8. Resultater
8.1. Fixed effects
No projeto do grupo enviado à escola está expresso como parte de suas ações interagir “com o público alvo na busca de uma nova consciência, valores e
atitudes que atendem à interdependência fundamental existente dentro dos ecossistemas naturais, e o comportamento do ser humano dentro desse contexto.”
A importância dada à mudança de atitudes esteve muito presente na fala dos integrantes do grupo Semente Viva, e também a preocupação em realizar atividades que pudessem influenciar na mudança de atitudes por parte das crianças. Como pode ser observado no quadro 5.1. essa categoria esteve presente nas observações, no projeto e nas entrevistas, estando nesta última a maior concentração de citações.
Numa das reuniões o grupo discutia a melhor forma de desenvolver o projeto junto às crianças e a maior parte dos integrantes apoiou a idéia de realizar novamente uma maquete que o grupo foi construindo a cada atividade, juntamente com as crianças, no ano de 2008. No início a maquete representava um ambiente nativo, sem a interferência do homem e aos poucos eles iam mudando a maquete incluindo a presença humana, até chegar a um estado de urbanização completa. Com esta atividade era demonstrado que o estado de degradação dos ambientes nativos tinha início com uma pessoa que montava uma casa à beira do rio, e que aos poucos se transformava em cidade. SV1 defendeu nesta ocasião uma abordagem diferenciada desse tema: “A gente deveria relacionar a maquete ao nível de casa. Acho importante nas maquetes as crianças se contextualizarem e saberem que o impacto da casa é o meu impacto”.
SV9 disse que o grupo deveria “tratar algo que fosse mais do ambiente das crianças”. Outras sugestões seguiram, dentre elas, a de se trabalhar um semestre com “macro elementos” e no outro o “contexto do indivíduo”. O que o grupo chamou de “macro elementos” seria o impacto num âmbito mais amplo como o da cidade,
que estaria mais longe do indivíduo. O contexto do indivíduo estaria ligado às questões próximas, como desperdício, produção de lixo, consumo.
Assim, as atividades a serem desenvolvidas pelo grupo deveriam ter a intenção de mostrar ao indivíduo que ele também é responsável pelos impactos ambientais, sem, no entanto, a intencionalidade expressa de levá-lo a perceber que atitudes individuais e coletivas são interdependentes e se relacionam, a todo momento, dando um enfoque predominante às atitudes individuais.
Sobre isso SV4 levantou nesta ocasião a questão: “Como cobrar deles [dos alunos] uma visão integrada se a gente mesmo separa?”, o restante do grupo não se posicionou.
Durante a entrevista, SV4 fala de mudar a relação das crianças com o MA mudando as atitudes delas de acordo com o que o grupo identificava como certo. Segundo este membro do grupo, este “certo” estaria ligado à questões como “não jogar lixo no chão”. SV4 faz uma crítica, por entender que grande parte do grupo ainda valoriza estas questões as entendendo como aspectos fundamentais das atividades da EA.
O que a gente faz é ir lá à escola, tentar passar alguma coisa pras crianças... eu acho que o objetivo abstrato que todo mundo tem, é fazer a criança ter uma relação melhor com o MA dela, melhorar a relação e não ter atitudes que vão contra aquilo que a gente acha errado, coisas assim. (...)
Abstratamente [a EA] seria a pessoa, não jogar lixo no chão, as pessoas [do grupo] pensam muito nisso. (SV4)
Essa crítica de SV4 se sustenta por algumas falas dos colegas de grupo como veremos a seguir.
SV7 de forma semelhante àquela da fala de SV1 na reunião descrita acima, durante a entrevista fala de mostrar que as atitudes têm conseqüências:
Ao meu ver, os objetivos do projeto é conscientizar, não conscientizar ... dar uma noção pras crianças pra elas repararem um pouco mais o que elas fazem assim, nas atitudes delas, que elas tem conseqüências e tal, que elas não tão sozinhas e que não é só cuidar de si próprio, cuidar do meio que você vive, acho que o objetivo é fazer elas pensarem um pouco nisso. (SV7)
Segundo Carvalho (2004, p.18) “o projeto político pedagógico de uma Educação Ambiental Crítica seria o de contribuir para mudanças de valores e
atitudes, contribuindo para a formação do sujeito ecológico”. A mudança de atitudes a que se refere Carvalho está relacionada à identificação, problematização e ação em relação às questões ambientais e está comprometida com uma ética ambiental que extrapola as ações individualizantes e tem em vista ações solidárias. Sendo assim a mudança de atitudes não seria feita no plano dos comportamentos individuais com ações pontuais como “não jogar lixo no chão”, mas numa mudança de postura para o que a autora chama de ética ambiental.
A mudança de atitudes em algumas falas do grupo está expressa em não jogar lixo no chão, reciclar, evitar desperdícios, não cortar árvores, que também esteve muito presente durante as atividades do grupo nas falas de seus membros, seja em momentos que alguém tenha expressado uma frustração em relação a alguma destas atitudes observadas nas crianças, como expressa SV12 na fala a seguir, seja durante as atividades na escola:
... eu acho que a gente tem que trabalhar bastante pra conseguir resultados efetivos assim, porque não é só chegar e falar pra eles... é que nem hoje a gente perguntou: “ é então vocês mascam chiclete e depois o que faz com o chiclete?” Joga no chão. “ Ah vocês jogam no chão?” Então eles falaram “não, no lixo”, mas a primeira coisa foi no chão, então, eles... a gente tá lá, tentando passar assim os conceitos tentando fazer com que eles percebam, o que vai... os atos deles que vão prejudicá-los no futuro que vão prejudicar agora mesmo, mais isso a gente vai alcançar com mais tempo, conforme a gente conseguir assim que eles comecem a transformar essas coisas em hábitos, que por enquanto eles talvez dentro da sala eles achem, eles aprendam “ah legal isso”, tudo, mais eles não vão passar aquilo pra vida deles fora da escola tão rápido, e aí eles acabam cometendo uma coisa dessa ou outra assim, de jogar lixo no chão, tal.(SV12)
Neste sentido durante uma reunião em que o grupo discutia o cronograma das atividades a serem realizadas com as crianças, SV9 retomou a discussão anterior descrita acima dizendo que as crianças deveriam “montar um projeto em que elas buscassem solução para um problema real”. Completa dizendo que “tudo o que foi feito [no ano anterior] é essencial, esclarece bastante, eles [os alunos] vêem de uma forma diferente”, mas que as atividades poderiam começar de uma forma abrangente no começo com os conceitos teóricos e fechar depois com a prática , com atividades como montagem de composteira e economia de água, trabalhando com contas de água, “coisas que fazem parte do dia-a-dia”. Sugeriu ainda a idéia de se plantar um canteiro.
A peça de teatro “O Conto do Mato Velho” (Anexo C) escrita pelos integrantes do grupo para dar início as discussões da construção da maquete, também colabora no sentido de demonstrar como as ações humanas modificam de forma prejudicial o ambiente nativo:
Figurante: Ei! Acabaram os peixes do rio!
Figurante: E as árvores? De onde vamos tirar lenha agora? Figurante: A culpa é do Estevão, que cortou todas as árvores!
Estevão: Cortei as árvores porque não tinham mais frutos. A culpa é da Jani.
A peça conta a história de Jani uma garota que se muda de sua casa na cidade de Mato Velho para uma casa próxima ao rio onde a natureza não humana ainda está preservada. Com o passar do tempo a margem do rio vai sendo ocupada por outros moradores da cidade, que iniciam um processo de exploração do patrimônio natural ali existente. Com isso a peça reforça a idéia de interferência no ambiente nativo pela causa e efeito das ações individuais.
Neste mesmo sentido SV7 indica algumas ações que poderiam “ajudar a melhorar” situações como estas:
Eu acho que muitas delas não tem uma noção assim, pela escola, pelos pais, não tem uma noção, de coisas simples que eles podiam fazer pra melhorar ajudar, sei lá, trocar lixo reciclável, fechar a torneira, essas coisas básicas assim, que acho que as vezes eles não tem noção mesmo, não se preocupam então com isso eles vão prestar mais atenção nos atos deles.(SV7)
Alguns membros do grupo consideram superficial pensar na EA como uma forma de minimizar o problema do lixo ou pensar em reciclagem. SV8 faz a associação desta forma de pensar a EA com os programas dos governos.
Eu via EA como algo talvez não muito efetivo, porque tendo em vista o que é aplicado, sabe, pelos governos, eu não acho que seja tão efetivo o que é aplicado, ainda que seja muito importante, já é alguma coisa, já. Então eu tinha esse conceito de ensinar só as pessoas a não jogar lixo nas ruas, uma coisa que... é importante é claro, uma questão de educação, mas ainda assim raso. (SV8)
SV11 fala de uma forma mais ampla de pensar a EA e fala de ser uma coisa “mais de postura”, mas não deixa claro o que isso quer dizer, indicando que a EA deve ser mais que ações como reciclar o lixo:
Pra mim o que seria assim um objetivo alcançável assim é... despertar alguma coisa nas crianças alguma coisa que não seja só elas relacionarem EA que elas tem por outros projetos talvez, a não jogar óleo na pia ou reciclar o lixo, essas coisas práticas que a EA acaba sendo reduzida, depois que você tem um bocadinho assim de contato você vê que é um coisa muito mais ampla, que é uma coisa muito mais de postura assim, se a gente conseguir despertar isso nelas, já vai ter alcançado o objetivo assim. (SV11)
O grupo desenvolveu com as crianças uma atividade denominada “interpretando o meio ambiente”, que tinha o intuito de mostrar para elas a existência de ambientes menores, ambientes dentro de ambientes e que esses ambientes menores são compostos por vários elementos. As crianças em grupos deveriam em forma de mímica representar esses elementos para que o restante da classe descobrisse qual era o ambiente. As crianças apresentaram esta atividade na escola e escolheram os elementos que queriam representar. Sobre a escolha feita pelas crianças para a apresentação na escola SV6 comentou: “As crianças não reduziram ao que todos pensam”. Segundo SV6 as crianças “pensaram na questão do consumo” quando escolheram representar o MA da blusa.
Por esta fala de SV6 e a fala de SV11 quando mostra a necessidade de pensar de forma mais ampla a EA, embora percebam que é reducionista falar apenas de lixo e reciclagem, ainda relegam ao indivíduo e às mudanças individuais a resolução dos problemas ambientais. SV6 considera importante pensar no consumo, mas não fala de produção, e não faz a ponte entre o papel da relação indivíduo-sociedade para a superação dos conflitos ambientais.
Neste mesmo sentido as falas de SV5 e SV12 reforçam a idéia das posturas individuais:
... o que eu me lembro que a gente procura tentar fazer uma conscientização ambiental nas crianças, procura e... fazer com que elas valorizem mais as atitudes individuais, às vezes a gente pensa que o problema a nível individual não pode ser resolvido e a gente olha muito problema na TV, é catástrofe, são coisas grandes distantes da gente, e aí eu acho que o grande problema hoje é isso, as pessoas acharem que elas não podem fazer nada, se conformam com a situação, que não dá pra fazer nada, e aí procurar sensibilizar isso nas crianças, né essa percepção de que elas podem fazer alguma coisa e fazer a diferença assim.. é isso. (SV5)
Acho... é iniciar um pensamento diferente nas pessoas, nada melhor que nas crianças, quando se é criança se você aprende uma coisa, e
aquilo fica fixo, você aprende que aquilo é bom, vai ficar na tua cabeça e você vai agir de acordo com aquilo. Então seria aplicar essa educação e mudar pelo menos o pensamento das crianças, vê o que elas tão aprendendo em casa, o que tá sendo passado na escola, e dá uma mudada nisso assim, e elas já crescem cidadãos melhores, mais conscientizados assim, porque falam que daqui algumas gerações já não vão ter terra habitável, é pro bem delas mesmo. (SV12)
Carvalho (2004, p. 20) levanta alguns aspectos interessantes para esta discussão. Ela chama a atenção para a dimensão individualista do “quando cada um fizer a sua parte” e recusa a crença de que a mudança social pode vir da soma das mudanças individuais. Ao mesmo tempo ela discute a despersonalização do movimento de mudança da sociedade em que a sociedade muda para dar condições para mudança das pessoas. Mas quem/o quê é a sociedade que deve mudar? Assim Carvalho indica que o pensamento deve partir da relação indivíduo-sociedade num movimento de responsabilização consigo e com o mundo onde sejam superadas a dicotomia e a hierarquização das mudanças.
Ao mesmo tempo em que incentivar um posicionamento individual é importante para que os indivíduos se enxerguem fazendo parte do mundo de relações em que vivem, saindo assim de um estado de conformismo, há o perigo de se responsabilizar o indivíduo pelos problemas ambientais o que poderá individualizar os problemas, passando a uma visão reducionista destes, uma vez que se entende que jogar o lixo no lixo ou não desperdiçar energia elétrica, são suficientes para resolver os problemas ambientais.
Analisando algumas falas dos membros do grupo em que aparecem as palavras “consciência”, “conscientizar” e “conscientização” percebo que o significado dado a estas palavras também é mudança de atitudes. SV1 fala de “intervir nas pessoas”:
Na verdade foi mais pra conhecer mesmo que eu entrei, e por acreditar também , né, em Educação Ambiental, e tal, e por eu ver o Semente como uma forma de tentar intervir nas pessoas né, despertar consciência. (SV1)
SV7 fala em fazer as pessoas entenderem que o uso tem conseqüências e que as pessoas podem minimizar “porque são coisas pequenas”:
EA é conscientização. [Conscientização] É elas perceberem que tem algo pra ser cuidado que não é de graça assim, as coisas que a gente utiliza não é uma coisa, é gratuita mais tem conseqüências, acho que dá pra tentar minimizar um pouco as conseqüências, porque é coisas pequenas... Acho que EA faz, elas aprenderem isso, desde cedo, porque ela absorve mais as coisas. (SV7)
SV10 fala de “começar a refletir em coisas que elas fazem”.
Tentar fazer as crianças se conscientizarem, começarem a refletir com as coisas que elas fazem, com o meio. De fazerem elas refletirem mesmo, não simplesmente obrigar, ah, você não pode jogar lixo no chão. Construir toda uma coisa antes dela pensar nisso. (SV10)
SV12 fala em “cada um fazer um pouquinho”.
Mais por isso,foi só pelo fato assim... EA conscientizar as pessoas, o maior número de pessoas que a gente puder, da situação, que cada um pode fazer um pouquinho, isso vai contribuir pro geral assim. (SV12)
Assim para estas pessoas o significado que dão à conscientizar se refere às ações individuais, ao saber que cada um pode “fazer um pouquinho”. Isso se reflete nas atividades que propõe porque se preocupam em mostrar as causas e os efeitos das ações individuais como já explicitado anteriormente.
Para Loureiro (2004a, p.76) a EA não deve ser vista como “mecanismo de adequação comportamental ao que se chamou de “ecologicamente correto””, pois dessa forma
focaliza o ato educativo enquanto mudança de comportamentos compatíveis a um determinado padrão idealizado de relações corretas com a natureza, reproduzindo o dualismo natureza cultura, com uma tendência a ordem social estabelecida como condição dada, sem críticas às suas origens históricas. (LOUREIRO, 2004a, p. 80)
A categoria ”mudar atitudes” aparece sob várias perspectivas dentro do grupo, algumas até que se contradizem, no entanto, de forma geral todos atribuem grande importância às ações individuais com pouca ênfase em posicionamentos coletivos.