Platão no seu diálogo Fédon, no terceiro argumento acerca da imortalidade da alma, faz referência às coisas unas e indivisíveis como sendo as que representam a verdadeira realidade das coisas. No diálogo, Sócrates começa por reconhecer que só as coisas compostas se dissipam; ao se decomporem e desagregarem os elementos que as constituem também elas se desagregam e desaparecem. As coisas compostas estão sujeitas à lei da mudança e por isso nunca permanecem idênticas a si mesmas. Pelo contrário, as coisas que se mantêm constantes e permanecem idênticas a si mesmas, não sofrendo alterações, são as que são simples; só estas são imutáveis e indivisíveis. Toda e qualquer realidade «em si» não sofre qualquer tipo de mudança. “Mantendo-se constante e idêntica a si mesma, jamais comportando qualquer variação que seja”32. Enquanto que “ a imensidade das coisas belas, a beleza dos humanos, dos cavalo, das vestes e assim por diante (...) jamais se mantêm idênticas e são essas justamente as que tu podes tocar, ver e apreender pelos restantes sentidos”33. Como se sabe, para Platão a verdadeira realidade era constituída pelas «formas puras», o puramente inteligível, aquilo que mantém a «identidade própria», que não é acessível aos nossos sentidos. Esta realidade era considerada por Platão como sendo imutável, imperecível, da essência do inteligível e, por isso, inacessível à apreensão sensorial. Esta realidade requer a forma de apreensão preconizada por Scheler no que diz respeito aos valores, o sentimento. Este foi o critério já falado anteriormente de um valorar superior, ou seja de atribuir valor aquilo que realmente nos interessa, ou seja, nos dá respostas. Também para Platão, a verdadeira realidade das coisas não estava nas coisas divisíveis, estas facilmente pereciam e não tinham a durabilidade que tinham as coisas indivisíveis.
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Platão, Fédon, Guimarães Editores, Porto, 1990, 78d.
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Os valores são tanto mais importantes e duradouros, quanto mais indivisíveis forem. Esta analogia prende-se com a firmeza, a fidelidade, permanecer sempre idêntico a si-mesmo, como «Ente que é», Deus. Todos nós já experienciámos a bondade, o espírito de sacrifício e inter-ajuda que irradia de muitas pessoas ao nosso lado e também experienciámos a conforto que essa bondade nos transmite. Chegados até aqui, não temos grande dúvida que o que está na base destas atitudes ou comportamento são escolhas de valores mais altos que por consequência se manifestam em atitudes mais nobres e que visam o bem e que nós designamos como comportamentos éticos.
Podemos ainda dizer que estes valores mais elevados não são do domínio comum, não são «deste mundo». A sua importância e sentido projectam-nos para uma interpretação religiosa do seu sentido. Não sendo uma prova evidente da existência de Deus, são claramente um indicador e transporte para o horizonte do divino.
O homem, no que diz respeito à criação e realização dos valores, tem sempre tendência a ir mais além. Há uma aspiração do imperfeito por aquilo que é perfeito. (Parece ser esta a atitude das testemunhas de Jeová que, ao recusarem ser transfundidas, pretendem não violar o seu ideal de perfeição). Há, no homem uma aspiração para os valores. No entanto, a cada momento pressente a impossibilidade de realização completa dos valores. O homem joga-se entre duas fronteiras, valor e ser, que jamais podem coincidir. Em todos os domínios e construções axiológicas se reflecte o descontentamento do homem na sua realização. Do ponto de vista intelectual, há um desejo insaciável de saber, ao ponto de a solução de vários problemas envolver outros problemas; também no domínio moral, há uma sede de perfeição moral associada ao homem. Esta insatisfação e procura da perfeição é o ponto de partida para um ideal superior, para um valor último. Esta insatisfação é a melhor prova duma aspiração
superior e de um acreditar ou pressentir um valor que se destaque no seio de todos os outros valores.
Uma outra perspectiva que nos aproxima da transcendência tem que ver com a abordagem dos valores negativos. O insucesso pode ser útil ao homem, na medida em que este pode ser o ponto de partida para procurar respostas que podem vir do infinito da transcendência. (A situação de doença pode levar o homem a uma situação de proximidade com a divindade). O mesmo acontece quando a vida se nos apresenta como repleta de sentido e valor; este é um momento em que não nos conseguimos libertar do reino da imanência. Pelo contrário, quando a vida se nos apresenta numa total ausência de sentido, o que passa para primeiro plano é uma procura pelo sentido da existência, o que abre as portas à transcendência. O sofrimento coloca o homem perante a transcendência. (A dor é um dos aspectos abordados em CI, até mesmo a forma de tirar a dor. Outro aspecto é o sofrimento, mesmo o daqueles que não estão doentes mas que acompanham o doente, que pode em muitos casos levar a uma aproximação da divindade). A culpa e o pecado despertam-no para a dependência de Deus, na medida em que o homem se sente impotente para se libertar dum tal peso, associado à culpa, que o carrega. Este sente a necessidade de recorrer a um poder superior para se libertar de tal peso, para que lhe seja devolvida a graça duma vida renovada para a prática do bem. Foi Max Scheler no seu ensaio acerca do arrependimento que melhor soube pôr em evidência este momento de transcendência que, através do arrependimento, aponta directamente para Deus. “quando nada mais houvesse no mundo, donde pudéssemos tirar a ideia de Deus, bastaria o fenómeno do arrependimento para nos chamar a atenção para a sua existência. O arrependimento principia sempre pelo me poenitet duma auto- acusação. Mas perante quem vamos nós acusar-nos a nós mesmos? O arrependimento é, além disso, bem claramente, uma íntima confissão das nossas culpas. Mas a quem
vamos nós confessá-las, quando os nossos lábios se não movem e nos encontramos a sós com a nossa alma? E com relação a quem nos sentimos devedores na culpa que nos oprime o coração?. O arrependimento, sabido é, termina sempre com o sentimento de que a culpa foi declarada extinta (...) O arrependimento como que profere o eu julgamento em harmonia com uma lei, que sentimos ser santa, mas que sabemos muito bem não estar em nós e não ter sido promulgada por nós (...) O arrependimento dá-nos uma nova força de bons propósitos e, em certos casos, um coração também novo no lugar do antigo”34. (Esta é uma situação que se pode colocar num horizonte de morte eminente). O sofrimento pode levar a uma aproximação dos valores religiosos.
Os valores religiosos enquadram-se na verdadeira essência do valor. Realizam exactamente a característica de estar dotados de carácter absoluto. Daí que sejam estes os mais respeitados pelos médicos em CI no quadro geral de todos os valores. O caso das transfusões sanguíneas em Testemunhas de Jeová, foi salvaguardado juridicamente, não havendo lugar a dúvidas ou arbitrariedades.