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El consum de productes ecològics a les Illes Balears

Taula 4: Superfície d’agricultura ecològica (ha). Any 2014

5.5 El consum de productes ecològics a les Illes Balears

Para a maioria dos meus entrevistados a mandinga é, de facto, um elemento complexo e de difícil definição. Eles têm uma noção clara de que, para cada capoeirista, a mandinga poderá significar algo diferente. Uma parte significativa deles,

156 sobretudo os mais antigos praticantes, sabe relacionar com clareza a ideia de que a mandinga mantém uma relação com a religiosidade afro-brasileira, embora a vejam num prisma secular em que ela é um atributo comportamental do capoeirista, mais do que algo que advém do sagrado. Apesar das suas diferentes origens, de nacionalidade e ou etnicidade, eles veem a mandinga como algo que, mesmo antes de lhe ser apresentada através da capoeira, poderia ou não já fazer parte de uma característica da sua origem nacional.

Josimar é um jovem angolano residente em Portugal. Apesar da sua limitação física nos membros inferiores, segundo ele, a mandinga sempre o acompanha diariamente e não o impede de ser um atleta da capoeira. “Aí você me pergunta se o angolano tem mandinga. Eu posso te responder que o angolano é uma pessoa esperta, uma pessoa que não se deixa derrubar, que faz tudo pra atingir seus objetivos. Nesse sentido sim o angolano tem mandinga.” (Depoimento de Josimar, junho, 2013)

Tomasz Baranik, jovem polaco residente em Cracóvia, praticante de capoeira há quase dez anos, concebe a mandinga como o espírito da capoeira e diz que os nacionais do seu país revelam alguma dificuldade em compreender a mandinga, embora encontre pontos em comum entre a cultura polaca e brasileira, de onde ele acredita vir a mandinga. Um outro aspeto valioso do seu depoimento é o facto da mandinga ser considerada, por ele, o espírito da capoeira.

Tou ainda descobrindo esse negócio, por que isso vem da cultura brasileira que é diferente e é um pouco difícil pra entender, mas acho que na minha nação, os poloneses são um pouco parecidos com os brasileiros, estamos sentindo isso, mas precisamos entender um pouco melhor o que é mandinga. Temos que procurar esse caminho, trabalhar um pouco isso, pra conhecer o espírito da capoeira, não só técnicas, não só princípios mas o espírito mesmo. (Depoimento de Tomasz Baranik, dezembro, 2012)

Existe, no entanto, nos depoimentos uma tensão que separa os brasileiros dos não brasileiros: saber se a mandinga pode ou não ser incorporada pelos não brasileiros, uma vez que não faz parte do seu repertório cultural ou biológico. O Contra-Mestre Papagaio, brasileiro residente em Portugal há mais de uma década, expõe a questão da seguinte forma:

Na minha conceção, tem muita gente principalmente no leste europeu, tem muitos atletas de capoeira. Excelentes, gente muito rápida que treina muito. Mas perdem um pouco essa parte. Não posso dizer que eles não têm mandinga, se calhar eles não descobriram a mandinga que a capoeira tem. (Depoimento do Contramestre Papagaio, junho, 2013)

157 Nego Boy é um jovem capoeirista brasileiro residente em Israel, onde tenta desenvolver um trabalho no seu próprio grupo. Durante a nossa conversa, ele revelou algum desconforto com o crescimento da capoeira em Israel, alegando que, apesar do visível crescimento numérico dos praticantes e mesmo da sua desenvoltura e performance no jogo da capoeira, existiria uma aversão à figura dos brasileiros em Israel, o que era para ele uma forma de desrespeito para com a cultura de origem da capoeira:

Israel não tem mandinga, tem a cópia. Tem a xerox. Eu acho que o que vejo lá eles tentam imitar bastante a mandinga do mestre, do brasileiro. Um dia chega sim, como vai chegar tudo, um dia vai chegar o tempo dos verdadeiros mestres estrangeiros, por enquanto o que vejo lá é uma cópia. A mandinga, a malandragem, o jeito, a saída, a negaça do mestre brasileiro, isso eu não vi ainda. (Depoimento do Nego Boy, junho, 2013)

Numa perspetiva de género, a mandinga é algo inteligível e apetecível como forma de expressar uma paridade e um conhecimento que iguala as mulheres aos capoeiristas do sexo masculino. Marina Sininho é uma capoeirista estoniana residente em Portugal. Sininho expressou a sua visão sobre a mandinga no feminino da seguinte forma:

A mulher capoeirista tem de ser mandingueira. A mulher capoeirista tem muita coisa pra provar prós capoeiristas masculinos. A primeira coisa é que nós conseguimos jogar bem, com balanço, com mandinga e também que nós estamos na capoeira por causa da capoeira, não por outras coisas. A mulher tem de ser mandingueira. (Depoimento de Marina Sininho, junho, 2013)

Por sua vez, a perspetiva mais intrigante pode ser observada pelo viés religioso de alguns praticantes que assumem uma adesão explícita a uma instituição religiosa, bem como aos seus princípios. Mestre Cota reside em Portugal há mais de uma década e é oriundo do Estado de Minas Gerais. Há algum tempo, por razões de ordem pessoal, ele converteu-se ao protestantismo e tem estado ativo como membro, mas também como capoeirista, no âmbito da sua congregação religiosa. Surgiu no Brasil já há algumas décadas, no campo religioso protestante pentecostal, um movimento desportivo chamado de “atletas de Cristo”. Trata-se de desportistas de várias modalidades que, de alguma forma, professam e tentam filiar-se, através do desporto, à vida religiosa protestante. Na capoeira esse movimento foi estudado por Pereira (2007) com uma dissertação de mestrado sobre o que ele denominou de Capoeira

158 Gospel, pesquisando os praticantes da região do ABC paulista. É sabido que determinados setores dos cristãos protestantes no Brasil têm travado uma dura batalha, no mercado religioso, contra as religiões afro-brasileiras, muitas vezes criando difamações e mitos e reeditando visões diabólicas das entidades às quais se presta culto nas religiões de matriz africana. Pode imaginar-se que, na versão da Capoeira Gospel, ocorreu um processo de “limpeza e higiene” de tudo que representasse a cultura negra, subvertendo valores e rituais que, no olhar dos evangélicos, constituíam uma prática de adoração demoníaca. Mestre Cota confessou-me que não foi fácil convencer o seu pastor, bem como a sua congregação, de que a capoeira pode e deve ser um instrumento para “servir ao senhor”. Seja como for, o mestre não abdicou da capoeira nem tão pouco de buscar ser um mandingueiro, pelo menos na forma como concebe o conceito.

Eu vou usar a palavra mandinga de uma outra forma, vivência. Quanto mais você vive a capoeira mais sábio você fica na roda. Então a sabedoria dos antigos ou a sabedoria dos mais velhos é que se gera a mandinga do mandingueiro. Mas a verdade é uma sabedoria e essa sabedoria é dada por Deus. Então isso requer tempo pra você adquirir essa sabedoria e é de onde os mais antigos falam que são mandigueiros. Mas a mandinga tá no tempo que as pessoas faz capoeira. (Depoimento do Mestre Cota, junho, 2013)

Como terei oportunidade de explicar mais adiante, as religiões afro-brasileiras ganharam muito espaço em Portugal e, nos últimos anos, alguns capoeiristas, por força da sua ligação à cultura afro-brasileira, pelo crescimento religioso e mudança de status social adquirido em Portugal, aderiram às religiões como a Umbanda e o Candomblé. É o caso do Contramestre Papagaio, residente em Leiria, e que frequenta um dos cultos afro-descendentes em Portugal.

Tem muita gente que pensa que mandinga tem diretamente a ver com o espiritual, com o axé, também. Há quem chame os trabalhos espirituais de mandinga. Também é. Pra gente ser capoeirista não precisa ter essa religião, a capoeira é aberta pra tudo, mas eu penso que pra a gente sentir a capoeira, tem que ter um pouquinho de axé, tem que ter a energia. Não vou dizer que a gente tem que ser espírita, mas a gente tem que sentir uma energia, porque a capoeira é feita de energia. Como o espiritual mexe diretamente com essa energia pra mim facilita tudo. (Depoimento do Contramestre Papagaio, junho, 2013)

Enfatizo que as questões de ordem espiritual e religiosa que envolvem a origem da capoeira podem ser mobilizadas ou desmobilizadas, para atender a aspetos pertinentes ao crescimento da capoeira em diferentes países. Algumas vezes, caso da

159 Polónia, uma versão “mais secularizada” e desportiva da capoeira será mais útil ao seu crescimento, tal como outras versões mais “espiritualizadas” da capoeira podem servir como mote de construção identitária do grupo ou de indivíduos que combinem e justifiquem estilos de vida aliados a práticas desportivas e religiosas.

Contudo, entre os meus entrevistados alguns expressaram uma visão mais globalizante da mandinga, admitindo que ela é inerente a todos, uma condição humana e como tal não há limites para a sua aquisição. Mestre Vladimir Frama chegou à Holanda nos anos noventa, oriundo do Estado do Ceará, no nordeste brasileiro. Foi nos Países Baixos onde estabeleceu o seu grupo e consta que é dos mais numerosos daquele país. Para ele:

A capoeira é um desafio e a mandinga faz parte. Para ser capoeirista tem de ser mandingueiro, como qualquer ser humano pode ser capoeirista, o europeu também tá mandingando, sabe mandingar, sabe observar, sabe ser esperto, sabe ser bobo, a mandinga tá presente e tá rompendo oceanos. A mandinga é do ser humano. A gente denominou como afro, mandinga, mas é humana, quem for humano faz, pode ser europeu, escandinavo, pode ser qualquer coisa, americano, brasileiro, até se descobrirem uma vida em Marte ocara vai ser mandingueiro com certeza. (Depoimento do Mestre Vladimir Frama, dezembro, 2012).

Embora o procedimento de categorização de um fenómeno possa reduzir-lhe a complexidade, é possível mapear a compreensão e formas de representação da mandinga na capoeira de três maneiras: como possibilidade mágico-espiritual, ou forma de feitiço, como astúcia do capoeirista dentro e fora da roda ou como sinónimo de capoeira. Quando um praticante se refere a mandinga, pode estar a ainda a querer englobar as três possibilidades ao mesmo tempo.

1. Mandinga é magia: Uma compreensão espiritual em que a mandinga é um feitiço ou forma de magia que se obtém ou se pode fazer pela adoção de procedimentos mágicos-espirituais, por sua ligação às religiões de matriz africana e que conferem ao jogador malícia e um corpo fechado.

2. Mandinga é malícia e astúcia: Uma compreensão cultural em que a mandinga se obtém pela prática corporal e a intimidade com a complexidade do jogo da capoeira. A mandinga é a astúcia do capoeirista.

3. Mandinga é da natureza do ser humano: Trata-se de uma compreensão totalizante da mandinga e da capoeira como um todo. É uma compreensão

160 biológica da mandinga como uma capacidade inata, presente em todos os indivíduos, que já nasce com o ser e que, ao longo do tempo, “aflora naturalmente”.

Na perspetiva final, a mandinga pode ser percebida como algo que já se possui à partida, que é parte do património genético do ser humano, inato, e que, ao longo da sua vida, se desenvolve a partir de uma perceção da realidade e da capacidade de agir sobre ela de maneira assertiva a obter êxitos. Visto desta forma a mandinga possui uma carga biológica inerente à existência humana, inserida no ADN, e que poderia aflorar com o tempo e a maturidade dos indivíduos. Outra perspetiva da mandinga postula que, sendo algo que se possui ou não já à partida, não é atributo de todos os indivíduos e só alguns, devido à sua ligação religiosa, a poderiam obter ou desenvolver.

Na forma de representação usual entre os praticantes, a mandinga apreende-se através de um processo de incorporação, como uma capacidade que se desenvolve, que se articula, que se aprende, através da aquisição de conhecimentos e práticas que nos permitem navegar socialmente com mais facilidade. É uma ferramenta comportamental, um modo de estar e fazer, que tendo origem nas crenças religiosas africanas e se incorporada a algumas das práticas da diáspora como a capoeira, pode, perfeitamente, ajustar-se e servir como instrumento de navegação social. A mandinga é, na verdade, uma capacidade dialética e reflexiva de compreender a realidade e agir sobre ela com a máxima eficiência. Não interessa neste sentido debater a veracidade da aquisição ou não das propriedades mágicas da mandinga, a partir de procedimentos religiosos e espirituais, ou a sua existência natural em cada ser humano, mas compreender as formas de comercialização e consumo de uma certa maneira de perceber a mandinga na capoeira como capital simbólico e instrumento útil de navegação social nas sociedades ocidentais, particularmente em tempos de crise.