Para nós brasileiros, alimento e comida são coisas totalmente distintas. Não é porque algo alimenta que é necessariamente bom ou socialmente aceitável. Nem tudo que é alimento é comida. Tudo aquilo que pode ser deglutido para conservar uma pessoa viva é alimento. Comida, entretanto, é tudo que se come com prazer, sob as regras sacramentais de comunhão e comensalidade.
A comida deve ser percebida com o nariz e em seguida com os olhos, a boca, a boa companhia e por fim, com a barriga (DAMATTA, 1986). Comer não é apenas uma imposição biológica, mas também um rito que diz respeito ao prazer, espiritualidade, comunidade, expressões de afeto, família e nossa relação com o mundo natural, expressão de nossa identidade. Esse caráter social das refeições lhe confere um aspecto tanto cultural quanto biológico (POLLAN, 2008).
Nesse sentido, DaMatta (1986) evidencia a relação entre o comer e o comungar para o brasileiro, ao exemplificar que os americanos, inventores do
fast-food (alimento rápido), são indiferentes ao fato de comerem em pé,
sentados, com estranhos ou amigos, sozinhos ou acompanhados, misturam doce com salgado, e com raras exceções, sua preocupação com alimentação vai além de comer para viver. Para o sistema social brasileiro, no entanto, o saber comer é muito importante e mais refinado do que o simples ato de se alimentar.
A alimentação está inserida em um universo povoado por símbolos, significados e classificações que não permite a dissociação de alimento algum às associações culturais atribuídas pela sociedade, de modo que tais associações determinam aquilo que comemos e bebemos, e distingue o que é comestível daquilo que não é (BRAGA, 2004).
Roberto DaMatta, citando Lévi-Strauss, discorre a respeito do complexo universo de representações que envolve o cru e o cozido, que vai muito além da indicação de dois estados pelos quais passam todos os alimentos. O cru está para o estado de natureza ou selvageria do mesmo modo que o cozido está para o universo civilizado, socialmente elaborado.
Sabendo que o cru e o cozido exprimem mais que dois processos ―naturais", podemos agora entender por que falamos que ―o apressado come cru‖ [...] É que, com tal metáfora (ou associação entre o cru e a pressa), estamos nos referindo a esse elo entre a selvageria ou sofreguidão da pressa e o lado selvagem, ruim ou cru das coisas e da vida. O calmo, pode se dizer, complementando o provérbio revelador, come sempre cozido, pois quem tem calma possui um elemento da civilização e a civilização funda-se precisamente num saber esperar [...] (DAMATTA, 1986, p. 30). Para DaMatta (1986) a oposição entre o cru e o cozido possibilita a percepção de que o universo da comida faculta reflexionar o mundo integrando o intelectual com o sensível. De modo que uma refeição bem preparada deve provocar a ligação entre o olhar (que alude ao intelecto), e o olfato e o paladar que indicam o caminho do nariz, da boca e do estômago, promovendo a subsunção de todos os sentidos. Assim, comer não é apenas satisfazer uma necessidade biológica, mas também um exercício simbólico de interação entre corpo, mente e alma, capaz de satisfazer uma pessoa inteiramente.
DaMatta (1986) supõe a existência de um código digestivo na sociedade brasileira que permite a identificação de alimentos que não são agradáveis ou facilmente digeridos promovendo um equilíbrio entre o olho e a barriga. Comida é algo corriqueiro e saudável que ajuda a criar uma identidade, definindo uma classe ou pessoa. Esse código é também relacional e intermediário, pois privilegia a ligação entre o líquido e o sólido, tão bem representado em nossa preferência por alimentos cozidos. O autor destaca o papel estratégico e fundamental da farinha de mandioca simples ou como farofa em todas as refeições, funcionando como uma espécie de cimento que liga os pratos e todas as comidas.
O caráter relacional do comer para o brasileiro pode ser percebido na preferência por mesas fartas em celebrações que promovem a comunhão entre grupos de familiares, amigos, vizinhos e em alguns casos, até mesmo com pessoas estranhas, como é comum acontecer em comemorações religiosas como o Círio de Nazaré no Pará e o Caruru de Cosme e Damião na Bahia. A comida é capaz de identificar um estilo de alimentar-se, e, portanto, definir e identificar aquele que se alimenta. Isto facilmente comprovado na existência de pratos que identificam as regiões brasileiras.
A comida que promove a identidade nacional é o feijão com arroz. De forma que para grande parte dos brasileiros, uma refeição sem a famosa dupla, ou sem a
presença de dos dois, não pode ser considerada como tal, conforme explica DaMatta (1986, p. 30):
Mas qual é a comida brasileira básica? Certamente que se trata do feijão-com-arroz, essa comida que é até mesmo usada como metáfora para a rotina do mundo diário [...] E que é comido como se come um cozido, misturando-se as duas porções num só prato, e assim formando uma massa indiferenciada que assume as propriedades gustativas dos dois elementos. De tal modo que o feijão, que é preto, deixa de ser preto, e o arroz, que é branco, deixa também de ser branco. A síntese é uma papa ou pirão que reúne definitivamente arroz e feijão, construindo algo como um ser intermediário, desses que a sociedade brasileira tanto admira e valoriza positivamente. Comer arroz-com-feijão, então, é misturar o preto e o branco, a cama e a mesa fazendo parte de um mesmo processo lógico e cultural [...] .
A comida classifica pessoas ou grupos sociais como é o caso da caça que caracteriza as populações tradicionais. A comida, embora não seja uma determinante, pode ser um indicativo do patamar econômico de um indivíduo ou grupo social, uma vez que determinadas classes de alimentos só podem ser acessados por grupos ou indivíduos detentores de poder aquisitivos mais elevados, como por exemplo, cortes de carnes de primeira, cujo exemplo mais famoso é o filé- mignon, que está relacionado ao que é ―superior‖.
Um exemplo da ligação entre a comida e o poder aquisitivo é a utilização de metáforas onde as palavras comer ou comida possuem conotações econômicas: A expressão ―pão-duro‖ alude a alguém que é avarento e, para economizar, come o pão dormido e obviamente duro; Pessoas em situações bem-sucedidas, estão ―com a faca e o queijo na mão‖.
Para indicar a propriedade de recursos financeiros, de poder e força de alguém, diz-se que o sujeito ―está por cima da carne-seca‖; Do mesmo modo, ―comer do bom e do melhor‖ anuncia mais do que alimentar-se, indicando um passadio de rico, uma vida boa, gostosa, nobre (DAMATTA, 1986).
Portanto, a análise do consumo de alimentos por determinada população não deve se reduzir apenas à reflexão dos fatores e raciocínios econômicos, mas, considerar desde os fatores biológicos ás variáveis estruturais, pois a alimentação envolve questões socioculturais, nutricionais, fisiológicos e de saúde. Á vista do que já foi exposto até agora, esse tópico pode ser encerrado,
antecipando que a escassez de políticas públicas tem feito as comunidades ribeirinhas das RESEX da Terra do Meio ―comerem o pão que o diabo amassou‖.