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A aprendizagem, a partir do pensamento complexo, pode ser considerada como construção individual, embora influenciada pelo coletivo já que somos dependentes dos contextos, das sinergias que provocam emergências, levando à alteridade e, concomitantemente, ao trabalho em equipe, à colaboração, aos projetos comuns. Todo ser aprendente é um vir-a-ser possível, um sujeito capaz de atualizar-se constantemente, de auto-eco-organizar-se sempre que necessário.

O processo de conhecer é muito mais amplo do que a concepção do pensar, raciocinar e medir, pois envolve a percepção, a emoção e a ação. Aprender resulta de experiências vividas e de interações entre o organismo e o meio. Aprender não é captar o objeto externo, pois conhecer está presente em todas as ações biológicas, espirituais, culturais que o ser humano desenvolve. (MORAES, 2003).

Aprender é descobrir significados e atuar em colaboração, criando sínteses e elos entre as partes e o todo, entre a razão e a emoção, a partir de dúvidas que levam a novos questionamentos. (FAGUNDES, 1999, apud TAVARES-SILVA, 2003).

Para Almeida (2000), a aprendizagem acontece em todas as etapas da vida, nas quais cada indivíduo procura compreender a realidade e a multidimensionalidade das diversas situações que enfrenta, estabelecendo vínculos entre elas e com o que já conhece, representando, ampliando e transformando essa realidade na promoção de uma melhor qualidade de vida pessoal e grupal.

Todavia, nada de fora determina o que acontece em um sistema vivo, ele apenas serve como catalisador de um determinismo estrutural que prevalece nos sujeitos aprendentes, segundo Maturana. Para existir, todo ser vivo depende de continuas mudanças estruturais que envolvem diferentes capacidades - de autorregeneração, de autoprodução, de automanutenção, de auto-organização - que acontecem como reação dos sistemas vivos às interferências do meio e acabam por modificar-se como um todo, transformando-se por inteiro como forma de sobrevivência e de manutenção da integridade do sistema. (MORAES, 2004).

Considerando-se o princípio sistêmico-organizacional, será preciso contextualizar o aprendente, auxiliá-lo a relacionar o que ele já conhece, por vezes de forma ainda desordenada, aos novos conteúdos e às novas experiências, para que possa desaprender e reaprender sempre que necessário. É fundamental perceber o aprendente como sujeito possuidor de um código linguístico, social e cultural que precisa ser respeitado e, ao mesmo tempo, questionado, e que em sala de aula tanto é afetado pelo grupo, como também o influencia.

Prestar atenção ao movimento retroativo recursivo pode ser fundamental para a percepção e a compreensão das emergências, considerando as sinergias presentes, as emoções, os sentimentos e os movimentos, o que propiciará ações mais consistentes e efetivas, correção de rumos e atendimento às expectativas individuais e coletivas.

Compreender os movimentos aparentemente contrários, ou mesmo contrários, como complementares e não como excludentes entre si, auxilia no lidar diário com o caos, a ordem e a desordem, fazendo surgir daí novas experiências.

Visto como uma rede, o conhecimento hoje é um processo de construção e reconstrução que pressupõe flexibilidade, adaptabilidade, cooperação e parceria entre os diversos elementos do conjunto. (MORAES, 2003). Aprende-se mais combinando de forma equilibrada a interação e a interiorização. (MORAN, 2007).

Como bem disse Darcy Ribeiro (apud MORAN, 2007, p. 40): “Sempre há o que aprender, ouvindo, vivendo e, sobretudo, trabalhando; mas só aprende quem se dispõe a rever as suas certezas”.

Sob a luz dos princípios/operadores do pensamento complexo e do pensamento ecossistêmico, a mediação pedagógica seria, segundo Moraes (2003, p. 210):

Um processo comunicacional, conversacional, de co-construção de significados, cujo objetivo é abrir e facilitar o diálogo e desenvolver a negociação significativa de processos e conteúdos a serem trabalhados nos ambientes educacionais, bem como incentivar a construção de um saber relacional, contextual, gerado na interação professor/aluno.

Ainda segundo a autora (Ibid.), mesmo cabendo ao professor ter uma visão sistêmica do processo, ele e o aluno devem ter o mesmo grau de importância na relação, já que ambos constituem partes de um mesmo sistema.

O professor é o mediador entre o aprendiz e sua aprendizagem, entre o aprendiz e os conhecimentos. Ambos, contudo, são co-produtores do conhecimento, pois a ação mediadora do professor dependerá do que acontece com o aluno, não pode ser imposta; acontece em um movimento recursivo, no qual o aluno compreende os temas que estão sendo trabalhados e ao mesmo tempo se vê como produtor desse conhecimento.

Ao mediador cabe estar atento às diferentes possibilidades de interpretação da realidade dos aprendentes, assim como aos diferentes níveis de realidade presentes no ambiente de aprendizagem, o que implica aceitação do outro, das diferenças, dos diversos estilos de aprendizagem, além dos interesses e motivações de cada um. Isso exigirá do mediador a criação de contextos dinâmicos, flexíveis. Sob o olhar do pensamento complexo, as práticas contextualizadas, as reflexões individuais e coletivas, os processos cooperativos e solidários são fundamentais para o alcance dos objetivos educacionais. (MORAES, 2003).

Da mesma forma, o mediador deve escolher as estratégias didáticas pelo reconhecimento das especificidades de cada situação e cada contexto, pela aceitação das diferentes percepções e níveis de realidades, entre as maneiras de aprender, entre os interesses. Precisa considerar o dialogismo das relações, o compartilhamento de objetivos.

E para isso, não é preciso inventar sempre, recriar a roda repetidamente. O que importa é a atitude do mediador quando da utilização de estratégias didáticas, ainda que convencionais, como quadro-de-giz ou a apresentação oral.

Como diz Masetto (2000), é importante o uso de estratégias de aproximação, de formação de grupo e de motivação que favoreçam a aprendizagem individual e em grupo, assim como o emprego de técnicas de simulação, de resolução de problemas, de situações complexas e de conflito que aproximem o aprendiz da vida profissional. São técnicas que colocam o aprendiz em contato direto com situações

reais e facilitam a integração da teoria com a prática, obrigando-o a desenvolver atividades de pesquisa na busca de soluções para as questões com as quais se depara.

Segundo Bonill e Calafell (2007, apud MORAES, 2008), uma metodologia representativa desse pensamento é a formulação de perguntas mediadoras, as

quais podem surgir do diálogo entre teoria e prática. É interessante construir com o aprendiz respostas às novas perguntas que surgem ao longo do processo de observação dos fenômenos e das situações cotidianas. Segundo esses autores (2005), uma das formas de ajudar o aluno a pensar de maneira complexa é incentivá-lo a formular perguntas que, partindo de uma visão complexa do fenômeno, favoreçam a construção de boas respostas.

Moraes (2008, p. 163) complementa a questão sugerindo que essa estratégia favoreça a dinâmica das relações e auxilie na compreensão do fenômeno complexo. E para o alcance desse objetivo, as perguntas não podem levar a respostas óbvias, que assegurem verdades incontestáveis, o que, ao invés de propiciar a vivência de didáticas da complexidade, levaria ao reducionismo, à simplificação, ao fechamento dos sistemas, à “pseudo-complexidade”.

Por meio de perguntas, é possível aprender, desaprender e depois reaprender. Aprende-se em todos os dias, mas, ao tentar desaprender, questionam-

se verdades, pois é possível trazer à consciência o momento em que determinada aprendizagem aconteceu e refletir sobre ela, sobre o momento da história pessoal, sobre as emoções que permearam essa aprendizagem, e saber por que se quer modificá-la hoje (KOHAN, 2005). Esse processo possibilita a coexistência de ideias contraditórias, até que uma delas seja substituída ou reformulada, ou que elas continuem coexistindo e complementando-se.

O sentido de desaprender, para esse autor, não significa apagar, até porque seria quase impossível fazê-lo. Desaprender é identificar as marcas e as pegadas deixadas no tempo e no espaço da história de vida de cada um. “Com essa compreensão, nascerá o esforço de desaprender, que deverá gerar novas reaprendizagens com força própria dos significados que não cessam de ser criados.” (KOHAN, 2005, p. 22). Ao desaprender, o sujeito evolui em seus significados e, como ser cultural, contribui de forma ativa para a evolução própria e da sociedade.

Reaprender significa uma síntese pessoal, produto de aprendizagens e desaprendizagens que acontecem como possibilidades de ressignificação individual e coletiva das culturas, das sociedades.

Esses são apenas alguns exemplos de atividades que podem propiciar a aprendizagem de uma realidade complexa, por meio do pensar certo. Porém, como

dito anteriormente, o mais importante é a atitude do mediador frente às situações que encontra e, principalmente, suas concepções sobre o que é aprender e o que é ensinar, pois é desse diálogo, da forma como ele acontece que surge a construção

do conhecimento e possibilita a aprendizagem de todos.

É a partir de suas crenças e vivências sobre o aprender que se criará o professor autoritário, ou o mediador. O professor mediador precisa conhecer profundamente os conteúdos sobre os quais trabalha e as técnicas consideradas mais eficientes para ensiná-los. Deve aprender a aprender, saber como se aprende, conhecer o processo da subjetivação humana, ser criativo, atencioso, dedicado e autodidata. Mais ainda, precisa ter rigorosidade metódica, criticidade e competência profissional, além de ser generoso, alegre, esperançoso, ético e estético, entre outros atributos citados por Freire (2003).

Com base no que foi exposto até agora, é possível perceber a importância da formação do docente, seja ela inicial ou continuada. Essa formação, contudo, não é tarefa fácil, pois devem ser criados currículos que atendam a todas as demandas feitas ao professor mediador, que atendam a todos aqueles requisitos propostos.

Acredita-se, pelo aporte teórico apresentado, que se o professor aprender a pensar certo, ou seja, aprender a pensar utilizando os princípios/operadores cognitivos do pensar complexo e ecossistêmico, estará dando um grande passo em direção à sua formação como mediador e não mais permanecendo ou atuando como simples transmissor de informações.

No próximo capítulo, as questões discutidas anteriormente serão transportadas para o espaço virtual no qual adquirem especificidades próprias desses ambientes.