4 Analyse
4.1 Skole A
4.1.3 Elevene som ressurser i undervisningen
O desenvolvimento dos instrumentos baseados em inícios de histórias foi inspirado nas medidas da vinculação, que têm como população-alvo crianças com menos de 20 meses (Ainsworth, 1978; Main & Cassidy, 1988). A avaliação do mundo interno das crianças com idades compreendidas entre os 3 e os 10 anos constitui, por isso, um desafio (Bettman & Lundahl, 2007). Nesta faixa etária, a aplicação da Situação Estranha (Ainsworth, 1978) deixa de ser adequada, porque as crianças desenvolveram competências verbais que lhes permitem comunicar sobre as emoções geradas pela separação e pela reunião com as figuras de vinculação. Além disso, a competência verbal crescente da criança permite-lhe responder a entrevistas e questionários sobre a vinculação, tal como acontece com adolescentes e adultos. Para responder a este desafio, os investigadores empreenderam esforços na construção de instrumentos que avaliassem a vinculação, com base nas narrativas elicitadas a partir de imagens, inícios de histórias, bonecos e fantoches (Bettman & Lundahl, 2007). Estes instrumentos permitiram colmatar as lacunas dos instrumentos baseados na observação do comportamento, em contexto laboratorial, como a Situação Estranha, e das entrevistas estritamente verbais, como a Adult Attachment Interview (AAI; George et al., 1984). Enquanto,
na Situação Estranha, o mundo interno da criança é avaliado a partir da observação do comportamento, a AAI baseia-se na capacidade do sujeito para verbalizar as suas memórias narrativas. Estas memórias narrativas permitem aos investigadores fazer inferências sobre o mundo relacional dos sujeitos. As crianças entre os três e os cinco anos têm suficiente destreza verbal para descrever os seus mundos internos, embora não tenham ainda a elaboração cognitiva necessária para responder às entrevistas estritamente verbais. Os instrumentos baseados na elicitação de narrativas vêm, assim, preenchem o vazio deixado pelos instrumentos baseados na observação e pelas medidas estritamente verbais, ao permitir avaliar os modelos representacionais e a emocionalidade de crianças demasiado crescidas para serem submetidas à Situação Estranha e demasiado jovens para responderem à AAI (Bettman & Lundahl, 2007). Os instrumentos baseados na análise de narrativas, e em particular aqueles que têm como estímulo elicitador os inícios de histórias, proporcionam uma grelha de leitura privilegiada do funcionamento social, emocional e cognitivo da criança, ao facilitar o exercício de contar histórias. Embora inicialmente associados ao estudo dos padrões de vinculação, estes instrumentos começaram a ser utilizados para aceder a um espectro amplo de constructos, como a representação sobre o self, as relações de vinculação, os valores morais, o comportamento pró-social, a ansiedade de separação, a depressão, o conflito familiar e as competências de resolução de conflitos emocionais (Bettman & Lundahl, 2007).
O procedimento requerido por estas técnicas consiste em apresentar breves inícios de histórias, que descrevem cenários sociais, emocionais e morais, orientados para as relações interpessoais das crianças entre os quatro e os dez anos. Cada início de história elícita um conflito interpessoal, sendo a narração desse conflito acompanhada pela sua dramatização com bonecos que representam as personagens que o protagonizam, para potenciar o envolvimento da criança na tarefa e facilitar a compreensão do conflito descrito (Page, 2001). Cada história é começada pelo entrevistador, sendo depois pedido à criança que mostre e conte o que aconteceu a seguir. Durante o exercício de construção da narrativa, o entrevistador fornece um conjunto de instruções estandardizadas, de acordo com um protocolo (Apavaloaie et al., 2014; Bretherton, Oppenheim, Buchsbaum, Emde, & MacArthur Transition Network Narrative Group, 1990).
Os inícios de histórias funcionam como um catalisador, ao potenciarem a construção de narrativas, que constituem um veículo de acesso às crenças implícitas que as crianças elaboram em torno das relações interpessoais, assim como dos acontecimentos significativos na sua trajetória desenvolvimental (Fiese & Spagnola, 2005). Dadas as suas inúmeras potencialidades, além do importante contributo para a investigação, os inícios de histórias são úteis na avaliação e intervenção clínicas (Buchsbaum et al.1992).
Os instrumentos baseados em inícios de histórias permitem evitar alguns dos problemas associados à especificidade comportamental e contextual das medidas da vinculação (Buchsbaum, Toth, Clyman, Cicchetti, & Emde, 1992; Laible, Torquati, Carlo & Ontai, 2000). Constituem um veículo de acesso aos seus modelos representacionais, às suas estratégias de regulação emocional e à sua capacidade para mobilizar recursos para resolver conflitos emocionais. Revestem-se, por isso, de inúmeros benefícios, uma vez que permitem analisar as representações sobre as experiências familiares (Hodges, Steele, Hillman, & Henderson, 2003), mitigando o obstáculo das ainda limitadas competências autorreflexivas das crianças mais pequenas (Apavaloaie et al., 2014). Neste sentido, as narrativas permitem compreender a forma como as crianças constroem e significam o seu mundo interno e externo, bem como apreender a ligação entre ambos (Appelman & Wolf, 2003). São, por isso, um veículo privilegiado de acesso à forma como o sujeito reconstrói emocionalmente a realidade (Holmberg, Robinson, Corbitt-Price, & Wiener, 2007).
Estes instrumentos possibilitam a obtenção de informação diretamente junto da criança, a sua administração é relativamente simples e rápida, e os estímulos fornecidos são pouco permeáveis às especificidades culturais. A este propósito, importa enfatizar que alguns destes instrumentos utilizam animais como personagens, enquanto outros foram adaptados em função da etnia ou da cultura (Bettman & Lundahl, 2007). As múltiplas potencialidades destes instrumentos e os benefícios a eles associados justificam o interesse crescente na sua utilização. Bettman e Lundahl (2007) efetuaram uma revisão sistemática dos instrumentos que visam avaliar as narrativas das crianças, tendo a sua pesquisa sido norteada pelas seguintes palavras: ‘narrativa’, ‘avaliação’ e ‘criança’. Identificaram um total de 160 resumos, que selecionaram, com base em quatro critérios: 1) reportarem-se a estudos que tinham como população-alvo crianças em idade pré-escolar (crianças entre os 2 e os 6 anos); 2) serem referentes a publicações submetidas a revisão de pares; 3) referirem-se a publicações em inglês, 4) utilizarem instrumentos baseados em narrativas. Desta seleção, resultaram 53 artigos, em que foram identificados 13 instrumentos baseados na elicitação de narrativas. Os instrumentos tinham como estímulo elicitador inícios de histórias, bonecos, fantoches, ou uma combinação destes. Entre estes instrumentos, destacam-se os seguintes: 1) Separation Anxiety Test (SAT; Klagsbrun & Bowlby, 1976), 2) Incomplete Doll Stories (IDS; Cassidy, 1988), 3) Puppet Interview (PI; Cassidy, 1988), 4) Emotional Knowledge Interview (Denham et al., 1990), 5) Attachament Story Completation Task (ASCT; Bretherton et al., 1990), 6) Bear’s Picnic (BP; Mueller & Tingley, 1990), 7) MacArtur Story Stem Battery (MSSB; Bretherton & Oppenheim, 2003; Bretherton, Ridgeway, & Cassidy, 1990a), 8) Conflict Task (CT; Priel, Myodovnik, & Rivlin-Beniaminy, 1995), 9) Attachment Doll-Play Interview (ADI; Oppenheim, 1997), 10)
Doll’s House Play (Murray, Woolgar, Briers, & Hipwell, 1999), 11) Manchester Child Attachment Story Task (MCAST; Green, Stanley, Smith, & Goldwyn, 2000), 12) Family Stories Task (FAST; Shamir, Schudlich, & Cummings, 2001), 13) Play Narratives (PN; Mol Lous et al., 2002). Bettman e Lundahl (2007) concluíram que estes instrumentos tinham boas propriedades psicométricas, aferidas a partir do acordo intercodificador e da avaliação da sua validade. Todavia, e apesar da similaridade dos estímulos elicitadores, estes instrumentos baseiam-se em diferentes procedimentos de administração e codificação. Com efeito, embora sejam fáceis de administrar, a sua codificação e interpretação não é linear. Enquanto alguns instrumentos têm associados manuais de codificação pormenorizados, outros possuem apenas instruções vagas de codificação, ou não têm associadas quaisquer instruções a este respeito, o que dificulta a sua utilização.
A par dos constrangimentos associados aos procedimentos de codificação, outra desvantagem associada a estes instrumentos prende-se com o facto de requererem um conjunto de competências clínicas para gerir adequadamente a interação com a criança, construindo um contexto relacional securizante, que potencie o exercício de construção da narrativa (Bettman & Lundahl, 2007). Implicam, por conseguinte, um período de treino, que permita ao entrevistador familiarizar-se com os procedimentos de administração e construir uma aliança com a criança. De notar que alguns destes instrumentos se baseiam num conjunto de instruções estandardizadas para elicitar as narrativas (e.g., ‘Mostra e conta-me o que aconteceu a seguir.’) e centrar a criança no conflito associado ao início de história. Porém, nem sempre estas instruções são devidamente explicitadas nas respetivas publicações. Esta ausência de explicitação resulta numa enorme variabilidade na forma como estes instrumentos são administrados, podendo conduzir a interpretações enviesadas ou erróneas e dificultar a replicação rigorosa destes procedimentos no âmbito da investigação e da prática clínica.
Não obstante as limitações apontadas, é inquestionável o precioso contributo dos instrumentos baseados em inícios de histórias para aceder ao mundo interno da criança, nomeadamente aos seus modelos representacionais e à emocionalidade que os permeia.