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Após descrever os fundamentos da Teoria das Representações Sociais, com a descrição com o histórico da Teoria, passando por sua conceituação, perspectivas, critérios e processos; reafirmamos a utilização da Teoria das Representações Sociais para compreender o objeto social deste estudo, ou seja, a atividade de pesquisa.

Para alguns pode parecer um paradoxo tal empreitada, já que a noção central de representação social repousa sobre o conhecimento do senso comum, que é um conhecimento empírico, ou seja, baseado em nossas vivências, o que contrasta com o conhecimento científico que é um “conhecimento provado” (CHALMERS 1993, p. 23). Ou seja, estaremos diante de ambas as realidades e ambos os universos (consensual e reificado), investigando especificamente na atividade de pesquisa, como eles interpretam e constroem a realidade social em que se encontram.

É pertinente inserir aqui uma breve interpretação de Minayo (1995, p. 100) sobre a importância dada por Moscovi (1981) ao senso comum:

[...] o senso comum enquanto matéria-prima ou como “representação social” tem um potencial transformador. Mesmo como pensamento fragmentário e contraditório, o senso comum deve ser recuperado criticamente, uma vez que corresponde espontaneamente às condições reais de vida da população. (MINAYO, 1995, p. 100).

Almeida (2005, p. 185) ao conceituar senso comum como “a forma como as pessoas cotidianamente formulam conceitos e proposições a partir da observação de fatos diários e das informações que recebem”, reitera o caráter conservador desta forma de conhecimento por considerá-lo como um conhecimento sustentado na tradição e resistente a questionamentos. Mas, ressalta a autora, trata-se de “um saber que tem sido formulado de modo inventivo e inteligente por um grande número de pessoas para lidarem com as coisas do mundo” (SANTOS, p. 185 e 186).

Segundo a autora, mesmo com o alerta de Bachelard (1978, apud ALMEIDA, 2005) de que o senso comum pudesse se tornar um “obstáculo epistemológico ao desenvolvimento científico” (ALMEIDA, 2005, p. 186), havia outros teóricos que reconheciam o valor de tal conceito, e para isto, ela cita como exemplo, Popper (1980), que propõe o senso comum como “ponto de partida da ciência” (ALMEIDA, 2005, p. 186).

Ao abordar sobre a importância dada pela sociologia ao senso comum, Bauman e May (2010, p. 18 grifo da autora) qualificam este conhecimento como “rico, ainda que desordenado e não sistemático [...]”.

E Santos (2010), ressalta que a ciência moderna construiu-se contra o senso comum por considerá-lo “superficial, ilusório e falso”, enquanto a ciência pós-moderna seria aquela que, segundo o autor, reabilitaria o senso comum reconhecendo-o como uma forma de conhecimento possuidora de “virtualidades para enriquecer a nossa relação com o mundo”. (SANTOS, 2010, p. 88 e 89).

Além disso, como ressaltaram os teóricos que tem trabalhado com a abordagem das representações sociais, a Teoria das Representações Sociais introduziu o conhecimento do senso comum como o conhecimento que constroi a realidade do sujeito social, não abandonando outros conhecimentos presentes naquele ambiente, mas “ancorando-os e objetivando-os” para a apreensão dos sentidos e a continuidade e dinâmica da comunicação entre os grupos.

Nossa iniciativa para a utilização da Teoria das Representações Sociais num ambiente predominantemente científico, que é a realização deste trabalho, remonta à geração da obra inicial de Moscovici que, segundo Arruda (2002, p. 131) foi o início do:

[...] desmonte de velhas divisórias tão conhecidas da ciência psicológica: a fronteira entre a razão e o senso comum, razão e emoção, sujeito e objeto. A realidade é socialmente construída e o saber é uma construção do sujeito, mas não desligada da sua inscrição social. (ARRUDA, 2002, p. 131).

Além disso, ao interagir com profissionais atuando em ciência, deparamo-nos com a observação de Spink (1993) ao enfatizar a ciência como elemento mantenedor das representações sociais, fazendo-nos entender que,

[...] as representações sociais não são mera (re)combinações de conteúdos arcaicos sob pressão das forças do grupo. Elas são também alimentadas pelos produtos da ciência, que circulam publicamente através da mídia e das inúmeras versões populares destes produtos. (SPINK, 1993, p. 305).

Sendo assim, utilizar a abordagem da Teoria das Representações Sociais, neste trabalho, se apresentou como uma teoria e metodologia eficazes e capazes de produzir uma compreensão e uma reflexão crítica sobre a atividade de pesquisa em uma instituição pública. Para isto, buscou-se identificar nas práticas sociais diárias dos sujeitos, o lado consensual de uma atividade realizada, conceitualmente, no universo reificado. A propósito do que nos adverte Arruda (2002, p. 130), “as representações sociais constroem-se mais frequentemente na esfera consensual, embora as duas esferas não sejam totalmente estanques”, grifo da

autora.

Este estudo, portanto, foi realizado em uma instituição dedicada à pesquisa, com sujeitos que podem ser considerados os principais “atores” da instituição, ou seja, aqueles que constroem o mundo da instituição, dado que eles realizam pesquisas voltadas para várias áreas do conhecimento. Lane (2012, p. 36) salienta que:

Uma análise concreta das representações que um indivíduo tem do mundo que o rodeia, só é possível se as considerarmos inseridas num discurso bastante amplo, onde a lacunas, as contradições e, [...] a ideologia possam ser detectadas. Este discurso amplo [...] seria a visão de mundo que o indivíduo tem [...]. (LANE, 2012, p. 36).

Assim, busca-se identificar, nas comunicações dos especialistas, as representações sociais que eles constroem na condução das comunicações diárias, as quais promovem o dinamismo da atividade de pesquisa que é realizada cotidianamente nos escritórios e laboratórios de uma instituição pública.

3 MÉTODO

Ao recomendar os passos para a realização de uma pesquisa, Chizzotti (2010) aconselha que o pesquisador inicie seu trabalho com a busca de fontes de informação relacionadas ao assunto a ser estudado. As informações, segundo o autor, podem ser derivadas de observações, reflexões pessoais, relatos de pessoas que tenham realizado estudo similar, participação do pesquisador em eventos correlatos e, principalmente, no acesso ao acervo bibliográfico sobre o assunto da pesquisa.

Sendo assim, para aproximação do objeto, atentou-se também para o que assinala Moscovici (1978, p. 187, grifo do autor) de que “a atitude a respeito de um objeto social

depende também do contexto onde o objeto é apreendido”, e partiu-se de uma pesquisa

documental sobre as bases legais da instituição onde o estudo seria realizado.

Severino (2007) ressalta que a pesquisa documental tem ampla fonte de documentação, incluindo materiais impressos e também outros tipos, tais como jornais, fotos, filmes, gravações e documentos legais. Nesta fase da pesquisa, foram levantados os instrumentos normativos que regem a administração pública, considerando que a pesquisa é realizada em um órgão público da Administração Direta. Os documentos consultados foram: Constituição da República Federativa do Brasil (BRASIL, 1988), o Decreto nº 70553 que define a área de competências no setor de ciência e tecnologia (BRASIL, 1972), a Lei nº 8112 que define o regime jurídico dos servidores públicos (BRASIL, 1990), a Lei nº 8691 que regulamenta o plano de carreiras para a área de ciência e tecnologia da Administração Direta, das Autarquias e das Fundações Federais (BRASIL, 1993). Além disto, foram consultados os editais dos últimos concursos para o ingresso de novos servidores nas áreas de pesquisa e desenvolvimento tecnológico. Todos estes documentos serviram como ponto inicial para conhecer onde estão e quem são os sujeitos desta pesquisa. Com isto foi possível identificar, primeiramente, a natureza da instituição, seus aspectos legais e normativos. Foi, também, possível tomar conhecimento das nomenclaturas utilizadas para nomear os profissionais, dos requisitos para investidura nos cargos, das habilidades e dos conhecimentos requeridos para atuar como pesquisador na área de ciência e tecnologia.

Assim, para entender melhor a história da instituição, realizou-se também a leitura de materiais bibliográficos institucionais, tais como: o livro dos primeiros trinta anos do Instituto (OLIVEIRA, 1991), e os planos diretores que foram elaborados para reger a instituição.

Em direção à problemática da atividade de pesquisa, objeto deste estudo, partiu-se para o aprofundamento das leituras, a fim de construir um espectro mais amplo da questão, quando foram conhecidas as diferentes opiniões esboçadas por teóricos, em especial, aqueles dedicados aos estudos sociais da ciência, os quais já estudaram sobre os assuntos que permeiam o objeto.

Um fator fundamental para guiar este estudo, foi a escolha do referencial teórico, a Teoria das Representações Sociais, o qual permitiu identificar o fenômeno das representações sociais, ou seja, mostrou os caminhos para que o objetivo do estudo fosse alcançado.

Porém, ainda que a perspectiva da Teoria das Representações Sociais não privilegie ou exclua qualquer tipo de metodologia (FARR, 1993, apud SÁ, 1998), o pesquisador que decide se utilizar do aporte teórico desta teoria deve, a princípio, preocupar-se com a escolha da metodologia, tendo em vista que isto favorecerá “[...] o acesso ao fenômeno de representação social” (SÁ, 1998, p. 79) com a devida agilidade e eficiência. O que pode ser conferido na citação que segue:

Quando Robert Farr diz que nenhum método é especialmente privilegiado, ele não está dizendo que todos os métodos servem para a pesquisa das representações independentemente de seu enquadramento teórico-conceitual. O que ele está constatando é que a adoção de diferentes quadros teóricos específicos de referência [...] resulta em opções preferenciais por diferentes métodos, de modo que a teoria geral das representações sociais não se vincula obrigatoriamente ela própria a nenhum método (SÁ, 1998, p. 80).

Conforme recomendam Severino (2007), Chizzotti (2010), Lakatos e Marconi (2010) e Richardson (2010), ao realizar um trabalho científico, o pesquisador deve ater-se aos procedimentos lógicos e às técnicas operacionais a fim de analisar o fenômeno a ser estudado, ou como nos reitera Guareschi (1996, p.12) o pesquisador necessita, “de uma maneira ou de outra, pensar a metodologia que dê conta dessa análise”.

Assim, descrevemos nos itens seguintes os procedimentos metodológicos utilizados para realização da presente pesquisa.