A teoria linguística desenvolvida por Halliday na década de 1960, a Linguística Sistêmico-Funcional, refere-se ao estudo da língua, como um todo, e abarca a Gramática Sistêmico-Funcional. Esta se vincula ao estrato da forma e serve ao estudo, tanto das escolhas paradigmáticas ou sistêmicas léxico-gramaticais feitas pelo produtor de um texto, quanto das realizações sintagmáticas ou estruturais na configuração das hierarquias gramaticais por constituintes funcionais.
A LSF tem como princípio demonstrar as relações entre língua e contexto, ou seja, o foco no uso da língua enquanto fruto do contexto social. Trata-se de uma teoria que parte do significado e não da forma. Trabalha com o texto numa perspectiva contextual e busca compreendê-lo por meio de diferentes níveis de abstração ou estratos da língua: o contexto de cultura, contexto de situação, semântica discursiva, léxico-gramática e a fonética/fonologia, grafologia/grafética.
A relação entre esses diferentes estratos se dá de maneira dialética tanto por realização/ativação quanto por realização/construção. O contexto de cultura, aqui entendido como sociedade, ativa o contexto de situação social, que o realiza e constrói. O contexto de situação é realizado pela semântica, que o realiza e o constrói.
A semântica é realizada pela léxico-gramática, que a realiza e a constrói e assim, sucessivamente, um estrato ativa e constrói representações de modo subjetivo, propicia as trocas das experiências representadas, ordena as relações, constrói identidades e a língua, em última instância, realiza e constrói a sociedade.
A LSF também se preocupa com a estrutura, pois ao estudar a estrutura das orações de um texto entendemos o significado das mensagens linguísticas.
A estrutura construída pelo falante/escritor é a realização das escolhas nas várias redes de sistemas léxico-gramaticais. Entretanto, o significado é o que ativa a forma, pois de acordo com as necessidades, em contextos específicos, as escolhas expressam os significados pretendidos.
Os significados são realizados pela léxico-gramática. Os níveis mais gerais dos sistemas são representados pelo gênero ou contexto de cultura, que se instanciam por intermédio do registro ou contexto de situação.
O processo de ativação/construção da língua passa por diferentes momentos de codificação semiótica: do contexto de situação social para a semântica (semiótica social); da semântica para a léxico-gramática e desta para a expressão fônica e/ou gráfica.
Ao considerar a língua como um sistema que permite a construção da visão de mundo, Halliday acrescenta que, no contexto em que os textos são utilizados, há algumas variáveis que determinam nossas escolhas; e faz uma interpretação de situação, amparado no conceito de Malinowski sobre contexto de situação.
Halliday introduziu o termo ‘registro’ na década de 1970 para referir-se aos tipos de situação que distinguem o uso da língua. Em termos semânticos, definiu como os recursos representam uma construção social do mundo. O autor interpretou o contexto de situação como uma instância de dado tipo de situação social e definido por meio de três variáveis detalhadas na Teoria de Registro, quais sejam:
a) campo – o que acontece: a atividade social, o objetivo comunicativo e o assunto; b) relações – as relações sociais que acontecem na atividade social: os participantes,
seus papéis, o tipo e status da relação social e a distância social;
c) modo – como a língua é utilizada na atividade social, seu papel, o canal, o meio utilizado e o modo retórico.
Para Halliday (1978), o contexto de situação – instância do contexto de cultura - baliza o que dizemos, assim como nossos textos deve estar em consonância com esse contexto. Portanto, ao fazermos uma escolha em parte do sistema linguístico, levamos em conta, de modo consciente ou não, o contexto de situação no qual nos encontramos. O contexto de situação é o conector entre o sistema social e o texto.
Halliday buscou sustentação para sua teoria nos estudos de Saussurre sobre as relações sintagmáticas e paradigmáticas; nos estudos de Malinowski sobre a interpretação da língua levando-se em conta aspectos culturais e sociais; em Whorf (1956), que apontou a língua como instrumento de organização da sociedade; e em Firth (1956), que introduziu a noção de sistema como um conjunto de possibilidades ou escolhas no uso da língua, além de outras teorias.
A Gramática Sistêmico-Funcional - GSF – é uma gramática de escolhas ou paradigmática, cujo princípio organizacional é o ‘sistema’. A definição de sistema, baseada em Firth, significa a existência de um conjunto de escolhas à disposição do falante/escritor, que escolhe um dos termos disponibilizados. Cada escolha pode levar a outra em outro
sistema mais delicado. Esses sistemas interligados produzem uma ‘rede de sistemas’. Cada estrato linguístico está associado a uma rede de sistemas. Assim, temos: redes de sistemas semânticos, léxico-gramaticais e fonológicos/grafológicos.
O objetivo da LSF é saber como a língua é usada em um dado contexto, sendo a GSF uma gramática de escolhas e não de regras. Preocupa-se com a relação entre língua e aspectos da vida social e caracteriza-se como teoria e método de análise linguística orientada para os aspectos sociais dos textos.
A visão funcionalista de estudo da língua, de acordo com a GSF, refere-se ao papel que a língua desempenha na vida cotidiana de servir a diversos objetivos e demandas dos indivíduos. A noção de função, nesse caso, difere das gramáticas tradicionais, nas quais as formas e as regras descrevem uma língua estática, ou seja, função sintática.
O termo ‘função’ na LSF denota as várias funções da língua: (1) como língua em ação, que exerce funções na vida das pessoas; (2) como funções universais ou metafunções; (3) como papel discursivo desempenhado pelas pessoas nas interações cotidianas de dar e demandar informações ou bens e serviços e (4) como funções dos constituintes configuracionais de uma estrutura na hierarquia da oração, grupo – frase, ou palavra ou morfema.
De acordo com Halliday e Matthiessen (2004), a língua é constituída por três componentes funcionais, e fundamentais do significado, que relacionam os usos da língua – as metafunções.
As variáveis situacionais, descritas na teoria de registro, estão respectivamente relacionadas às metafunções do estrato semântico. Os recursos linguísticos daí derivados são importantes significados que sugerem que a língua realiza e constrói o sistema social.
Halliday e Matthiessen (2004) afirmam que o contexto constitui o nível mais elevado dentre os estratos linguísticos, tais como: semântica, léxico-gramática e a fonologia/grafologia.
Esses estratos são interdependentes e subordinados ao contexto, conforme podemos observar na Figura 1 a seguir.
Figura 1. Língua como sistema de estratos (HALLIDAY & MATTHIESSEN, 2004, p. 25)
O construto linguístico perpassa os três estratos intralinguísticos, porém ao analisarmos um texto em um dado estrato, devemos levar em consideração os estratos extralinguísticos dos contextos: situacional e de cultura.
No estrato extralinguístico, estão o contexto de situação e o contexto de cultura, caracterizando, assim, o contexto social geral e o contexto local das escolhas do falante/escritor, ambos explicados por Halliday (1994) na Teoria de registro.
Por essa razão, a GSF analisa as realizações linguísticas como escolhas dos falantes de acordo com três princípios básicos:
→ O uso da língua é funcional e por isso é motivado, pois tem a função de produzir sentido; → O sentido é influenciado pelo contexto de situação inserido no contexto de cultura;
→ O processo de uso da língua é um processo semiótico no qual a produção de sentido baseia-se em escolhas.
Os princípios demonstram que a abordagem sistêmica da língua é funcional, principalmente sob dois aspectos: (i) porque aponta como as pessoas usam a língua; (ii) porque interpreta o sistema linguístico funcionalmente ou como a língua é estruturada para o uso, numa perspectiva de prática dinâmica ou modo de ação.
Nos estudos de Halliday (1985; 1994) e Halliday e Matthiessen (2004) a língua em uso, sob a forma oral, escrita ou sinalizada realiza significados simultâneos, que são a realização de três áreas gerais de significado ou metafunções.
As metafunções expressam as funções universais de todas as línguas, independentemente do contexto de cultura e de situação, que é parte do contexto maior.
Portanto, um texto é considerado unidade semântica formada por orações como unidades gramaticais em que são realizados em combinação os três significados ou metafunções.
Halliday e Matthiessen (2004) argumentam que as orações são como construções multifuncionais em que a língua realiza esses três tipos de significados combinados, que
explicam as escolhas feitas por usuários de uma língua e sua visão sob um determinado objeto ou evento. As metafunções do sistema semântico são organizadas de acordo com diferentes perspectivas na análise sistêmica e mostram a funcionalidade intrínseca no uso da língua. Assim temos:
Metafunção ideacional – os significados representam, subjetivamente, as experiências
cotidianas do falante/escritor no mundo. É uma forma de reflexão e o falante/escritor é observador de seus mundos externo e interno;
Metafunção Interpessoal – os significados dizem respeito à negociação, em trocas
interativas, das experiências representadas subjetivamente e à construção de identidades por meio de avaliações, juízos de valor e posicionamentos. É uma função de ação e o falante/escritor é participante.
Metafunção Textual – os significados indicam como os textos são organizados para
produzir efeitos nos diferentes contextos de situação para valorizar a negociação das experiências representadas e a construção de identidades na negociação.
A metafunção ideacional, mais especificamente, é caracterizada por dois componentes: o experiencial – relacionado com os significados de representação subjetiva das experiências e realizados léxico-gramaticalmente pelo sistema de TRANSITIVIDADE; e o lógico – relacionado com o sequenciamento das representações subjetivas das experiências, realizadas léxico-gramaticalmente, pelos sistemas de relações táticas e de relações lógico-semânticas (HALLIDAY e MATHIESSEN, 2004).
A metafunção interpessoal, por sua vez, é caracterizada também por dois componentes: a negociação – léxico-gramática de MODO; e a avaliação – léxico-gramática de MODALIDADE e demais recursos de AVALIATIVIDADE.
Nossas análises focalizam a linha do significado ideacional/experiencial realizado pelo sistema de TRANSITIVIDADE.