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2. METODE OG FORSKNINGSDESIGN

2.8 Ekspertintervju

Partindo agora para uma vertente diferente, abordamos neste tópico, de forma não expansiva, o funcionamento do aparelho psíquico proposto por Freud (1987) e Lacan (1993), os conceitos de inconsciente e linguagem para estabelecermos uma relação entre eles (inconsciente e linguagem), as narrativas e o espaço potencial (lugar psíquico onde é possível, por meio do brincar, criar histórias).

De acordo com Freud (1987), a mente humana é dividida em dois sistemas: o pré-consciente/consciência (Pcs/Cs) e o inconsciente (Ics). No inconsciente estão as representações de coisas, uma espécie de arquivo visual, e estes conteúdos só se tornarão conscientes quando se ligarem às representações de palavras que lhe correspondam.

O psiquismo, segundo Freud, é regulado por três princípios: princípio da constância (busca manter sempre constante, ou reduzido ao máximo, a tensão do aparelho psíquico); princípio do prazer (evita o desprazer e proporciona o prazer); e o princípio da realidade (tenta modificar o princípio do prazer, à medida que o psiquismo vai evoluindo). Há também modelos teóricos fictícios destinados a explicar a complexidade do funcionamento do aparelho psíquico, as instâncias psíquicas: ID (representa o pólo pulsional, inconsciente, funcionando segundo o princípio do prazer, procurando apenas satisfação imediata); Ego (regido pelo princípio da realidade) e o Superego (se opõe ao ego, informando quando os desejos são impróprios, agindo como instância formadora da moral).

Visto que em Psicanálise o percurso dos eventos mentais é regulado pelo princípio de prazer e de realidade, podemos pensar que o contar e ouvir histórias também são movidos pelos mesmos princípios, que satisfazem o desejo humano: a busca do “self”.

Freud, analisando o inconsciente reflete sobre os mecanismos de lembrança e de esquecimento, questões fundamentais para a narrativa, e percebe que ambos os processos obedecem aos mesmos mecanismos da condensação e do deslocamento no funcionamento da linguagem. A condensação (lembrança) ocorre quando um elemento é conservado na memória, apenas porque está presente por diversas vezes em diferentes pensamentos do sonho, e a mistura de imagens pode chegar a atenuar traços que não

coincidem para manter e reforçar apenas traços comuns; e o deslocamento (esquecimento) diz respeito a uma representação majoritária (um elemento conservado na memória) que se desloca para o inconsciente.

Observando que o inconsciente é estruturado de acordo com os mecanismos do esquecimento e da lembrança, Lacan seguindo Jakobson, aproximou estas duas noções às figuras lingüísticas da metáfora e da metonímia, para em seguida afirmar que: “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”. (Lacan, 1993:45).

Neste sentido, ele sintetiza o aparelho psíquico numa estrutura única composta pelo Real e pelos registros do Imaginário e do Simbólico, e apresenta um objeto apto a reunir seus preceitos, construídos por três círculos, entrelaçados e inseparáveis.

Dessa forma, a concatenação dos registros e suas lógicas recíprocas evitam que os três círculos sejam considerados separadamente, pois funcionam em uníssono; mesmo cada um tendo seu status, nenhum deles tem mais ou menos hierarquia que os outros e atuam de maneira conjunta.

Como vemos, o Real é simultaneamente condição para o Simbólico e o que o excede, o que sobra do processo de simbolização, é o impossível de ser simbolizado totalmente na oralidade ou na escrita; o Simbólico está ligado à língua e mais especificamente, ao significante, diz respeito a toda e qualquer atividade humana, fazendo do homem um animal regido pela linguagem; e o Imaginário constitui-se através do Simbólico, prevalecendo a relação com a imagem do semelhante.

Estes registros lacanianos que constituem o indivíduo (Real, Simbólico e Imaginário), associando-os às histórias, nos levam a crer que a linguagem simbólica das narrativas favorece a elaboração mental da relação do real com o imaginário, aproximando prazerosamente as crianças da realidade consistente, conduzindo-as paulatinamente a uma progressiva maturidade.

De acordo com Saleh (2000), é pela representação, aquela que se dá no nível do Imaginário, que o sujeito se relaciona com a linguagem das histórias, pois não é possível o acesso direto ao Real que apenas é perceptível no nível do Simbólico.

Retornando a Propp (1997), a unidade de composição do conto reside na sua realidade histórica; assim as histórias assumem a função de transmitir os valores humanos através da fantasia. E, visto que o espaço potencial, segundo Winnicott (1975), é o lugar onde a realidade pode ser enriquecida com a imaginação, através da

simbolização do processo criativo, então a experiência cultural se manifesta neste espaço por meio do “brincar”, contar histórias, uma forma de jogo que pertence à cultura.

Hisada (1998) considera o espaço potencial uma zona intermediária entre a realidade interna e externa, lugar onde se realiza o jogo, a brincadeira, origem de todas as atividades sócio-culturais. E o passaporte para entrar nessa área é a capacidade de poder brincar e imaginar, pois é através da magia que se permite entrar nesse mundo de sonhos, de criação e de prazer.

Com as histórias infantis pode-se aprender mais sobre os problemas interiores dos seres humanos, como proceder corretamente para solucioná-los. É característica dessas narrativas colocar um dilema existencial de forma breve e categórica, e isso permite à criança apreender o problema na sua totalidade. Como toda obra de arte, as narrativas tanto agradam quanto instruem, sua genialidade especial é que elas falam diretamente à criança, precisamente na idade em que essas histórias são mais significativas para ela, dado seu intenso processo de amadurecimento para articular seu mundo interior e exterior.

Desse modo, as narrativas traduzem bem a imaginação, o prazer, o encantamento, elementos essenciais para o crescimento, estruturação da criatividade e do raciocínio lógico. E a criança pode desenvolver a criatividade, o potencial crítico por meio da reflexão e do questionamento dos comportamentos e ações dos personagens.

Freud também enxerga nos contos uma forma atenuada dos mitos, considera que estes são “remanescentes deformados de fantasias de desejo de nações inteiras, os sonhos seculares da jovem humanidade”.

Ainda de acordo com o autor, os contos que procedem sinteticamente, por imagens, parecem, às vezes, muito próximos das fantasias reveladas pela Psicanálise, assim como os mitos, os contos também constituíram materiais privilegiados para essa linha de estudo da mente humana, pois é através do folclore, da arte e do sonho que os freudianos ilustram suas teorias para a formação de uma abordagem teórica, centrada no estudo do psiquismo humano.