Na vida cotidiana, em casa ou no trabalho, a forma de comunicação que mais utilizamos é a conversação em duplas ou pequenos grupos de pessoas com as quais compartilhamos esse cotidiano e muitas referências culturais. Essa situação facilita bastante a compreensão das mensagens, pois nossos interlocutores conhecem bem o assunto de que estamos falando. Já numa consulta médica, num depoimento à polícia ou numa exposição diante de um grande público, essa situação se modifica: temos de falar dirigindo-nos a pes- soas com as quais não compartilhamos as mesmas referências.
É comum, nas salas de alfabetização, os alunos contarem suas vidas com omissão de partes, sem explicar onde aconteceu cada fato ou quem são as pessoas a quem se referem, como se todos os ouvintes compartilhassem das informações que possuem. Nesses casos, o professor pode ajudar fazendo perguntas. Paulatinamente, os alunos vão ampliando seu vocabulário, empre- gando diferentes expressões e planejando seu discurso de acordo com suas intenções, considerando os esclarecimentos necessários.3
O professor ajuda o educando a melhorar sua capacidade de expressão ao fazer perguntas ou pedir esclarecimentos
3 O livro de Francis Vanoye intitulado Usos da linguagem (São Paulo, Martins Fontes, 1981), traz
uma interessante caracterização da comunicação oral em diferentes modalidades, que pode esclarecer o educador sobre os elementos que intervêm no desenvolvimento da oralidade, articulando-os numa vi- são abrangente dos problemas envolvidos na expressão e comunicação em geral.
Além dos relatos de experiências vividas, o trabalho sobre a linguagem oral na sala de aula se estende para a formulação de perguntas e respostas (sa- ber expressar dúvidas quanto a conteúdos ou atividades a realizar, saber res- ponder às dúvidas de colegas). Uma maior desenvoltura com a linguagem oral permitira também aos alunos expor novos conhecimentos por meio de defi- nições e exemplos; argumentar, selecionando informações que justifiquem suas opiniões; apresentar para os colegas resultados de pesquisas.
É fundamental também desenvolver nos educandos a capacidade de es- cutar. No desenvolvimento dessa capacidade, além do aspecto da compreen- são, estão implicadas atitudes referentes ao respeito aos colegas e ao educa- dor.
O trabalho pedagógico sobre a linguagem oral merece planejamento e avaliação. O professor deve, intencionalmente, favorecer situações reais de comunicação que estimulem o desenvolvimento da oralidade:
• abrir espaço de conversa, onde os alunos narrem fatos que aconte- ceram no dia-a-dia;
• formular perguntas cujas respostas exijam do aluno manifestação de opiniões ou compreensão do conteúdo abordado;
• convidar constantemente os alunos a expressarem suas dúvidas oral- mente;
• convidar os alunos a fazerem intervenções na fala dos outros, complementando ou contrapondo posições;
• organizar debates sobre temas escolhidos; • organizar recitais de poesias, repentes e canções.
Em sala de aula, pode-se ainda lançar mão de estratégias de simulação e desempenho de papéis: O professor deve, intencionalmente, favorecer situações reais de comunicação que estimulem o desenvolvimento da oralidade
Língua Portuguesa
• debates sobre temas polêmicos, em que os participantes devem de- fender pontos de vista prédeterminados;
• dramatização de situações do cotidiano, como conversas telefôni- cas, solicitações em órgãos públicos, prestação de informações di- versas etc.;
• dramatização de textos ou histórias conhecidas.
O significativo ponto de conexão entre o desenvolvimento da linguagem oral e da linguagem escrita é a leitura em voz alta. Acompanhar um texto lido em voz alta pelo professor pode ser um excelente exercício da capacidade de escuta dos educandos. A habilidade de ler em voz alta com entonação e dic- ção adequadas também deve ser trabalhada com os educando. Além da capa- cidade de processar o texto silenciosamente, a leitura em voz alta exige o es- forço adicional de reprodução oral do enunciado, de modo a expressar seu sentido. Lendo em voz alta pequenos textos previamente preparados diante de uma pequena audiência, os alunos podem exercitar a pronúncia, a dicção e a entonação, além da desinibição para se expor em público.
Um significativo ponto de conexão entre o desenvolvimento da linguagem oral e da linguagem escrita é a leitura em voz alta
Tópicos de Objetivos didáticos conteúdo
Narração • Contar fatos e experiências cotidianas sem omissão de partes essenciais. • Recortar textos narrativos (contos, fábulas, notícias de jornais).
Tópicos de conteúdo e objetivos didáticos Linguagem oral
• Perceber lacunas e/ou incoerências ao ouvir a narração de fatos, experiên- cias, ou reconto de textos narrativos.
• Dramatizar situações reais ou imaginadas. Dramatizar contos, crônicas e obras de teatro.
Descrição • Descrever lugares, pessoas, objetos e processos.
• Perceber imprecisões ou lacunas ao ouvir a descrição de lugares, pessoas, objetos e processos.
Récita e • Recitar ou ler em voz alta textos poéticos breves, previamente preparados. leitura em • Ler em voz alta para um pequeno público textos em prosa breves,
voz alta previamente preparados.
• Acompanhar leituras em voz alta feitas pelo professor.
Instruções, • Dar instruções verbais. Compreender e seguir instruções verbais.
perguntas • Identificar lacunas ou falta de clareza em esclarecimentos dados por outrem. e respostas • Pedir esclarecimentos sobre assuntos tratados ou atividades propostas. Definição e • Perceber a distinção entre definir e exemplificar.
exemplificação • Dar exemplos de conceitos e enunciados.
• Identificar a pertinência de exemplos para conceitos e enunciados. • Definir conceitos (explicá-los com as próprias palavras).
• Avaliar a adequação de definições e conceitos. Argumentação e • Posicionar-se em relação a diferentes temas tratados.
debate • Identificar a posição do outro em relação a diferentes temas tratados. • Defender posições fundamentando argumentos com exemplos e informa-
ções.
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ando a pertinência dos exemplos e informações que o fundamentam. • Fazer intervenções coerentes com os temas tratados
.
• Avaliar a coerência das intervenções feitas por outros. • Respeitar o turno da palavra.
Indicações para a seqüenciação do ensino
O professor deve ter em mente que o desenvolvimento da linguagem oral é um processo em que o aluno vai paulatinamente ampliando seus recursos expressivos. Esse processo é guiado pela intervenção do professor e dos cole- gas: à medida que estes pedem esclarecimentos, colaboram para a adequação da mesnagem.
A atitude de convidar os alunos a falarem e ouvirem atentamente deve permear todas as atividades planejadas. No início, deve-se priorizar situações em que os alunos ouçam e falem de experiências vividas e discutam temas de seu cotidiano. Podem também ser desafiados a recontar textos literários e in- formativos. Mais adiante, pode-se sugerir que façam breves exposições sobre conhecimentos recém-adquiridos, exponham sínteses de leituras realizadas e confrontem-nas com as dos colegas. Então, será conveniente solicitar que os alunos preparem previamente suas exposições, levando-os a planejar mais autonomamente seu discurso.
Sugerimos também que o exercício da leitura em voz alta diante dos colegas seja realizado apenas quando os alunos já tenham maior fluência no reconhecimento das palavras e dos sinais de pontuação, utilizando-se sempre
No início, deve-se priorizar situações em que os alunos ouçam e falem de experiências vividas. M ais adiante, pode- se sugerir que façam breves exposições sobre
conhecimentos recém-adquiridos
de textos previamente preparados. Já a escuta de leitura em voz alta do pro- fessor ou qualquer outro leitor fluente é uma prática pedagógica valiosa des- de os estágios iniciais da alfabetização.