que a realidade fosse pensada numa relação binária (certo/errado; direita/esquerda; dentro/fora; objetivo/subjetivo). Nessa relação antagônica, o sujeito era visto como algo separado do mundo em que habitava, existindo assim, uma clara distinção entre os fenômenos que ocorriam no universo individual e aqueles que eram exclusivos do universo coletivo (FARR, 2011).

As influências positivistas possibilitaram a criação de duas correntes teóricas distintas, uma de origem europeia, preocupada em estudar as questões sociológicas, ou seja, aquelas relacionadas ao meio no qual os indivíduos se encontravam inseridos. A outra corrente teórica, de origem Norte Americana, estava preocupada em estudar os problemas relacionados com as questões psicológicas, cujo foco central de análise era o indivíduo e seus comportamentos (ALVES-MAZZOTTI, 2008).

A vitória dos Países Aliados na segunda grande guerra, criam-se as condições favoráveis para um maior investimento de recursos financeiros em pesquisas, cuja corrente teórica privilegiava os estudos individuais, aumentando ainda mais a distorção já existente, propiciada pelo paradigma positivista. Com a instauração da Guerra Fria, aumentou-se a dicotomia entre as duas visões de mundo, dominantes à época: o individualismo estadunidense em contraste ao socialismo soviético. De acordo com Farr (2011), os estudos desenvolvidos pela Psicologia Social em cada um dos lados da antiga “cortina de ferro” distorceram as análises, uma vez que, ou privilegiam os aspectos psicológicos ou enfatizam os aspectos sociais, não havendo possibilidades de diálogo entre essas duas ciências.

Para Chamon e Chamon (2007) as divergências entre a perspectiva estruturalista das representações coletivas frente ao modelo dominante americano, de cunho

comportamentalista, acarretaram um esquecimento da primeira, por mais de meio século. Estes autores afirmam ainda que os conceitos teóricos inerentes às representações coletivas somente foram reconhecidos após os anos de 1940, sendo que a sua reabilitação completa ocorreu somente após os anos 50 do século XX.

Percebendo a existência de limitações que impediam uma aproximação teórica de ambas as correntes, bem como a riqueza dos conceitos que as mesmas encerravam, Moscovici se propõe a desenvolver um estudo inédito e fecundo, no intuito de demonstrar a existência de conexões entre aqueles fenômenos que se caracterizavam como psicológicos e os que eram percebidos como estritamente sociais. As representações coletivas, criadas sob uma perspectiva estruturalista, apresentavam limitações teóricas, por se constituírem uma classe muito genérica de fenômenos psíquicos e sociais, designados por ciência, ideologia e mito, que condenavam os indivíduos ao determinismo, pois não lhes era proporcionada margem de liberdade. Considerando-se o fenômeno representacional como um esforço para tornar presente o que se encontra ausente, Moscovici (2012) afirma que tais fenômenos não abordam de frente os modos como ocorre a organização do pensamento, não deixando clara a noção de representação.

Baseando-se na primeira tentativa de aproximação entre a sociologia e a psicologia, empreendida por Durkheim, no intuito de superar a dicotomia até então existente entre indivíduo e sociedade, Moscovici estabelece o “elo” que faltava para a sua união. Verificou a existência de uma interdependência entre os fenômenos sociais e psíquicos, uma vez que os mesmos fazem parte de um todo e, dessa maneira, não haveria tal separação, mas sim uma relação de complementaridade entre as partes, ou seja, uma dialética entre ambos os fenômenos. Por meio da sua teoria das representações sociais, Moscovici parte da premissa de que determinados eventos psicológicos possuem origens sociais, da mesma maneira que, os fenômenos sociais podem estar enraizados psicologicamente. (CHAMON e CHAMON, 2007; ALEXANDRE, 2008; ALVES-MAZZOTTI, 2008).

Nesse empreendimento, Moscovici (1978, 2010, 2012) faz inicialmente a distinção entre representação social e os conceitos de natureza sociológica: mitos, ciência e ideologia. Como eram estudadas à época, essas três formas distintas de conhecimentos seriam responsáveis por fornecer os estímulos externos, os quais acarretariam numa resposta psicológica (interna) por parte dos indivíduos. Comprova, assim, que não há separação entre o universo externo e o universo interno, pois estímulo e resposta se formam numa relação de interdependência entre o sujeito e o seu ambiente.

Na perspectiva de Moscovici (2012), tanto os conceitos de natureza sociológica, como os de natureza psicológica, eram tratados de uma forma estática, ou seja, havia uma clara separação entre o universo externo (social) e o universo interno (psicológico). Sendo assim, para cada um dos estímulos anteriormente citados (mito, ciência e religião), deveria haver uma resposta cognitiva específica, ou seja, as opiniões eram tratadas como uma resposta cognitiva para os mitos. Da mesma maneira, as atitudes eram vistas como a constituinte cognitiva para a ciência, assim como as imagens representavam uma resposta cognitiva para a ideologia (FARR, 2011).

Por considerar a inexistência de um recorte entre o estímulo e a resposta e por verificar que ambos se formam conjuntamente, o autor desenvolveu a sua pesquisa, tendo como sujeitos grupos de católicos, de profissionais liberais e de nazistas franceses. Este estudo foi desenvolvido no intuito de comprovar interconexão entre os fenômenos até então considerados exclusivamente sociais daqueles que eram considerados autenticamente psicológicos (ALVES-MAZZOTTI, 2008).

Identifica-se, dessa maneira, a existência de dois mundos permeados por fenômenos que se apresentam aparentemente distintos, aos quais Moscovici denominou de “universo reificado” e de “universo consensual”. No primeiro deles, a realidade física e os acontecimentos se apresentam de uma maneira estática e se encontram externos aos indivíduos, evidenciando-se empiricamente e exigindo uma precisão intelectual para a descoberta dos seus fenômenos. Devido às suas características, esse universo apresenta uma solidez incontestável, que lhe fornece um caráter estático que, por ser externo ao ser humano e livre de quaisquer influências suas, acaba por subordiná-lo (MOSCOVICI, 1978, 2010, 2012).

O universo reificado se constitui de realidades sólidas, ou seja, que se apresentam como algo “dado” e naturalizado aos indivíduos e, dessa maneira, não pode ser contestado, pois possuem um caráter que lhes é externo e objetivo. A ciência como representante desse universo, caracteriza-se por ser a responsável em revelar empiricamente, por meio de métodos precisos e ferramentas especialmente desenvolvidas, a realidade e os fenômenos que se encontram, de certa forma, “escondidos”. Neste universo não há espaço para o conhecimento do senso comum, sendo ele considerado inferior por estar impregnado de influências subjetivas e possuir pouca ou nenhuma evidência empírica (MOSCOVICI, 1978, 2010, 2012). De uma maneira diferente, o universo consensual possui uma dupla abertura entre o indivíduo e a sociedade, por meio da qual são realizadas trocas dinâmicas capazes de influenciar, ao mesmo tempo em que são influenciadas, transformando-se mutuamente. Esse

universo é tipicamente permeado pelos conhecimentos do senso comum que, entretanto, não se encontra isolado do universo reificado. Diversamente deste universo, o conhecimento do senso comum caracteriza por ser dinâmico e adaptativo, criando as possibilidades do mesmo ser permeado por outros saberes. É essa permeabilidade que permite ao senso comum ser impregnado pelos conhecimentos originados nas mais diversas fontes: dos mitos, das religiões, das ideologias, assim como das ciências.

Por meio do confronto e da comparação entre os universos reificado e consensual, Moscovici (1978) percebe que, na prática diária, assim como nas conversações cotidianas, os indivíduos se utilizam conhecimentos das mais diversas origens. Que as comunicações e práticas do dia-a-dia se baseiam nos conhecimentos de um universo que é socialmente compartilhado entre os indivíduos de um determinado grupo social. Nesse universo, os conhecimentos científicos, considerados superiores aos demais, devido ao seu rigor de demonstração empírica, sofrem transformações, acréscimos e supressões.

É justamente esse o processo por meio do qual os grupos transformam os conhecimentos científicos em representações, antes de integrá-los ao seu universo consensual, tipicamente habitado pelo senso comum. O processo no qual ocorre a transformação do conhecimento pertencente ao universo reificado em conhecimento do senso comum, é o que interessa ao estudo das representações sociais e que motivou Moscovici a desenvolver a sua teoria. Por meio do desenvolvimento da Teoria das Representações Sociais, o autor buscou resgatar a validade e a credibilidade dos saberes cotidianos, uma vez que os conhecimentos do senso comum proporcionam uma estabilidade dinâmica e, dessa maneira, uma relativa coerência interna ao caótico mundo no qual os indivíduos participam e estão ativamente inseridos. Seria esse o principal motivo da representação receber o adjetivo “social”, ou seja, o motivo pelo qual uma representação é produzida, pois “a função é própria ao social, na medida em que a representação contribui exclusivamente aos processos de formação de

condutas e de orientação das comunicações sociais” (MOSCOVICI, 2012, p. 71, itálicos do

autor).

A partir do breve resgate das origens da teoria, é possível fazer uma primeira aproximação do conceito de representação social, lembrando que, devido à sua complexidade, plasticidade e amplitude, até mesmo o próprio autor hesitou em fornecer um conceito rígido e fechado. Dessa maneira, Moscovici (1978, p. 41; 2012, p. 39) afirma que “as representações sociais são entidades quase tangíveis; circulam, se cruzam e se cristalizam continuamente através da fala, do gesto, do encontro no universo cotidiano”. Fornecendo mais pistas sobre o

fenômeno, pontua que “[...] podemos afirmar que essas representações são entidades sociais, com uma vida própria, comunicando-se entre elas, opondo-se mutuamente e mudando em harmonia com o curso da vida; esvaindo-se, apenas para emergir novamente sob novas aparências” (MOSCOVICI, 2010, p. 38).

Coube à Denise Jodelet, orientanda de Moscovici, efetuar o aprofundamento desse conceito teórico, a partir do seu estudo sobre as estratégias utilizadas por uma comunidade francesa, para lidar com a loucura dos doentes mentais que acolhiam em suas residências, quando houve a iniciativa de desinstitucionalizar essas pessoas. Essa autora acrescenta que a representação social “é uma forma de conhecimento socialmente elaborada e compartilhada, que tem um objetivo prático e concorre para a construção de uma realidade comum a um conjunto social” (JODELET, 2001, p. 8).

Por ser um fenômeno complexo, cujo próprio autor teve parcimônia em defini-lo, é preciso ressaltar que, embora as representações sociais permeiem as conversações e as práticas cotidianas, nem tudo à nossa volta pode ser considerado como tal. Para que ocorra a emergência destas representações, faz-se necessário o estabelecimento de determinadas condições, as quais são discutidas no tópico seguinte.