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Campbell (1998) sugere sete passos para o estabelecimento de uma comparação lexical e fonológica entre línguas suspeitas de serem aparentadas. Apresentamos aqui, de forma breve e objetiva, cada um desses passos mencionados por ele.

O primeiro passo é encontrar e reunir os cognatos em potencial nas línguas para as quais há razão de suspeitar de que elas possuem alguma afinidade genética. Em seguida, organizar os dados disponíveis em uma tabela22.

O segundo passo é estabelecer as correspondências sonoras encontradas nas palavras comparadas (formas que possuem forma e significado semelhantes)23. Deve-se avaliar, contudo, se as correspondências recorrem em outros conjuntos de cognatos.

O terceiro passo é reconstruir o proto-som a partir dos reflexos encontrados nas línguas comparadas. Acredita-se que os diferentes sons (um para cada língua comparada no conjunto de correspondência sonora) refletem um simples som da proto-língua que foi herdado pelas diferentes línguas filhas24.

22 Campbell (1998) sugere que a comparação deve ser iniciada com palavras do vocabulário básico:

nomes de partes do corpo, termos de parentesco, números baixos, termos geográficos comuns, elementos da natureza; visto que esses tipos de vocabulários são mais resistentes a empréstimos do que outros tipos. Deve-se, portanto, eliminar todos os outros conjuntos de palavras semelhantes que não são herança de um ancestral comum, tal como aqueles que exibem similaridades entre as línguas por causa de empréstimo e coincidência, por exemplo.

23 Como Campbell (1998) observa, é importante evitar correspondências sonoras em potencial que devem

ter ocorrido ao acaso, pois as línguas podem compartilhar de palavras semelhantes sem nenhum motivo aparente. É também necessário avaliar se as formas semelhantes encontradas não são decorrentes de empréstimo ou substituição lexical. Mas, não se pode esquecer que empréstimos não costumam exibir os mesmos tipos de correspondências sonoras sistemáticas encontradas na comparação de palavras nativas entre línguas relacionadas. Por isso, é preciso realizar muitas comparações, principalmente, envolvendo vocabulário básico, visto que palavras desse conjunto são menos passíveis de empréstimo.

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Para Campbell (1998), normalmente, o som que é refletido não muda em algumas línguas filhas; contudo, ele geralmente sofre mudanças sonoras em alguma das línguas filhas que ocorre diferentemente do proto-som original. Portanto, reconstrói-se o proto-som para postular qual som na proto-língua muito provavelmente foi a base das propriedades fonéticas dos sons descendentes nas várias línguas no conjunto de correspondências. Sobre os princípios que fundamentam a reconstrução dos sons, apresentamos nesta tese um tópico específico para descrevê-los.

O quarto passo é determinar o status dos conjuntos de correspondências semelhantes, pois Cambpell (1998) afirma que algumas mudanças sonoras, particularmente as mudanças sonoras condicionadas, podem resultar em um proto-som estando associado com mais de um conjunto de correspondência. Nesse caso, é necessário determinar se eles refletem dois proto-sons separados ou apenas um que cindiu em mais um som em uma ou mais línguas, ou seja, verificar os possíveis casos de fusão e cisão que devem ter ocorrido na história das línguas comparadas25.

O quinto passo é checar a plausibilidade do som reconstruído a partir da perspectiva do inventário fonológico geral da proto-língua. Campbell (op. cit) advoga que as línguas tendem a ter um sistema sonoro simétrico e com padrões congruentes. Por isso, na reconstrução de sons para as correspondências sonoras individuais, nós podemos reconstruir cada som da proto-língua, considerando como esses sons podem relacionar um com o outro e, em seguida, rever as reconstruções com o intuito de verificar se eles juntos formam, de fato, um sistema coerente26.

O sexto passo é checar a plausibilidade da reconstrução sonora da perspectiva dos universais linguísticos e das expectativas tipológicas, posto que certos inventários sonoros sejam encontrados com mais frequência entre as línguas do mundo, do que outros, além de alguns não poderem, de forma alguma, serem encontrados. Portanto, quando as reconstruções postuladas são checadas, deve-se ter certeza de que a proposta de reconstrução dos sons não seja aquela que nunca ou muito raramente é encontrada nas línguas do mundo27.

O sétimo e último passo é reconstruir morfemas individuais. Campbell (1998) afirma que é possível reconstruir itens lexicais e morfemas gramaticais após a reconstrução que foi proposta para os sons.

Ainda sobre os procedimentos de reconstrução de um som, uma palavra ou porções largas de uma proto-língua, Campbell (1998) chama a atenção para o fato de que tudo isso é uma hipótese (ou um conjunto de hipóteses interconectadas) concernente ao que esses aspectos da proto-língua deve ter sido. Portanto, os aspectos

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Conforme Campbell (1998), nesse caso, tenta-se explicar os dois reflexos de um proto-som na língua a partir do condicionamento do ambiente em que eles ocorrem. Caso essa explicação não seja adequada, reconstroem-se dois proto-sons e informa que houve a fusão desses sons nas línguas em que apenas um reflexo ocorre.

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Geralmente, no passo 5, quando se considera a mais ampla visão dos sons no contexto do inventário como um todo, é possível refinar e corrigir propostas anteriores de reconstrução (cf. CAMPBELL, 1998).

27 Campbell (1998) informa, por exemplo, que nunca foram encontradas línguas que não tenham vogais

ou línguas que tenham somente consoantes glotalizadas, ou mesmo línguas que possuem somente vogais nasais, sem a contraparte oral.

da reconstrução postulada devem ser testados e podem, às vezes, ser comprovados como errados, ou podem ser modificados, baseado em novos dados, pois esses dados podem envolver novas interpretações daqueles disponíveis anteriormente. É possível também que a descoberta de um membro, antes desconhecido da família, possa fornecer novas evidências como, por exemplo, um testemunho diferente dos eventos históricos que ocorreram entre a proto-língua e suas descendentes e, através disso, pode ser modificada parte ou totalidade de uma estrutura e/ou o conteúdo da proto-língua.