v. Linear Horizontal and Rocking Springs
8.3 Effect of Soil Springs for Two Story Building
A linguagem da narrativa de Of mice and men, em terceira pessoa, realiza-se na norma-padrão, e, portanto, é formal, polida e se consubstancia em certas impressões que podem ser causadas ao leitor, por exemplo, quando a paisagem natural é descrita, ou seja, a visualização imaginativa de um cenário de beleza e tranqüilidade, como ocorre no trecho a seguir, extraído do primeiro capítulo:
A few miles south of Soledad, the Salinas River drops in close to the hill-side bank and runs deep and green. The water is warm too, for it has slipped twinkling over the yellow sands in the sunlight before reaching the narrow pool. On one side of the river the golden foot-hill slopes curve up to the strong and rocky Gabilan mountains,
but on the valley side the water is lined with trees willows fresh and green with
every debris of the winter s flooding; and sycamores with mottled, white, recumbent limbs and branches that arch over the pool. (STEINBECK, s.d.: 1)
118 So I am left, as the cliché goes, to be both judge and jury. Here my ambivalent and ambiguous nature makes
a decision difficult, approaching the impossible, just as translation, in reverse, can only approach the possible and never get there. Tradução para o português por Paula Góes. Disponível em:
http://talqualmente.wordpress.com/2008/03/15/para-entrar-no-clima-uma-citacao-de-gregory-rabassa/. Acesso
154
ALGUMAS milhas ao sul de Soledad, o rio Salinas desce bem junto flanco da colina e corre profundo e verde. A água é também morna, porque antes de chegar ao estreito poço ela desliza cintilando ao sol por sôbre as areias amarelas. De um lado do rio as douradas encostas da colina sobem numa curva até as montanhas Gabilan, fortes e rochosas, mas do lado do vale a água está orlada de árvores: salgueiros frescos e verdes a cada primavera, e cujas fôlhas inferiores retêm nas suas intersecções o cisco das enchentes de inverno; sicômoros de fôlhas e galhos dum branco mosqueado que se alongam e arqueiam sobre a água parada. (VERÍSSIMO, 1940: 6)
A poucos quilômetros ao sul de Soledad, o rio Salinas desce bem junto ao flanco da colina e corre profundo e verde. Sua água é morna, pois desliza cintilando ao sol por sobre areias amarelas antes de alcançar o estreito lago natural. De um lado do rio, os flancos dourados da colina sobem sinuosos até as montanhas Gabilan, fortes e
rochosas, mas do lado do vale a água acha-se orlada de árvores salgueiros frescos
e verdes a cada primavera, mostrando nas junções das folhas interiores fragmentos rochosos das enchentes de inverno; sicômoros com troncos e ramos brancos, pintalgados, debruçam-se também sobre a água imóvel. (CAMPELLO, 1991: 5) ALGUNS QUILÔMETROS ao sul de Soledad, o rio Salinas aproxima-se do sopé das colinas e fica bem profundo e verde. A água também é quente, por deslizar, reluzente, sobre as areias amarelas banhadas pelo sol antes de chegar à lagoa estreita. De um lado do rio, as encostas das colinas sobem até as montanhas Gabilan, fortes e rochosas, mas, do lado do vale, a água se faz acompanhar por uma fileira de árvores chorões que se renovam verdejantes a cada primavera, segurando nos entroncamentos das folhas mais baixas os restos das enchentes de inverno; e plátanos com troncos e galhos cobertos de manchas, brancos e recurvados, que se arqueiam por sobre a lagoa. (BAN, 2005: 11)
Essa tendência da narrativa permeia toda a obra. A seguinte amostra retirada do início do segundo capítulo apresenta a descrição da casa dos peões:
THE bunk-house was a long, rectangular building. Inside, the walls were whitewashed and the floor unpainted. In three walls there were small, square windows, and in the fourth a solid door with a wooden latch. ( ). (STEINBECK, s.d.: 18)
A casa dos peões era um comprido edifício retangular. Por dentro as paredes estavam caiadas e o piso não tinha pintura. Em três dessas paredes havia pequenas janelas quadradas e na quarta uma sólida porta com trinco de madeira (...). (VERÍSSIMO, 1940: 36)
A casa dos peões era um edifício comprido e retangular, com paredes internas caiadas. Seu piso não fora pintado, e três das paredes exibiam pequenas janelas quadradas; na quarta parede havia uma porta sólida com trinco de madeira (...). (CAMPELLO, 1991: 19)
A CASA DOS PEÕES era uma construção comprida e retangular, um tipo de
barracão. Lá dentro, as paredes eram caiadas e o chão não tinha pintura. Em três paredes havia janelas quadradas pequenas e, na quarta, uma porta bem sólida com uma tranca de madeira (...). (BAN, 2005: 31)
Na primeira sentença, em destaque, pode-se perceber que há variações em cada tradução, na estrutura das sentenças, na sua extensão e nas escolhas lexicais: enquanto
155
Veríssimo elabora uma tradução que segue a mesma estrutura sintática do texto de partida, percebe-se que Campello constrói uma sentença maior, intercalando parte da próxima sentença do texto em inglês ( com paredes internas caiadas ). A tradução de Ban possui uma expressão explicativa ( um tipo de barracão ), ausente no texto de partida. Algumas diferenças são observadas na tradução de a long, rectangular building : um comprido edifício retangular (Veríssimo)/um edifício comprido e retangular (Campello)/uma construção comprida e retangular (Ban). Assim, enquanto Veríssimo e Campello preferem a palavra edifício, Ban usa construção. Veríssimo antecipa a posição do adjetivo (comprido) em relação ao substantivo (edifício) em comprido edifícioretangular . Tanto Campello como Ban, nesse caso, colocam o adjetivo depois do substantivo. Percebe-se que a antecipação do adjetivo intensifica o seu valor e, portanto, há ligeira mudança de significado na expressão escolhida por Veríssimo em relação às escolhas dessas duas tradutoras.
O capítulo três também principia com uma descrição do cenário onde a ação será desenvolvida:
ALTHOUGH there was evening brightness showing through the windows of the
bunk-house, inside it was dusk. Through the open door came the thuds and occasional clangs of a horseshoe game, and now and then the sound of voices raised in approval or derision. (STEINBECK, s.d.: 40).
EMBORA ainda se visse o resplendor do entardecernas janelas do dormitório dos
peões, lá dentro havia lusco-fusco. Através da porta aberta vinham batidas abafadas, tinidos espaçados de um jôgo de ferraduras e de vez em quando o som de vozes que se erguiam para aplaudir ou mofar. (VERÍSSIMO, 1940: 76)
Embora o brilho do crepúsculoainda se mostrasse pelas janelas do alojamento dos
peões, a obscuridade se instalara do lado de dentro. Através da porta aberta chegavam as batidas abafadas e os tinidos de um jogo de ferradura. De vez em quando, vozes se erguiam para aplaudir ou zombar. (CAMPELLO, 1991: 37)
APESAR DE A CLARIDADE do anoitecer penetrar pelas janelas da casa dos
peões, lá dentro estava escuro. Pela porta aberta vinham os ruídos abafados e os tinidos de um jogo de ferradura, e, de vez em quando, o som das vozes que se erguiam em sinal de aprovação ou de lamento. (BAN, 2005: 58)
Em evening brightness (Steinbeck)/o resplendor do entardecer (Veríssimo)/o brilho do crepúsculo (Campello)/A CLARIDADE do anoitecer (Ban), as palavras resplendor (Veríssimo) e brilho (Campello) têm significado mais próximos entre si e entre brightness (Steinbeck), enquanto que claridade (Ban) perde um pouco da intensidade expressiva. Há diferenças entre evening (Steinbeck)/entardecer (Veríssimo)/crepúsculo (Campello)/anoitecer (Ban) devido à sutileza da palavra evening, que não pode ser expressa em português por uma
156
só palavra sem que haja imprecisão de significado. Na verdade, essa palavra inglesa refere-se ao período do dia compreendido entre o final da tarde e o início da noite. Quanto à tradução de the bunk-house, em outros trechos traduzidos pelos três tradutores como a casa dos peões, verificam-se mudanças de escolha por parte de Veríssimo (o dormitório dos peões) e Campello (o alojamento dos peões). Ban demonstra regularidade, pois mantém a mesma escolha que fez anteriormente (a casa dos peões). A observação mais marcante se faz em relação a in approval or derision (Steinbeck)/para aplaudir ou mofar (Veríssimo)/para aplaudir ou zombar/em sinal de aprovação ou de lamento (Ban), em que as opções de Veríssimo e Campello são bem próximos em significado, e Ban, por sua vez, apresenta um vocábulo de significação bem diferente (lamento) em relação ao texto de partida (derision) e às escolhas de Veríssimo (mofar) e Campello (zombar).
No capítulo 4, surge o negro Crooks em suas acomodações, junto do celeiro que também servia de estábulo:
Crooks, the negro stable buck, had his bunk in the harness room; a little shed that leaned off the wall of the barn. ( ). (STEINBECK, s.d.: 70)
CROOKS, o peão negro, tinha a sua tarimba no quarto dos arreios; um pequeno puxado junto da parede do celeiro que também fazia as vezes de estábulo. (...). (VERÍSSIMO, 1940: 129)
O catre de Crooks, o peão negro, ficava no quarto dos arreios; um pequeno depósito junto à parede do celeiro. (...). (CAMPELLO, 1991: 63)
O CATRE DE CROOKS, o estribeiro negro, ficava no quarto dos arreios, um puxadinho que saía da parede do celeiro (...). (BAN, 2005: 93)
Nesse trecho, a primeira diferença lexical notada é referente à palavra inglesa bunk, traduzida por Veríssimo como tarimba, enquanto que Campello e Ban usam a palavra catre. Outra diferença diz respeito à expressão the negro stable buck, traduzida por Veríssimo e Campello como o peão negro, e por Ban como o estribeiro negro. Também há diferenças relativas a a little shed: um pequeno puxado (Veríssimo)/um pequeno depósito (Campello)/um puxadinho (Ban). É importante perceber que, em relação ao vocábulo barn, Veríssimo sente necessidade de dizer algo mais sobre o seu significado: além da escolha pela palavra celeiro, esse tradutor acrescenta uma expressão explicativa, isto é, que também fazia as vezes de estábulo. As tradutoras Campello e Ban apenas traduzem barn como celeiro.
As primeiras linhas do capítulo 5 seguem a mesma tendência de descrever o ambiente onde a ação vai se realizar:
157
ONE end of the great barnwas piled high with new hayand over the pile hung the
four-taloned Jackson fork suspended from its pulley. The hay came down like a mountain slope to the other end of the barn, and there was a level place as yet unfilled with the new crop. At the sides the feeding rackswere visible, and between the slats the heads of horses could be seen ( ). (STEINBECK, s.d.: 89)
NUMA das extremidades do grande celeiro, que em parte era também estábulo, via- se alta pilha de feno novo. Por cima dela pendia a forquilha mecânica de quatro pontas, suspensa de sua roldana. O feno caía como a encosta duma montanha para a outra extremidade do celeiro, e havia um lugar no nivel do chão ainda não ocupado
pela nova colheita. Dos lados ficavam as mangedourase entre as barras de cada um
distinguiam-se as cabeças dos cavalos. (VERÍSSIMO, 1940: 164)
Numa das extremidades do grande estábulojazia um alto monte de feno; pendurada
sobre ele, suspensa de uma roldana, via-se a forquilha mecânica de quatro pontas. O feno descia como uma encosta de montanha até o outro extremo do estábulo, havendo um local no chão que ainda não fora preenchido com a nova colheita. Nas partes laterais ficavam as manjedouras, podendo-se ver por entre suas barras as lustrosas cabeças dos cavalos. (CAMPELLO, 1991: 79)
EM UMA DAS EXTREMIDADES do grande celeirohavia uma pilha alta de feno
novo e sobre a pilha estava pendurado pelo cabo o grande garfo de quatro dentes para recolher feno. O monte caía como a encosta de uma montanha do outro lado do celeiro, onde havia um local nivelado que ainda não tinha recebido a nova colheita.
Ao lado, viam-se as manjedourase, entre as tábuas, as cabeças dos cavalos. (BAN,
2005: 116)
Nesse fragmento, novamente, a palavra barn, de acordo com o contexto da história, é um celeiro, mas que também serve, em parte, como estábulo. Assim, Veríssimo preocupa-se em dar essa explicação (grande celeiro, que em parte era também estábulo), ausente no texto de partida. Assim, as duas tradutoras divergem entre si quanto ao vocábulo empregado: estábulo (Campello) e celeiro (Ban).
O sexto e último capítulo retoma o cenário bucólico do início da obra, em que a natureza da região da Califórnia, onde a história se passa, é mostrada em seus aspectos mais belos:
The deep green pool of the Salinas River was still in the late afternoon. Already the sun had left the valley to go climbing up the slopes of the Gabilan mountains, and the hilltops were rosy in the sun. But by the pool among the mottled sycamores, a pleasant shade had fallen. (STEINBECK, s.d.: 105)
A funda bacia verde do Rio Salinas estava muito parada naquele fim de tarde. O sol já havia deixado o vale para ir trepando pelas encostas das montanhas de Gabilan, e os cumes dos outeiros estavam tocados duma luz rosada. Junto do poço, porém, entre os sicômoros mosqueados, havia caído uma sombra agradável. (VERÍSSIMO, 1940: 195)
158
O profundo lago verde do rio Salinas estava imóvel naquele fim de tarde. O sol já abandonara o vale para escalar as encostas das montanhas Gabilan, com seus cumes agora rosados pela luz. Junto ao lago, entretanto, e por entre os sicômoros pintalgados, descera uma agradável sombra. (CAMPELLO, 1991: 93)
A LAGOA PROFUNDAMENTE verde do rio Salinas estava imóvel naquele fim de tarde. O sol já tinha deixado o vale para escalar as encostas das montanhas Gabilan, e o topo das colinas estava rosado. Mas, ao lado da lagoa, entre os plátanos sarapintados, uma sobra agradável tinha caído. (BAN, 2005: 135)
A partir desses trechos traduzidos, percebe-se uma diferenciação lingüística não só no que diz respeito às escolhas feitas por cada tradutor, mas também no que diz respeito à ortografia oficial da língua portuguesa, diferente para cada época. Isto se deve às reformas ortográficas que ocorreram no Brasil. Dentre elas, as de 1942 e 1971 compreendem o período das traduções de Of mice and men utilizadas aqui como material de estudo: as traduções de 1940, de Érico Veríssimo (revista e reeditada outras vezes, em conformidade com a reforma ortográfica de 1942, por exemplo, numa publicação de 1968 da Editorial Bruguera), de 1991, de Myriam Campello, e de 2005, de Ana Ban. Estas duas traduções mais recentes apresentam a ortografia oficial de 1971, ressalvadas as questões relacionadas com o dialeto dos personagens. A tradução de Veríssimo de 1940 é a que contém mais diferenças ortográficas em relação à norma-padrão de 1971119. Além disso, é claro, normalmente se percebem mudanças que ocorrem de modo natural nas escolhas lexicais, em virtude da passagem do tempo e das idiossincrasias de cada tradutor.
Assim, por exemplo, podem ser notadas diferenças entre as traduções, como no fragmento abaixo, extraído do capítulo 1, em que a diferença mais notável é em relação à ortografia: enquanto Campello e Ban grafam a preposição sobre conforme a norma-padrão atual, Veríssimo usa essa palavra com um acento circunflexo (sôbre), conforme a norma- padrão de seu tempo:
over the yellow sands (STEINBECK, s.d.: 1) por sôbre as areias amarelas (VERÍSSIMO, 1940: 6) por sobre areias amarelas (CAMPELLO, 1991:5) sobre as areias amarelas (BAN, 2005: 11).
119 É imprescindível lembrar que anda em curso uma última reforma ortográfica da língua portuguesa, graças a
um acordo internacional entre os países lusofônicos, em vigor a partir de janeiro de 2009. Seus efeitos, entretanto, serão mais perceptíveis no decurso de um prazo mais longo no tempo, o que não se pode determinar com precisão. Por isso, para as escritas e análises desta dissertação, será tomada como referência principal a reforma anterior, ou seja, a que foi publicada conforme a Lei nº 5765, de 18 de dezembro de 1971 e que ainda hoje vigora (2009).
159
Espécies de árvores, citadas no capítulo 1, por exemplo, como willows e sycamores (STEINBECK, s.d.: 1) têm nomes diferentes: enquanto Veríssimo e Campello traduzem willows por salgueiros, Ban prefere chorões. Quanto a sycamores, a opção de Veríssimo e de Campello é por sicômoros; e a de Ban é por plátanos.
Outra diferença de ortografia aparece no capítulo 5, na tradução de feeding racks (STEINBECK, s.d.: 89), que Veríssimo traduz por mangedoura, escrita com g , enquanto Campello e Ban, escrevem essa palavra com j (manjedoura), conforme a ortografia oficial vigente.