O primeiro a se destacar nessa fase foi William Jones, o qual apresentou, em 1786, uma comunicação à Sociedade Asiática de Bengala, indicando semelhanças entre o sânscrito, o latim e o grego. Sequencialmente, dicionários e gramáticas do sânscrito foram publicados (CAMPBELL e POSER, 2008). No entanto, antes de William Jones, outros estudiosos durante o século XVII e início do século XVIII já faziam um esforço para comparar as línguas e classificá-las de acordo com suas semelhanças. Ludolf (1702), por exemplo, já afirmava que o reconhecimento das afinidades das línguas deve depender antes das semelhanças gramaticais do que do vocábulo; e que nas correspondências de vocabulário, a ênfase deve ser dada nas palavras simples como os nomes para as partes do corpo (apud CÂMARA Jr., 1990). Contudo, foi William Jones que, ao perceber semelhanças entre o sânscrito, o grego e o latim, emitiu uma opinião nesse sentido, e sua ideia acabou repercutindo.
O segundo destaque é Friedrich Schlegel, que publicou, em 1808, um estudo sobre a língua e o conhecimento dos hindus. Nessa obra, ele reforça a tese de Willliam Jones (1786) em relação às semelhanças entre o sânscrito, o latim, o grego com o germânico e o persa. Em seu estudo, Schlegel (1808) tomou como base as raízes lexicais e estruturas gramaticais. Foi ele o primeiro a empregar o termo „gramática comparativa‟, defendendo uma comparação sistemática de todas aquelas línguas. Contudo, F. Schlegel não possuía muito conhecimento sobre mudanças fonéticas, por isso suas comparações eram limitadas aos vocábulos de sons idênticos com discrepâncias facilmente explicáveis por evidentes estágios intermediários (cf. CÂMARA Jr., 1990).
Ainda sobre Schelegel, sabemos que ele procurou também dar uma ideia das estruturas linguísticas. Para isso, dividiu-as em duas classes, uma que abrangia o sânscrito e as línguas com ele relacionadas; e a outra, correspondente a todas as outras línguas. Com as línguas da primeira classe, ele insistiu sobre o aspecto flexional; na verdade, foi o primeiro a empregar o termo flexão no estudo linguístico, que era entendido como a capacidade de uma palavra mudar internamente com o crescimento da raiz (idem).
Franz Bopp deu sequência aos estudos comparativistas da época ao publicar, em 1816, um livro que tinha como tema principal “o sistema de conjugação da língua
sânscrito”, comparando esse sistema com o das línguas grega, latina, persa e germânica. Foi através dessa comparação, basicamente morfológica, que ele identificou correspondências sistemáticas entre as línguas, possibilitando a comprovação de que tais semelhanças não se deram ao acaso, pois tantas similaridades só poderiam ser explicadas por possuírem a mesma origem (idem).
Com isso, Franz Bopp, a partir de 1833, deu continuidade aos seus estudos, estendendo a comparação com a língua celta, o eslavo e o armênio, publicando mais tarde uma gramática comparativa do sânscrito, persa, grego, latim, lituano, gótico e alemão. No entanto, o objetivo principal de Bopp era estabelecer relações genéticas entre essas línguas, não se preocupando com as explicações das mudanças ao longo do tempo, sendo esta a preocupação de Jacob Grimm. Para Bopp, importava apenas descobrir a origem das formas gramaticais, pois seu propósito era o de ter uma ideia da língua pré-histórica desaparecida da qual as línguas por ele consideradas deviam ter-se derivado. Por esse motivo, não deu a devida importância à fonética, preocupou-se apenas com a morfologia ao realizar um estudo estrutural da palavra (idem).
Outro estudioso que ajudou a lançar os fundamentos do que foi considerado como sendo a abordagem histórica da linguagem foi Jacob Grimm. Ele publicou, em 1819, uma gramática alemã (reeditada em 1822), contendo explicações sobre as mudanças fonéticas que deviam ter ocorrido nas línguas germânicas ao longo do tempo. Uma contribuição importante de Grimm ao desenvolvimento dos estudos comparativos é a ideia de correspondências sistemáticas parciais entre os sons de palavras equivalentes em diferentes línguas, em vez de lidar apenas com a noção vaga de semelhança entre palavras.
Em 1822, Grimm, depois do linguista dinamarquês Rasmus Rask, observou que as línguas germânicas tinham frequentemente [f] onde outras línguas indo-europeias tinham [p]; e [p] correspondendo a [b] em outras línguas; [th] correspondendo a [t] em outras línguas; tinha [t] correspondendo em outras línguas [d]. A partir disso, Grimm chega à conclusão de que a alteração fonética dá-se na maioria dos casos, mas nunca se opera completamente em cada caso particular; algumas palavras mantêm a forma da época anterior; pois, por algum motivo, a corrente da inovação passou sem afetá-las (LYONS, 1979).
Antes da publicação de Grimm em 1819 e depois de Bopp (1816), Ramus Rask, linguista dinamarquês, publicou em 1818 um importante trabalho comparativo no qual envolvia as línguas nórdicas, as demais línguas germânicas, o grego, o latim, o lituano,
o eslavo e o armênio; no entanto, sua obra não teve grande repercussão já que a língua utilizada para divulgação científica da época não foi a mesma utilizada por ele em seu trabalho. Vale ressaltar aqui que Rask foi o primeiro estudioso a fazer progressos na técnica de comparação histórica entre línguas, visto que ele defendia a importância de se fazer comparações gramaticais em vez de aproximar palavras cuja concordância era incerta, por poderem passar facilmente de uma língua para outra. Seu estudo é apoiado também na concordância entre as palavras que ele considerava mais fundamentais (cf. CÂMARA Jr., 1990).
August Pott (1833-6) foi também uma figura importante no cenário do desenvolvimento dos estudos da Linguística Histórica. Seu trabalho ficou concentrado nos interesses etimológicos no campo das línguas indo-germânicas, sendo que o maior mérito dele foi o fato de ter dado ênfase à fonética e à derivação vocabular (idem).
Outro que se destacou por contribuir com o desenvolvimento de estudos comparativos foi Friedrich Diez, ao publicar, entre 1836 a 1844, uma gramática histórico-comparativa das línguas originárias do latim (filologia românica) e, em 1854, um dicionário etimológico dessas línguas (cf. CÂMARA Jr., 1990).
Com os trabalhos comparativos produzidos acerca das línguas Indo-Europeias, surgiu, então, a necessidade de representar, de forma mais sistemática, as relações genéticas entre línguas aparentadas. Foi assim que August Schleicher propôs uma classificação genealógica para as línguas e utilizou um sistema de representação comum em estudos de evolução biológica, influenciado por sua formação – botânico – e pela teoria darwiniana (teoria evolucionista). Nessa representação, Schleicher fez uma divisão das línguas indo-europeias em ramos (teoria da árvore genealógica) e que ainda hoje é utilizada para a representação das famílias linguísticas (idem).
De acordo com a classificação de Schleicher, as línguas ramos nascem da uma língua-mãe; das línguas-ramo nascem ramos menores e, desses ramos menores, surge uma série de dialetos. Finalmente, temos o tronco da árvore ou a proto-língua. Além disso, escreveu uma gramática comparada das línguas indo-europeias (1861), na qual desenvolveu uma tentativa de reconstrução de formas lexicais a partir de correspondências sistemáticas, sintetizando, assim, os saberes acumulados na área da comparação de línguas até aquele momento (idem).
Schleicher, no entanto, através de suas reflexões acerca do desenvolvimento da linguagem humana, afirma que cada língua é o produto da ação de um complexo de substâncias naturais de cérebro e no aparelho fonador. Para ele, estudar uma língua era,
portanto, uma abordagem indireta a esse complexo de matérias. Dessa forma, ele foi levado a concluir que a diversidade das línguas depende da diversidade dos cérebros e órgãos fonadores dos homens, de acordo com as suas raças. E associou, equivocadamente, a língua à raça. Com isso, ele advogou que a língua é o critério mais adequado para se proceder à classificação das raças humanas (idem).
Muitos outros ainda poderiam ser citados aqui, tais como Max Müller, William Whitney, Augusto Fick. O primeiro dessa série, por exemplo, ateve-se à ideia de que as raízes desenvolvidas pela análise da gramática comparativa do indo-europeu devem ter sido as verdadeiras palavras da língua primitiva, e tentou reduzir o número delas (cerca de 500) a fim de ter uma ideia do pobre sistema isolante da linguagem no despertar da vida humana (cf. CAMPBELL & POSER, 2008).
Já William Whitney estava convencido do papel domintante da aglutinação na estrutura da palavra, por isso, levou até as últimas consequências, a explanação sobre afixos e desinências como antigas raízes que perderam seus significados primitivos e se tornaram, através da aglutinação, meros elementos formais. Por fim, Augusto Fick, alemão, sanscritista, filólogo, deixa claro em seus estudos que a divisão de uma língua originalmente uniforme é feita sempre em dois grupos (idem).
Dando continuidade à apreciação dos estudos comparativistas, podemos citar as contribuições dos neogramáticos na construção de um método mais rigoroso para o estabelecimento de relações genéticas entre sistemas linguísticos. Além disso, diferente do objetivo de seus antecessores, os neogramáticos, representados inicialmente por Osthoff (1847-1909) e Brugmann (1849-1919), estavam interessados em traçar explicações para as mudanças que ocorriam de forma sistemática de uma língua para outra, isto é, a investigação se pautava na descoberta dos princípios gerais do movimento histórico das línguas. O maior pressuposto defendido por eles era que as mudanças sonoras ocorriam de forma sistemática e absolutamente regular, não admitindo exceções, conforme também considerava Leskien (1840-1916). Caso houvesse alguma exceção, utilizavam, como últimos recursos, o processo da analogia ou a reformulação do princípio da regularidade, adicionando a este o fato de que um som pode sofrer alteração devido ao ambiente fonético no qual está inserido (a lei de Verner21). No caso da analogia, os neogramáticos acreditavam que mudanças fonéticas
21 Karl Verner (1875), linguista dinamarquês, demonstrou que correspondências do tipo gót. d = lat. t
(fadar : pater) eram perfeitamente regulares, desde que a lei fonética de Grimm fosse modificada para explicar a posição do acento nas palavras sânscritas correspondentes: as aspiradas surdas resultantes da lei
eram decorrentes de uma tentativa de ajuste de formas gramaticais, ou seja, mudança por analogia era entendida como uma interferência do plano gramatical no plano fônico. Uma outra concepção dos neogramáticos, a qual aparece não só em Osthoff, Brugmann, Leskien, mas também em Herman Paul (1880) é a de que mudanças sonoras seriam desencadeadas por fatores psíquicos e físicos (cf. CÂMARA Jr., 1990).
Enfim, é inegável a contribuição dos estudos comparativistas dos neogramáticos para o aprimoramento do Método Histórico-Comparativo, contudo, há algumas críticas no que diz respeito às concepções defendidas por essa corrente. Dentre elas, o fato de que a mudança linguística fosse absoluta, ou seja, ocorreria ao mesmo tempo e em todos os lugares. O que sabemos hoje é que as mudanças são paulatinas e graduais e que não necessariamente afetam todo o sistema ao mesmo tempo nem todos os ambientes (CÂMARA Jr., 1967).
Como já vimos, a abordagem histórica da linguagem começou, oficialmente, no século XVIII por um esforço em comparar e classificar as línguas de acordo com sua origem hipotética. Nesse esforço, a linguagem veio a ser vista nitidamente através de uma linha histórica de desenvolvimento, na qual uma língua antiga dá origem a uma ou várias línguas novas. Esta concepção está subjacente à linguística histórico-comparativa que se desenvolveu no século XIX. No entanto, o que intrigou a muitos durante muito tempo não foram apenas as mudanças sofridas pelas línguas ao longo dos séculos, mas também a curiosidade em saber qual língua deu origem a todas as outras línguas do mundo. Com isso, surgem outras questões como, por exemplo, de que forma as línguas se diversificam e o que ocasiona essa diversificação? Os tópicos subsequentes trazem algumas elucidações a respeito.
2.4 Língua mãe
De acordo com Campbell & Poser (2008), uma forte motivação para análise comparativa de sistemas linguísticos é a certeza de que as línguas que compartilham semelhanças no nível lexical, fonológico e morfossintático sejam originárias de uma língua em comum. Segundo Robins (1990) apud Campbell & Poser (2008), existiu, há
de Grimm (f, th, h) conservavam-se a sílaba precedente era acentuada, mas se não acentuada, sonorizavam-se (LYONS, 1979).
muito tempo, a suposição de que todas as línguas originaram-se a partir do hebraico (tradição bíblica). Durante o terceiro e o décimo sétimo século foi essa concepção que prevaleceu. Para Konrad Gesner (1555), todas as línguas tinham uma relação de proximidade com o hebraico; pois, conforme Peters (1947), todas as línguas tinham palavras do hebraico (cf. CAMPBELL & POSER, 2008).
No entanto, não temos evidências de qual seria a língua que deu origem a todas as línguas do mundo, as quais somam hoje cerca de 6 mil línguas (cf. CAMPBELL, 1998). Estudos nesse sentido não são fáceis de serem produzidos e comprovados cientificamente, já que, como sabemos também, através da história, muitos povos desapareceram e com eles seus sistemas de comunicação, pois foi somente a partir do século XIX que começamos a fazer, de forma sistemática, estudos comparativos com o intuito de verificar graus de parentesco entre línguas e propor constituições de famílias e agrupamentos maiores aos quais são chamados de troncos.