Os dados acádicos atestam o culminar do longo percurso de convivência entre Inanna e Ištar e as suas diferentes identidades. Como já referimos, Aštar/Ištar- annunītum assume-se como divindade patrona de Akkad e dos seus governantes, surgindo nas inscrições reais do período127, enquanto na glíptica o leão assume-se como o seu animal-símbolo. A faceta marcial é profundamente vincada, pois vivem-se momentos de expansão territorial, mas não é a única. Narām-Sîn, quarto governante acádico, protagonizou um episódio particular na já longa história da monarquia mesopotâmica, ao divinizar-se através da utilização do determinativo dingir e do uso da coroa chifrada divina128. A única inscrição coetânea que atesta esta pretensão transmite como os habitantes de Akkad pediram às suas diferentes divindades que lhe permitissem a elevação do seu governante ao patamar divino. Esta inscrição interessa- nos pelas referências às personagens divinas:
«Because he secured the foundations of his city (Agade) in times of trouble, his city of request of Ishtar in Eanna, of Enlil in Nippur, of Dagan in Tuttul, of Ninhursang in Kesh, of Ea in Eridu, of Sin in Ur, of Shamash in Sippar, and of Nergal in Kutha, that
127 Para Narām-Sîn, neto de Sargão de Akkad, encontramos o epíteto «Guerreiro de Aštar-annunītum».
Cf. Gebhard J. Selz, «Five divine ladies: Thoughts on Inana(k), Ištar; In(n)in(a), Annunītum, and Anat and the Origin of the Title “Queen of Heaven”», p. 32.
128 Acerca da monarquia mesopotâmica e das tentativas de divinização dos governantes do III milénio
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(Naram-Sin) be made a god and then built his temple in the midst of (the city of Agade)129»
Em primeiro lugar, devemos referir que das oito divindades evocadas, apenas uma nos remete directamente para o contexto setentrional, Dagan, pelo que se nota o esforço de aproximação aos deuses tutelares de cidades com origem suméria, embora se utilizem os nomes acádicos. Num segundo registo, note-se como Ištar, para além de ser a primeira divindade enunciada, é a única que surge na companhia do seu templo, Eanna, e não da sua cidade. Este dado reveste-se de um profundo significado, pois a identificação que se pretende é com a deusa de Uruk. Já referimos que nas fases finais do período de Uruk, o culto a Inanna se alastrou às várias urbes da região aluvial, tendência que se manteve ao longo do III milénio a.C., existindo contudo uma ligação consistente à Inanna arcaica que habitava o Eanna130. Narām-Sîn indica o templo primevo da divindade suméria, construindo uma ponte sólida entre a sua própria soberania e aquela que se adquire através da divindade tutelar de Uruk. Mais uma vez, sobressai a mudança em continuidade, pois a novidade do projecto acádico não se assume como totalmente disruptiva em relação às ancestrais tradições sumérias, nomeadamente no que diz respeito ao desenvolvimento da monarquia. O neto de Sargão legitima a sua pretensão divina evocando, primeiramente, a deusa da soberania por excelência e o edifício onde a transferência do poder governativo se efectivava, utilizando, contudo, o nome da divindade que o acompanhava na batalha, Ištar. A confusão entre ambas recebeu um novo fôlego, desta feita outorgado por um poder temporal que se assumia como universal.
Por último, acreditamos que a ordem apresentada para estes deuses responde perante uma gradação em termos de importância de cada divindade, por parte dos Acádios, assim como propósitos propagandísticos. Inanna/Ištar, patrona da dinastia, é
129 Cf. Piotr Michalowski, «The Mortal Kings of Ur: a short century of divine rule in ancient
Mesopotamia», in Nicole Brisch (ed.), op. cit., p. 34.
130 «In this period [III milénio a.C.], there were many local forms of Inanna as shown by the god lists and
offering lists as well as the literary texts. These local manifestations were distinguished from each other by epithets or honorific titles. (…) This phenomenon may have resulted from the universal veneration of Inanna during the Uruk expansion and the possible identification of Inanna with local female deities» Joan G. Westenholz, «Inanna and Ishtar in the Babylonian world», in Gwendolyn Leick (ed.), op. cit, p. 336.
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secundada por Enlil, o tradicional chefe do panteão mesopotâmico e da sua cidade, considerada como o centro religioso sumério. Dagan, uma divindade semita, ligada à fertilidade e aos aspectos marciais, interpõe-se entre Enlil e a deusa-mãe suméria, considerada por Jacobsen como o terceiro elemento da tríade de divindades mais poderosas do universo divino do sul131. Parece-nos existir, neste primeiro conjunto de deuses, uma lógica de intercalar referências divinas e geográficas do norte e sul, talvez para sublinhar a identidade partilhada132. O segundo conjunto de divindades e cidades evocadas apresenta já um domínio geográfico do sul, pois encontramos os deuses sumérios ligados às águas subterrâneas, aos aspectos lunar e solar, obedecendo-se à ordem tradicional das listas de deuses sumérios. A evocação divina termina com uma referência a uma pequena cidade de origem suméria, que se afirmou como importante no período, e à divindade que a tutelava, Nergal133. Na época, este deus ainda não governava o Inframundo, embora já estivesse ligado a este plano por ser uma divindade da guerra e da pestilência. Note-se que An, o deus que encabeça as listas divinas sumérias, não é referido, o que enfatiza a sua postura ausente da vida activa cósmica. Quem lidera a listagem é a deusa do Eanna que tinha suplantado há muito a divindade celeste. Esta inscrição permite, assim, descortinar alguns pontos relativos ao entendimento acádico da hierarquia divina, nomeadamente na relevância conferida a Inanna/Ištar, cuja produção literária do período confirma de forma fulgurante.
Qualquer tentativa de análise da protagonista do presente trabalho enquanto protagonista da literatura acádica impõe um encontro com uma personagem feminina singular na história da Mesopotâmia. Falamos de Enheduanna, filha de Sargão de Akkad, a quem os próprios mesopotâmios concederam um lugar de relevo na sua memória histórica134. Esta mulher, cujos laços de sangue a aproximavam do restrito
131 Cf. Thorkild Jacobsen, The Treasures of Darkness…, p. 104.
132 Note-se que temos Ištar (N), Eanna (S), Enlil/Nippur (S), Dagan/Tuttul (N), Ninhursag/Keš (S).
133 Este deus apresenta uma personalidade profundamente sincrética, encontrando-se identificado com
o deus semita Erra. O seu papel enquanto divindade do Inframundo afigura-se como determinante para entender a personalidade de Inanna/Ištar e da sua irmã Ereškigal. Desenvolveremos a sua personalidade no segundo capítulo da terceira parte.
134 Westenholz diz-nos que, nas cópias das inscrições reais acádicas, efectivadas no período Paleo-
Babilónico, Enheduanna é insistentemente evocada, o que demostra o seu elevado grau de prestígio, que a autora compara ao dos governantes desta dinastia. Cf. Joan G. Westenholz, «Enheduanna, En- Priestess, Hen of Nanna, Spouse of Nanna», in A. W. Sj berg et. al. (eds.), op. cit., p. 540.
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círculo governativo, desempenhou funções cúlticas de destaque em Ur, como grande sacerdotisa de Nanna/Sîn, durante o reinado do seu sobrinho, Narām-Sîn, embora se equacione que entrou ao serviço da divindade lunar ainda durante o governo do seu pai135. Westenholz propõe que Enheduanna se tornou esposa (dam) deste deus, através da concretização da hierogamia, o que lhe permitiu afirmar-se também como a personificação de Ningal136. Às funções religiosas enquanto sacerdotisa/esposa de Nanna/Sîn, Enheduanna acrescentou o exercício de escriba, sendo que a sua produção literária se assume como incontornável para conhecer o projecto político-ideológico dos seus familiares. Os seus trabalhos são ainda alvo de discussão no meio académico, no que à autoria e quantidade de textos produzidos diz respeito137, embora seja possível identificar um conjunto de composições dedicadas, naturalmente, a Nanna/Sîn, assim como três textos que se centram em Inanna/Ištar: Hino a Inanna
B138; Hino a Inanna C e Inanna e Ebiḫ139. Os dois primeiros enquadram-se na tradição hínica mesopotâmica, onde a divindade e a relação de Enheduanna com a mesma é
135 A hipótese de que teria entrado ao serviço de Nanna, em Ur, ainda durante o reinado de Sargão é
antiga, sendo seguida pela maioria dos investigadores. Cf. William Hallo e J.J.A. Vandijk, The exaltation
of Inanna, London, Yale University Press, 1968, p. 3.; Irene J. Winter, «Women in public: the disk of
Enheduanna, the beginning of the office of en-priestess and the weight of visual evidence», in Jean- Marie Durand (ed) La femme dans le Proche Orient Antique-RAI (Paris 1986), Paris, Éditions Recherche sur les civilization, 1987, p. 200.
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Westenholz desenvolve esta ideia, que já tinha sido aventada por Jacobsen, através de uma análise cruzada das referências relativas a Enheduanna, como epítetos, representações iconográficas e as obras literárias atribuídas a esta sacerdotisa. Cf. Joan G. Westenholz, «Enheduanna, En-Priestess, Hen of Nanna, Spouse of Nanna», in A. W. Sj berg et. al. (eds.), DUMU-E2-DUB-BA-A, Studies in honor of Ake
W. Sjoberg, Philadelphia, Samuel Noah Kramer Fund, 1989, pp. 539-556; Thorkild Jacobsen, The Treasures of Darkness…, pp. 125-126.
137 É a própria tradição literária mesopotâmica que atribui a Enheduanna a autoria de hinos e
narrativas, embora Miguel Civil tenha dúvidas acerca da autenticidade desta atribuição. Cf. Miguel Civil, «Les limites del’Information textuelle», in M.-T. Barrelet (ed.), L’archéologie de l’Iraq au Début de
l’Époche Néolitique à 333 avant Notre Ère, Paris, Éditions de Centre National de la Recherche
Scientifique, 1980, p. 229.
138 Este texto é também conhecido como The Exaltation of Inanna. Parece-nos, no entanto, que esta
designação não é a mais correcta, pois o outro hino também pode ser considerado uma exaltação a Inanna/Ištar. Aliás, no limite, todos os textos de carácter hínico se afirmam como exaltações das personagens a quem se dirigem.
139 Os textos são identificados pelas seguintes expressões sumérias: nin-me-šar
2-ra7; in-nin šà-gur4-ra, in-
nin me-huš-a respectivamente. Cf. Joan G. Westenholz, «Enheduanna, En-Priestess, Hen of Nanna, Spouse of Nanna», in A. W. Sj berg et al. (eds.), op. cit., p. 540.
Vejam-se os textos em: http://etcsl.orinst.ox.ac.uk/cgi-bin/etcsl.cgi?text=t.4.07.2# (Inana B); http://etcsl.orinst.ox.ac.uk/cgi-bin/etcsl.cgi?text=t.4.07.3# (Inana C) e http://etcsl.orinst.ox.ac.uk/cgi- bin/etcsl.cgi?text=t.1.3.2# (Inana e Ebiḫ). [Junho 2015].
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exaltada; enquanto o terceiro recai numa categoria diferente, afirmando-se como um relato de eventos míticos, onde o território revoltoso de Ebiḫ140 é dominado pela força bélica da deusa.
Uma visão conjunta das três composições permite aferir o nível profundo, talvez mesmo final, do processo construtivo da figura híbrida da deusa, pois todas apresentam uma Inanna/Ištar consolidada nas múltiplas vertentes que a caracterizam em termos diacrónicos: uma deusa ligada ao poder real, à guerra, ao amor e à dualidade de Vénus. Devemos destacar, de igual modo, que os três textos insistem em evocar a sua presença através do nome Inanna, não sendo utilizando uma única vez o nome acádico. Como vimos, na inscrição de Narām-Sîn, a população de Akkad apela a Ištar, que habita no Eanna, misturando-se as tradições suméria e semita numa única referência. Enheduanna parece recorrer a outra estratégia, que pode ser entendida como mais subtil, mas, ao mesmo tempo, mais abrangente, pois produz múltiplos efeitos, como veremos.
Os textos repetem a mesma informação genealógica, que pressupõe uma escolha calculada: Inanna é a grande filha de Nanna/Sîn e Ningal141. Partindo da lógica de mudança em continuidade, devemos entender esta constante referência familiar como pertença natural da concepção em torno de Inanna/Ištar, ao longo do III milénio a.C. Já tínhamos referido como esta ligação genealógica assume um carácter transversal durante este milénio, talvez devido à partilha do carácter astral da tríade. As referências sumérias arcaicas a uma possível paternidade de An ou Enki foram remetidas para um lugar infinitamente secundário, embora continuassem a surgir pontualmente. A obra de Enheduanna parece imprimir uma força cristalizante à unidade familiar com os deuses de Ur, colocando um ponto final no processo de construção da filiação da deusa, já que a partir do período acádico esta torna-se a genealogia dominante.
140 Esta região montanhosa deveria corresponder às colinas Djebel Ḫamrîm [Iraque], pertencentes à
cordilheira dos Zagros. Cf. Jean Bottéro, Samuel Noah Kramer, op. cit., p. 226.
141 No conjunto, a filiação é referida sete vezes: «Eldest daughter of Suen, your rage cannot be cooled!»;
«great daughter of Suen, lady greater than An»; «Nanna came out to gaze at her properly, and her mother Ningal blessed her» Inana B, ls. 41, 58 e 149.«The great daughter of Suen, exalted among the Great Princes [Igigi].» Inana C, l. 3. No relato mítico, repete-se por três vezes a mesma fórmula: «the great child of Suen.» Inana and Ebiḫ, ls 24, 53, 183.